sábado, 10 de maio de 2008

Madame Butterfly [Ópera imaginária], Giacomo Puccini

  • A COPULA DO VENTO DAS TRES HORAS

À janela, um pássaro madrugador
evoca como meu mestre o sal da memória:
«Olhai os ventos roçando
os campos
de longa e extensa nudez.
Senti o prazer das flores acariciadas
pelo pensamento, assobiadas nas ruas
verdes e silenciosas
ajoelham-se, em reverência, suave
como pranto-sonho Mindelense
à espera de um amante invisível,
presente como um Deus
e duro de ver, como o amor adiado
que procura amar plantado à beira-mar
e atenta no Liceu. Até hoje».

Evolution (fragment), Luis Royo

  • QUANTUM MULATA

There was a time in Europe long ago
When no man died for freedom anywhere,
But England's lion leaping from its lair
Laid hands on the oppressor! it was so
While England could a great Republic show.
Witness the men of Piedmont, chiefest care
Of Cromwell, when with impotent despair
The Pontiff in his painted portico
Trembled before our stern ambassadors.
How comes it then that from such high estate
We have thus fallen, save that Luxury
With barren merchandise piles up the gate
Where noble thoughts and deeds should enter by:
Else might we still be Milton's heritors.
Oscar Wilde

sexta-feira, 9 de maio de 2008

  • O LUGAR DO SONHO E DAS COISAS
Silvio Berlusconi – com inesperados apoios de uma Europa rumando em direcção às teses da direita xenófoba e desumanizada – já tinha avisado: quer fechar as fronteiras e criar campos de identificação dos estrangeiros sem trabalho em território italiano.

Parece que leva a sério essa promessa, pois a primeira questão do primeiro dia do Conselho de Ministro do seu Governo foi dedicado à imigração. Há que cumprir com alguma coisa de imediato: algo possível, mediato e que satisfaça as hostes descontentes de uma pátria em crise de tudo – não há que saber.

É mesmo uma acção política by the book

Iremos ver em Itália coisas mais gravosas do que já acontece em Lampedusa? Tudo indica que sim, e a nossa memória é fraca, muito fraca. Adensam-se as nuvens negras sobre a Europa “solidária”, também. Nem sempre o lugar do sonho é o melhor dos lugares; as coisas e a ambição não podem nem devem tomar o lugar das pessoas.

É preciso um vigia dos sonhos – pensam muitos. Há quem, mais temerário, pense que um monstro à porta e um big Big brother em casa são capazes de executar essa tarefa. Os sonhos são perigosos e não devem ser alimentados; amanhã podem ter a força dos propósitos – pensam.

Eu sei. Eu vejo. Ah, como gostaria de estar enganado! E ouço uma voz longínqua na ilha de Patmos a clamar: Quem tem ouvidos que ouça...

Dreams can take you anywhere

  • MURAL DA AVENIDA LENOX

    Harlem:
    Que acontece a um sonho adiado?
    Será que seca
    Como ao sol uva que mirra?
    Ou encrosta como ferida –
    Donde depois o pus espirra?

    Será que fede como carne em mau estado?
    Ou endurece com açúcar por cima –
    Como um xarope melado?

    Talvez só dê de si
    Como peso que incomode.

    Ou será que explode?
    Langston Hughes, 1951

Fantasy women, Boris Valejo

quinta-feira, 8 de maio de 2008

The Enchantment, Luis Royo

  • A CIRCULAÇÃO DO EURO EM CABO VERDE

«Com as cautelas técnicas e políticas, estamos a estudar a possibilidade de circulação do Euro em Cabo Verde. Trata-se de uma questão de grande alcance técnico e político que deve merecer a necessária ponderação, mas constitui um caminho possível no quadro da parceria especial com a União Europeia” – disse José Maria Neves, Primeiro Ministro de Cabo Verde.

Anotei. O chefe do Governo falava a propósito do 10º. aniversário do Acordo de convertibilidade entre a moeda cabo-verdiana e o escudo português – sucedido pelo euro. Aproveitou a ocasião e elogiou quem, há dez anos, foi o arquitecto do acordo cambial de convertibilidade e paridade – isto é, Gualberto do Rosário durante o consulado ministerial de Carlos Veiga. Fica bem, como dizia o meu Mestre, dar a César o que é de César, pois o país sofre do mal crónico de não reconhecer o mérito alheio, como se isso fosse demérito de quem o faz; pelo contrário: revela grandeza de alma e, no caso dos homens de Estado e em qualquer lugar, dimensão de estadista. O contrário, a antítese disso, também é verdade.

É, por inusual no país, de aplaudir. Talvez a oposição ao Governo deva aprender alguma coisa com essa atitude, pois todos ficariam a ganhar. Só espero que seja postura sustentada no tempo e não uma livre necessidade. O país só tem a ganhar com isso.

Agora, uma coisa resulta certa: não pense a sociedade cabo-verdiana que, à boleia da anunciada Parceria Especial com a União Europeia (que ainda falta concretizar a sua dimensão e extensão política, económica e social), vai ou possa vir a ter uma nova moeda. Até porque é impensável que o país, fora de um quadro de integração política e monetária, possa deixar de ter a sua moeda e prescinda de tudo o que a ela subjaz (nomeadamente das politicas monetárias). Isso seria, sem dúvida, alienar parte substancial da independência do país – no caso da independência económica, na sua perspectiva monetária.

Não é, certamente, o que pensará o Primeiro Ministro. Ainda que não tenha muitas dúvidas de que aja – no Governo e fora dele – quem assim pense. Serão os pragmáticos do Mundo novo, alheios às ideologias e arautos de uma ideia de “nação global” e/ou de uma magistratura dos interesses conjunturais.

Os emigrantes, certamente, ficarão satisfeitos com essa possibilidade – pois poderão ver, pensarão, o seu «poder de compra» reforçado com a eventualidade da circulação do Euro em Cabo Verde. Mas tal resultará do facto de não consideraram as razões macroeconómicas que estão na base da actual política monetária do país e que o acordo de convertibilidade de 1998 veio dar maior sustentabilidade ao nível dos mercados internacionais.

É essa política que permite ao país, por exemplo, aguentar algum embate do aumento dos preços dos produtos energéticos e alimentares nos mercados internacionais e ter, ainda, algum espaço de manobra para evitar aumentos imediatos ou sustentá-los com algum “jogo de cintura”. O dólar, verdade seja dita, tem dado uma ajuda substancial com a sua crescente e substancial desvalorização face ao euro (logo, da moeda cabo-verdiana).

A moeda cabo-verdiana não desaparecerá, não. Nem o seu valor actual será, certamente, revisto como sonham (legitimamente, mas que o país – para manter a sua sustentabilidade económica – não pode responder positivamente) os emigrantes. É que essa política, quer se goste dela ou não, é um dos pilares da economia nacional. Mas é possível a circulação simultânea do Euro e do Escudo cabo-verdiano no circuito económico em Cabo Verde; como, aliás, já acontece a determinado nível de negócios e circuitos comerciais nacionais.

É possível ter as duas moedas a circular ao mesmo tempo – só a modernidade é que tem esta ideia de monolitismo monetário –, mas isso não pode querer dizer que se prescindirá da moeda nacional nem do seu valor facial ou fiduciário.

Angola, por exemplo, há anos que tem uma dupla moeda – o Kwanza e o Dólar americano; ainda que seja uma circulação oficiosa. De tal modo que em determinados locais ou circuitos comerciais praticamente só se use o dólar; o que tem contribuído não somente para o aumento do mercado paralelo, da fuga de divisas (em aplicação da “Lei de Gresham”) e a lavagem de dinheiro ilícito, assim como para uma maior desigualdade social de facto.

Isso para não falar de outros efeitos perversos que, por exemplo, a introdução do euro teve na Europa e em Portugal em particular – nomeadamente ao nível da inflação que prejudicou em muito o poder de compra dos mais pobres ou socialmente desfavorecidos.

É, na verdade, uma matéria importante – mas há que ir com calma e «estender a perna de acordo com o tamanho do nosso lençol», como diria Rabindranath Tagore.

