domingo, 15 de junho de 2008

Am I alone? No, I am not alone, not I.
Within my humble darksome cell
heroes, men, gods,
like lightclouds stir before me.
They look like dreams, like rosy dawn’s
black phantoms; and from a nook
something similar to an angel watches me
and keeps on watching me. Am I alone?
No, I am not alone, not I.
Kostis Palamas, Poem 62, «A Hundred Voices» in The Inert Life, 1904 (Complete Works, vol. III, p.163).

  • Foto: Kostis Palamas na sua casa, a que chamava de a sua cela.

  • ATÉ QUANDO? Sim, até quando teremos de ver imagens destas? Até quando as crianças, as mulheres e os mais pobres do Mundo terão de suportar tanto sofrimento? Não estamos perante uma fatalidade, não. É possível acabar com isto!




Indian dancer, Nikos Hadjikyriakos Ghikas


  • «The movement which is the existence of the universe is the movement of love», Ibn 'Arabi

  • WAITING FOR THE BARBARIANS
What are we waiting for, assembled in the forum?

The barbarians are to arrive today.

Why such inaction in the Senate?
Why do the Senators sit and pass no laws?

Because the barbarians are to arrive today.
What laws can the Senators pass any more?
When the barbarians come they will make the laws.

Why did our emperor wake up so early,
and sits at the greatest gate of the city,
on the throne, solemn, wearing the crown?

Because the barbarians are to arrive today.
And the emperor waits to receive
their chief. Indeed he has prepared
to give him a scroll. Therein he inscribed
many titles and names of honor.

Why have our two consuls and the praetors come out
today in their red, embroidered togas;
why do they wear amethyst-studded bracelets,
and rings with brilliant, glittering emeralds;
why are they carrying costly canes today,
wonderfully carved with silver and gold?

Because the barbarians are to arrive today,
and such things dazzle the barbarians.

Why don't the worthy orators come as always
to make their speeches, to have their say?

Because the barbarians are to arrive today;
and they get bored with eloquence and orations.

Why all of a sudden this unrest
and confusion. (How solemn the faces have become).
Why are the streets and squares clearing quickly,
and all return to their homes, so deep in thought?

Because night is here but the barbarians have not come.
And some people arrived from the borders,
and said that there are no longer any barbarians.

And now what shall become of us without any barbarians?
Those people were some kind of solution.

Constantinos Cavafys (1904)

  • ESPERANDO PELOS BARBÁROS
Mas que esperamos nós aqui n'Ágora reunidos?

É que os bárbaros hoje vão chegar!

Mas porque reina no Senado tanta apatia?
Porque deixaram de fazer leis os nossos senadores?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
Que leis hão­‑de fazer os senadores?
Os bárbaros que vêm, que as façam eles.

Mas porque tão cedo se ergueu hoje o nosso imperador,
E se sentou na magna porta da cidade à espera,
Oficial, no trono, co'a coroa na cabeça?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
O nosso imperador espera receber
O chefe. E certamente preparou
Um pergaminho para lhe dar, onde
Inscreveu vários títulos e nomes.

Porque é que os nossos dois bons cônsules e os dois pretores
trouxeram hoje à rua as togas vermelhas bordadas?
E porque passeiam com pulseiras ricas de ametistas,
e porque trazem os anéis de esmeraldas refulgentes,
por que razão empunham hoje bastões preciosos
com tão finos ornatos de ouro e prata cravejados?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
E tais coisas os deixam deslumbrados.

Porque é que os grandes oradores como é seu costume
Não vêm soltar os seus discursos, mostrar o seu verbo?

É que os bárbaros hoje vão chegar
E aborrecem arengas, belas frases.

Porque de súbito se instala tal inquietude
Tal comoção (Mas como os rostos ficaram tão graves)
E num repente se esvaziam as ruas, as praças,
E toda a gente volta a casa pensativa?
Caiu a noite, os bárbaros não vêm.
E chegaram pessoas da fronteira
E disseram que bárbaros não há.
Agora que será de nós sem esses bárbaros?
Essa gente talvez fosse uma solução.
Konstantinos Kavafis, Poemas e Prosas, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 1998.

  • Imagem: Manuscrito do poema Περιμένοντας τους βαρβάρους de Κωνσταντίνος Καβάφης (1904).

  • CARPE DIEM

O mistress mine, where are you roaming?
O stay and hear! Your true-love's coming
That can sing both high and low;
Trip no further, pretty sweeting,
Journey's end in lovers' meeting--
Every wise man's son doth know.

What is love? 'tis not hereafter;
Present mirth hath present laughter;
What's to come is still unsure:

In delay there lies no plenty,--
Then come kiss me, Sweet and twenty,
Youth's a stuff will not endure.
William Shakespeare

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Deixando a Constituição da República de Cabo Verde falar sobre Direitos Humanos, nomeadamente de aprender:
.
  • CONTEÚDO
Artigo 49º da Constituição da República de Cabo Verde (Liberdade de aprender, de educar e de ensinar)

1.Todos têm a liberdade de aprender, de educar e de ensinar.
2.A liberdade de aprender, de educar e de ensinar compreende:
a) O direito de frequentar estabelecimentos de ensino e de educação e de neles ensinar sem qualquer discriminação, nos termos da lei;
b) direito de escolher o ramo de ensino e a formação;
c) A proibição de o Estado programar a educação e o ensino segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas;
d) A proibição de ensino público confessional;
e) reconhecimento às comunidades, às organizações da sociedade civil e demais entidades privadas e aos cidadãos, da liberdade de criar escolas e estabelecimentos de educação e de estabelecer outras formas de ensino ou educação privadas, em todos os níveis, nos termos
da lei.

  • LIMITES
    Artigo 17º (Âmbito e sentido dos direitos, liberdades e garantias)
    1. As leis ou convenções internacionais poderão consagrar direitos, liberdades e garantias não previstos na Constituição.
    2. A extensão e o conteúdo essencial das normas constitucionais relativas aos direitos, liberdades e garantias não podem ser restringidos pela via da interpretação.
    3. As normas constitucionais e legais relativas aos direitos fundamentais devem ser interpretadas e integradas de harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
    4. Só nos casos expressamente previstos na Constituição poderá a lei restringir os direitos, liberdades e garantias.
    5. As leis restritivas dos direitos, liberdades e garantias serão obrigatoriamente de carácter geral e abstracto, não terão efeitos retroactivos, não poderão diminuir a extensão e o conteúdo essencial das normas constitucionais e deverão limitar-se ao necessário para a salvaguarda de outros direitos constitucionalmente protegidos.
  • O QUE DIZ A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS?

Artigo VII. Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual protecção da lei. Todos têm direito a igual protecção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Artigo XII. Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à protecção da lei contra tais interferências ou ataques.

Artigo XXII. Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.

Artigo XXVI. 1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnicoprofissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as actividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do género de instrução que será ministrada a seus filhos.

