sábado, 9 de outubro de 2010

  • A ORIGEM DA SOLIDÃO

A chuva entra na minha alma,
e canta-me um milhão de desejos;
desejos que só podem ser teus, pois queima-me,
queima-me como a Terra virgem ao nascer no coração do Sol,
o Sol menino do grande grito do Universo
que ao despertar aprendeu o que é ser-se só.
--- Lisboa, 08.10.2010
Virgílio Brandão

Imagem: Tepidarium —Lawrence Alma-Tadema

  • JUDGES AND DEMOCRACY
I have to share this: US Supreme Court Justice Stephen Breyer in an outstanding talk with historian Jeff Shesol on the future of the Supreme Court in American democracy, the role of the Institution, its legitimacy as defender of the Constitution and its relations with society, namely the constitutional powers and the public opinion… and his new book Making Democracy Work: A Judges View. The next book I will buy and read...  

Image: Justice Stephen Breyer & historian Jeff Shesol

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

MEMÓRIAS DE UM POVO INGRATO

«Se a Mãe Pátria, em vez de alargar os direitos dos naturais das Colónias, os restringe e anula, como poderá ela esperar que os mesmos lhe correspondam com dedicação e patriotismo, se são tratados como enteados e não como filhos? O exclusivismo racista leva os povos à ruína e à morte!
.
Temos que concordar que, para um país que se diz adepto da política de assimilação, esta progressiva diferenciação entre metropolitanos naturais das Colónias não constitui um índice de grande capacidade civilizadora» — Adriano Duarte Silva no Parlamento português durante o Estado Novo.

| A LUTA PELO PROGRESSO DE CABO VERDE: ADRIANO DUARTE SILVA E AMÍLCAR CABRAL

Ouvi na RCV, no programa Directo ao Ponto,  a posição do Dr. Júlio Correia sobre a demolição da casa que foi de Adriano Duarte Silva no Mindelo… e da sua referência à deposição do busto do mesmo depois da Independência e da sua posterior reposição no local: em frente ao Liceu Gil Eanes, estabelecimento de ensino que o mesmo foi um dos promotores. Por maioria de razão, a casa deste defensor das ilhas de Cabo Verde, nomeadamente do seu desenvolvimento social, económico e humano num período particularmente difícil não deveria ser reconstruída, ainda mais neste tempo de aprendizagem da democracia?

É pena que a nossa gente, nomeadamente a política, não tenha a consciência histórica bastante para perceber que a acção de Adriano Duarte Silva como representante de Cabo Verde no Parlamento português do Estado Novo foi, era e é uma luta análoga àquela que Amílcar Cabral e demais companheiros se lançariam rumo à Independência: «Nós enfrentamos o problema não só da libertação mas também do progresso do nosso povo (Amílcar Cabral, Unidade e Luta, VII). E este progresso é, ainda, o grande desafio de Cabo Verde. E poucos cidadãos — para não dizer nenhum…— fizerem tanto, pela sua acção individual, por Cabo Verde como Adriano Duarte Silva.

Adriano Duarte Silva foi o político precursor da ideia de um Cabo Verde desenvolvido, com estruturas bastantes para o povo das ilhas viver dignamente. E no Liceu do Mindelo, pelo qual Adriano Duarte Silva lutou para S. Vicente, estudou Amílcar Cabral; este que se tornou, para muitos, uma espécie de eucalipto da memória dos homens de bem da história de Cabo Verde. O devir social não acontece por geração espontânea: muitos deixaram as sementes para o progresso de Cabo Verde. Mas parece que as obras que fazem em Cabo Verde, sejam elas o que forem, não tem fundações…

A luta de Amílcar Cabral e a de Adriano Duarte Silva eram a mesma luta: a luta pelo progresso de Cabo Verde! O momento histórico e a matriz politica e social dominante os diferencia, assim como a forma de luta: um usou a arma, outro o trivium e a diplomacia. Sobre os resultados da acção de Adriano Duarte Silva se tem hoje os portos do Mindelo e de S. Antão, e uma geração de homens e mulheres que honram a pátria cabo-verdiana, inclusive Amílcar Cabral. Ironia das ironias seria o Ministro que mandou demolir a casa de tão ilustre e resiliente cabo-verdiano tivesse estudado no Liceu Gil Eanes… que tivesse beneficiado do progresso que Adriano Duarte Silva lutou para Cabo Verde. |

iranian justice...

| O ANCIÃO DOS DIAS

Não tenho muito para dizer;
tenho é muito que escutar em silêncio.
Aprendo com as cotovias que gritar é morrer
nas mãos do predador;
com as águias formo a minha alma
e do seu planar licencio-me na cadeira alimentar
mas o quero ser é a margem do rio,
do rio do Ancião dos Dias, o Kether
que desemboca no deserto levando pedacinhos de mim.

E das serpentes, oh céus! Fere-me a sua paciência
a sua paciência ruminar e plana
que briga com a astúcia da raposa e do lobo,
do lobo das terras sedentas e nuas
das cidades de betão,
o betão dos bárbaros engravatados:
«A gravata é uma arma, uma pele, uma garra
do predador licenciado a escravizar-me,
a comer-me as entranhas…»
— cogita o meu poeta; já aprendeu…

Não tenho muito para dizer;
o rio que me toca traz-me tudo, diz-me tudo
o que não em diz às outras margens que gritam
e leva-me até onde chega com a sua voz.