Depois de concretizada – e o país ainda não sabe em que termos é que essa parceria está equacionada (e é bem mais complexa do que parece e/ou se quer fazer crer) – a dimensão da Parceria Especial com a União Europeia o país poderá pensar na eventual utilidade substancial ou não da introdução oficial do euro no país. Até lá, qualquer decisão política nesse sentido será prematura e até contraproducente. Até por razões de estratégia no âmbito da negociação política com a União Europeia.

É que tal tem custos económicos e políticos consideráveis e que não são despiciendos. O país tem de ter a noção exacta da sua capacidade de resposta aos problemas que daí emergirão; e tem de ter, claramente, mais benefícios que dissabores. O povo agradece.

  • Publicação originária: Expresso das Ilhas

  • "Words that are saturated with lies or atrocity, do not easily resume life". George Steiner

Rainbow over Machu Picchu, Peru

Reserva natural de Pacaya Samiria, Amazónia, Peru

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Tattoo woman, Luis Royo

  • GOB GELDOF, OS CRIMINOSOS E A POLÍTICA CRIMINOSA
Bob Geldof, tem sido uma voz a quem os pobres do Mundo muito devem. Por essa razão tem uma responsabilidade acrescida – além de autoridade ao falar de programas de desenvolvimento e de protecção dos excluídos – no uso dessa mesma voz.

Assim, dizer que “Angola é gerida por criminosos” é ir para além do que está autorizado a dizer. É que, além de revelar um desconhecimento substancial entre a situação do “ser criminoso” e ter “políticas criminosas”, o momento não é/era, de todo, o mais adequado.

Deveria ter dito isso em relação à União Europeia e aos Estados Unidos, cujas políticas proteccionistas (nomeadamente na PAC, na questão do biocombustível, nas políticas monetárias e na invasão ao Iraque) têm relegado África à uma situação de miséria estrutural.

Se, é verdade, algumas políticas do Estado angolano remeteram e remetem o seu povo à uma situação de pobreza estrutural, crónica e geracional, a verdade é que as práticas dos países ricos em relação a África, são, não raras vezes, as causa mediatas dessas mesmas políticas.

Sendo, como sou, um admirador da acção humanitária de Bob Geldof, não posso deixar de dizer que, no que concerne a este momento em concreto há que ajuizar: Mene, Mene, Tequel U Farzim.

As baterias deveriam ter sido apontadas para outro lado. Não o foram, por alguma razão o terá sido; certamente. O tempo escrutinará a realidade. Agora, que as políticas norte-americana e europeia de gestão de energia são hedonísticas e, claramente, criminosas nos seus efeitos, não tenho dúvidas.

Mas entendo, sim, o que Bob Geldof quis dizer com a questão da desigualdade gritante e escandalosa que se vive em Angola. Não me admiraria se viesse, um destes dias, a reconhecer um excesso de linguagem. Ficar-lhe-ia bem, sim. Ofendeu, sem dúvida e de forma soez, as autoridades e o Estado angolanos – logo, toda a nação angolana.

Os direitos humanos têm, além de uma praxis, um ethos discursivo. E este foi, no caso, exorbitado. A liberdade, mesmo a de expressão, tem limites imanentes. Há, mesmo entre os homens bons, dias menos felizes, sim.

  • A NATUREZA NÃO ESCOLHE LUGAR
A imagem é eloquente. É um dos perigos de se viver à beira-mar, hoje. Há que pensar no futuro e não somente no bolso e no imediato…
.
Assim, alguém pode me dizer onde estão (ou quais são) os planos de emergência nacionais – do Governo cabo-verdiano e das Autarquias – para o caso do país ter de enfrentar um tsunami, um furacão, um ciclone, um tornado ou algo parecido? Eu, confesso a minha ignorância.
.
É que, em dadas matérias, o país continua a viver como no período colonial: com um século de atraso, quer na acção quer na prevenção. É uma boa altura para os cidadãos saberem o que os políticos – que se propõem a gerir as cidades – têm a dizer sobre isso.
.
O Mundo não é feito somente de coisas boas, não – momentos de tragédia acontecem, e não podem estar sujeitos ao pródigo remediar: há que prevenir, há que estar preparado. O Mundo não tem, necessariamente, de ser um local de gestão de tragédias – como a alimentar que o grassa.
.
A natureza não escolhe lugar, não. Os políticos podem esquecer isso, o povo, não!
  • Foto: Tsunami aproximando-se de cidade costeira.

  • APHRODITE

Quando levemente criança
amei Santa Auxiliadora e seu sorriso.

Hoje sei.

Sim sei, como El Elohim viu Eva,
que existem sorrisos que encantam
e matam efémeros a solidão;
que existem formas que pensamos moldar
e moldam-nos do altar;
que existem deuses que não criamos,
que não são bem nem mal
mas tu criação.

  • Couple with clouds in their head, Salvador Dali

terça-feira, 6 de maio de 2008

João, o Baptista, Leonardo da Vinci, (1513-1516), Louvre, Paris

  • O MAL E A HUMANIDADE COMO ESCOLHAS
O sono fugiu-me e refugio-me na leitura. Releio-o passagens de Radical Evil on Trial do Professor Santiago Nino. Percebo agora – depois de alguns anos –, porque escrevia compulsivamente quando soube que ia morrer.

Atento nas suas ideias em torno dos princípios da autonomia, da inviolabilidade e da dignidade humana com os olhos de sempre, mas, agora, não deixo de questionar a dimensão do mal, do mal concreto, não do abstracto – o mal que se veste com as ideias e que raramente ganha contornos concretos – mas daquele que afecta o dia X, Y ou Z.

A ideia de autonomia expressa a lógica de Carlos Santiago Nino de que existe um bem, valorado pela pessoa e que esta o persegue como fim objectivo, sentido de vida. O problema é quando, no âmbito da autonomia da vontade a pessoa escolhe não o bem mas o mal.

[…] Que fazer?

É que quando assim acontece, os outros dois princípios – da inviolabilidade e da dignidade humana – são prejudicados: as limitações deonticas e a perspectiva do outro emergentes não funcionam como limitações à acção maligna e promotoras do bem mas ganham a dimensão de catalisadores do mal.

O bem subjectivo – a busca da felicidade – esbarra no outro e na sua dimensão subjectiva, na inviolabilidade da sua esfera de existência. O que cria(rá), naturalmente, um conflito de direitos ou uma colisão de interesses. É aqui que funciona uma ideia de bem objectivo – de bem que satisfaça as dimensões objectivas: os direitos humanos.

Então, usando a autonomia da vontade, convenciona-se – na verdade infere-se da natureza das coisas, como os magistrados romanos disseram a Sexto Taquínio, no caso da violação de Lucrécia – um bem objectivo que seja capaz de salvaguardar ambos os bens, com a restrição de um ou de outro. Procura-se, em suma, uma concordância prática entre esses bens ou direitos. Os critérios da necessidade, adequação e proporcionalidade são os aferidores da medida dessa realização.

O Carlos Santiago Nino tinha u
ma visão do homem e dos direitos humanos que partilho – teimo em partilhar – mas uma coisa é certa: o que fazer perante o mal gratuito, a mentira orquestrada e a vontade de prejudicar? Responder na mesma forma, com o mal?

Pouco ou nada se pode fazer contra o mal ou a mentira; uma é combatida com o bem, a outra com a verdade e a sã consciência. Agir da mesma forma é sucumbir ao mal, não é ganhar nada; é perder para o mal. Não existe nenhum dever de retracção, diria o Prof. Santiago Nino, pois existem valores maiores e o de salvaguardar a nossa humanidade – que devemos ter como um espaço inviolável – é, sem dúvida um desses valores. Mas que o mal confronta-nos e coloca-nos perante o maior desafio à nossa existência e à nossa humanidade, é um facto.

Seja na escolha de responder ou não ao mal com um mal maior, seja na desconsideração dos interesses do outro – tal pode ser, desde usar milho, grão ou cana do açúcar para fazer combustível a mentir para conseguir um fim injusto, passando pelo enriquecimento à custa da necessidade ou empobrecimento do outro, como aumentar o preço do arroz para se ganhar mais do que é devido – estamos sempre perante um desvalor da humanidade.