  • CONSEQUÊNCIAS

Artigo 16º (Responsabilidade das entidades públicas)

1.O Estado e as demais entidades públicas são civilmente responsáveis por acções ou omissões dos seus agentes praticadas no exercício de funções públicas ou por causa delas, e que, por qualquer forma, violem os direitos, liberdades e garantias com prejuízo para o titular destes ou de terceiros.
2.Os agentes do Estado e das demais entidades públicas são, nos termos da lei, criminal e disciplinarmente responsáveis por acções ou omissões de que resulte violação dos direitos, liberdades e garantias.

  • Imagem: Boris Vallejo & Julie Bell

quinta-feira, 12 de junho de 2008

  • Colombo, Sri Lanka

Coisa estranha descubro agora. Hoje é o dia dos namorados no Brasil, amanhã dia de Santo António em Lisboa e tenho sede acompanhado de pouca vontade de dormir. A noite, vi há muito, iria ser em claro.

Acompanhou-me «O Casamento» de Nicolai Gogol (peça teatral que adoraria ver num palco qualquer do Mundo), nocturnos de Chopin e uma bebida. Vida de solteiro é, às vezes, uma desgraça! Penso, em conclusão. E eu, que sempre gostei do engenheiro de Pessoa, critico-o, agora, nas bordas da sua cova.

Ah, Coélet; logo será um dia feliz.

«LISBON REVISITED» (Álvaro de Campos)

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul ­ o mesmo da minha infância,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
Lisboa, 1923
  • Imagem: Ophelia, Waterhouse, John Williams (1889)

  • HUMANA CONDITIO

A «JUSTIÇA» DAS LAPIDAÇÕES

As mulheres sofrem, em todo o Mundo, toda a espécie de vitupérios, discriminações e violências – física, social, psicológica... No mundo islámico o adultério, ser mãe solteira ou o não cumprimento das regras sociais instituídas e que colocam as mulheres num limbo social é punido com a lapidação - morte por apedrejamento.

Em nome da lei, da justiça e de Deus - dizem. Na verdade é em nome do sadismo puro e simples e que revela a maldade extrema que o homem pode transportar. A violência – seja qual for a sua forma – sobre as mulheres, as crianças e os idosos é, claramente, a revelação de uma regressão civilizacional.

Isto não é cultura! Isto não é justiça! Isto não aplicação da lei! Isto é barbárie, mal radical! Há quem, também na nossa terra, atire outras pedras contras as mulheres; em nome de uma moralidade troglodita que busca (como se diz pelos lados do Paul) «evitar que esse vírus se alastre mais!». No caso o vírus de uma natural condição feminina. Uns lapidam o corpo; outros, a alma. Ah, pois sim... E não digo mutatis mutandis, não!


  • A visualização deste vídeo não é aconselhável à pessoas sensíveis ou impressionáveis.

  • MOMENTO DE TERROR NO BRAZIL
Estive uns dias no Brasil a tratar de assuntos profissionais e percebi muitas coisas que até então não tinha a percepção correcta. Uma delas é que o país não é tão violento como se apregoa e que os brasileiros olham para os portugueses (não é o meu caso) como estes os vêm: burrinhos. Um portuga no Brasil tem o mesmo estatuto que um alentejano em Portugal. Achei graça, quer porque nenhuma dessas ideias preconceituosas constituem verdade quer porque sou cabo-verdiano (a minha dicção atraiçoou-me e acabei com o injusto rótulo de portuga...).

A minha graça desapareceu quando percebi que bastava abrir a boca para as coisas ficarem mais caras (na livraria do Aeroporto Tom Jobim/Galeão do Rio de Janeiro uma bela e esperta livreira quis receber euros como pagamento e dar-me o troco em reais sem fazer a devida conversão. Noutra ocasião, era bem capaz de passar por burrinho; tão bela que era a mulatinha...). Tirando esta excepção do Aeroporto, sorria, pedia a nota fiscal descriminada e guardava-a – quando saí do país mandei-as para a Fazenda Pública com a nota informativa adequada...

Agruras de estrangeiro e a que estou habituado. O que me deixou surpreso e por momentos aterrorizado foi outra coisa. Na pressa de ir para o escritório de um colega esqueci do meu computador portátil e tive de utilizar um do escritório gentilmente colocado à minha disposição.

Estávamos sobre a pressão do cumprimento de um prazo e, de repente, depois de abrir um documento guardado na minha pen drive, entrei em pânico. O teclado, com o trema e muitas teclas nos lugares errados (na verdade não habituais à minha percepção) era quase chinês para mim e dificultava em extermo o meu trabalho. O tempo corria contra nós e foi com muita calma e paciência que consegui descodificar o teclado...

Tive de voltar ao meu teclado de português lusitano e – sinceramente – dei hossanas a Deus por ter levado o meu computador portátil. Foi um momento de terror! Espero que o futuro Acordo Ortográfico não me venha a colocar, outra vez, nessa situação.



Esta Petição, promovida pelo espontâneo «Movimento de Cidadania» e por alguns «Blogs de Cabo Verde», é um exercício de cidadania activa que merece a atenção de todos os cabo-verdianos.

Não é somente em prol da Ana Rodrigues, mas de todas as jovens mulheres cabo-verdianas que sofrem o vitupério da discriminação em razão de género e uma restrição abusiva e ilegal do acesso à educação – direito e garantia fundamental de todos.

No entanto, sou da opinião que a mesma deve(ria) ser patrocinada pelo Procurador da República do Paul (uma vez que é ainda menor) ou por um Advogado de boa vontade (pro bono, mas, se necessário, certamente que haverá quem pague a sua defesa) de forma a precaver os danos emergentes da perda de um ano lectivo.

Antes que comecem os exames é necessário entrar uma providência cautelar para que o Tribunal possa permitir a mesma voltar às aulas – sem que com isso seja ou possa vir a sofrer quaisquer tipos de represálias na sua avaliação.

Entretanto, a Ana Rodrigues não deve anular a sua matrícula e apresentar-se todos os dias na sua Escola (não vá alguém dizer que abandonou a Escola...), se necessário acompanhado pelas autoridades. Sei que é difícil para ela, que é tudo menos fácil de fazer, mas não pode nem deve estar só.

Fazem-se tantas manifestações na terra, menos aquelas que são necessárias – como uma de solidariedade para com a Ana Rodrigues e todas as que sofrem como ela. A morabeza cabo-verdiana morreu de vez? Parece que sim, parece que sim...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

  • DISCRIMINAÇÃO DE PARTO

Por ponderosas razões profissionais não tenho atentado nalgumas questões que me incomodam em particular. Uma dessas questões é o da jovem Ana Rodrigues que, por «razões de parto» (diz-se) foi suspensa de frequentar a Escola Secundária Januário Leite.