E o mundo grita, pois falando
ninguém o escuta.
Todos já aprenderam a ordem das coisas:
Se falas, esmiúçam-te a alma;
Se gritas, morres… como o Mundo.

E o mundo há-de desaguar no meu rio.
E eu, as margens do rio sem nome,
perdoarei todos, não oprimirei ninguém;
assim como não oprimo o meu rio e deixo-o passar,
deixo-o passar com pedacinhos de mim.
Pergunta-lhe! Eu respondo…
E sou a voz do Ancião dos Dias.
------ 2-10-2010
Virgílio Brandão

Imagem: O Ancião dos dias, William Blake

| The Rebirth of Haiti

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Aos amigos d’A República



  • RES PÚBICA
Antes do Vesúvio ejacular
as chamas da eternidade em anónimos,
Priapo reinava: supremo,
legava sonhos às virgens dos orgasmos.

A pedra nua, esmagada por cinza e lava
— ruína, dizem os inocentes… —
testemunha amores desesperados antes do sémen
da terra deixar nos teus olhos
a cor e o odor da beleza dos gemidos.

Dizem-me as constelações vizinhas
que Priapo morreu na cidade uxori;
mas eu, eu que atesto a tua dor e o teu doce olhar de horror,
sei que o teu paraíso em fogo ressuscitou Deus
e lançou-O líquido e puro entre as margens do Nilo.
---- 05-10-2010
Virgílio Brandão

Imagem: Priapo — Villa dei Vieti; Pompeia

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

| O ORGULHO NACIONAL E A MANIA DAS COMPARAÇÕES
‎"Não tenham dúvidas, o jovem que sai do Liceu Amílcar Cabral, vai aos Estados Unidos tem mais e melhor preparação que os jovens que saiem do High School nos Estados Unidos da América" — José Maria Neves, Primeiro Ministro de Cabo Verde dixit. Não conheço o resto das declarações; pois o Primeiro Ministro poderia estar a citar as palavras de alguém... de algum iluminado doutorado em sistemas de Educação.

Como disse um antigo (mais ou menos): «Graças a Deus existe os Estados Unidos da América, senão Cabo Verde mandaria no Mundo.» Estamos quase a chegar lá… começamos pela Educação; pois temos um Ensino Secundário de excelência; menos para o Senegal, é claro! Num silogismo simplíssimo: Cabo Verde tem um sistema educativo, ao nível do ensino secundário, pior do que o Senegal e melhor que os Estados Unidos da América. Somos piores que o terceiro Mundo, mas melhores que o país mais desenvolvido do Mundo. A mania das comparações só pode dar nisto: no absurdo. Como diria o José Vilhena: Sem Palavras; isso para não dizer outra coisa – i.e., pornográfico!

---- AUDIO: Declaração do Primeiro Ministro José Maria Neves

domingo, 3 de outubro de 2010

  • DESIDERATA

Go placidly amid the noise and the haste,
and remember what peace there may be in silence.

As far as possible, without surrender,
be on good terms with all persons.
Speak your truth quietly and clearly;
and listen to others,
even to the dull and the ignorant;
they too have their story.
Avoid loud and aggressive persons;
they are vexatious to the spirit.

If you compare yourself with others,
you may become vain or bitter,
for always there will be greater and lesser persons than yourself.
Enjoy your achievements as well as your plans.
Keep interested in your own career, however humble;
it is a real possession in the changing fortunes of time.

Exercise caution in your business affairs,
for the world is full of trickery.
But let this not blind you to what virtue there is;
many persons strive for high ideals,
and everywhere life is full of heroism.

Be yourself. Especially do not feign affection.
Neither be cynical about love,
for in the face of all aridity and disenchantment,
it is as perennial as the grass.

Take kindly the counsel of the years,
gracefully surrendering the things of youth.
Nurture strength of spirit to shield you in sudden misfortune.
But do not distress yourself with dark imaginings.
Many fears are born of fatigue and loneliness.

Beyond a wholesome discipline,
be gentle with yourself.
You are a child of the universe
no less than the trees and the stars;
you have a right to be here.
And whether or not it is clear to you,
no doubt the universe is unfolding as it should.

Therefore be at peace with God,
whatever you conceive Him to be.
And whatever your labors and aspirations,
in the noisy confusion of life,
keep peace in your soul.

With all its sham, drudgery, and broken dreams,
it is still a beautiful world.
Be cheerful. Strive to be happy.
----- Max Ehrmann

Image: Modèles de Lumière — Vladimir Kush.

| EU E O MEU POETA

Todos deveríamos viver o bastante para sermos eternos… — digo ao meu poeta.

Imagem: Death of Michael Servetus — Pirla Baulas.

sábado, 2 de outubro de 2010

  • O UNIVERSO DE HUXLEY E CAIM
Um universo de momentos
renasce no teu rosto recriado nos ventos
remansos da memória,
esta fraterna vontade de ser só.

Um nome, ó Deus? Que importa
um nome se a essência do ser-se ilha será
a companhia do desejo manancial
que ciúma o monte que se funda no rio
sonhando-te flor de gerações
e erva aromática de uma vida no cepo?

