quarta-feira, 22 de setembro de 2010

CONFERÊNCIA DE IMPRENSA EM 21/09/2010
Maurino Delgado

O objectivo desta conferência é reagir contra a demolição da Casa do Dr. Adriano Duarte Silva, lançar o grito de revolta face à destruição do património histórico de São Vicente e pedir a todos os cabo-verdianos dentro e fora do país para promoverem manifestações de protesto contra a destruição do património histórico e em defesa da democracia.

O Movimento para a Salvaguarda da Casa do Dr. Adriano como património Cultural, começa por manifestar a sua profunda indignação pela demolição desta Casa na fatídica manhã de 18/09/2010 por decisão do Governo e da Câmara Municipal de São Vicente.

Lamentavelmente, a prepotência e a irresponsabilidade do Poder sobrepuseram à opinião pública esclarecida.

Quando o Governo ignora a vontade expressa do Senhor Presidente da República e da Assembleia Municipal de São Vicente que a nosso lado se posicionaram em defesa desse património, estamos perante uma situação política grave e preocupante que interpela todas as pessoas que desejam viver em paz e em democracia em Cabo Verde.

Por esta razão, com a experiência da vida e dos anos por factos vividos, queremos pedir a todos os cabo-verdianos, dentro e fora do País para connosco reflectirem sobre esta decisão que foi fortemente contestada pela sociedade civil num processo que se arrastou por mais de um ano.

Fazemos esse apelo porque há momentos especiais que decidem positiva ou negativamente o destino das pessoas ou dos povos.

Vivemos um desses momentos. Infelizmente, nem sempre temos a consciência exacta da natureza dos factos ou a coragem suficiente para agir no momento certo. Estamos num desses momentos em que temos que agir para dar resposta firme a esse acto de tamanha afronta para defender a nossa democracia.

Em 1980, eu, Maurino Delgado, com o meu voto, na qualidade de deputado do PAICV, foi aprovado o tão falado artº4º da Constituição da República que consagrava o PAICV em partido único.

Com este acto político atrofiamos o desenvolvimento intelectual e político do povo de Cabo Verde, o desenvolvimento económico e social destas Ilhas e criamos as condições para que em determinados momentos fossem cometidos os maiores abusos e atrocidades por parte do Poder. ( Deixando uma pequena nota para dizer que o padre Fidalgo também deputado foi o único que pôs em causa a proposta do artº4º, porque nessa altura ele já era uma pessoa politicamente mais avançada).

Os acontecimentos trágicos da reforma agrária em Santo Antão, em que várias pessoas foram barbaramente torturadas, conforme relata o livro de Onésimo da Silveira, a “Tortura em nome do partido Único” é um exemplo disso. Foi um acto propositado do Poder para reprimir e servir de exemplo aos que ousassem exprimir as suas ideias contrárias.

Poderão perguntar por que trazer aqui esse facto? É que temos que conhecer os factos históricos para em cada momento orientarmos a nossa vida.

Estamos a viver um momento desses. As pessoas que de facto dominam o poder não aceitam ser questionadas nas suas decisões e estão a agir autoritariamente.

A nivel do Governo e da Câmara Municipal alguém decidiu que a Casa do Dr. Adriano devia ser demolida para dar lugar a construção da Sede da Delegacia de Saúde de São Vicente. Pretensiosamente, querem apagar parte da nossa história para fazerem a sua numa atitude de arrogância sem precedentes.

Esta decisão foi fortemente contestada pela opinião pública esclarecida através de documentação histórica e depoimentos de pessoas abalizadas. O Senhor Presidente da República também se posicionou a favor da preservação desse espaço. A Assembleia Municipal de São Vicente deliberou a sua preservação. Qual foi a resposta das pessoas que dominam o poder? Demolir esse património sem dar cavaco a ninguém. Este acto é um exemplo acabado da cultura anti-democrática daqueles que dominam o poder.

Trata-se de um acto grave que ultrapassa os limites da boa convivência democrática e do respeito das instituições. Trata-se de um acto repressivo exercido conscientemente, tal como na altura da reforma agrária, que tem por objectivo amedrontar e desencorajar a sociedade civil de exercer a sua cidadania. A democracia foi posta seriamente em causa. Isso envergonha o povo de Cabo Verde. Isso é um mau exemplo para a nossa juventude que precisa de referências e de conhecer os nossos homens ilustres.