Ficamos, agora, todos indignados. Mas a verdade é que a situação não é inédita, é prática recorrente em Cabo Verde há muito tempo. Agora, o que se deve perguntar é se é possível fazer-se isso – limitar o direito fundamental ao ensino e a apreender por essa razão ou qualquer outro bacoquismo moral?

Possível é, tanto que aconteceu. Agora que não deve ser assim, é uma evidência; que não deve continuar a acontecer, é outra. Note-se que a jovem foi suspensa e intimada (convidada, em eufemismo) a pedir a anulação da matrícula. Este facto, a ser assim – como resulta do texto que me chegou – consistiu um crime de coacção contra a jovem, pois foi forçada à uma acção que, certamente, não deseja e é indesejável.

Gerar uma criança é das coisas mais belas (senão a mais bela de todas) que um ser humano pode realizar e é, para mim, o que aproxima o homem de Deus; daí haver, do meu ponto de vista, uma dimensão de humanidade maior nas mulheres em relação aos homens.

Mas existem casos raros – como o da Directora do Estabelecimento de Ensino que determinou a suspensão da discente e, procurando sustentar o injustificável, a coage a sair da Escola – que se afastam deste paradigma.

O extraordinário é que as Instituições que deveriam proteger a infância, a juventude e os direitos humanos em geral não fazem (não fizeram, que eu tenha conhecimento) nada de prático para evitar este e outros males. Quantas Anas existem e já existiram em Cabo Verde? O que aconteceu com elas, depois de decisões como esta? A estatística não deve servir somente a política e a economia, não...

Estivesse aí em Cabo Verde e patrocinaria pro bono essa jovem, com interposição de uma providência cautelar (processo urgente de defesa de direitos) junto do Tribunal da comarca competente para evitar (de imediato) que saísse da Escola e aconselharia a mesma a intentar uma acção crime contra a Direcção da Escola, por crime de coacção e discriminação em razão de situação de género.

Isso é que era bom: colocar cintos de castidade no útero das mulheres!

O facto de a jovem Ana Rodrigues ser uma «boa aluna» não significa nada para o caso; se fosse uma péssima aluna a situação era a mesma, os direitos seriam os mesmos e a acção contra si realizada um crime em sentido técnico jurídico e um “crime” em sentido social – pela danosidade social de tal acção – e merece censura de todos.

E o que diz a tutela dessa governamental dessa instituição da acção da Direcção da Escola? Cauciona-a ou, pelo contrário, censura a mesma? É que ficar em silêncio sobre isto não é alternativa possível; assim como não agir. O Governo apoia estas formas de agir ou não? O Governo – que é também da jovem Ana Rodrigues – tem directivas emitidas nesse sentido ou tal emerge do voluntarismo da Direcção da Escola Secundária Januário Leite?

Se for este último caso, o que fazer? A resposta é certa: obviamente, demitam-na! É uma questão de responsabilidade perante os cidadãos e de, claramente, de abuso de poder e de restrição de direitos fundamentais por via vedada pela Constituição da República. E, nesse caso, se for uma decisão emergente de directivas da tutela política a decisão é clara para o Primeiro Ministro: demita quem tomou essa decisão que, se tiver conteúdo normativo é inconstitucional e se for de natureza administrativa sofre da invalidade superior da nulidade radical e é juridicamente inexistente.

Esta acção tem (já teve) efeitos práticos e morais na vida da Ana Rodrigues e devem ser tomadas, de imediato, as medidas necessárias. A gravidez não é um crime ou qualquer ilícito ou falha; pelo contrário. Nem podem os regulamentos escolares ou decisões governamentais, em qualquer Estado de Direito, limitar o exercício e o gozo de direitos, liberdade e garantias.

Nestas alturas é que um Provedor de Justiça deixa falta. Nestas alturas é que uma instituição de defesa dos direitos humanos com meios e desgovernamentalizada é necessária, nestas alturas é que a solidariedade é necessária. Nestas alturas é que as pessoas percebem que assobiar para o ar é, sempre, perigoso...

A jovem Ana Rodrigues, vai um conselho expresso e a minha mais profunda solidariedade: vá até a Delegação da Ordem dos Advogados cabo-verdianos mais próxima de si e peça a nomeação urgente de um Advogado e lute pelo seu direito a estar na escola como todas as demais cidadãs de Cabo-Verde. Pode ter a certeza que, se necessitar, não faltará quem patrocine essa sua luta; por isso, não desista, jamais. Até porque tem razão, não de parto, mas direito, de justiça e de racionalidade pelo seu lado.

Abisma-me a alma é ser uma mulher a tomar uma decisão tão hedionda. Parafraseando e metamorfoseando a ideia de Agatha Christie, digo «crime, disse ela». Sim, ao coagir a jovem a deixar a Escola e ao não ver a diferença natural existente entre uma jovem mulher e os homens. Nem entro no âmbito do direito à procriação que, ao que parece, é, indirectamente, censurada nessa acção...

Agora, uma coisa poderá resultar positiva nesta triste situação: se levar a sociedade cabo-verdiana – desde as instituições cívicas às instituições do Estado, nomeadamente a Procuradoria Geral da República (que tem a competência legal e funcional de defender os menores) e a Assembleia nacional (que deve legislar, com respeito pela Constituição, sobre esta matéria e tendo em consideração o século em que estamos) discutir esta matéria e assuntos conexos.

Evoco o poeta Januário Leite (Poemas da Juventude) que, se soubesse – lá pelos lados do Eliseu dos poetas – do que aconteceu em lugar com o seu egrégio nome mandaria de lá retirar o seu nome:

«AOS RESPONSÁVEIS PELO MEU DESTINO PERDOEI

Dependendo dos lances empregados,

é nossa vida exactamente um jogo;

se bem jogados se prospera logo,

se mal, a culpa cabe sempre aos fados!

.

Do meu destino são meus pais culpados,

do maternal afecto o santo fogo,

a minha mãe cegou... por isso rogo

a Deus que lhe perdoe os seus pecados!

.
Do meu pai não direi, porém, o mesmo;

porque em vez de lançar-me assim a esmo,

na senda duma vida sem futuro,

.

Pudera dar-me escola, uma carreira,

não ser, pelo contrário, uma barreira,

e justamente, aqui, eu o censuro!...»

Ninguém deve poder dispor do destino de ninguém; pelo menos assim, de forma arbitrária. Mais do que o direito à indignação, as pessoas têm o dever de agir; a omissão da acção necessária não é opção. E, Ana, atenta no que dizia Francis Bacon: «Quem não luta por si, não luta por ninguém».


  • Imagem: Victory, H.R. Giger

terça-feira, 10 de junho de 2008

Mozos, ¿sabéis que el alcalde
ha perdido y busca en balde
tornillos de su cabeza,
por lo que esta no endereza?...
¡Compónsela, tonelero
con fuertes flejes de acero!