Olha: do outro lado do espelho
está o universo que absorve os teus encantos,
a vaidade de ferro no inverno,
a espada una de cem mil homens de Sun Tzu,
o diamante envergonhado das Lundas
e todos os mandamentos da física e de Deus.
Aí está Frei Celestino e Francesco Graziano,
Matteo da Orio e Giulio da Salò
testemunhando a maior verdade deste universo:
o mundo venal caindo sobre Giordano
e não eras tu o sofredor, não…
Sou eu através do espelho, amanhã.

E quando chegarem os bárbaros,
os bárbaros Cains de hoje!
sei que terei saudades de não ter o amor de Rûmî,
Al-Hallâj e Swedenborg a vestirem as tardes
da palavra secreta que gerou mil mundos
e é Hela, a grande amante que trazemos no peito ao nascer.
------ 02-10-2010
Virgílio Brandão

Imagem: Símbolo da Inquisição

  • O ESTADO FALHADO DE JOSÉ MARIA NEVES
Lê-se na página do Primeiro Ministro José Maria Neves no Facebook o seguinte:
«Cabo Verde está a mudar. As infra-estruturas - portos, aeroportos, estradas, água, saneamento, electricidade, escolas, liceus, hospitais, centros de saúde, telecomunicações, barragens... dão-nos a verdadeira dimensão das mudanças em curso. A infra-infra-estruturação, o desenvovimento do capital humano e a densificação do tecido empresarial são alavancas para o crescimento a competividade, a geração de empregos....» (sic).

Reflectindo sobre isto, sobre estas palavras de José Maria Neves – que consubstancia uma leitura subjectiva da sua governação nos últimos nove anos –, chego à conclusão de que Cabo Verde é um Estado falhado – sob a perspectiva do Primeiro Ministro. Amílcar Cabral caso estivesse vivo, hoje, acharia que Cabo Verde é isso mesmo: um Estado falhado no plano económico, social e dos desígnios históricos que estiveram na fundação do Estado cabo-verdiano. Da segurança a justiça, passando pela ineficácia e incompetência do Governo em garantir coisas básicas como saneamento básico, água, luz, pão digno para todos e emprego sustentado com remuneração digna (500$00/dia pelo trabalho de um homem, e menos do que isso pelo de muitas mulheres, é indigno! Escandaloso, num país de «rendimento médio»), e pela monstruosa escorregadela na casca de banana que é a armadilha da dívida externa para sustentar a governação…

O país não caminha para o abismo; está à beira do abismo, e este tem uma profundidade abissal pois fica claro que não é Estado cabo-verdiano que luta contra a pobreza e o subdesenvolvimento estruturais do país, são os Estados terceiros, inclusive o antigo colonizador (um dos grandes financiadores do Porto da cidade da Praia), que o fazem e financiam a sustentabilidade de Cabo Verde. As recentes entrevistas da Embaixadora cessante dos Estados Unidos da América em Cabo Verde são muito eloquentes, v.g., a dada a Abraão Vicente em Nha Terra Nha Cretcheu e à concedida à RCV.

Esta realidade põe a nu a falta de uma visão integrada de um desenvolvimento estrutural de Cabo Verde. A lógica assistencialista e a de dependência económica e financeira do exterior por via do crédito condicionado a contrapartidas usurárias e condicionadoras do futuro da nação e dos cidadãos cabo-verdianos não são, hoje por hoje, aceitáveis. O futuro de Cabo Verde não pode nem deve ser o do Estado possível – que é um Estado falhado, em particular no plano do ideário histórico do país – mas sim o de um Estado pleno e incondicionado pelos interesses laterais; os únicos interesses do Estado de Cabo Verde devem ser os do povo cabo-verdiano e aqueles que a sua integração no concerto das nações demandam.

O futuro de Cabo Verde passa por uma nova independência do país, pela via do desenvolvimento – sustentado no crescimento económico e na coesão social – que seja dirigido às pessoas e aos seus sonhos de um futuro de bem-estar alicerçado no trabalho e esforço da nação cabo-verdiana e não na velha lógica do desenvolvimento assente no assistencialismo e no endividamento externo transvestido de riqueza nacional nos Orçamentos de Estado e que o Governo de José Maria Neves tem sabido fazer, e bem – na perspectiva da política partidária, mas em prejuízo do futuro do país que não cria riqueza e emprego sustentado, mas endivida-se e hipoteca o futuro. As almofadas financeiras do Millenium Challenge Account e de outros programas de apoio ao desenvolvimento caíram bem neste ciclo político, mas são investimentos assistencialistas, não são investimentos num desenvolvimento sustentado na produção da riqueza nacional, no esforço do povo cabo-verdiano.

O pais está a precisar de mais, de mudar para melhor; para um país com projecto próprio e agenda própria – não para o país possível e falhado mas para o país independente, um país capaz de criar riqueza para sustentar o seu povo. E o Primeiro Ministro reconhece isso, como acto falhado do seu discurso propagandístico no facebook. «Cabo Verde está a mudar…» pois o Mundo está mudado, e as pessoas – nomeadamente os cidadãos cabo-verdianos – têm espírito crítico bastante para perceberem as coisas e a origem das coisas.