Recorrentemente, diz o Senhor Primeiro - Ministro, que em democracia as instituições têm que funcionar.

Contrariamente, as nossas instituições não funcionam na normalidade. Num Estado de Direito de facto e num País de desenvolvimento Médio a sério, seria inimaginável a demolição da Casa do Dr. Adriano.

Aceitamos que muitos não estejam de acordo com o que acabamos de afirmar porque, infelizmente, em Cabo Verde tudo é partidarizado, o que tem prejudicado a discussão das ideias, a democratização e o desenvolvimento do País.

No entanto, admitimos que haja pessoas que ainda não tiveram oportunidade de interiorizar a importância do património histórico na vida dos povos, sendo-lhes portanto indiferente que esse espaço seja utilizado para a construção da Sede da Delegacia de Saúde. Porém, outras há, que sabendo perfeitamente o valor do património histórico, este país não lhes diz nada, não têm orgulho nacional, estão apenas preocupadas com o poder e é por isso que a Casa do Dr. Adriano começou a ser demolida.

É inaceitável que os Governos, tanto a nível do poder Central como do Poder local, estejam a destruir ou a deixar destruir, gratuitamente, o património histórico desta Ilha.

Voltando à questão da Casa do Dr. Adriano Duarte Silva, não vamos entrar em detalhes do processo da salvaguarda da referida Casa porque muito já se falou sobre o assunto e sem margem para dúvidas ficou demonstrado que ela era um património histórico, dos mais emblemáticos desta Ilha e deste País.

Mas, se outros argumentos não houvessem, bastava o facto do Senhor Presidente da República se ter pronunciado a favor da salvaguarda desse património e de ter, no dia 2 do passado mês de Agosto, no acto da condecoração de cidadãos residentes nesta ilha que se distinguiram no domínio da cultura, ter lançado o apelo aos artistas e a todos os cabo-verdianos para não deixarem destruir o património histórico, bastava esse apelo e essa vontade do Senhor Presidente da República, que é o garante da unidade da Nação e do Estado, que vigia e garante o cumprimento da Constituição, para que o Governo e a Câmara Municipal repensassem a sua propositada intenção de destruir esse valioso património cultural.

É muito preocupante o facto do Governo ter ignorado uma deliberação da Assembleia Municipal que recomendou a salvaguarda desse património e a construção da Delegacia de Saúde num outro espaço, através de uma deliberação com votos favoráveis das bancadas da UCID e do MPD e a abstenção da bancada do PAICV, abstenção que nessas circunstâncias equivale a um voto favorável, pois em nenhum momento defendeu o projecto do Governo.

È preocupante o facto do Governo ter ignorado as recomendações de destacadas personalidades da Sociedade Civil e de especialistas que vêm recomendando a necessidade de dar maior atenção às questões de defesa, conservação e reanimação dos nossos testemunhos histórico-culturais.

É preocupante o facto do Governo ter ignorado as disposições da carta de Washington sobre cidades históricas promovida pela Unesco.

É preocupante o facto do Governo fazer tábua raza do seu próprio Programa de Governação aprovado pela Assembleia Nacional.

É preocupante o Governo agir contra os pareceres dos seus próprios serviços.

Lembramos que na reunião no Centro Cultural do Mindelo para a apresentação pública do projecto da Delegacia de Saúde de São Vicente, com a presença do Senhor Ministro da Saúde, Drº Basílio Ramos, perante os argumentos daqueles que diziam que a Casa do Dr. Adriano não era património histórico porque não estava classificado, o Presidente do Instituto de Investigação e do Património Cultural, Dr. Carlos de Carvalho, na presença de mais de duzentas pessoas, foi peremptório: - Levantou-se da cadeira e disse em alto e bom som para toda a gente ouvir, inclusive o Senhor Ministro da Saúde que se encontrava presente: – “Aquele espaço, para todos os efeitos é património histórico”. Uma nota curiosa nesse encontro- o Senhor Ministro não disse uma única palavra e agora se percebe que a decisão de destruir a casa já estava tomada.

O próprio Ministro da Cultura, ao tempo, Dr. Manuel Veiga telefonou para o Movimento e disse: “eu, como Ministro da Cultura só tenho que felicitar-vos por esta iniciativa e vou fazer aquilo que estiver dentro das minhas possibilidades para defender esse património”.