O mal é sempre uma opção, mas a humanidade também é. Cada um escolhe o que valora mais, o que é mais valioso para si, como diria Prof. Santiago Nino (no contexto de Radical Evil on Trial diz-nos é salvaguardar a democracia no contexto de uma sociedade pró direitos humanos).

E, porventura, existirá algo de mais valioso do que a nossa humanidade?

Mono Lake, Sierra Nevada, California

Sea at winter, Polland
.
  • PETITIORIUM

Nada peço
pois certamente nada receberei
– peço muito mais do que nada
e a alma do caos.

De ti quero a nudez
do teu corpo verve
e da tua alma com a simplicidade possível
em salva de prata
de açucenas e malmequeres
enfeitada
com um sim de escândalo verdadeiro
que só incomoda quem não vive.

De Deus e do Universo
peço compreensão, paz possível
e tudo o que há em ti
que me encanta.

Fairy of the Dragons Lair, Boris Vallejo

segunda-feira, 5 de maio de 2008

  • SABIA QUE?...
A Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Incapacidades entrou em vigor anteontem, dia 4 de Maio de 2008.
.
Existem 650 milhões de pessoas em todo o Mundo com incapacidades, quer de nascença quer adquiridas através de acidentes, violência externa ou vítimas de guerra. Esta Convenção vem suprir uma lacuna específica ao nível do Direito Internacional dos Direitos do Homem.
.
Até ao momento, somente 25 países a ratificaram. Porque será? Pergunto.

  • FOME GLOBAL, ENERGIA E GENOCÍDIO

Até há pouco tempo parecia que a questão da vida na terra estava sujeita à uma equação de equilíbrio relativamente simples: população, energia, água e sustentabilidade.

Nos últimos anos, no entanto, a população mundial não parou de crescer – paradoxalmente, ou talvez não, são os países mais desenvolvidos que enfrentam depressões demográficas – chegando a cerca de 100.000.000/ano (cem milhões).

É aqui que a questão da sustentabilidade ganha importância acrescida, pois além de uma maior demanda por alimentos, a produção destes tem sofrido um decréscimo com a crescente escassez de água em certas zonas do globo. Até países europeus, tradicionalmente fartos de água, padecem disso – como é o caso da Espanha que equaciona recorrer à dessalinização e está a reformar o seu sistema de distribuição de água pelo país. Exemplo a seguir, pois o futuro está cheio de nuvens negras (em termos de água, energia e alimentos) e é melhor prevenir para depois não se ter que remediar.

Espanha procura a sustentabilidade do futuro ainda que, como dizia Séneca, «o homem não pode prever, por mais avisado que seja, o perigo que o ameaça a cada instante» (Séneca, Odes, II.13.13). Zapatero e um PSOE visionários? Talvez Plínio, O velho, tivesse razão quando dizia que «os homens de nações diferentes, não são comparáveis uns com os outros» (Plínio, História Natural, VII.1).

Mas como se já não bastassem os problemas que o aumento da população, a falta de água, de energia (que o digam os praienses e as gentes do interior), o aquecimento global e os perigos que representam à sustentabilidade da humanidade, eis que emerge um outro problema: o desvio da produção mundial de alimentos, nomeadamente de cereais, para a produção do chamado biocombustível.

Isso para fazer face ao aumento escandaloso e de todo injustificável do preço do petróleo nos mercados mundiais – sendo certo que os custos de produção não justificam o aumento dos preços actuais. Excepto em países como a Nigéria que – por não terem refinarias próprias – compram produto refinado, diesel, para ter a sua indústria petrolífera a funcionar; nestes o preço acaba por ser fixado pelos custos da compra do diesel. É um paradoxo económico.

A procura massiva de alimentos para a indústria e não para pessoas, naturalmente, afectou o preço dos mesmos. O preço dos cereais está a chegar a valores incomportáveis e em muitos países começa a haver rupturas de stocks e limitações ou proibições de exportação (cerca de 40 países exportadores estão a seguir esta política). A culpa, em grande parte, é da União Europeia – que espera vir a ter 10% do combustível usado na União em biocombustível – e dos Estados Unidos da América que, no ano passado, usou grande parte da sua produção cerealífera nessa indústria. A especulação – sustentada pelas grandes companhias agro-alimentares –, é, também, uma das grandes responsáveis pelos aumentos.

Os países mais pobres e importadores de alimentos, como é o caso de Cabo Verde, são aqueles que mais sofrem com o aumento da energia e dos alimentos. Este impacto poderá ter repercussões negativas no que aos Objectivos do Millennium dizem respeito, nomeadamente em sectores como a nutrição das populações, saúde e educação das pessoas mais pobres ou socialmente fragilizadas.

O Programa Alimentar Mundial da ONU avisa: está em curso uma ruptura dos seus stocks de alimentos e da sua capacidade de satisfazer os seus compromissos humanitários, pois não consegue acompanhar os preços do mercado com o seu orçamento.

Nos últimos meses, segundo a ONU, a sua capacidade de aquisição diminuiu drasticamente: com a mesma contribuição a sua capacidade aquisitiva de alimentos caiu 40% desde Junho do ano passado (início da especulação agressiva nos mercados mundiais de alimentos). O preço do arroz na Ásia, por exemplo, praticamente que duplicou de preço no passado mês de Março de 2008.

A falta de alimentos começa, lentamente, a criar focos de revolta em alguns países. O Mundo, se não atentar nesta realidade, poderá estar perante um novo conflito à esfera planetária; tudo porque os dirigentes falharam e continuam a falhar na gestão da energia disponível.

E basta uma intervenção da Industria da energia – inicialmente aplaudida como uma “boa ideia” – no sensível sector dos alimentos para se provocar uma crise alimentar mundial; uma crise humanitária que poderá transformar-se em catástrofe planetária.

Os efeitos psicológicos do mesmo já começam a manifestar-se: no outro dia, ao chegar à casa, deparei-me com uma catrefa de gigantescos sacos de arroz. Sorri e pensei: «isso aí é arroz para muitos anos…». Ainda quis perguntar à minha mãe, em jeito de brincadeira, se ela ia abrir uma mercearia; mas não disse nada, pois ela é de uma geração que viu as fomes de 1941 e 1947, ainda que, para sua felicidade, não a tenha sofrido na pele. Mas é coisa que, certamente, quem viu nunca esquece; muito menos quem a sofreu.

Há qualquer coisa de profundamente imoral e fétido no mercado mundial da energia e da produção de alimentos no Mundo que urge tratar. Na verdade, o uso de cereais para produzir energia, quando existem milhões a morrer de fome – além de que pode lançar outros tantos nos braços da fome, como está a fazer –, é uma actividade criminosa. Pode não ser tipificada como tal – em muitos países, como nos europeus –, mas tem essa natureza. É, em minha opinião, o que é denominado na Ordem jurídica norte-americana de “conspiracy to commit genocide”, uma conspiração para cometer genocídio; um genocídio dos mais pobres. Se não é assim, parece; pelas suas consequências. Poderá até ser por negligência – no que aos Estados diz respeito –, mas tal só poderá ser consciente.

No outro dia, em Portugal, o preço do leite disparou: a produção do leite tinha baixado e tinha-se de aumentar os preços – diziam os fornecedores. Lembrei-me, então, de que ainda há pouco tempo via milhares e milhares litros de leite a serem destruídos porque se tinha “ultrapassado a quota de produção” de leite nos Açores e que se assim não fosse feito o país seria penalizado pela União Europeia. Entretanto, milhões de crianças sofriam de mal nutrição e morriam algures no planeta a sonhar com uma côdea de pão e um pouco de leite.

O mesmo se diga de muitos outros produtos, como, v.g., os lácteos que de vez em quando são incinerados nalguns países – como na Holanda – por razões de equilíbrio de «mercado». É tempo da comunidade internacional atentar num facto: ou controla e humaniza os mercados de energia e de alimentos ou então não haverá barreiras capazes de conter a fome em forma de ira.

Mas deve fazer isso não por medo, mas sim porque é um imperativo moral, de humanidade. O Mundo e o bem-estar não é somente de e para alguns; é de todos. É preciso, sim, globalizar o bem-estar. Mas, também, é preciso aprender alguma com esta crise – todos devem aprender.