Es diablo viejo y canoso,
tuerto, tonto y caprichoso;
tras las mozas corre necio
sin importarle el desprecio.


¡Tonto, tonto! ¿Es que querías
con los mozos competir,
cuando ya sólo podrías
a la sepultura ir?


¡Venid, muchachos, cojámosle
por el cuello y el cogote!
¡Agarrémosle! ¡Agarrémosle
por el tupé y el bigote!

in Noche de Mayo o La Ahogada, Nikolai Gogol

  • Imagem: El principe azul, Luiz Royo

  • PALAVRAS DA RAPOSA

"As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém... Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto... E teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!" in O Princepezinho, Antoine de Saint-Exupéry

  • Imagem: Luis Royo

  • O DIA DA RAÇA LUSITANA OU NEGAÇÃO DA HISTÓRIA?

Chego à Lisboa nas vésperas do 10 de Junho e a minha alma fica estupefacta ao ouvir as notícias e as palavras de circunstância (será mesmo verdade que o que verdadeiramente importa não é como se age mas como se reage?) do Presidente da República.

Hoje é o «Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas» ou, como diz o Presidente da República Portuguesa – Aníbal Cavaco Silva – “dia a raça”? Lapsus linguae ou não, a verdade é que fez feliz muita gente, nomeadamente os nacionalistas e os racistas (que têm um léxico próprio e que dão à expressão em si um sentido próprio).

Um momento infeliz a que, ao que parece, ninguém deu cavaco. Será porque se pensa, reconditamente, que Portugal, as comunidades portuguesas e Camões (isto é, o império da língua lusitana) têm um substrato racial?

Cotejando este facto com algumas práticas sociais do Estado e da sociedade portuguesa a minha alma fica apreensiva. Há anos que prego no deserto, dizendo às comunidades imigradas em Portugal e aos seus descendentes que existe uma conspiração social contra a sua integração social e política plenas e ouvidos moucos teimam em não escutar a realidade.

Mas sou teimoso. Será que conseguem ouvir melhor o que está atrás do lapsus linguae ou do acto falhado? Espero, tenho esperança que sim. Portugal é, deve ser, multiracial. E digo isso sem reclamar nada, pois – tendo nascido lusitano de nacionalidade – não sou português.

Será que – como diz Nicolai Gogol em «O Capote» – «o espírito de imitação infestou a nossa santa Rússia, todos a querer fazer de conta que são chefes e atingir o patamar mais alto possível» (Gogol, O Capote, Porto Alegre, 2005, p.38)? Mutatis mutandis (?) escuto o sibilar subliminar de Berlusconi e Sarkosy…

Ah!, esta Europa que vai matando o sonho de Jean Monet, Robert Schuman e René Cassin… E, Senhor Presidente da República Portuguesa, por onde andam os descendentes dos ibéricos que combaterem ao lado de Aníbal, O Africano, contra o império romano e os lusitanos que foram súbditos de África antes desta ser colónia romana? Sim, onde andam?

A história responde, inequivocamente: na “raça” lusitana. A tez desta – em particular a dos algarvios, de Sagres a Boliqueime – é eloquente. Do genocídio da memória à negação da história se chega à negação do português negro, do «outro» racial.

Infelizmente, tal discurso não me surpreende; mas deixa-me atónito ouvi-lo de quem ouvi; é que as responsabilidades de uns e de outros são diferentes, assim como o peso das palavras de uns e de outros são substancialmente diferentes. Podemos dar ou não cavaco a isso, mas é a verdade. Mas há aqui uma virtude: sabe-se a verdade e esta, mesmo dolorida, pode ser semente de algo positivo.

  • Imagem: Milo Manara, Les femmes

terça-feira, 3 de junho de 2008

  • O CANTO DOS PIRILAMPOS

Escrito na campa de um poeta:

“ Era um Deus louco
que amava
sob o canto dos pirilampos.

Era um Deus louco
que amava
com as mãos pingando sangue inocente.

Era um Deus louco
que amava
com lágrimas eternamente rios
em mim…

Era um Deus louco
que amava
com egoísmo extremo e medo eterno
que me trouxe igual saudade.

Era um Deus louco
que amava
que nunca conheci ou amei
com amo-me
por imperativo de viver
e de ser eternamente eu.

Era um Deus louco
que amava
no momento que me perdi
com a plena convicção da perdição
empolgando meu coração
com sonhos tão longínquos
como um sonho e a banda do Norte
pode ser…

E era, enfim…
Um Deus louco que amava
quando com vontade renegada
colhi da eternidade uma flor
mais que flor
permanecendo o orvalho eterno
de uma manhã adiada
e nunca nascida no rosto.

E permanece na sombra de tudo o que sou
essa imagem de Deus
que Deus amou e perdeu
por amr um sonho e uma loucura
mais do que simples ternura.

E, à beira da minha porta,
misturado com o pó que já foi gente,
escondem-se os pirilampos
que no silêncio mais silencioso que o silêncio
da negras noites
acordam-me com um canto sem palavras
e perguntam-me para onde vou
ao que eu respondo: – “Sou um rio sem fonte
manando para o deserto sem fim
que espera-me
como uma mãe um filho perdido”.

Sempre, sempre a sorrir, os pirilampos…
E brilham, brilham como uma trilha
Sem nome. Enterrem-me ali mesmo.”
.

Imagem: Nymphs finding the head of Orpheus , Waterhouse, John Williams (1900)

  • Aquí, em terras de Vera Cruz, está um dia chuvoso. Há uma dupla terra-longe em minha alma. Alí, sim, o Sol brilha.
  • Imagem: The messenger, Alecos Fassianos

segunda-feira, 26 de maio de 2008


  • IMIGRAR «SEM PAPÉIS» É CRIME NA UNIÃO EUROPEIA
Dizia Sancho Panza que “yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”. E se muita gente não crê na existência de uma conspiração ocidental contra os mais pobres, a verdade é que a discussão de uma Directiva de Retorno dos imigrantes em situação irregular na União Europeia, assim como o reforço das fronteiras externas da EU no presente momento é prova bastante desse facto.

Todos os anos milhares de pessoas são expulsas da EU por se encontrarem em situação irregular. Durante o processo de expulsão ou de repatriamento os cidadãos ficam sujeitos à tutela policial ou jurisdicional, dependendo dos países e/ou do processo de expulsão.

As pessoas são colocadas em prisões ou em “centros de acolhimento” (um eufemismo para o que é objectiva e subjectivamente prisão, privação de liberdade). Os períodos variam, de país para país, indo dos 32 dias em França e Chipre, passando pelos 40 dias na Itália, 2 meses em Portugal, 18 meses na Alemanha a um período ilimitado no Reino Unido e na Holanda.