É preocupante que o Governo e a Câmara Municipal de São Vicente ignorem a Constituição da República que no artº 79 da Constituição: “ diz que incumbe especialmente ao Estado - promover a salvaguarda e a valorização do património cultural, histórico e arquitectónico. O Estatuto dos Municípios, Lei nº 134/IV/ 95, no seu artigo 36º, diz que uma das atribuições do Município é proteger e conservar o património histórico, cultural e artístico de interesse municipal”.

No entanto o Miradouro Craveiro Lopes já foi destruído, o Fortim d’Del Rei, está em perigo, o Clube de Golfe de São Vicente está em perigo, o cinema Éden Park está em perigo, a construção do Ponte de Agua não teve em conta os aspectos históricos daquela praia. Tudo isso vem acontecendo porque a Constituição e demais leis do país não estão a ser respeitadas, o Governo e a Câmara Municipal de São Vicente não têm uma política conjunta de protecção e salvaguardar do património cultural desta Cidade.

No entanto, o Sr. Primeiro-Ministro farta-se de fazer discursos a favor do património histórico, e diz a toda a hora “Vamos desenvolver a indústria da cultura;” “Elegemos o turismo como motor de desenvolvimento do país” e, no entanto, o nosso património cultural que é um elemento importante para a concretização desta política está a ser destruído.

Há uma falta de coerência entre o discurso e a acção governativa.

Continuando: - Desde o mês de Abril deste ano tudo fizemos para que o Senhor Primeiro-Ministro nos concedesse uma audiência. Esteve quatro vezes em São Vicente, nunca teve tempo para receber o Movimento para a Salvaguarda do Património histórico, porque trazia sempre a agenda sobrecarregada, era desculpa, quando o Senhor Primeiro-Ministro teve tempo para se deslocar a São Vicente para assuntos muito menos importantes. Disponibilizamo-nos para deslocar à Cidade da Praia, não recebemos nenhuma resposta. Fomos desrespeitados e enganados. Isso é ofensivo e não fica bem a um Primeiro-Ministro.

Por isso, protestamos e denunciamos a atitude discriminatória do Sr. Primeiro-Ministro porque governar um país é uma grande responsabilidade que começa em saber ouvir toda a gente sem descriminação.

No tocante a Assembleia Nacional: Em princípios do mês de Janeiro deste ano, um grupo de cidadãos deu entrada na Assembleia Nacional de uma petição a favor da salvaguarda da antiga residência da Família Duarte Silva, ameaçada de ser destruída por decisão do Governo com a cumplicidade da Câmara Municipal de São Vicente, pedindo que a questão fosse discutida.

Nunca recebemos qualquer resposta. A petição foi feita nos termos Constitucionais, nomeadamente na parte que diz que todos os cidadãos, individual ou colectivamente, têm o direito de apresentar, por escrito, aos órgãos de soberania ou do poder local e a quaisquer autoridades, petições, queixas, reclamações ou representações para defesa dos seus direitos, da Constituição, das leis ou do interesse geral e bem assim o direito de serem informados em prazo razoável sobre os resultados da respectiva apreciação.

Insistimos junto do Senhor Presidente da Assembleia que o Governo não podia avançar com o projecto enquanto a Assembleia não se pronunciasse sobre a petição. Nunca recebemos qualquer resposta. É sabido que a Assembleia Nacional não dá atenção às petições dos cidadãos. São metidos na gaveta.

Quando quisemos exercer o direito de acção popular junto dos tribunais nos termos constitucionais que diz que é garantido, nos termos da lei o direito de acção popular, designadamente para a defesa do cumprimento do estatuto dos titulares de cargos públicos e para a defesa do património do Estado e demais entidades públicas, no caso concreto da Casa do Dr. Adriano, os juristas nos dizem que existe a norma constitucional, mas não há lei a regulamentar a norma e consequente a norma não tem eficácia.

Falemos dos Deputados nacionais: Num universo de setenta e dois deputados apenas quatro levantaram a sua voz para defender a Casa do Dr. Adriano como património histórico. Destaca-se o Dr. Lídio Silva que tem sido incansável na sua luta. O Engenheiro António Monteiro, o Dr. António Pascoal Santos e o Dr João Medina. É lamentável o desinteresse da nossa Assembleia numa questão tão importante. A Assembleia faz muito barulho mas produz muito pouco. Os deputados na sua generalidade tratam dos assuntos dos partidos políticos na sua luta pelo poder mas omitem os interesses dos cidadãos que os elegeram.