A contínua desvalorização do dólar (“preço do dinheiro”) pela Reserva Federal norte-americana não augura nada de bom; é que se é uma necessidade do país, o mesmo provoca uma disfunção nos mercados internacionais, que usam o dólar como referência, continuará a provocar o aumento dos preços dos combustíveis e obrigará à uma maior produção interna de energias alternativas, como o biocombustível.

Os números são assustadores. O futuro tem nuvens cinzentas no horizonte para os países mais pobres e importadores de alimentos, cujos cidadãos não poderão comportar os custos dos aumentos dos produtos alimentares.

Países como Cabo Verde (que não pode ter “independência alimentar” mas pode e deve ter a energética), por exemplo, deveriam fazer um esforço de concertação social e – e não é só por essa razão, não – aumentar para valores condignos a remuneração dos seus cidadãos; em muitos casos verdadeiramente indigna e degradadora dos cidadãos trabalhadores. Um salário mínimo condigno é preciso, já!

sábado, 3 de maio de 2008



Em gavota, escuto:
«Quando nasceram de rochoso parto
solitários vaguearam os rios e os ribeiros
nos montes e vales de mel
até o corpo do mar-fermento-vida
onde beijaram o sal da companhia
serenos
e perdidamente unos».

  • COLÍRIO IMPREVISTO

Passeava pelas sete colinas desta cidade descuidada de tudo quando vi um velho cego sentado numa dessas escadas de xistos que branqueiam as avenidas ermas de alma e, sem dinheiro, disse-lhe:
– Boa tarde!...

E ia seguindo o meu caminho, quase envergonhado por estar teso, quando escutei um murmúrio:

– … Boa tarde! Obrigado…

Intrigado, voltei atrás e perguntei-lhe:

– Porque me disse obrigado? Não lhe dei nada…
– Pensa que não – respondeu com os olhos da escuridão brilhando como uma super nova –, mas deu-me uma boa tarde, viu em mim uma pessoa…

Fiquei, nessa tarde, redimido dos meus silêncios e as minhas trevas ganharam sentido.

Junho, 1981

  • Wolf attacking centaur, Boris Vallejo

sexta-feira, 2 de maio de 2008

The fishing line, Luis Royo

Giraffe, Masai territory, Kenya

A dragon coming out of the Ocean, Boris Vallejo

  • O HUMANISMO DE S. AGOSTINHO – O AFRICANO MIGRANTE

Quid est homini? Há algum tempo atrás, a propósito de um texto «Descendentes Migrantes: Saudade de Terra nunca Vista» que publiquei no Liberal de 6.11.2006, recebi um escrito electrónico de uma amiga a alertar-me para o facto de que a juventude actual deveria atentar mais nas suas capacidades do que nas adversidades que enfrentam. Concordo com ela, e com Sartre digo que é verdade que o que importa, pelo menos essencialmente, «não é o que fizeram ao homem, mas o que ele faz com o que fizeram com ele» ou, como ouvia no Mindelo quando era menino: «a necessidade é inimiga da honra mas também mãe de todas as virtudes».

Então, depois de passar pela «Bela Ipanema» em Lisboa com uns amigos e com eles tertuliar, lembrei-me de Santo Agostinho, da sua vida, do paralelismo que tem com a juventude inquieta e deserdada de hoje e do exemplo de como os devaneios dessa idade podem servir como alicerces de uma vida com sentido maior.

É recorrente na sociedade portuguesa a veiculação da ideia de «ausência de referências» nas comunidades imigradas – nomeadamente da incorrectamente denominada segunda geração – de «modelos» de referência (o que é um discurso que se diria parolo e de quem não conhece ou quer ignorar a realidade social). Do mesmo modo que se escuta a voz baixa um clamor reclamante de só existirem escritores de referência do espaço negro lusófono que são «brancos» com origem berciária africana mas que o não são.

Parece-me que ambos os juízos estão errados pois partem de premissas falaciosas quanto ao que devemos considerar a «identidade» da pessoa e/ou aquilo com que se identifica; seja na ideia, seja no modelo societário segmentado ou universalmente considerado em dado momento.

Escrevo este texto à propósito de Santo Agostinho de Hipona que (depois de Jesus Cristo, S. Paulo, S. Pedro – pela sua dimensão mítica e não pela sua obra teológica –, S. Lucas [pelo carácter histórico e investigativo do seu Evangelho e do livro dos Actos dos Apóstolos], Origenes, os imperadores Constantino e Licínio – pelo seu contestável mas historicamente incontornável Édito de Milão de 313 d.C. –, Gelásio I e S. Tomás de Aquino) é a figura mais proeminente da história do pensamento cristão. Alguns dirão que esqueci os reformadores e figuras como Calvino – de quem, em parte, sinto-me uma espécie discípulo desviado – Lutero e outros; é verdade. Mas é propositado. Assim como «esqueci» S. Gregório de Nissa, S. Jerónimo e uma imensidade de sábios que uma breve consulta a uma Patrologia elucida(rá) (A Patrologia Latina de Migne e a breve Patrologia de Altaner/Stuiber são referências). O que só demonstra a dimensão intelectual de Agostinho de Hipona e da especial estirpe do seu pensamento e da sua importância na história não somente do mundo afro-ocidental mas da humanidade no seu todo.

A ideia primeira que temos de um «africano» ou de um «europeu», é a que nos é dada pela dimensão primitiva do nosso espaço cognitivo – a etnicidade revelada pela cor. O que é de todo erróneo; um homem não é tanto o que é herdado geneticamente (quem tem factores determinadores do seu devir existencial) mas, essencialmente, o que o adquirido social faz dele.

A etnicidade ou o aspectro bio-social imediato são contingência da personae e não o que ela é; pelo contrário, o seu espaço berciário e de desenvolvimento é nele mais relevante que o seu espaço étnico/racial/social herdado. Deste modo se entende que o movimento dos Claridosos cabo-verdianos, não sendo, na totalidade africanos, étnico-racialmente falando, se identificaram com a vivência e o sentir do povo das ilhas de Cabo Verde e emergiu nas suas almas um novo sentir que gerou um imaginário poético-vivencial que hoje é uma herança cultural dos cabo-verdianos e dos africanos em geral. O mesmo se poderá dizer – mutatis mutandis – de um Pepetela ou de um José Eduardo Aqualusa, pese embora a relativa juventude deste último.

O que faz um africano? Haverá que perguntar: (a) o que nasceu em África ou (b) aquele que se identifica com o seu destino? Se a resposta é a primeira, no âmbito do critério territorial do ius soli, a verdade é que existem muitos africanos que não têm identificação étnico/racial com o continente; mas sentem-se de todo africanos e são-no na realidade! Notemos que uma das questões mais fracturantes da sociedade portuguesa contemporânea tem a ver com expurgação da nacionalidade portuguesa aos nascidos nas províncias ultramarinas antes de 1975 e que foi reforçada com a Lei da nacionalidade portuguesa que prescindiu em parte do critério do ius soli para favorecer o do ius sanguinis – critério étnico.

Reclamam as comunidades imigrantes o critério do ius soli, por razões que nada têm a ver com o que agora nos ocupa mas que é sintomático do que se almeja. Isto é, directa ou indirectamente, existe uma identificação com alguns valores da sociedade de acolhimento ou com o destino que com ela compartilham. O que não quer dizer que exista uma alienação do espaço berciário mas sim que se procura no espaço de acolhimento um novo ideário ou modelo social ou espaço identitário – o que, na verdade, é per si o questionamento das teses integracionistas plenas.

Aceita-se, prima facies e como regra que é africano quem nasce em África e se identifica com o seu destino – o que, com alguns desvios conjunturais, é também aceite quase universalmente. Deste modo, podemos afirmar que é africano quem se afirma como tal ou quem, nascendo no continente, identifica-se com o destino do mesmo. Mas o que tem isso a ver com Santo Agostinho?, perguntar-se-á.

África, como é consabido, é um espaço geográfico e identitário particular cujas origens não se encontram na hoje chamada «África profunda» mas sim no norte do continente – nomeadamente nas antigas Cartago, Líbia, Mauritánia e Numídia. É aqui, em particular na antiga Cartago, que jaz o berço da ideia de África. E é neste mesmo espaço – na cidade de Tagasta, a actual Sukh Ahras, na Argélia (então chamada Numídia), próximo da fronteira com a Tunísia e a escassos oitenta quilómetros da costa mediterrânea – que nasceu, a 13 de Novembro de 354 a.D, Santo Agostinho de Hipona.