Agora, paradoxalmente – ou talvez não, os países com menores períodos de detenção (França e Itália) resolveram promover a discussão dessa matéria ao nível da EU. O pretexto, além de questões que tenho dificuldades em não considerar aporofóbicas e xenófobas, é a segurança (panaceia do apaziguamento xenófobo) e a harmonização da legislação europeia nesta matéria.
Assim, a ideia é harmonizar o período de detenção para imigrantes “ilegais” – isto é, em situação documental irregular –, passando, assim, a haver um período máximo de 6 meses, extensível até 18 meses (ano e meio). Isto é, a ideia é que um cidadão pode(rá) ser detido – na verdade preso – por um período tão longo que equivale a cumprir pena por um crime.

Esta ideia é desumana, representa um retorno civilizacional e uma violação ostensiva dos direitos fundamentais dos estrangeiros na EU. Se a situação em alguns países é insustentável (Reino Unido, Holanda, Finlândia, Suécia, Dinamarca, Estónia e Lituânia – duração ilimitada), tal deveria ser resolvido com uma solução humanista, não procurando um bissectriz entre o que se passa na França e Itália, na Letónia (20 meses) e Alemanha (18 meses) e na Holanda e Reino Unido (sem limites) para se encontra uma “solução” que satisfaça todos.

Todos, menos a humanidade. É que colocar sob prisão os estrangeiros é, claramente, uma desumanidade; é criminalizar indirectamente o acto de imigrar e puni-lo. Um crime é, segundo doutrina jurídico-penal universalmente aceite, (a) um facto (2) típico, (3) ilícito, (4) culposo e (4) punível. Assim, o que a EU pretende é transformar uma medida de coação – já de si criminosa – em direito substantivo. A dimensão de crime deste facto é tão clara que o encarceramento e a expulsão são acompanhados de uma pena acessória de proibição de entrada na União Europeia pelo período de 5 anos.

Uma forma engenhosa de contornar o princípio nullum crimen dine lege previa? Note-se que, em Portugal, um cidadão detido tem de ser apresentado a um Juiz de Instrução no prazo de 48 horas, para validação da detenção e aplicação de uma medida de coação que pode chega até a prisão preventiva. Acontece que, como a pena abstracta que admite a prisão preventiva tem de ser superior a 5 anos, o que acontece é que somente quem comete um crime cujos indícios apontam para a prática de um ilícito penal grave, com pena superior a 5 anos, é que é apresentado ao Juiz de Instrução.

Mas o estrangeiro, pelo simples facto de estar indocumentado, é detido e presente a um Juiz de Direito dos tribunais de pequena instância criminal que, não raras vezes, aplicam a prisão preventiva ao mesmo – actualmente, com os Centros de Acolhimento, são colocados nestes e não nas prisões. Não tem a dimensão de pena mas de medida de coação – dizem os magistrados, errada e convenientemente. Muitos, felizmente, têm percebido a hediondez deste sistema e, como justiça, não a têm aplicado.

Voltando à União Europeia e às ideias da Comissão Europeia e aos seus propósitos. Tenho dúvidas sérias e fundadas dúvidas sobre a estrita legalidade desta medida de criminalização de facto do direito de viajar dos cidadãos não comunitários. Sou da opinião que os Advogados da União Europeia deveriam aconselhar os seus clientes a recorrer, sempre, para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais com queixas sobre esta questão.

Mais, os Estados com cidadãos seus afectados por estas medidas têm o dever de demandar – perante o Tribunal Internacional de Justiça da ONU – a União Europeia e os Estados que apliquem (mesmo na actual formulação) esta legislação. Mas, haverá coragem para isso? Os interesses económicos prevalecerão sobre a razão e a defesas dos direitos dos cidadãos? A ver vamos…

Mais, ainda, a EU pretende colocar nessa situação menores, nomeadamente as crianças não acompanhadas. Estou curioso para saber o que o actual Governo socialista irá dizer sobre isso. É que me recordo – sim, a minha memória não é curta nestas coisas – do “caso Vuvu Grace” e da acusação que muitas eminências do PS fizeram ao então Governo do actual Presidente da República (Cavaco Silva): “prender criancinhas”.

Não me surpreenderei se o Governo português aderir à esta ideia. É que, lembro a quem se tenha esquecido, foi o Partido Socialista quem – sendo até então o maior opositor da ideia de criação dos Centros de Acolhimento/Detenção no consulado de Cavaco Silva - paradoxalmente, inauguraria essa prisões envergonhadas no verão quente de 2000 (quando toda a gente estava “distraída” a pensar noutras coisas), sendo Fernando Gomes Ministro Administração Interna e Armando Vara o Secretário de Estado da Administração Interna do Governo liderado por António Guterres. Então, já não era “prender criancinhas”...

Além do mais, parece-me que a aprovação e a aplicação dessa Directiva estará ferida de nulidade (de inconstitucionalidade ao nível interno) por contrariar a Convenção Europeia dos Direitos do Homem e das Liberdade Fundamentais, nomeadamente, o Artº.4º. do Protocolo 4 que proíbe as expulsões colectivas. Expulsar oito milhões de imigrantes? Não me parece que tal seja possível. Durão Barroso, aquando do seu Governo em coligação com o Partido Popular de Paulo Portas equacionou a expulsão de todos os imigrantes ilegais de Portugal mas depois arredou pé dessa ideia – que passou, então, como uma ideia do Paulo Portas. Terá sido? E agora, a ideia virá de França, Itália e Reino Unido, é certo; mas terá ou não sustentáculo na Presidência da Comissão Europeia? Sarkozy já anunciou: a próxima presidência francesa da União Europeia irá ter a imigração como uma das suas prioridades e as suas ideias sobre esta matérias não são, de todo, as mais simpáticas para os imigrantes. Esta Directiva será, certamente, uma das questões centrais da presidência francesa do Conselho da União Europeia.

Podemos estar perante um pomo de discórdia que poderá gerar uma crise política no seio da Europa comunitária e um conflito da EU com os Estados terceiros – os países de imigração. Quem vive estas coisas ao nível prático sabe o que acontece com os cidadãos dos países Magrebinos – sofrem sempre a detenção máxima e depois são libertados, pois os seus países, em regra, não os aceitam. Além do mais, basta(rá) não colaborarem na sua identificação para não poderem ser expulsos.

É o Mundo em que vivemos: empurra-se as pessoas para a pobreza e depois fecham-se as portas e coloca-se em prisões quem consegue fugir da pobreza extrema e chega à uma terra prometida que não os quer nem deseja. E depois, aponta-se o dedo à China, à Myarmar e outros de violar os direitos humanos... É, somente, uma questão de grau ou dimensão – a EU também viola os direitos humanos, ainda que se escude nas normas.

Ouve-se um clamor ocidental, dos Fóruns aos media, passando pelas pessoas, a acompanhar o Dalai Lama: – “está ocorrer um genocídio cultural no Tibete”. Mas essas mesmas vozes “esquecem” o genocídio dos africanos que tentam entrar na Europa, para não falar no que acontece em África por causa das políticas ocidentais. Mas claro que a cultura tibetana é mais importante que a vida dos africanos; é claro.

