domingo, 22 de fevereiro de 2009

  • A GUERRA NUCLEAR CABO-VERDIANA (1)

Deveria estar a trabalhar num texto, mas não. Apetece-me escrever alguma coisa, além da obrigação. Hay tantas otras cosas en el mundo... un instante cualquiera es más diverso y profundo que el mar – dizia Borges (Borges, 1964). Sim, tantas coisas no Mundo com que nos preocuparmos... mas, por vezes, elegemos mal as nossas preocupações ou descuramos outras – não por serem mais ou menos importantes, mas porque as elegemos movidos por razões necessárias ou que não descortinamos.

Assim, preocupamo-nos com o ambiente e a ecologia, mas não com o pão do desenvolvimento; com os peixes e os moluscos, mas não com quem alimentam; com a “justiça” criminal, mas não com a justiça social; com com a remuneração dos políticos e dos magistrados, mas não com o peso das suas responsabilidades nem com os salários de miséria dos cidadãos que constroem a terra com suor e mãos calejadas; com as consequências das leis, mas não com as razões e/ou causas da sua desadequação à realidade do país…

Sim, preocupamo-nos com o Ministério da Cultura, mas não com a cultura – em particular a nossa; com a igualdade, mas discriminamos jovens mulheres grávidas nas escolas, imigrantes de outras paragens (por serem mais negros do que nós… e/ou porque chegam como se fossem bárbaros para “roubar” o nosso pão), homossexuais e quem pensa “diferente” de nós, do nosso grupo, do nosso partido, do nosso “circulo social”…

Preocupamo-nos com a falta de luz da ELECTRA, mas não nos preocupamos com a falta de luz para os que não a têm ou para os nossos espíritos; com a cultura de representação buffa, mas não com a educação social e humana do servidor público e dos cidadãos; com a mudança nos Estados Unidos da América (até haja quem chore), mas não com a mudança real e efectiva de politicas e de modelo de sociedade na nossa terra…

Mas preocupamo-nos e reclamamos uma “mudança de mentalidade” da sociedade e dos outros, mas não da nossa mentalidade, de nossa inércia; com os erros e as omissões dos outros, mas não com as nossas falhas activas e omissivas; com a nossa memória esclavagista – esquecendo o nosso hediondo papel de braço direito do colono escravocrata – mas não com os explorados que se cruzam connosco todos os dias. Atentamos na forma como se negoceia ou não a resolução do problema do lixo que vai afogando o país, em particular a capital da não, mas não com o «como» resolver o problema. É a nossa sina, parece…

Sim, preocupamo-nos com tanta coisa e esquecemo-nos do horizonte e do sentido nuclear da luta de um Estado no estado e com as condições estruturais de Cabo Verde. Há que atentar no que é verdadeiramente importante e necessário. Agora, por exemplo, pergunto: Será que a Marina da Murdeira é fundamental para o desenvolvimento da ilha do Sal? Se sim, não pode ser em outro sítio que não na Murdeira? Existem alternativas? Foram consideradas ou não? Sim as alternativas, a existirem, foram consideradas e não são viáveis e o projecto é fundamental para a ilha, porque é que não se deve concretizar? É uma simples ponderação entre os interesses em causa.

Os males de Cabo Verde são estruturais e a acção governativa deve ser pautada por objectivos estruturais, desde a assunção de um desenvolvimento económico e social justos, a um sistema de administração da Justiça funcional, passando pela sustentabilidade ambiental e ecológica e por um sistema formativo – a todos os níveis – autónomo, sustentável e de qualidade. Seja qual for a força política que governe o país, não podemos nem devemos nos preocupar com a sua cor (também tenho a minha opção política, ideologicamente sustentada – assim como gosto Benfica, emocionalmente sustentado –, mas é minha e ninguém tem nada com isso ou de saber qual é ou não é), mas sim com a competência ou não de quem age. Assim como não nos devemos preocupar com a idade avançada do Magistrado x ou y – pois isso é um absurdo, uma forma de discriminação – mas sim se o mesmo é competente e/ou se se respeita ou não a legalidade constituída.

Todos nós, cabo-verdianos, achamos que a nossa terra é a última coca-cola do deserto; mas não é, objectivamente, assim. Como dizia Steinbeck, «Podemos gabar seja o que for, se nada mais tivermos. Quanto menos se tem, maior é a vontade de o gabar.» (John Steinbeck, A Leste do Paraíso, I). Deixemo-nos de bazofiarias, vamos ao trabalho: há um país sonhado por construir! Pode haver tantas outras coisas no Mundo mas o único mundo que importa é o nosso, onde começam todas as caminhadas – as belas e as dolorosas. Deixemo-nos da guerra civil de palavras tontas, de contra verdade e sabedoria, arvoremos a arma do verbo construir, a dialéctica do mais e do melhor. A nossa guerra não é contra o outro político; a nossa guerra é contra o nosso real subdesenvolvimento; aquele que teimámos em não ver.

Quem não entender isso, o melhor que faz é arrumar as malas e ir para casa, ou para onde quiser. Há tantas coisas no Mundo… inclusive outro lugar para brigar contra moinhos de vento; o nosso El dorado de alma só precisa de soldados para a guerra nuclear: garantir o pão de cada dia, para a estômago e para a alma.
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  • Imagem (google earth): Mindelo

2 comentários:

Ariane Morais-Abreu disse...

Je partage pleinement ton éthique de réflexion!

O projecto Murdeira é uma arvore escandalosa que esconde uma floresta mais escandalosa ainda: a venda inconstitucional da terra cabo-verdiana!! Quem se preocupa com este problema crucial?!!

Jessica disse...

Concordo plenamente VB.
Preocupamos muito com os Direitos Humanos dos agressores que esquecemo-nos dos agredidos e agredidas. Sintomas puros de subdesenvolvimento humano e social.
VB viste a notícia da agressão física do companheiro à jornalista Margarida Moreira?
Como ela diz a dor é da alma!

:(