Deste modo, Santo Agostinho, um dos mais insignes pensadores da cristandade – que, a meu ver, só tem como par figuras como Origenes, S. Paulo, S. Anselmo, Tertuliano e S. Tomás de Aquino – era, por ius soli e pela universalidade do seu pensamento unificador da humanidade, africano, tão africano como eu sou ou, analogicamente, tão português como era D. Sancho I. Mas era, também, à imagem dos jovens portugueses negros de hoje, «imigrante de segunda geração» que sentia-se em Cartago, na sua África natal, em casa mas que ansiava por conhecer Roma só para vir a descobrir que o seu lugar era Cartago, a sua amada África.

Depois de viver uma juventude dedicada à devassidão com prostitutas, muita bebida e toda a espécie de vícios – tendo mesmo um filho ilegítimo (Adeodato=dado por Deus, de seu nome) com uma amante prolongada – encontraria o seu caminho, o seu lugar na existência. Nessa senda de perder-se e reencontrar-se, tornar-se-ia um teólogo de alma imensa, filósofo, moralista e apologista da graça divina como veículo de recuperação do lugar do homem na ordem das coisas. Aprendeu retórica em Cartago, onde ensinou gramática até os 29 anos de idade, partindo então para Roma e Milão onde foi professor de retórica junto da casa imperial – provavelmente no Imperium de Valentiniano

Ali se converteu ao cristianismo pelas orações e lágrimas de sua mãe, mais tarde S. Mónica, e pelas pregações de S. Ambrósio, Bispo de Milão, por quem seria baptizado em 387 a.D (o Imperium estava então dividido e Valentiniano II era Dominus de África, Ilíria e Itália enquanto Teodósio tinha o Imperium no Oriente).

Volta para África em veste de penitência onde é ordenado sacerdote e depois, então com 42 anos de idade, Bispo de Hipona. Inicia o seu livro «Confissões» – um verdadeiro testamento intelectual – dizendo: «Senhor, criaste-nos para Vós, e nosso coração não tem paz enquanto não repousar em Vós». Tolstoi e Blaise Pascal viriam a parafrasear esta oração dizendo que «no homem existe um vazio na forma de Deus» (Pascal, Pensées, 67) e que consubstancia uma forma de existencialismo cristão que, paradoxalmente, encontra assento nas teses de Pelágio e da sua ideia de liberdade e de inexistência de culpa «herdada» de Adão. Mas esta ideia de Santo Agostinho tinha, até pelo carácter da obra (Confissões), uma dimensão pessoal: encontrou-se em Deus depois dos devaneios da sua juventude.

Agostinho – em razão da sua formação eclética, uma vontade indómita e uma mente esclarecida e iluminada – assumiu-se como um dos homens mais importantes do seu tempo. Combateu com grande capacidade e esclarecimento as heresias do seu tempo, principalmente o donatismo e o pelagianismo de Pelágio (o teólogo da «heresia do Ocidente») que desconsiderava a graça de Deus. Na verdade, os dois protagonizaram uma das maiores controvérsias da história do pensamento cristão e que diríamos ser quaestio entre a dimensão da liberdade humana e a da graça divina defendida por Santo Agostinho na senda de São Paulo – «Pela graça sóis salvos…», dizia este aos Efésios (Efésios, II.8).

Note-se que esta questão está intimamente ligada à da predestinação – defendida pelos valentinianos e tacitamente admitida por Origenes – e que migraria para o seio da Igreja protestante na forma do semipelagianismo e que ainda hoje divide «Calvinistas» e «Armenianistas», correntes doutrinárias evangélicas ou protestantes.

O novo cristianismo ou “cristianismo novo” das «novas» Igrejas protestantes/evangélicas não têm – hoje e em regra – escola doutrinária e dogmática para se posicionarem sobre estas matérias; mas as mais antigas ou com escola teológica encontram-se ainda enformadas e afrontadas pela questão teológica e prática de saber (v..g., nazarenos, baptistas, assembleianos…) se «uma vez salvos, salvos para sempre?» que remete para a discussão entre graça e liberdade e/ou livre arbítrio – a que Espinosa chamava, com propriedade, de “livre necessidade”.

A adesão de Agostinho, durante uma década, às doutrinas dos gnósticos maniqueístas –- outra «heresia» do seu tempo –- é aparentemente intrigante se desligada da sua busca de sentido de vida. A verdade é que esta ligação ao maniqueísmo deu-lhe forças para superar as suas fraquezas morais e, como dizia o profeta Isaías (Isaías, XLIII), renovar as suas asas como as águia e começar uma vida de «separado» –- Santo perante Deus e a humanidade.

Na sua monumental obra A Cidade de Deus, que demorou 13 longos anos a escrever, afirma, a modo de síntese dessa obra que «dois amores fundaram, pois, duas cidades, a saber: o amor próprio, levado ao desprezo de Deus, a terrena; o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial». Ainda aqui se encontram influências do seu tempo manequeista mas já liberto das presas dos sentidos e entregue à graça divina. Era, já então, o «Doutor da Graça».

É verdade que S. Agostinho tinha uma cultura formal greco-latina – como tinham todos os pensadores da época –, mas isso não retira ao homem e à pessoa a dimensão berciária e espiritual da africanidade que viria, certamente, a influenciar as suas escolhas futuras (O que uma leitura, ainda que não muita atenta, das Confesiones [Confissões] e da De civitate Dei [A Cidade de Deus] nos revela de uma forma bastante clara). Do mesmo modo que os escritores contemporâneos de língua portuguesa e “não negros” não deixem de ser africanos... Dizer ou afirmar-se o contrário é sujeitar-se ao juízo de Othelo – o primeiro grande herói literário negro no imaginário europeu/ocidental – sobre Emília quando esta, debalde, tentava defender Desdémona: «O céu sabe verdadeiramente que és falsa como o Inferno» (Shakespeare, Othelo).

Santo Agostinho, inicialmente jovem universal pelo pouco apego à escola, devasso e mundano – como é muita da juventude do nosso tempo, mutatatis mutandis – viria a tornar-se referência exactamente pelo eclectismo da sua formação fora do canon da “normalidade” formativa do seu tempo.

É com ele que se dá a passagem da lógica medieva para a renascentista (ainda que estivesse, temporalmente, muito longe do Renascimento); essencialmente ao tentar conciliar a racionalidade do platonismo com a fé. Em Santo Agostinho razão e fé não são espaços antagónicos do conhecer mas sim complementos do que é o homem ou a pessoa. Mas a maior referência em Santo Agostinho dá-se no âmbito da sua humanidade.

O seu compatriota continental, Aníbal Barca – que conquistou a Europa antes dos momentos pháticos dos descobrimentos e da migração conquistadora europeia – já não era assim. Aníbal, o Africano, tão africano como Santo Agostinho de Hipona; e este tão europeu como cidadão do mundo; ele que, na realidade, era estrangeiro na Terra e Embaixador de um reino diferente – o reinado do seu Mestre: o reino de um Mundo onde os homens não têm nacionalidade. Este é o africano, cidadão universal e proto-referência do que é ser-se africano em essência, a crer-se na paleontologia: a referência primeira da humanidade e migrante à nascença.

Não têm os africanos migrantes referências? Têm-nas! O que não têm é consciência da sua história e memória colectivas. Lembrar Agostinho de Hipona, é relembrar um homem cuja dimensão universal é um modelo de interculturalidade e multiculturalidade; é afirmar que o homem vale por si, como pessoa – como «papel que representa» no mundo que o rodeia em dado momento – e não pela sua origem nacional e/ou étnica.

A dimensão universal ou consciência do destino comum da humanidade é o que importa na realidade. Tiveram consciência disso homens como Leopold Shengor, um esquecido de si mesmo como Nelson Mandela ou Patrice Lumumba – exemplo de “homem comum” que compartilhou com eles e Kunta Kinte, Joseph Cinquez e um exército de heróis anónimos, um ideário de liberdade, uma lógica de liberdade que engrandece a humanidade como espécie.