Diz José Maria Neves, no facebook (confessando, em parte, o seu objectivo – há muito visto – para a sua governação facebookiana: «Abri este espaço para ouvir a sua opinião sobre uma nova geração de políticas públicas para a juventude»):

«Já fizemos muito, muito ainda falta fazer para os juvens. Sistema nacional de bolsas de estudos, novos mecanismos de financiamento do ensino superior, ensino superior à distância, acesso a crédito, apoio às iniciativas dos jovens empresários, liceus técnicos em todos municípios.» (sic)

Depois de colocar a juventude na situação que se sabe – e que nem merece qualificação ou adjectivação – nesta década de apertar cinto e libertar sentidos, vem dizer que agora é que é! Será difícil de acreditar, pelos jovens! Pelos que não são ingénuos. Mas devem acreditar, pois a estratégia do Governo é sustentada na ajuda ao desenvolvimento e não numa visão de desenvolvimento estrutural do país.

Até nas pequenas coisas – em áreas em que muito fomos ajudados pelo programa de desenvolvimento do Millenium Challenge Account em curso – se vê o país falhado que se tornou a nossa pátria: a Embaixada de Cabo Verde anunciava, esta semana, ofertas de emprego para chefes de equipa e encarregados de construção civil para… Cabo Verde! Com a taxa de desemprego que temos, importamos mão-de-obra qualificada ao nível da construção civil… para não falar de outras áreas onde o desemprego se faz sentir ainda mais e que passa desapercebido ao cidadão.

Os jovens podem contar com ajudas, sim! O Governo que vier a ser eleito em 2011 irá investir neles, sim. Mas se não investiu até agora (sendo que podia, devia e teve meios disponíveis para isso!), depois de nove anos de governação, porque o irá fazer no futuro? – perguntar-me-ão. Porque terá de o fazer com o novo programa do Compacto do Millenium Challenge Account! É uma imposição do Programa, não é uma opção do Governo. Mas não o fez antes, porquê? Porque os jovens nunca foram prioridade do Governo, até agora; mas agora tem a particularidade, i.e., a necessidade, dos jovens eleitores que – de forma directa e mediata – irão decidir as eleições de 2011, quer as legislativas quer as presidenciais (neste com um peso considerável da diáspora, daí a importância do recenseamento e todo o ruído em volta desta questão).

Mas a boa notícia para a juventude cabo-verdiana – é uma forma de libertação subjectiva das promessas de José Maria Neves e do Governo a que preside e uma janela de esperança – é que seja qual for o Governo que vier a sair das eleições terá, forçadamente, de investir na qualificação dos jovens, nas famílias mais pobres e na sua capacitação de criar riqueza tendo em vista a erradicação da pobreza e o desenvolvimento do país. Mas isso não chega! E é isso que o Governo de José Maria Neves parece não entender (por não quer ou não ser capaz de tanto), pois não tem uma visão económica alargada e uma ideia estruturante de Cabo Verde o bastante para desenvolver o país para além do que recebe a mão estendida.

O modelo de desenvolvimento do Governo do PAICV de José Maria Neves atraiçoou, pela segunda vez, Amílcar Cabral. É que falta-nos uma ideia de país, um modelo de desenvolvimento e, o que é pior, de um Governo que o pense e seja capaz de o executar. Cabo Verde precisa de mudar, sim; mas para melhor! E precisa de crescer, sim; crescer! a todos os níveis. Já não somos meninos morais, no que ao Estado diz respeito. Mas por vezes a prática política e a realidade parecem querer dizer o contrário… |
_________
A pedido de alguns leitores, publico este texto com prima forma no Liberal on Line de 13-09-2010.

Imagem: Ludivine – Jean Louis Gieg

PROVÉRBIOS DO INFERNO

De manhã, pensa. Ao meio-dia, age. Ao entardecer, come. De noite, dorme — William Blake.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

  • OS OLHOS DO AMANTE

Eras tudo para mim: eu era o cálamo
plantado nas bordas do Paul rosáceo
banhado pelos zéfiros
que beijavam o teu aroma
e geravam os deuses das letras que manam a poesia.
Querias ser livre e tudo: líria dos campos
consumida pelos olhares do mundo.

Libertei-te: arranquei as minhas raízes de ti.
Hoje, tu que eras a raiz do meu céu,
a essência do meu Deus
e tudo de tudo que faz o santo,
és tudo para ninguém
e sonhas ressuscitar-me
eu que morri para o amor no Amor
que me embalsamou de tudo o que eras
quando eras minha pupila,
tinha retina e as raízes no olho que arranquei
para não mais ver sonho,
poema e beleza para te comparar.
------ Lisboa, 30-09-1010
 Virgílio Brandão

  • Who can describe the unique work of Grace? — Jalal al-Din Rûmî.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

  • O MEU POETA

VB, os deputados são da nação ou da omissão? — pergunta-me o meu poeta.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

| WORDS OF WISDOM

Not only the thirsty seek the water,
the water as well seeks the thirsty — Rûmî.