Falemos dos nossos Vereadores: Não se nota a existência deles.

Referindo de novo ao Senhor Presidente da República: Depois de nos ter dado o seu apoio e toda a força nesta luta, muito recentemente veio a S: Vicente e atráves dos Órgãos da Comunicação Social lançou o apelo aos artistas para não deixarem destruir o património cultural de São Vicente mas, infelizmente, estes até então não reagiram.

A Assembleia Municipal, sob a presidência do Dr. João Gomes, deliberou pela preservação desse património. Comunicou a sua deliberação ao Senhor Primeiro Ministro, ao Senhor Ministro de Estado das infra-estruturas, ao Senhor Ministro de Estado da Saúde e nenhum deles se dignou reagir, o que é uma atitude de grosseria e que evidência que a decisão para demolir a Casa já estava tomada e não havia satisfações a dar a ninguém. Demonstra a falta de respeito pela instituição eleita democraticamente pelos munícipes de São Vicente para defender os seus interesses. Isso é um acto de violência contra as regras da democracia e contra os interesses de são Vicente. É urgente tomarmos consciência do rumo errado que as coisas estão a tomar.

Concluíndo: - É mais do que evidente que o nosso sistema democrático está com muitas fraquezas, não se auto-controla, favorece os abusos do Poder. É a democracia que está seriamente em perigo.

Nestas condições é mais do que evidente que o país não pode estar bem governado. E a Sociedade Civil deve agir para evitar males maiores.

A destruição da Casa do Dr. Adriano, ocorre na sequência dessa fragilidade.

As forças políticas bem como a sociedade civil saberão extrair as devidas ilações desse acto e agir em conformidade para corrigir os erros.

E finalmente e em particular, ficam como os maiores responsáveis pela destruição desse património, filhos de São Vicente: a Drª Isaura Gomes que como Presidente da Câmara, para além de ter posto esse espaço à disposição do Governo para a construção da Sede da Delegacia de Saúde, também, no acto oficial de inauguração das jornadas de enfermagem luso-caboverdianas promovidas pelo IESIG (Instituto de Ensino Superior Isidoro da Graça), espicaçava o Governo da seguinte forma: “ Ou o Governo avançava com o projecto ou dava esse espaço ao IESIG para construir o seu centro de enfermagem”. Infelizmente! Faltou-lhe a idoneidade e o orgulho nacional para ter a consciência de que o património cultural da sua Cidade não deve ser destruído para além do dever institucional que ela tem de respeitar a Constituição e o Estatuto dos Municípios sobre esta matéria, na sua qualidade de Presidente da Câmara Municipal de São Vicente.

Quanto ao Ministro das Infra-estruturas e Transportes, engº Manuel Inocêncio - é estranho e incompreensivel que um filho de São Vicente e deputado por esta Ilha com pretensões a outros voos, não tenha o orgulho de preservar a identidade da sua Ilha. |

  • A SAÚDE… E A REALIDADE
         O povo em Santiago reclama cuidados de saúde para os filhos no «inferno» das filas de espera do HAN e mais: invoca falta de condições no atendimento e favorecimento pessoal no acesso a cuidados de saúde por parte funcionários do Hospital Agostinho Neto na Praia. A administração do Hospital responde, reconhecendo a impotência da estrutura de saúde da capital : «Não temos, não há mais médicos no país.» […] «Não há enfermeiros no mercado» — Artur Correia, Director do Hospital Agostinho Neto na Praia.
         A culpa disto? Há que olhar para quem gere o país: o Governo e o seu discurso de desenvolvimento que nada tem a ver com o país real. A realidade é esta! Ou será que a realidade se engana, Senhor Ministro da Saúde? |


Imagem: Estados de Espírito I (Those who leave) — Umberto Boccioni

terça-feira, 21 de setembro de 2010

  • ANJOS DA SERRA
O meu destino, se parar,
que seja no teu céu;
nos campos revoltos de sonhos
que do íntimo brotam em silêncio
como este rio brando que fende a serra
e beija as sombras de ouro e os olhares campestres.