Eventualmente o que nos falta, hoje, é cultura; mas uma cultura de humanidade para além do que nos é aparente aos sentidos – isso sim, é uma referência que transcende a efemeridade dos espaços-nação e das poucas primaveras dos homens. Algo que podemos aprender com Santo Agostinho de Hipona – o Africano do passado e de Nelson Mandela, o bom (tomando emprestado um sentido de Rousseau) africano no presente.

Ao ler e ouvir nos media épicas verberações sobre nada ou de conteúdo alienativo em temáticas como a imigração, o comportamento desviante dos jovens afro-europeus e o modelo de formação via institucional da sociedade, consigo compreender porque, actualmente, alguns dos espíritos mais profundos e atentos do nosso tempo eventam um pessimismo ardente sobre o presente estádio da cultura ou do pré-caos cultural em que se nos encontramos.

E não posso deixar de pensar que, em parte, têm razão; basta(rá) pensar em duas coisas: a) o abismo crescente entre a cultura da pessoa e a cultura das e para as coisas; e b) na intolerância revelada pela inteligência de pessoas que se pensam extraordinárias e utilizam a palavra dos media ou da autoridade a esmo e como instrumentos de instauração de uma guerrilha verbal que em nada contribui para o bem estar da comunidade em geral, nomeadamente de uma sociedade multicultural.

Perante esse sentir, não é possível deixar de pensar no futuro da cultura numa sociedade que negligencia a formação do homem. O que é preocupante se tivermos em linha de conta que a qualificação humana das pessoas é o fim último da cultura. O que faz-me ter de concordar com um facto que perturba a mens libera dos nossos tempos: comparados com a gloriosa Atenas de Pericles (Sec.V, a.C.), com a Itália Renascentista, “idade das trevas” – Idade Média [Aquino, Origenes, Gregório de Nissa, Anselmo, os gnósticos e mileneristas...] ou com o helenismo de Alexandre Magno, uma coisa é certa: estamos falhos de cultura - e nada pode remediar essa deficiência. Mas não de cultura enquanto actividade sucedânea, pois tal mais não é que uma forma de conseguir mais um bem; e não é de ter e de conseguir coisas que precisamos [pois nunca tivemos tanto...], é de cultura enquanto valor espiritual e formadora da personalidade capaz de olhar o seu semelhante como seu igual em dignidade – ainda que o não possa ser e não seja noutras coisas.

Aqui voltamos à Santo Agostinho e ao seu exemplo de serenidade aprendida quer no respeito pelo valor do homem/pessoa quer pela contemplação do divino. A obra de Agostinho é mais contemporânea do que se possa imaginar, e influenciou mais pessoas e pensadores do que qualquer outro. Na filosofia de Santo Agostinho e de seus seguidores ou interpretes podemos desbravar e encontrar um manancial de bem que encontra-se escondido na alienação.

Boecio [De Consolatione Philosophiae; vide edição espanhola de Rodrigues Santidrián: «La Consolación de la Filosofia»], por exemplo, com uma interpretação mui sui generis do pensamento e da doutrina agostiniana, do racionalismo platónico e da lógica aristotélica legou-nos uma filosofia humanista incomensurável: «o homem pode matar o corpo mas não a alma»; é este legado e clamor de liberdade interior contra os que tentam ou pensam que podem eliminar a dignidade humana e que ainda hoje fala mais alto que o Orwelliano «Big Brother» (George Orwell, 1984). Mais do que isso, encontramos no exemplo e filosofia de Santo Agostinho e deste seu interprete algumas razões para viver – principalmente um exemplo de um caminho para a afirmação da dignidade do homem em paz e em serenidade; seja quais forem as razões externas que o limitam ou possam limitar.

No fundo aprendemos a ser responsáveis por nós mesmos, pelas nossas acções e pelo destino do Mundo que nos rodeia – é a assunção de que o homem vale mais do que aparenta e que tal deve ser preservado. Agostinho, além de ter feito um percurso de e/imigrante em termos sociais e económicos, soube migrar da devassidão dos sentidos para uma vida com sentido e a sua vida é venerável pelo exemplo. Este é um dos muitos legados de Santo Agostinho de Hipona – o migrante africano.

Hoje, perante o estado do Mundo ouço-o - do fundo dos tempos a gritar:

«Afastada a justiça, que são, na verdade, os reinos senão grandes quadrilhas de ladrões? Que é que são, na verdade, as quadrilhas de ladrões senão pequenos reinos?

Estes são bandos de gente que se submete ao comando de um chefe, que se vincula por um pacto social e reparte a presa segundo a lei por ela aceite. Se este mal for engrossado pela afluência de numerosos homens perdidos, a ponto de ocuparem territórios, constituírem sedes, ocuparem cidades e subjugarem povos arroga-se então abertamente o titulo de reino, titulo que lhe confere aos olhos de todos, não a renúncia à cupidez mas a garantia da impunidade.

Foi o que com finura e verdade respondeu a Alexandre Magno certo pirata que tinha sido aprisionado. De facto, quando o rei perguntou ao homem o que lhe parecia isso de andar a infestar os mares, respondeu ele com franca audácia: «O mesmo que a ti parece isso de infestar o mundo; mas a mim, porque o faço num pequeno navio, chamam-me ladrão; e a ti, porque o fazes com uma grande armada, chamam-te Imperador.

[…] Levar a guerra aos vizinhos, avançar depois para novas conquistas, esmagar e subverter por pura ambição de domínio povos pacíficos – que outro nome merece isto senão o de uma imensa quadrilha de ladrões?» (Santo Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus, Gulbenkian, Lisboa, 1996, p.383).
.
Diria, mutatis mutandis, o mesmo sobre as causas e os causadores da crise alimentar mundial.

Francisco de Goya, The second of May

  • Evocação de Goya à batalha da revolta espanhola, ocorrida a de 2 de Maio de 1808 nas Puertas del Sol, Madrid, contra os invasores franceses .

terça-feira, 29 de abril de 2008

Femme se Coiffant, Foujita Tsouguharu

  • EN UN DULCE ESTUPOR
En un dulce estupor
En un dulce estupor soñando estaba
Con las bellezas de la tierra mía:
Fuera, el invierno lívido gemía,
Y en mi cuarto sin luz el sol brillaba.
La sombra sobre mí centelleaba
Como un diamante negro, y yo sentía
Que la frente soberbia me crecía,
Y que un águila al cielo me encumbraba.
Iba hinchando este gozo el alma oscura,
Cuando me vi de súbito estrechado
Contra el seno fatal de una hermosura:
Y al sentirme en sus brazos apretado,
Me pareció rodar desde una altura
Y rodar por la tierra despeñado.

José Martí, Versos de Amor

segunda-feira, 28 de abril de 2008

  • CAPITAL DE NOVA TERRA-LONGE

De terra esquecida e ostracizada, passaste à capital da nação – 500 anos, quinhentos longos anos de desaguadouro de dores e de sonhos, mas nem por isso és uma cidade amada e cuidada; falta-te descobrir a esquadria da utopia.

Tens nome de cidade, mas não te tratam o corpo como tal; serás, de Polis, um filho menor da miragem de cidade-Estado? Pergunta aos Sólons das tuas esquinas limpas; sim, pergunta, ó Praia dos esteios.

És capital, mas não investem em ti o que tens da tua natureza; o sonho passeia pelas tuas ruas e perde-se como uma morna em Andrómeda sem porto de volta – mas os teus filhos são pródigos.

Teu nome é resgatada borda do Mar, lugar de descanso do mais longínquo pleito da terra, e esperas o silêncio das mãos canibais. Dá-me; sim, dá-me ao longe os teus dias passados de gozo e mudos de mal; sim, dá-me o teu capital paz de ontem. “Ó Praia de todas as esperas, deixa-me nadar no teu mar urbano sem medo, sem a escuridão que despertam os gongons de faca” – gritam teus filhos próximos.

És a imagem imperfeita da nação, por isso não te consigo ver na noite escura; teu brilho perde-se nos jardins de mãos em recato de acção dos pais da pátria que só te despertam para o dia do julgamento e da festa. Não te vêm, não escutam o teu pulsar de coração da terra a germinar gigantes sobre o mundo; um dia acordarás e não caberás em ti.