  • AMERICA AND GLOBAL DEVELOPMENT
«[…] development is an integral part of America’s national security policy and it is part of an integrated approach that includes development, diplomacy, and defense. And I think that what we’ve tried to do with this global policy is to make very clear that we’re not only a core pillar of our national security mission – and by the way, this is the first time since Kennedy that any president has articulated a global development policy – but that we truly are elevating development to the highest levels of the United States Government» — Secretary Hillary Clinton. Read and see more... 

terça-feira, 28 de setembro de 2010

  • THE PARADOXES OF LOVE

The storming of love is what is sweetest within her,
Her deepest abyss is her most beautiful form,
To lose our way in her is to arrive,
To hunger for her is to feed and to taste,
Her despairing is sureness of faith,
Her worst wounding is to become whole again,
To waste away for her is to endure,
Her hiding is to find her at all times,
To be tormented for her is to be in good health,
In her concealment she is revealed,
What she withholds, she gives,
Her finest speech is without words,
Her imprisonment is freedom,
Her most painful blow is her sweetest consolation,
Her giving is her taking away,
Her going away is her coming near,
Her deepest silence is her highest song,
Her greatest wrath is her warmest thanks,
Her greatest threatening is remaining true,
Her sadness is the healing of all sorrow.
------ Hadewijch of Brabant, a 13th Century Beguine

  • A POBREZA DE CABO VERDE E A LIBERTAÇÃO DA CULTURA
A cultura é tão importante como o saneamento básico, a água ou o pão: pois a cultura ajuda a sanear a alma do mal e alimenta a alma (intelecto, vontade e emoções) como o pão e a água sustêm o corpo. Mas a cultura é um perigo para o poder, e o poder lida com ela de forma pragmática e consciência direccionada: comprando consciências, promovendo um dado sentido de cultura ou facilitando a emergência de formas ou manifestações de cultura que, como a Lei de Gresham, afastam a boa cultura: se preciso for destrói-se (haja poder ou sageza bastante para tanto) pontos nevralgicos da alma da sociedade; inclusive a memória.

Assim se empobrece um povo e uma nação. E uma nação pobre é mais fácil de ser controlada, de ser cordeiro sob a vara do líder e dos sequazes da República, inclusive de uma democracia formal e delegativa. E havendo um mínimo de desenvolvimento económico e social, a lógica autoritária reconstrói a história — pensa-a e reescreve-a segundo os seus interesses (o que é tão fácil de ser feito que espenta até as almas mais atentas). Assim fez Octávio Augusto ao destruir a República e sobre as suas cinzas fundar o império romano: Publio Virgilio Maron escreveu a Eneida, a história de um povo grandioso antes de o ser, usurpando a história e apropriando-se do mito.

Em Cabo Verde a tentativa de reescrever a história antes da Independência e da emergência da II República é patente, quer nos propósitos e princípios estruturantes do Estado quer nas realizações. Resultará, no mínimo, desonestidade intelectual comparar o que não é comparável. Concordarão todos comigo. Então, no que concerne ao combate a pobreza não é possível comparar os Governos constitucionais presididos por Carlos Veiga e os presididos por José Maria Neves. Porquê – perguntar-me-á. A razão é simples: as condições estruturais e conjunturais adversas do MPD, se comparados com as particularmente favoráveis do PAICV, não foi impedimento a que os Governos da II República criassem condições objectivas e estruturais para o desenvolvimento do país e tivesse uma performance relativa substancialmente superior na diminuição da pobreza. Do outro lado, as condições que o PAICV teve durante a sua governação — acesso aos mercados financeiros internacionais para financiamento do Estado e programas como o Millenium Challenge Account — não foi o bastante para lograr um resultado melhor ou mais consolidado.

São realidades distintas: o MPD liderado por Carlos Veiga herdou uma economia centralizada e fechada que vivia do peixe que lhe era doado e deixou ao país um legado de economia de mercado, aberto e com a «cana para pescar». Isto é, ainda que não pareça, um dado de cultura… com sentido transformador: algo a que demanda adesão de todo e cada um dos cidadãos.

Tenho como certo que a cultura de um povo é toda a sua memória; e não penso estar enganado, e muito menos sinceramente errado nesta asserção. E apagada a memória do povo, os escribas oficiais da história encarregar-se-ão de a reconstruir segundo o beneplácito do líder ou do sistema ético e social reconstruído. E por mais imaginação que se tenha, a realidade é muito mais rica do que a imaginação; e a realidade, como sempre, não se engana pois é o único que não precisa de Deus para existir aos nossos olhos.

Cabo Verde é materialmente pobre, por imposição da natureza; e isso é uma quase uma fatalidade que não tem, necessariamente, de condicionar a nossa existência imediata nem deve determinar o nosso destino colectivo: onde um chega como pessoa podemos nós chegar com povo. E assim é porque somos um povo rico de alma e em resiliência: um povo desenvolvido em consciência e na arcana arte de sobreviver (o que nos torna, segundo Darwin, um portentado humano); ainda que haja quem pense que não e nos deseje manter numa situação de guetizados do saber, alheios à libertação da consciência que é a cultura que nos poderá levar a ser o que podemos ser.