O meu olhar é geométrico, sim;
é redondo como o sorriso da alvéola-amarela:
a minha casa, o meu mundo todo antes de ti.

O meu destino, se parar,
que seja no teu céu, murmúrio dos anjos
da Serra que cai sobre mim
com a aurora em mirra perguntando-me:
“Que haverá de mais belo, além mim mesma,
do que despertar o planalto do coração
e o povo em bruto?”
---- Sertã, 19-09-2010 (07:02 a.m)
Virgílio Brandão

Imagem: Fotografia de exposição múltipla de Marcel Duchamp (1912)

  • ESCOLHAS...
«[…] Tudo considerado, a Utopia parece estar muito mais perto de nós do que qualquer pessoa, apenas quinze anos atrás, poderia imaginar. Nessa época, eu a projectei para daqui a seiscentos anos. Hoje parece perfeitamente possível que o horror esteja entre nós dentro de um único século. Isto é, se nos abstivermos de nos fazer saltar pelos ares em pedaços antes disso.

Na verdade, a menos que prefiramos a descentralização e o emprego da ciência aplicada, não como o fim a que os seres humanos deverão servir de meios, mas como o meio de produzir uma raça de indivíduos livres, teremos apenas duas alternativas: ou diversos totalitarismos nacionais militarizados, tendo como raiz o terror da bomba atómica e como consequência a destruição da civilização (ou, no caso de guerras limitadas, a perpetuação do militarismo); ou então um totalitarismo supranacional suscitado pelo caos social resultante do progresso tecnológico, e em particular da energia atómica, totalitarismo esse que se transformará, ante a necessidade de eficiência e estabilidade, na tirania assistencial da Utopia. É escolher.» in Aldous Huxley, [prefácio de] Admirável Mundo Novo (1946)

Imagem: Os Barulhos da Cidade Invadem a Casa — Umberto Boccioni (1911)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

  • O MAL E A INCONSCIÊNCIA EM ESTADO PURO

Quosque tandem, José Maria Neves, abutere patientia nostra? 

sábado, 18 de setembro de 2010

  • AS CONSEQUÊNCIAS DOS PRAZERES E A NUDEZ
Era para ler, esta noite, um discurso. À janela, nu como nasci! fumo e oiço Pachebel, Bach, Chopin e Ravel. O antes de nascer deve ter sido assim: a alma em orgasmo, reclamando a beleza como pão. Mas a beleza, e o prazer, têm o seu custo! E num momento de distracção meu secreto cachimbo Peterson queimou…

Há uns anos, quando pregava o Evangelho e tinha alguns prazeres como pecados (ler Os Lusíadas ou fumar), diria que foi por nutrir por momentos um pensamento análogo à verborreia entusiástica de Herodes que causou esta perda intempestiva. Mas não, foi somente juntar demasiados prazeres ao mesmo tempo; e não atentar num conselho de doce (Mas não é que o conselho de colocar mel ou açúcar pilé no cachimbo fazia sentido? Tudo o que é virgem dá trabalho.).

E penso, à guisa da pena teclar: “E se tivesse, agora, Nossa Senhora d’boca v’rôd pa tchom à espera, o que aconteceria?” Provavelmente não teria deixado o meu cachimbo queimar… Ah, o entusiasmo! O entusiasmo é irracional, desejo sem rédeas. Aquecê-lo demais, não ter curado devidamente da sua virgindade deu nisso; nisto: morte queimada de cachimbo.

“Cachimbo queimado é como ejaculação precoce diante do ser amado!” — diz-me o meu poeta. Só posso sorrir, como dizia Epicteto. Volto à janela, nu. Nu como a minha mãe me trouxe ao Mundo. Fumo um ducados, neste momento um inesperado sucedáneo de prazer: un cigarillo negro como Yo.

E escuto Liu Fang… deixando o discurso Mamadou Dia sobre a democracia segundo a via africana para logo. A nudez é libertadora, uma espécie de doce e necessária verduga: mostra o que somos de verdade; principalmente para nós mesmos.

Imagem: A Arte e a Literatura, Bouguereau

sexta-feira, 17 de setembro de 2010


| PROSLOGION

Vou dar de beber ao mar,
o mar da saudade que me afronta de ti.
Está sedento, coberto de sal e dor
da Noite de afrontas: o mundo está pejado
de excrementos humanos.
E o mar; é o Mar sedento…

Vou dar de beber à praia,
a praia testemunha dos gemidos do mar,
do que me afronta de ti: mundo sujo,
omnimundo pardo, venal…
Ó praia de excrementos inconscientes!,
só podes ser o que és.