E navega no teu nervo essa esperança, mas não vês. O que vês pelas tuas ruas, ó Praia dormida, é o lixo da inconsciência, os animais famintos, gente perseguida por gente-gentio e caçadores engravatados de espada cega e mão grande das raias do continente. A tua esperança, Praia, teima em não mudar de destino.

Ah, não escutes, Praia dos estais, quem te diz que és e te faz d´Jôna, não. Mesmo na noite escura, mesmo nas tardes secas, mesmo com as pernas abertas, és, de todo, bela. És, sim és, a ponta maior da finisterra, capital da terra-longe dos filhos paridos longe de ti. Ah, és esteira de sonho lactente - escutei de voz sibilina nos teus cumes.

  • Imagem: Floresta, Japão

domingo, 27 de abril de 2008

  • NÃO CONVENCIDO

Dizia, em exórdio de prazer:
“Atravessei negro o túnel da vida
e sei,
sim sei
que o silêncio dos meus actos
são mil nós
dos corvos que me rodeiam.”

  • Imagem: Box full of Surprises, Luis Royo

Artistic Conception of Spirit, Ma Dongmin

sábado, 26 de abril de 2008

Artistic Conception of Spirit, Ma Dongmin

  • Y TE BUSQUÉ
Y te busqué por pueblos,
Y te busqué en las nubes,
Y para hallar tu alma,
Muchos lirios abrí, lirios azules.
Y los tristes llorando me dijeron:
– ¡Oh, qué dolor tan vivo!
¡Que tu alma ha mucho tiempo que vivía
En un lirio amarillo! –
Mas dime – ¿cómo ha sido?
¿Yo mi alma en mi pecho no tenía?
Ayer te he conocido,
Y el alma que aquí tengo no es la mía.
José Martí, in Versos de Amor

  • MY DREAM OF YOU

Hoje, escutava a minha alma
em penitência:
“O meu sonho de ti
é pomba imolada no altar,
é cordeiro em incensário,
é canto de louvor feito sacrifício,
é amor gerado de dor,
é ramo de palma emoldurando-me a alma,
é navio sem porto,
é desejo sem paragem,
é sentimento sem forma nem imagem,
é encanto sem forma de desencanto,
é vago temor de te amar,
é vontade de te tocar profundamente…
é nódoa que não mancha,
é negritude perdida em cristalino,
é opacidade de redenção denunciada,
é emancipação da redenção,
é cópula silenciada de silêncios,
é bem e é mal,
é divino e é profano,
é absoluto e é miragem,
é Alfa plenilúnio de Agosto em Mindelo,
é meu Ómega que se reduz
às formas tremendas da tua alma
à descobrir em corpo de sins.”

sexta-feira, 25 de abril de 2008

  • a ti, MPF

RACISMO. A IGNORÂNCIA DO PRETO

Uma das grandes questões das sociedades modernas é, sem dúvida, o racismo patente ou latente. É, claramente, não um problema de culturas mas de falta de cultura; no limite, no caso de Carl Schmith, de excesso de cultura.

Quem, sendo africano ou não caucasiano, já não foi vítima de racismo? Eu, já. O “preto”, o “negro” – dito com ânimo acintoso – ou o eufemístico “homem de cor” são expressões que têm provocado equívocos monumentais, violência gratuita e discriminações injustas ou desnecessárias.

Não raras vezes é tida como inexistente – como a própria ONU reconhece. «As leis e as medidas nacionais para assegurar a sua eliminação são, em muitios países, inadequadas e ineficazes. Em consequência disso os grupos vulneráveis continuam a sofrer agressões enquanto os abusadores gozam de impunidade» – disse a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Louise Arbour, durante uma reunião preparatória da Conferência de Durban sobre direitos dumanos de 2009 e que ocorreu no dia 22.04.2008 em Genebra,.

Ao que tudo indica, muitos Estados continuam a não reconhecer a existência de racismo e xenofobia nos seus territórios. As razões para a existência do racismo são multiplas, assim como as da negação da sua realidade; como veremos.

A ideia do “preto” jaze no plano da ignorância, na falta de conhecimentos básicos quer da física quer das ciências sociais, além de um défice de humanismo. A primeira ideia que assoma(rá) à mente de uma pessoa esclarecida – que tenha um conhecimento mínimo de física ou de história da ciência – é de que só um profundo défice cultural é que levará uma pessoa a chamar outra de “preta”.

É que, basta(ria) uma leitura – ainda que de fontes secundárias – do pensamento científico de Newton, Leonardo da Vinci, Keppler e Einstein, assim como da produção científica contemporânea para se saber que cor é luz e energia. É uma questão de percepção da luz e da energia pelo olho humano.

A “cor” preta não é, em si, uma cor, mas sim a sua ausência – isto é, não existe cor naquilo a que se denomina “preto”, como melhor se verá. O mesmo acontece ao falarmos do branco, pois este – tido como a pedra de toque do fenómeno estético – não é uma “cor” mas sim o produto composto de várias cores primárias. Isto é, não existe “menos cor” que o branco – este é um composto; seria, numa perspectiva da linguagem socio-racial corrente, um “mulato”. De tal assim é que se for decomposta o que se verá é o que denominamos de “arco-iris”.

A problemática da cor entronca-se num facto naturalístico: olho humano – em particular a retina –, é um órgão com uma capacidade limitada de recepção quer da luz quer da energia externas que lhe dão a percepção de “cor” e a retransmite ao cérebro humano.

Essa capacidade do olho humano está limitada a percepcionar a emissão da luz compreendida entre os 400 e 700 milimicrons (unidade de medida da extensão da frequência: microns (u) e milimicrons (mu) ou nanometros (nm). Um micron (u) equivale a um milésimo de milímetro, isto é: (u = 1/1OOOmm) e um milimicron ou nanometro equivale a um milhonéssimo de milímetro [mm], ou seja: (mu = 1/000000mm) e que determina a percepção da cor. Consoante a frequência ou a extensão do espectro eletromagnético, assim será a “cor”. Assim, existem dois extremos de percepção da luz e que nos diz o que é a cor. Num extremo está o vermelho (718,5 milimicrons) e no outro a violeta (variando entre os 393,4 a 486,1 milimicrons).

Por estes valores se pode verificar que, além da extraordinária pequenez da unidade de medida, a violeta é a “cor” de frequência ou intensidade mais baixa dentro do espectro de percepção do olho humano – a dita visão (ide barra de frequência). O preto não se encontra nesta escala, pois é ausência de “cor”.

Mas porque se conclui que o preto é ausência de cor? Tal resulta de um raciocínio dedutivo, de uma inferência da razão: sendo a cor violeta aquela que mais se aproxima do “preto”, e sendo ela a de menor frequência ou comprimento de onda, a conclusão necessária é de que “o preto não existe” enquanto cor, é espaço neutral, uma ausência de cor que absorve todas as demais.

Mas se é assim – numa perspectiva compreensiva do social na sua dimensão étnica e racial (como é comum fazer-se) –, se sou “preto”, não sou percebido pelo meu semelhante. Se não sou percebido, não existo (para usar o juízo de Berkeley). Assim, quando me chamam “preto”, negam-me a existência – seria e é a conclusão natural.

É a negação do humano pelo humano; a negação da dimensão de pessoa (personae, prosopon= o papel desempenhado no mundo) ao ser que negamos a existência. É negação da personalidade – sujeito social de direitos e obrigações – ao “preto”; é, na verdade, remetê-lo à condição de objecto, de” não pessoa”, de “não ser”.

Nesta perspectiva, chamar alguém de “preto” é, sem dúvida um profundo opróbrio e não pode nem deve(rá) ser tolerado. Mas isso tem subjacente uma premissa: quem me chama “preto” sabe(rá) do que estou aqui a ditirambar, sabe o que diz? Tenho, neste aspecto uma dúvida metódica que necessita de uma probatio diaboli para ser ilidida.

Sabe(rá), quem me chama preto, que “preto” não existe para ela, que não é capaz, nem chega para saber o que é e o que não é “preto”? Se chegar, saberá, então, que o preto é o ventrículo central da percepção – a amante da luz e para onde tudo converge e que chamar-me preto é, das duas uma: ou tentar negar a minha existência ou um juízo falho de cultura.