E resulta um paradoxo de situação: é quando se fala da ausência de "modelos" de referência para a juventude é que se destrói a memória de algumas das maiores referências humanas do país (por juízo ou não da História, no mesmo fim-de-semana da destruição a Casa Adriana Aristides Pereira, o Presidente do Estado do Cabo Verde autoritário era homenageado em Portugal). É dificil não pensar que é por aqueles serem contrários a determinado modelo e ideia de cultura.  Dizem-me que que tenho demasiada gente em demasiada conta; e se calhar até que gostaria de que assim fosse; é que a imparcialiodade de juízo coloca-me perante dois diabos: a ignorância e a monocultura transvestida de liberdade democrática.

«Nem só de pão vive o homem» — diz o meu mestre. Eu digo: a cultura liberta o homem do instinto de pão, e dá-lhe consciência do que é a liberdade de ser independente para seguir o caminho do que pode ser. E falta ao homem cabo-verdiano a liberdade de saber ser independente: depois do país, é preciso libertar o homem ( e a mulher) cabo-verdiano para o saber e a cultura do saber, para a consciência de si mesmo e do seu valor intrínseco como pessoa humana e agente transformador da sociedade e repositório da sua memória. E sempre que se destrói parte da memória colectiva de um povo, como é, insofismavelmente, o caso da Casa Adriana, perece uma parte do futuro. Pena é que a intelligentsia cultural nacional — a oficial e a aparente, pois «há mais tudo sobre o céu e a terra…» — não perceba ou não queria perceber isso… e se remeta ao silêncio dos cúmplices. O que não me surpreende, de todo; é que existem demasiadas formas de pobreza.

Imagem: Jovem — Bouguereau

  • A REALIDADE

O que é real?
O que nos diz o poeta,
o que sonhamos e criámos
ou o que passa ao nosso lado em silêncio
com a dor gritando?
------ Lisboa, 26-09-1010
Virgílio Brandão

Imagem: Big Birdcatcher — Konstantin Kalynovych

  • EU E O MEU POETA
A cultura de um povo é toda a sua memória — relembro ao meu poeta.

Imagem: Her eyes are with Her thoughts — Lawrence Alma-Tadema

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

domingo, 26 de setembro de 2010

  • O ALFA E O OMEGA DAS COISAS

A aurora chega insaciável,
prima de oiro: sai da fornalha, fere-me
e assenta arrabalde na minha alma.
Cerca-me, como se eu fosse nova Hatra,
desditada Sagunto e Africa Vetus
antes do mundo novo se afogar de paz.

O Sol beija as folhas verdes
das oliveiras e das vinhas virgens,
os zéfiros cantam rosas que amo
e chove torrencialmente no universo
dentro de mim: nem uma gota de água
apaga a minha sede,  
a minha fogueira e incrustada sede de ti.

A aurora chega, e dói.
Só tu sabes como dói a aurora sem ti.
Só tu sabes como é a minha dor;
só tu, minha dor…
------ Lisboa, 25-09-1010
Virgílio Brandão

  • I AND MY POET
      — An ancient Tao assertion says that «Wise men ride with the time…» — my poet told me.
      — Does that mean that wise men don’t have principles? — I asked him.
     My poet left for a drink, to think… he says.

Image: Miguel Servet

sábado, 25 de setembro de 2010

  • WORDS OF WISDOM
In every moment this love is more endless,
in every time people are more bewildered in it — ‘Attâr.

Image: Jean-Auguste Dominique Ingres

  • A ERA DO DESEMVOLVIMENTO 
Ut quasi transactis saepe omnibus rebus profundant, fluminis ingentes fluctus, vestemque cruentent — Lucrécio.

Imagem: Mulher Mijando, Pablo Picasso.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

  • A SINDROME ECONÓMICA DOS CINCO ANOS
Cabo Verde Investimentos (CI) organizou um workshop sobre oportunidades do AGOA (African Growth and Opportunity Act) para os agentes económicos nacionais. Este instrumento de política económica da Administração americana existe desde meados de 2000, e parece ter passado despercebido ao Governo e à Cabo Verde Investimentos…

Foi preciso a Embaixadora cessante dos Estados Unidos em Cabo Verde ter falado — a modo de fino alerta e ainda mais fina crítica, quase subliminar — na última entrevista que deu antes de sair de Cabo Verde para o Governo e a Cabo Verde Investimentos despertarem e, às pressas que o tempo urge, virem apresentar ao empresariado nacional um programa de liberalização económica que existe há uma década! Mas parece que passou a existir, de repente e como se se estivesse perante uma epifania económica.

O workshop intitulado "Como Abrir as Portas do Mercado dos E.U.A - no Âmbito do AGOA" acompanhou a abertura do Centro de Recursos AGOA (CRA) no Mindelo. O Governo, e a instituição que tem a obrigação de informar os empresários nacionais de oportunidades de negócios no exterior só agora é que acordou para as suas falhas neste aspecto em particular… depois de, segundo a Ministra Fátima Fialho, ter tirado alguns proveitos do programa em 2005. Isto é: de cinco em cinco anos o Governo se lembra do programa… e só agora resolveu promovê-lo.