Silvio Berlusconi já deixou claro: quer fechar as fronteiras e criar campos de identificação dos estrangeiros sem trabalho que se vêm obrigados a entrar na vida da delinquência. Da vergonha de Lampedusa (Itália) e de Mellila (Espanha) – que se tem tolerado com um ensurdecedor silêncio – aparece agora esta ideia, própria do nacional socialismo alemão e do III Reich, aliás, análoga ao que Hitler mandou fazer com os judeus: identificá-los.

Ainda mais horrível que esta ideia, é o facto dela ter passado despercebida, como se fosse algo natural, normal. Tempos sombrios percorrem a Europa, centímetro a centímetro e o silêncio do compromisso está a alimentá-lo; e cresce como um monstro na sombra, como um deserto de desumanidade.

Um destes dias acordamos e descobrimos que os imigrantes e os estrangeiros não comunitários em geral – além de já terem a sua vida toda controlada (os serviços de estrangeiros monitorizam tudo, mas tudo da vida dos mesmos) –, têm uma espécie de estrela amarela a identificá-los. E, nesse dia, acharemos normal; como porcos caídos na pocilga.

Existem, sim, outras medidas de travar e combater a imigração ilegal que não pode ser confundida com a circulação de criminosos no espaço Schengen nem os imigrantes serem considerados e tratados como criminosos. Uma coisa é certa, como dizia Simon Wiesenthal, "a liberdade não é um dom dos céus". Mas é, certamente, sagrado. Mas, pelos vistos, a liberdade de uns é "mais liberdade" que a de outros.

O fedor da hipocrisia ganha terreno e cresce, a cada ano europeu ou internacional disto e daquilo – da igualdade ao diálogo intercultural e quejandos – que a Europa promove. Não são precisos anos de nada, o que é preciso é acção e verdade. Entendo que a consciência dessa hipocrisia gere medos naturais e que se pense que a solução é imitar a avestruz.

PS: Depois de escrever este texto tive notícias, aqui em terra de Vera Cruz e através do El País e do Le Monde, que a Itália de Berlusconi resolver criminalizar – em letra expressa de lei – a imigração «ilegal». Fico à espera para saber até onde irão os silêncios…


APHRODITE

Quando levemente criança
amei Santa Auxiliadora e seu sorriso.

Hoje sei.

Sim sei, como El Elohim viu Eva,
que existem sorrisos que encantam
e matam efémeros a solidão;
que existem formas que pensamos moldar
e moldam-nos do altar;
que existem deuses que não criamos,
que não são bem nem mal
mas tu criação.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Les Femmes, Milo Manara

  • O VALOR COMO CRITÉRIO DE ESCOLHA POLÍTICA
No dia 16.05.2008 o calendário anunciou duzentos anos sobre o dia em que Abraham Lincolm fez o seu mítico discurso A House Divided (Illinois Republican State Convention, Springfield, Illinois); revisito o texto: «If we could first know where we are, and whither we are tending, we could better judge what to do, and how to do it. […] A house divided against itself cannot stand», não poderia estar mais de acordo com o estadista.

Já cansado de um dia inusual, agarrei na Historiae Augustae. Reli, então, Aelius Spartianus e a sua narração da trágica morte de Papiniano – um dos maiores juristas da história e, com Thomas Moore (morto por razões análogas por Henrique VIII), patrono dos Advogados.
Depois de matar o irmão (Antoninus Geta) nos braços da mãe (Júlia Domna) – com a ajuda por omissão da guarda pretoriana – pediu a Papiniano para ir ao Senado defender a sua acção homicida.

O Advogado então Magister Liberum de Roma, consciente da injustiça de tal defesa, disse ao Imperador que «é mais fácil cometer um homicídio que justificá-lo» e declinou o convite imperial. Caracalla, desagradado disse-lhe que entendia a sua posição, pois era um homem de honra. Pelo que convidou-o a passar pelas ruas da cidade na sua companhia, como da sua amizade.

Assim fizeram: passearam por Roma como se fossem unidos por uma fraternidade maior que a biológica. Depois de voltar ao palácio imperial deu ordens a um soldado para matar o ilustre Papiniano. O pretoriano foi ter com o jurista e, a golpes de machado, executou-o. Voltou ao palácio e deu a notícia ao Imperador; este, desagradado, matou-o, dizendo que um homem de honra como Papiniano não merecia morrer pelo machado mas sim pela espada.

Isso porque Caracalla cometeu o erro de incumbir um soldado de fazer algo que somente um oficial deveria, pois saberia fazer bem, com dignidade e honra. É que, como bem diz Tito Lívio na sua História de Roma, “os talentos de um soldado são diferentes dos de um general” (Tito Lívio, XXV.19). E sabia o que dizia, pois foi mentor de Cipião que, com Júlio César e o Optimus Princeps Trajano restam como as grandes glórias militares de Roma. Viu o seu pupilo escapar do massacre da batalha de Canas – a maior derrota militar da história de Roma e infringida pelas hostes africanas de Aníbal – e da derrota junto ao lago Transimeno às mãos, também, de Aníbal.

Foi testemunha da capacidade de aprender de Cipião e viu-o usar as técnicas do seu inimigo para o vencer. Assim, quando Cipião alcançou a glória de vencer Aníbal – com técnicas pouco ortodoxas para as legiões romanas – e de derribar a cidade-Estado de Cartago estava ao seu lado no acampamento romano. Diz-nos que Cipião chorou com a destruição que fez à portentosa cidade africana que queimou até às fundações durante setenta dias e setenta noites.

Por essa razão – essencialmente – é que em Roma não se podia chegar a Imperador, a não ser por sucessão, sem passar pelo Senado (legislador, muitas vezes incumbidos de gestão militar) ou pelo consulado imperial (dois cônsules nomeados por um ano e que detinham poderes análogos aos de um Rei); partia-se do princípio de que eram precisas determinadas qualidades, nomeadamente o valor militar e a honra no exercício desta, nomeadamente na vitória.

Havia, no entanto, algumas formas de ultrapassar isso; mesmo entre os romanos. Júlio César, por exemplo, concedeu todas as honras militares a Octávio Augusto – seu sobrinho neto que viria a torna-se o primeiro Imperador de Roma – sem que este tivesse participado em nenhuma batalha. Como aconteceu, agora, com um dos sucessores ao trono do Reino Unido que passou fugazmente pelo Afeganistão.

No entanto a qualidade do melhor homem, o critério do mais capaz sempre foi o critério usado em Roma para escolher os seus líderes. Foi o que aconteceu no Século dos Antoninos – Nerva, Adriano, Trajano, Antoninus Pio, Lucius Verus, Marco Aurélio e Cómodo – e que Cómodo foi excepção, por decisão do seu pai, Marco Aurelio. O primeiro soldado ou Imperador soldado do Império romano – o mauritano Macrinus – aconteceu num momento particular. Estando ausente quem pudesse preencher os critérios vigentes no Império, as legiões atentaram no critério que restava – que terá sido o primeiro a ser usado pelo homem: o valor.

