segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

  • A PESSOA PRIMEIRO, A NOTICIA DEPOIS
Nos últimos dias os media e alguns blogs falaram sobre o duplo homicídio e um crime sexual de que foram vítimas duas jovens cabo-verdianas e um idoso nos Estados Unidos. Normal falar-se disso – são coisas que chocam a estrutura humana de qualquer pessoa que se sente como tal e a acicata a curiosidade mórbida do todo social que é tão ostensiva e escandalosamente explorada.

Assim – em vez de se se limitar à notícia ou a partilha da informação –, foi-se mais longe: falou-se no nome da jovem seviciada, colocou-se a sua fotografia para toda a gente ver quem era a pessoa que tinha sido vítima – sujeitando-a a um acrescer de indignidade. Não sou um moralista, nem um falso moralista – esta tem uma dimensão de bem que não se coaduna com «virtudes púbicas e pecados privados». O que digo é que informar – como é o papel clássico dos media – e compartilhar informação, afectos e perspectivas da existência (como é o caso dos blogs) não liga com essa forma de trazer às pessoas o que se passa no Mundo ou, no caso concreto, na diáspora cabo-verdiana.

A vítima, falando da que foi sexualmente vitimada, é, assim, duplamente vítima. A sua exposição ao nível global não trouxe nenhum bem ou valor à informação veiculada – só lhe trouxe indignidade. Há que aprender e interiorizar que primeiro está a pessoa, depois a notícia e a informação – a relevância da foto da jovem vitimada era/é zero para o sentido e utilidade da informação.

É preciso humanizar os media – a blogosfera, porque deve(ria) ser uma espécie de consciência critica global, pode ajudar a que isso aconteça, pois tal é o dever de todos, em particular de nós, os que nos atrevemos a editar uns escritos e expor a nossa forma de ver o Mundo, as coisas que o compõem e, acima de tudo, a humanidade em si e como objecto de compreensão. A pessoa primeiro, sempre; pois corremos o risco de, um dia destes, termos de fazer uma campanha planetária para salvar a humanidade moral que começa, a passos largos, a desaparecer.
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  • Imagem: The Heart of the Rose - Edward Coley Burne-Jones

4 comentários:

Jessica disse...

Julgo que há muito deviamos ter desencadeado a campanha planetária para salvar-nos e a humanidade moral, que há muito deu sinais de decadência, de deterioração e falência.

Que tal retrocedermos na história e resgartarmos os movimentos de defesa do bicho Homem, em toda a sua plenitude, natureza,condição, e valores universais?

Quimeras ou utopias no mundo de hoje, VB?

A desumanização do homem e tb dos media não é uma outra consequência dramática desta crise mundial?

Prefiro continuar a ser uma sonhadora e viver o meu mundo!

Dixam bai di nha manera!

:~)

Virgílio Brandão disse...

Jessica… acho que não precisamos de retroceder, não. Precisamos, sim, de viajar para dentro e perscrutar o nosso sentido de humanidade e segui-lo.

Quimera, utopia… Oh, Jessica! Isso não é da ordem do impossível, não Senhora: é, tão somente, um conjunto de circunstâncias que, sendo removidas, podem tornar o impossível possível num outro momento.

É uma questão de darmos um pontapé no «in» - construindo as circunstâncias e o tempo do possível. A História assim nos ensina – mas insistimos em não (querer) aprender!

A “nossa maneira” não é maneira (passe o pleonasmo) de fazer as coisas – pois é acção reflexa, efeito de uma má causa. E, Jessica... pode uma má árvore dar um bom fruto? :-)

Jessica disse...

VB, "di nha manera" é para mim, mais uma acção consciente fruto da minha percepção do mundo e das coisas, onde entra, entre outros, a ética, bondade, amizade, partilha, e uma pitadnha de tristeza qb. É uma atitude moldada na sabedoria empírica da vida. ;)

Qual a má árvore que pariu os mass media de hoje, VB?

Inté

Virgilio Brandão disse...

Olha, a ganância que emerge dos «shares» e que é alimentada pelo sentido mórbido da sociedade em geral - é uma dessas árvores.

Na verdade, Jessica, só nos podemos queixar dos nossos próprios pecados - já dizia o profeta Jeremias há cerca de 2700 anos... :-)