O que me lembra das declarações do Primeiro Ministro sobre a incineradora da Praia e da Empresa que criou com o Câmara Municipal da Praia, então presidida por Felisberto Vieira, em 2005. Nomearam administradores da Empresa, e têm pago as remunerações dos mesmos desde então (presumo… e seria conveniente verificar este facto: perguntando ao Primeiro Ministro, pois então!) para a dissolver cinco anos depois! O nome dos administradores da Empresa não interessa a ninguém? Parece que não, parece não…

Uma pergunta emerge: Sendo gestor de formação, o Primeiro Ministro não sabe que primeiro se faz o estudo do mercado e se avalia o produto antes de se constituir a empresa para o colocar à disposição dos cidadãos? A resposta é dolorosa: (i) se sim, como pode governar o país se não sabe algo de tão básico? (ii) se não, quais foram as razões e motivações que levaram a criação de tal empresa? Quanto é que isto custou ao erário público? Eu gostaria de saber, os cidadãos cabo-verdianos gostariam de saber. Por onde andam o Tribunal de Contas e o Ministério Público? Tudo leva crer que, neste particular, existe uma gestão danosa de fundos públicos; até porque o Governo — e parece ser lógica matricial da sua praxis — faz sempre estudos e mais estudos para adiar decisões sobre questões incómodas ou que subjazem a valores a que não adere.

A questão da Globallee é outra conversa… e o contrato assinado entre os representantes do Governo e a Empresa deve ser tornado público. Mas pode e deve ficar para depois. Agora, a síndrome do despertar dos cinco anos terá alguma coisa a ver com a proximidade das eleições? Se não parece, é. E lá bem dizia Marco Aurélio a Annia Fustinna e a Annia Lucilla que «a mulher de César não basta ser séria…»

Imagem: The path of time — Jean Paul Avisse

«De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados. Esquadrinhemos os nossos caminhos…» — Lamentações de Jeremias, III.39.
  • A RAZÃO DE SER DAS COISAS E A CASA ADRIANA
 «Odeio ter razão! O meu mundo de razões para estar errado» — digo a mim mesmo. Sinceros companheiros e ex-companheiros de caminhada em algumas lutas cívicas, estarão, a esta hora, a por as mãos na cabeça e a dizer: “Bem que o Virgílio nos avisou!” E avisei de muitas coisas, porventura demasiadas e extemporâneas ao tempo às gentes. O meu maior receio — que emergia da experiência, da compreensão das mentes autoritárias e da lógica que move as suas acções — concretizou-se: avançou-se com a demolição da Casa Adriana no fim-de-semana, quando seria impossível recorrer-se às instituições democráticas para travar a demolição e o povo mindelense ser confrontado com o facto consumado, com o “leite derramado” que o povo sereníssimo não tem o hábito de ter como pano de choro e nem sabe bem o que é em substância.

Nada de novo. Assim se faz, como o ladrão na noite: de forma inesperada, com todos adormecidos. A luta pela preservação da Casa Adriana, como é hoje patente, enformava uma realidade que vai para além da mera preservação do património histórico e arquitectónico: é uma luta pela memória colectiva da cidade do Mindelo e dos mindelenses, assim como pelos direitos políticos e sociais de cidadania e de um determinado dado sentido de cultura que os novos tempos tentam expurgar do Cabo Verde novo. Mas que fique claro, a quem quiser escutar: As maiores responsabilidades na destruição da casa do Dr. Adriano não são do Governo e da Câmara Municipal de S. Vicente, não! São do Movimento de defesa da casa do Dr. Adriano e da sua inépcia e falta de sentido estratégico; das pessoas pensarem em si mesmas, no que outros poderiam pensar disto ou daquilo, etc: os egos desfocaram o objectivo e turvaram a razão das coisas. “Onde falta o conhecimento o povo perece…” lá dizia o profeta Oseias. Mas não deixa de ser evidente que existe uma agenda política subjacente a esta questão; e que merece cuidados redobrados, no futuro imediato, por parte de uma cidadania activa.

A padronização ética e cultural do homem cabo-verdiano — que se tentou no passado e que se repristina hoje — é, além de desumano, um perigo demasiado grande para ser corrido; e Aldous Huxley dá-nos uma pequena ideia desta realidade em Admirável Mundo Novo. E o Mundo novo cabo-verdiano é, hoje por hoje, o do homem bruto, o homem sem cultura e sem memória que não seja a memória oficial dos sequazes do ideário político do PAIGC/CV que tenta — aparentemente a todo o custo — destruir a memória do país: o que não é apropriável pelo partido é destruído; quem pensa out of the box é um verme. Delenda est o ke no ê di nos! parece ser a lógica.

O mundo em si mesmo tem uma linguagem subterrânea; a modo do universo espiritual de Huxley e a teoria das cordas. A confiança do voto merece a tutela devida; e por vezes é auto tutela. Como é agora, neste momento: Com a demolição da Casa Adriana o Governo do PAICV presidido por José Maria Neves — se mais razões não houvesse — perdeu meu voto e qualquer confiança possível; e mais: ganhou em mim um opositor. Esta decisão não é inocente, infelizmente; e se o fosse, na hipótese de o poder ser, demonstraria uma extrema inabilidade funcional deste Governo. Mas não nos enganemos, pois a culpa não é somente do Governo de José Maria Neves e da sua falta de visão e de políticas da e para a cultura, não… pois um país prospera quando todos fazem o seu papel de forma devida, inclusive os cidadãos. É que, como digo, moscas apanham-se com mel…ou com mata moscas! Mas não é que existe um Mundo novo, um Cabo Verde paralelo que se revela de vez em quando e em que as moscas apanham os homens com mel?...