As capacidades de um líder devem ser sujeitas a escrutínio antes da assunção das suas responsabilidades; senão não será capaz de cumprir com a sua função ou fá-lo-á com prejuízo considerável para o bem comum – como é exemplo acabado George Bush ou Jaime I.

Quando se faz uma escolha política – como as que fizeram Poncio Pilatos, o General que apontou o soldado da Maratona como mensageiro, ou qualquer cidadão ao ajuizar votar G. W. Bush, Hitler, Berlusconi ou de não votar Lincolm (perdeu um eleição inicial que poderia ter terminado a sua carreira política), Churchill depois da guerra ou Barack Obama – temos de ter consciência de que tal tem consequências.

Assim como aceitar as decisões democráticas é, de todo, um exercício de humildade perante os decisores – um juiz pode cometer erros de julgamento, involuntariamente ou até para favorecer amigos ou grupos de interesse ou prejudicar alguém, o que acontece por ser ser humano falível e sujeito à essas fraquezas, mas o povo não erra: escolhe o que acha ser o melhor homem para conseguir o que é melhor para si. É um juízo sublectivo, falível, mas é o juízo do povo. É um dos grandes problemas da Democracia, desde Platão.

O político não pode esquecer o que Luís XVI disse a Malesherbes, sobre Turgot – que pensava poder fazer o povo francês feliz – e a sua acção política: não se pode obrigar um povo a ser feliz quanto este não o quer. Uma leitura da correspondência do Rei francês não faria mal a ninguém…

  • ACASO

Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.

Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.

Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso.
Antoine de Saint-Exupéry

  • Imagem: Babe, Milo Manara

terça-feira, 20 de maio de 2008

The southern ring nebula - NGC 3132

  • HUMANA CONDITIO

#3. O SENTIDO DA VIDA E DO ESPÍRITO HUMANO

O ser humano é singular, mas é, também, uma situação. O espírito humano precisa de um rumo, um objectivo, um fim estabelecido. Quando assim não acontece, perde-se e dificilmente se encontra. Mas quando se está perdido, e se tem consciência disso, aparece o fim, o objectivo: encontrar-se.

É algo de tão natural como as leis da natureza – como ditadas pela ideia de evolução natural da vida e da sua busca de um estádio superior de existência. O mesmo se passa ao nível da consciência, tenhamos ou não a percepção disso.

É por essa razão que o homem sempre perguntou: quem sou, de onde vim, para onde vou? É que, como é sói dizer-se desde tempos imemoriais, estar em todas as partes é o mesmo que não estar em lado nenhum.

A modernidade criou o homem da mono sociedade, o homem que procura viver sozinho mas não só; que procura interagir com o que o rodeia mas no seu Mundo, com as suas coisas. Mas, e depois? As coisas são o objectivo, o fim da existência, a satisfação última? Sim, para onde vou aparece como uma pergunta imperiosa.

A resposta, aparentemente simples, é o primeiro passo para a maior odisseia do espírito humano; é o início do conhecer-nos a nós mesmos. Pode-se ser justo ou não na nossa auto-avaliação, mas uma coisa é certa: as coisas não são o fim que se almeja.

Deus aparece como a resposta natural, a âncora da salvação ou, noutra perspectiva, como uma resposta à nossa incapacidade de encontrar uma resposta ou sentido existencial próprio – que seja mais do que a terra que se pisa e menos que o céu que não se pode tocar.

Deus liga-nos à ambas as coisas, explica as nossas angústias e, não raras vezes – para os que chegam a ter o privilégio de se aproximar dele ou de O deixar aproximar-se – consola-nos. Mas, ao contrário do que parece, chegar a Deus não é, hoje, o mais fácil. E não é porque Deus é visto por muitos como algo de um Mundo longínquo e de, até, se deve envergonhar-se de acreditar.

Há este aspecto exógeno da dificuldade, mas existe outro – esse sim endógeno – e que é parte do percurso intelectual e espiritual do para onde vou. Este aspecto, sendo ou não conclusivo, é determinado pelas duas outras questões: Quem sou? De onde vim?

Tudo está destinado a perecer, há que salvar a nossa alma; ensinava Buda. E se não o fizermos, encontrando-a dentro de nós, não o encontraremos em lado nenhum. É que, quer queiramos quer não, a vida – como a entendemos – está destinado a ter um fim; só podemos, na verdade, escolher o como (em devir e ser) chegamos a esse fim.

Podemos nunca encontrar o que almejamos, mas, de certeza, chegaremos ao fim melhores do que à partida e, pelo caminho, poderemos ter a felicidade de contribuir para que o Mundo (o pequeno universo em que vivemos é, na verdade, todo o Mundo) seja um local melhor. Afinal, isso não é um belo fim?

After the rain, Tremont area, Great Smoky Mountains National Park, Tennessee
.
  • Tenho estado longe da tecnologia, numa espécie de busca de coisas mais básicas e viscerais. O silêncio é, também, uma espécie de pão; aprendi.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

The Trumpets of Jericho, H. R. Giger

A sedução da vida é breve sonho.
Petrarca

  • O INVISÍVEL LÁTEGO
Invisível látego
este matiz de dia que te aflige
de sonhos.

Manto desordenado
este que paira em teus lábios
sedentos de manjares inominados...

E não há voz que te acuda!
Só olhos canibais,
desejos redesenhados,
mãos ciganos
te procuram
– em ti há mais chá e mel que oiro...

A verdade,
sabemos, tu e eu:
Só os pobres cantam
«riqueza não dá felicidade»
e somente os feios arvoreiam
que «beleza interior é que importa.»
Não têm olhos sem Eros,
não são mãe,
nem pai
ou tu.

E de ti,
cortesã de Mãe-terra e ideia,
as mossas das auroras
salpicam o dizer:

«Sou filha do pródigo,
em dia de festa reclamada,
desdenhada e não lida,
mas sou uma Laura negra,
com oiro como véu,
semblante angélico,
prole viajante
e céu, sim céu
com aroma de alecrim do Porto Novo
pois ontem choveu
e na minha pele germinou
hoje, outra vez,
este matiz de vida...»
  • A pedido de um amigo, repristino este poema.

Cannibalism of the Objects, Salvador Dali, 1937

… O raro azul da pérola
é cinza
e o riso do canto é ébano
e sombra de medo
enquanto o ouro não falar
de silêncio
e os deuses não visitarem o psiquiatra.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Homini lupus homini (o homem é lobo do homem), Thomas Hobbes, Leviathan

  • INTERVENÇÃO POR RAZÕES HUMANITÁRIAS EM MYARMAR
Se o que se está a passar em Myarmar não é uma razão para um intervenção humanitária no âmbito do direito de ingerência por razões humanitária, a melhor coisa a fazer é enterrar-se o conceito. Que utilidade pode ter se não é usado quando é objectivamente preciso?

