quarta-feira, 16 de Abril de 2008


  • ÁFRICA. A LÍNGUA PORTUGUESA NÃO TEM DONO

O Acordo ortográfico sobre a língua portuguesa é ou era para ser uma convenção entre todos os falantes da língua comum que é o português. Mas, ao que parece – e no caso o que parece é – não é nada disso.

Os países de língua oficial portuguesa – melhor dizendo os países lusografos (parece que esta deverá ser cada vez mais a expressão da realidade) – são (foram) de todo ignorados no processo de construção do acordo.

A todos os níveis se verifica essa desconsideração institucional, académica e social, como se os povos falantes de língua portuguesa que não Portugal e o Brazil não existissem. Mas existem, e não podem tolerar este tipo de tratamento de Senhor fidagal para como o seu servo.

Não existem senhores nem donos da língua; nem é preciso, em boa verdade, um acordo ortográfico como o que se tenta impor às comunidades falantes do português. Até porque, até me demonstrarem o contrário, a diversidade é um bem estimável.

É por essa razão – para não estarmos presos a um desejado e sub-reptício império da língua – que a língua cabo-verdiana deve ser implementada como língua de trabalho ao nível internacional. Se somos independentes, que o sejamos em tudo, caramba! Quem não tem coragem de fazer o que é preciso, que dê lugar a quem tenha. É, para os cabo-verdianos, uma questão bem mais importante do que aparentemente possa parecer.

Até se discute África sem a voz dos africanos, como aconteceu na semana passada em Lisboa em encontro subordinada à temática «Letras em Lisboa: Portugal, Brasil, Áfricao princípio da aliança» e que teve lugar nos dias 9 e 10 de Abril na Casa Fernando Pessoa e 11 a 13 de Abril no Teatro de S. Luiz.

Sintomático dessa realidade (para não dizer a sua prova provada), além de ignorar-se África – a não ser no uso instrumental do nome – foi o facto, de sofrível educação e civilidade, de somente terem feito parte dos painéis de discussão o Dr. Francisco Seixas da Costa (Embaixador de Portugal no Brasil) e o Dr. Celso Marcos (Embaixador do Brasil em Portugal).

Não estamos em 1885, nem somos – nós africanos em África e na diáspora – apêndices de nada nem de ninguém. Não se quer um pouco de respeito, não – quer-se o respeito tudo. Se fossem africanos a realizar o evento em causa a esta estariam a ser acusados de racistas, de sofrerem de síndrome de guetização, separatistas e quejandos; mas não foram. Então, o que devemos pensar, concluir e dizer? Procurar adjectivações? Para quê, digam-me? A realidade fala por si, e desta vez não se engana de todo.

O português está bem com sua diversidade – não que eu seja contra mudanças; Deus, não! – e se houver alguma coisa a mudar tal terá de ser feita com o assentimento e participação de todos; Estados e povos.

A língua não tem dono, cor ou continente. É só para lembrar-Vos, a Vós que pensais ter o senhorio da lusa palavra. É que, como diz bem o profeta (Amós III.3), “andarão dois juntos se não estiverem de acordo?” Há que regar os caminhos, sim. “O deserto cresce. Ai daquele que encobre desertos!” (Nietzsche, Assim Falava Zaratrustra); exorto atenção à esta realidade. Mas, como diz o filósofo, é “Coisa de que duvido, no entanto; porque venho da Europa, que é a mais incrédula de todas as esposas” (Nietzsche, idem).

Mas África não; Africa é terra de fé e de esperança. Não pode deixar de ter voz para gritar bem alto não somente a sua liberdade mas também a sua igualdade; não dada, mas por natureza de existência e de situação.

  • Foto: Dead Ulei, Deserto da Namibia

2 comentários:

Anónimo disse...

...please where can I buy a unicorn?

Virgílio Brandão disse...

Well, try Arabia Felix… the last one was seen around there.
… or be nice, and get a partner!
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(it’s a joke!)

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