Virgilio Maronis dizia nas Bucólicas: omnia vincit amor et nos cedamus amori. Que “amor à terra”, a Mindelo e a todo o São Vicente venceu? A que amor cedeu o Governo de José Maria Neves neste sacrifício da cultura mindelense? (E já nem falo, v.g., (1) da insegurança nacional, (2) do desemprego galopante; (3) do escasso acesso a bens fundamentais como (4) habitação, (5) cuidados de saúde, (6) luz, (7) água [e nem me refiro à água de e com qualidade] e (8) justiça célere, (9) da massificação da corrupção e do nepotismo, (10) da ausência de uma sistema de transportes entre ilhas que liberte os cidadãos que se sentem sequestrados na sua própria terra/ilha, (12) da não qualificação do país para a competitividade económica e social no mundo global...

Estes são exemplos de algumas áreas em que o Governo presidido por de José Maria Neves falhou de forma clamorosa, e sem razão: teve condições estruturais e materiais que nenhum outro Governo de Cabo Verde teve até hoje. No entanto parece governar por reacção e não por acção, de acordo com um programa estrutural e estruturante para o desenvolvimento do país a curto, médio e longo prazo. As pessoas decepcionam-me, em regra, no plano emocional; o Primeiro Ministro José Maria Neves conseguiu a proeza de me decepcionar no plano emocional e racional.

A praxis do Governo em tantas e diversas matérias — revelando uma afrontosa insensibilidade e incapacidade funcional (a entrevista do Artur Correia, Director do Hospital Agostinho Neto, a RTC é testemunho eloquente da falta de uma visão integrada e estrutural da saúde em Cabo Verde, na Capital em particular que precisa, há muito – e epidemia de dengue foi um aviso que, ao que parece, não foi tida em devida consideração –, de um grande hospital e de recursos humanos adequados às necessidades da comunidade) — determinou por si mesmo a minha opinião de cidadão eleitor e dita o meu veredicto: este Governo não merece governar mais o meu país, a minha pátria!

E digo-o com a mesma convicção com que disse há cinco anos atrás que o Governo de José Maria Neves merecia então um segundo mandato, e que votaria no PAICV para Governo e em Carlos Veiga para Presidente para haver um equilíbrio na estrutura institucional do Estado (a fraca prestação de Pedro Pires como Presidente da República, nomeadamente no controlo político, afirma um colapso prático do modelo político cabo-verdiano). Mas hoje vejo as minhas expectativas cidadãs defraudadas; e isso é mais do que bastante para se ansiar, se desejar e se vote num projecto alternativo de governação que não esta que tem sido protagonizada pelo Governo presidido por José Maria Neves. Isto é para, ex ante, calar todos os fantasmas, anónimos e quejandos que se aprestarão a vir dizer cobras e lagartos e a etiquetar-me como militante do MPD, da UCID, do PTS ou de Djack Esquequereque ou de raios que os parta! Confiança dada, confiança retirada. Assim faz o povo, assim faço eu: não é uma questão de política partidária mas sim cidadã.

Os cidadãos precedem os partidos políticos.

Não é que não tenha havido e não haja coisas boas na governação em curso; não!, houve coisa boas sim. Mas não as suficientes para levar-me — de forma objectiva e em boa consciência — a aprovar os últimos dez anos de governação do PAICV que não conseguiu levar ao país ao nível de desenvolvimento real, económico, social e humano (neste último aspecto, avulta uma ideia errática da Cultural e uma ausência de uma política democrática da Cultura e para a cultura). Além do mais não logrou conseguir algo que era mais do que possível e estava ao seu alcance, algo que não dependia do exterior: a consolidação da Democracia no país. Aliás, este Governo falhou em tudo o que podia e deveria fazer no país sem recurso à ajuda externa.

Digam as sondagens o que disserem uma coisa é certa: o PAICV não ganhará as próximas eleições legislativas (mesmo com a inércia a seu favor e com os condicionamentos que se antevêem ao nível do universo eleitoral que determinará a composição da Assembleia Nacional e o futuro Governo); quanto muito o MPD, a UCID e o PTS poderão perder essas mesmas eleições. E uma ou outra coisa poderá ter começado aqui, na gestão desta questão Adriana…

Imagem: Moça Correndo Numa Varanda — Giacomo Balla (1912)

  • WORDS OF WISDOM
We are experiencing hard times; you cannot speak or be silent without danger — Juan Louis Vives to Erasmus. (1534).

Image: Giordano Bruno at the stake — Andre Durand (2000)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

  • BULDOZERS

Encontrei-te na serra
imagem desdobrada de querubim;
não eras fácil de não amar.
Eu, a antecâmara do santo dos santos,
sangrei o medo
e toda a tarde foi sonho de horas.

Agora sangro,
sangro e registo a realidade
por não haver mais luta:
mãos invisíveis e bulldozers arrasam-me
em Mindelo e grito:
«O deserto não deve crescer!
Quando se alimenta o deserto e os corvos,
a luz deve nascer dentro de nós.»
---- Sertã, 19-09-2010 (06:35 a.m)
Virgílio Brandão

Imagem: Judith Slaying Holofernes — Artemisia Gentileschi