O que sei, sim, é que existo. Estou aqui e ninguém chega ou é capaz de negar-me essa condição – pode até tentar; mas o que sou, sou. “Preto”? Não me importo de ser cognominado de “aquele que absorve a luz”, não; agora, qualquer tentativa de me negar a existência esbarra, naturalmente, num “daqui d´El Rei”.

A ignorância e a falta de cultura são, certamente, os maiores males de que a natureza humana sofre, pois são as principais alimentadoras do mal radical. A individualidade do outro é, necessariamente – seguindo o imperativo categórico kantiano –, o limite.

Agora, subvertendo este ditirambo, sempre diria que um homem esclarecido e que tentasse negar-me – com o “preto” – poderia fazê-lo para si mesmo: basta(ria) usar o juízo de Leibnitz: esse est percipi (ser [existir] é ser percebido). Aí sim, poderia negar-me para si – remetendo-me para o limbo da sua percepção –, mas tal implica(ria), necessariamente, subverter, de todo, o pensamento do bispo Leibnitz. Nada mudaria para mim, o que poderia mudar era a sua felicidade; sendo certo que, digo com os antigos, nenhum crime pode ser justificado pela razão (Tito Lívio, XXVIII.28).

Viver na e da falácia discursiva ou de alma é, também, um direito; assim como o direito à asneira ou a ser inculto e ser-se feliz com isso. Há muitas “velhas” por aí – diria hoje, repristinadamente assombrado, Voltaire e muitas dores, na perspectiva de Salomão.

É, para pessoas assim só nos resta ter a mesma atitude que Jean Valjean teve para com o “mal” encarnado no Inspector Javert (vide, Os Miseráveis, Victor Hugo): praticar o bem, não usar a lei de Talião, quer nas acções quer nas palavras. Tem custos, não raras vezes demasiados (como a de Jean Valjean para com um injusto defensor da “justiça” – Marius), mas que no aproxima do do mais humano que existe em nós.

E quando não se consegue negar o outro, nega-se a existência daquilo que o nega; isto é, os Estados e/ou os racistas, os xenófobos e os aporofóbicos negam a existência do racismo, da xenofobia e da aparofobia como realidade (como irá, infelizmente, acontecer com muitos Estados na Conferência de Durban de 2009).

E escrevo isto a pensar nos chamados “mandjakus” – vítimas de xenofobia na minha terra e de exemplos de promoção do racismo impune vindas do próprio parlamento nacional: um deputado a chamar o outro de preto... Facto que tem um sabor particularmente amargo por acontecer num país africano e dito por um representante de uma nação de gente que sofre o estigma do “preto”.
  • Imagem: Spectrum; barra de extensão do espectro eletromagnético da cor.

Mindelo, Nuno Pombo Costa

  • O SILÊNCIO
Deixa-me embalar o meu silêncio
– pois tem sono, cansado da tua ausência.
Apuleio cantou-nos, sabes?
Eu era porta, tu a espera.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Metropolis, Salvador Dali

The ghost of Vermeer of Delft, which can be used as a table - Salvador Dali


  • ALL THE WORLS´S A STAGE
All the world's a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances,
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. At first, the infant,
Mewling and puking in the nurse's arms.
Then the whining schoolboy, with his satchel
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad
Made to his mistress' eyebrow. Then a soldier,
Full of strange oaths and bearded like the pard,
Jealous in honor, sudden and quick in quarrel,
Seeking the bubble reputation
Even in the cannon's mouth. And then the justice,
In fair round belly with good capon lined,
With eyes severe and beard of formal cut,
Full of wise saws and modern instances;
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slippered pantaloon,
With spectacles on nose and pouch on side;
His youthful hose, well saved, a world too wide
For his shrunk shank, and his big manly voice,
Turning again toward childish treble, pipes
And whistles in his sound. Last scene of all,
That ends this strange eventful history,
Is second childishness and mere oblivion,
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.
William Shakespeare

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Hipnos and Tanatos (Sleep and his half-brother Death) -Waterhouse, John William (1874)

  • TARDE. VÉSPERA DE NASCER

[...]

Ontem foi assinalado o dia “Dia Internacional do Livro e dos Direitos de Autor” e o meu momento de reflexão foi dedicado a terminar a leitura de «My Name is Red” de Orhan Pamuk (definhava, injustamente, na fila de espera). Um livro poético, belo e digno de ser lido.

Ficaram-me na memória uma voz amante: “And already everything has lost its primal mystery” (p.186). E repetiu-se, sempre: “You can tell them you were spreading salve onto my wounds […]” (p.493).

Verbo final: “For the sake of a delightful and convincing story, there isn´t a lie Orhan wouldn´t deign to tell” (p. 503). Pelo Amor, também – penso. É que as histórias e as mulheres gozam da mesma natureza, não é?

Lembro. Quando fiz os exames de acesso à Universidade de Lisboa (a primeira e famigerada PGA) lembro-me de ter de comentar uma frase de António Sérgio que dizia – salvo imprecisão de memória – que “um ivro que não é lido, não existe”. Passados estes anos todos, tenho a mesma opinião de então; e esperava, agora que penso nisso, ter mudado de opinião.

Ler este livro de Pamuk fez-me reviver esse exame e o prazer de então: dizer que há livros que, mesmo não lidos, existem. É que, de certeza – digo hoje –, deve haver uma ponte do Arco Iris em letras onde as belas histórias esperam entre o paraíso e a alma do leitor.

«My Name is Red” deixou essa ponte e está, agora, a navegar pela minha alma. Principalmente hoje; hoje que resolvi ter uma tarde para mim: para não fazer nada que tenha de fazer. Desejo: escutar Heimdall com Freya na ponta da pena, sim; e cair nos braços do Mar de Abril, tu a dizer: “You are spreading salve onto my wounds”.

Sleep, Francisco de Goya
.
  • DROGA, CHEGA!

Quando é que os políticos cabo-verdianos irão entender que tráfico de droga e política são coisas que não andam nem podem andar de mãos dadas e que essa possibilidade nem é (não deveria ser) cogitável de todo?

As eleições ganham-se com ideias e projectos, não com com supeitas que lancem o opróbrio social sobre os concorrentes (não, não são adversários) aos lugares de representação do povo.

Já é tempo do Procurador Geral da República (PGR) chamar quem lança as suspeitas para esclarecer o que tem a esclarecer – se razão tiver, que mostre as provas; agora, de período em período leitoral, falar-se de ligações ao tráfico de políticos é coisa insustentável: para os visados e para a nação cabo-verdiana.

É tempo de dizer chega! Quem tem provas, que os mostre; ou então, que se cale para sempre. Quero saber – eu e todos os cidadãos cabo-verdianos desejamos, certamente, saber – onde estão os inquéritos criminais sobre estas matérias.«Não desprezes a cobra por não ter asas, porque quem é capaz de dizer se um dia não se tornará num dragão?» - diz o sábio
anexim chinês. De atentar, pois estamos perante suspeitas gravosas e que atentam contra valores fundamentais do Estado de Direito. E a República não “pode dormir na forma”...

Doa a quem doer, há que saber o que se passa. Merecemos respeito dos políticos e dos vigias da legalidade – mentir ao povo ou não fazer nada para lhe revelar a verdade é anestisiar a Democracia. Droga, basta!

Espero que os mimos e conflitos que se verificam em torno das questões laterais – como uma clara jurisdicilização da política (perigo para que tenho avisado há muito tempo) – não seja motivo para que os candidatos não venham a público, nomeadamente na Televisão e Rádio nacionais, discurtir os seus projectos. A ver vamos. Há que ter atenção: o povo não é um rebanho de ovelhas, não.

Odalisque, Jules Joseph Lefebvre

Ignoti nulla cupido.
Göethe

NATURE DES SACHE

Escutava,
a modos de negro Werther,
um menino que conheci em Mindelo:
«No dia em que Shidhartha se iluminou,
teve mil orgasmos
e esgotou-se de sonhos.
Eu, caminho à sombra da lua,
na epiderme do desejo,
na roça cunnus de mel
e nos silêncios ofegantes:
– quero sonhar,
tatear alma solar,
rasgar de mãos o horizonte
e depois, depois
continuar a existir depois de mim…»