Está-se perante uma situação em que os dirigentes do país não podem invocar a soberania e o direito de não ingerência nos seus assuntos internos, pois o problema que o país enfrenta não é somente de direito interno do país nem de Direito Internacional Público Geral ou Comum, é um problema especial, de Direito Internacional dos Direitos do Homem e de Direito Internacional Humanitário.

É preciso agir com urgência. A apatia do Conselho de Segurança da ONU, da União Europeia e dos Estados Unidos da América é criminosa por omissão, pois podem evitar uma catástrofe e não o fazem.

Bill Clinton fez mea culpa sobre as suas omissões em relação ao Rwanda e ao Burundi. O Mundo não precisa de mais arrependimentos, precisa de acção. Agora, não de carpir lágrimas depois; sobre milhares de vítimas à espera da morte ou da salvação.

Agora, não se deve aproveitar esta situação para se proceder à uma intervenção militar de escolta e de ajuda humanitária e, de seguida, se impor a “democracia” ao país. É, será uma tentação, mas deve ficar somente por isso. O Direito não deve ser morto em nome da utilidade que em dado momento pode representar uma dada acção. É que o direito deve ser útil, mas não ser objecto de um uso utilitarista.

  • PERPLEXIDADES
INJUSTIÇA SALARIAL EM CABO VERDE

O JORNAL Expresso das lhas entrevistou o empresário Andrea Stefanina (Expresso das Ilhas on line, 11.05.2008) e, entre outras coisas, perguntou-lhe:

EXP. – Há desenvolvimento económico, mas os pobres estão cada vez mais pobres, quer comentar?
AS. – «O salário é objectivamente injusto. O aumento do custo de vida ao longo dos anos não tem sido acompanhado integralmente por um realinhamento do rendimento líquido dos trabalhadores. Como disse antes é possível fazer mais se for criado um quadro de incentivos aos investimentos, se for desagravada a fiscalidade, directa e indirecta e se encararmos definitivamente os problemas que afligem os sectores produtivos do país. É necessário reduzir a pobreza e promover a equidade social e acertar os mecanismos que vão distorcendo a economia, criando assimetrias e condicionando a competitividade e o crescimento económico de Cabo Verde».

Ao ler isto, o que dizer? O que pensar? Apetece-me bradar aos céus e gritar: Deus!, se é objectivamente injusto, porque não aumenta o salário dos seus funcionários?! Sim, porque não lhes paga um salário digno e que corresponda ao produto do seu trabalho? Sim, um salário objectivamente justo. O que será um salário subjectivamente justo para o Senhor Stefanina?

O empresário respondeu, pedindo mais incentivos ao investimento, benefícios fiscais e o Céu e a Lua da praxis capitalista e do desenvolvimento na óptica empresarial. Isso para dizer que os salários só serão dignos quando o dinheiro sair não da justiça da relação laboral: salário correspondente ao trabalho produzido, mas sim quando o Governo der mais e maior margem de lucro aos empresários…

O jornalista coloca, com pudor, o dedo na ferida.

EX. – Quanto aos salários praticados na indústria hoteleira, são justos?
AS. – «O mecanismo é sempre o mesmo, embora sejam diferentes os factores que estão na origem das desproporcionalidades. A questão salarial não pode ser analisada de modo isolado. É preciso ter em conta o contexto económico em que operam as empresas e a conjuntura do mercado».

É, o mecanismo é sempre o mesmo, sem dúvida. O maior factor do empobrecimento do trabalhador cabo-verdiano, nomeadamente o da hotelaria, é o facto de receber um salário inferior ao produto do seu trabalho.

A questão salarial tem uma base: o trabalho e o produto desse trabalho, e esses é que devem ser os determinantes do salário. Existem factores condicionantes, sim. São de ordem meramente conjuntural e devem ser consideradas, mas será que o país vive em crónica conjuntura desfavorável?

Não, é claro que não. Se a conjuntura económica do país tem sido boa – a passagem a PDM é prova disso mesmo – e os investimentos do empresário em causa revelam que, pelo menos para ele, a conjuntura tem sido boa; então, porque não aumentar o salário dos seus empregados para níveis dignos?

Era uma pergunta a ser feita a um empresário que encontrou no país um El Dorado e deve, tem o dever de retribuir com justiça a todos aqueles que o ajudam a aumentar a sua fortuna.

O país precisa de um salário mínimo, já! E deveria começar na indústria hoteleira. Ah, já agora, sabe quanto é que custa uma noite num dos hotéis do grupo Stefanina? Sim? Então, pergunte lá a quem sabe qual é o valor dos salários dos empregados do mesmo grupo…

Então, perceberá a verdadeira dimensão da minha
perplexidade.

Ah, a minha perplexidade estendeu-se ao sentido ou não sentido das perguntas do jornalista; isso por não ter feito ao empresário uma pergunta simples e necessária (em substância):

– Os empregados do Stefanina têm salários justos?
.
Quem é que perguntará isso ao Stefanina e a todos os empresários em Cabo Verde? Sim, temos de nos habituar e atrever a ser incómodos, a questionar as coisas e as causas das coisas. Só assim o país poderá abrir os olhos para algumas realidades que empobrecem não somente o trabalhador mas o homem, a pessoa.

Note-se que não é a pergunta em si, é o dever de ir-se mais além no exercício da actividade jornalística, de ser uma espécie de pedra no sapato do poder – de todo e qualquer poder, do político ao económico, passando pelos pequenos e aparentemente adormecidos lobbyes sociais.
.
Agora, uma coisa seja feita justiça ao empresário: admitiu a injustiça dos salários dos cabo-verdianos. E se é o próprio empresariado que o assume – o que quer dizer que a realidade é de modo gritante que não se pode negar sem ser-se não sério – onde pára o Governo, onde pára a oposição para, de uma vez por todas, pôr-se cobro a esta injustiça? A justiça social é feita pelos Governos, esta deve ser feita agora. Sim, salário mínimo já!

Milo Manara, Les femmes

  • THOUGHTS I

A lonely swan from the sea flies,
To alight on puddles it does not deign.
Nesting in the poplar of pearls
It spies and questions green birds twain:
"Don't you fear the threat of slings,
Perched on top of branches so high?
Nice clothes invite pointing fingers,
High climbers god's good will defy.
Bird-hunters will crave me in vain,
For I roam the limitless sky."
Zhang Jiuling

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Our galaxy, the Milky Way - A nossa galáxia, a Via Láctea

  • "Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla." in O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry
Eagle nebula, M16 / a Nebulosa de Águia, conhecida como M16
.
  • "Se tu amas uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas." in O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry

Sodom´s Princess, Luis Royo