quinta-feira, 22 de outubro de 2009

  • A NOVA CULTURA E O PRÉMIO LITERÁRIO PEDRO CARDOSO

A produção da cultura cabo-verdiana encontra-se espartilhada, infelizmente, na música e nalgumas manifestações de arte folclórica ou de artesanato para estrangeiro ver e comprar — e os artistas verdadeiros, por não servem como “verdadeiros artistas”, ficam na sombra. Mas, mais do que isso, algumas manifestações culturais imanentes não crescem para além do marketing do tradicional sabe k’cagá, da visibilidade dos media ou de lobbyes instalados que, no plano da literatura, por exemplo, só conseguem ver algumas figuras da escola claridosa (alimentando um saudosismo clássico que os remete à meras relíquias do passado), e do movimento Pro Cultura e autores da sua esfera de influência que, aos poucos, constroem um admirável mundo novo que sonham, há muito, substituir o movimento da Claridade. E o ALUPEC é um dos instrumentos principais para se alcançar tal objectivo.

O que, em verdade, tem cristalizado novas formas de ver e de entender a diversidade da alma literária cabo-verdiana que, ao contrário do se quer fazer crer, está para além dos claridosos e pós claridosos e do movimento Pro Cultura e seus filhos — como uma espécie de ruptura com o passado, tendo pelo meio Germano Almeida como referência de um romancear novo e um alvo a abater — pois o mundo e a realidade cultural cabo-verdiana é, hoje por hoje, não a de «um meio pequeno» mas a de um mundo global que muitos não querem ver e, em verdade, anseiam confinar a nação numas trevas esclarecidas ou iluminadas.

É uma tensão que existe muitas vezes não de literatura ou de cultura literária em si e por si, mas de origem geográfica ou meio social integrante do actor cultural — há muito e que a emergência de uma língua tecnicamente confinada a um grupo que a pariu e apadrinha há muito abre, com a sua «legalização», portas para a superação quantitativa dos claridosos e a consagração de um novo nativismo nacionalista e que se expressará na língua materna em forma do ALUPEC. O prémio literário Pedro Cardoso aparece nesse contexto, sem surpresas.

O Ministro da Cultura ouviu as críticas sobre as omissões do seu Ministério no ano passado, e criou uma bolsa ad hoc e com o nome de concurso literário. By the book, absolutamente. Eu até que, sem fazer de oráculo, consigo imaginar quem sugeriu o nome do patrono do prémio… Só faltou o Manuel Veiga, o Ministro da Cultura, ter concorrido e ganho o prémio com o livro que apresentou Dia Nacional da Cultura – certamente que financiado pelo fundo de promoção do ALUPEC/Ak…

Espanta-me, confesso, o silêncio sobre estas matérias que estão patentes há muito e que, ao que parece, ninguém quer ver. Se houvesse um índice de liberdade intelectual e cultural em Cabo Verde talvez fosse possível tirar algumas ilações como as que se podem tirar sobre a liberdade de imprensa e política nesta questão da língua cabo-verdiana não é preciso ninguém vir do exterior para nos dizer o que está bem e o que está mal.

E ocorre-me, agora, uma pergunta: Com tantos cientistas em Cabo Verde, não é hora de começarem a mostrar a ciência que são capazes de produzir, começarem a dizer o que se passa no país? Coisas como, por exemplo, (i) qual é taxa de desemprego real no país, e porquê é que tal é vista como um «dado normal»; (ii) porque as artes não são promovidas como ciência; (iii) porque o circuito da cultura é, quase, sempre a mesma, dos mesmos e para os mesmos; (iv) porque proliferam as universidades privadas, que vão assumindo a função do Estado, numa sociedade onde o acesso ao ensino público deveria ser universal e gratuito; (v) porque os lugares das instituições ligadas ao Estado, directa ou indirectamente, estão sob direcção de dirigentes partidários do presente ou do passado... & etc.

Estamos perante um dado cultural, ou será que, também aqui, estamos perante as cadeias partidárias — a ciência ao serviço da política e não da sociedade? Pergunta retórica? Talvez, talvez…

Imagem: Mariah Carey

5 comentários:

Jonas disse...

Papei uma gaja muito parecida com essa na semana passada tinha era uma voz muita esganiçada nada que não se tenha resolvido com uma mordaça.
E tu? Ainda mexes?

Virgílio Brandão disse...

Peixe, a comer papa quente? Essa eu desconhecia, ó Jonas. Ou será que percebi outra coisa? Se for o caso, diz-me: a raptada já consegue falar ou morreu afogada?

Eu, vou sendo homem: humano, discretamente humano e o quanto baste.
:-)

Jonas disse...

rsrsrsrsrsrs
dá pra ver que tens tido muitas reclamações lol
Temos que ir ao mirage juntos para te dar uma técnicas no terreno

Virgílio Brandão disse...

LoL.
Olhe que não, olhe que não...
Ideias de peixe, frescas.
:-)

Ariane Morais-Abreu disse...

Estes asssuntos culturais dao para rir e/ou chorar.. pelo menos temos estas duas escolhas no deserto intelectual e cientifico caboverdiano!!