Vou dar de mamar à Via Láctea
depois de parir a luz do teu beijo de tarde
e emoldurar o sonho de π
e do teu suor de chocolate de avenida curva,
ossatura prima, raiz da espera.

Na estrada, na chegada
escuto o povo que sou eu a gritar:
«Quero mais água!
Quero mais luz no meu céu…
o pão-nosso de cada dia não dado,
e o leite e o mel prometidos;
tudo o que têm os teus amores negros…»

Nunca chegarei, ó amada minha.
Se proslogionares-me à chegada, que farei
eu que só posso dar-te a água pura da tua fonte,
o leite dos teus forçados esforços,
e o mel gerado por ti nos meus olhos?

O esgoto aéreo já não tem latas…
a água que bebo mata-me em silêncio
e tenho o inferno no estômago a gritar: civilização!
----- Lisboa, 16.09.2010
Virgílio Brandão

  • PROSOPON DOS DIAS
          «Todas as coisas humanas têm dois aspectos, à maneira dos Silenos de Alcibíades, que tinham duas caras(i) completamente opostas . Por isso é que, muitas vezes, o que à primeira vista parece ser a morte, na realidade, observado com atenção, é a vida. E assim, muitas vezes, o que parece ser a vida é a morte; o que parece belo é disforme; o que parece rico é pobre; o que parece infame é glorioso; o que parece douto é ignorante; o que parece robusto é fraco; o que parece nobre é ignóbil; o que parece alegre é triste; o que parece favorável é contrário; o que parece amigo é inimigo; o que parece salutar é nocivo; em suma, virado o Sileno, logo muda a cena. Estarei falando muito filosoficamente? Pois vou explicar-me com maior clareza.
          Todos vós estais convencidos, por exemplo, de que um rei, além de muito rico, é o senhor dos seus súbditos. Mas, se ele tiver no peito um coração brutal, se for insaciável na sua cobiça, se nunca se mostrar satisfeito com o que possui, não concordareis comigo que é miserabilíssimo?
          […]
          Que é, afinal, a vida humana? Uma comédia. Cada qual aparece diferente de si mesmo; cada qual representa o seu papel sempre mascarado, pelo menos enquanto o chefe dos comediantes não o faz descer do palco. O mesmo actor aparece sob várias figuras, e o que estava sentado no trono, soberbamente vestido, surge, em seguida, disfarçado em escravo, coberto por miseráveis andrajos. Para dizer a verdade, tudo neste mundo não passa de uma sombra e de uma aparência, mas o facto é que esta grande e longa comédia não pode ser representada de outra forma.»
---- in Elogio da Loucura — Erasmo de Roterdão
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         (i) Assim como Janus Bifrons: este olhava o passado e o futuro.

Imagem: Os Amantes, Milo Manara

  • PROSTITUIÇÃO INTELECTUAL OU INTELECTUAIS PROSTITUTOS?
Via, no outro dia, o programa «Conversa em Dia» de 02 Set 2010 na RTC e, a dada altura, fiquei de boca aberta… quando se falava de prostituição, de “prostituição intelectual”. Não quis acreditar no que via e ouvia: estavam quatro pessoas em volta de uma mesa, três debatedores e uma moderadora, com o país inteiro a ouvir, e não sabiam do que falavam!
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Primeiro porque demonstraram não saber o que é ser-se um “intelectual”. Segundo, porque confundiram prostituição intelectual com prostituição de intelectuais; sendo esta última, em rigor, uma quase impossibilidade no nosso tempo. E pergunto: Como é possível que, estando quarto pessoas numa mesa a falar de juventude, de valores e outros assuntos sociais conexos, dentre os quais a prostituição (que era temática agendada e que não emergiu de forma acidental), se confunda prostituição intelectual com prostituição de intelectuais? Mais: que se confunda a escolaridade ou formação académica com a dura condição humana de intelectual… E, o que é mais grave!, em consequência disso, grande parte do país ficou com uma ideia pioneira sobre o que é a “prostituição intelectual”.
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Que a nossa gente tem problemas a lidar com conceitos, isso já é consabido; vivemos e sobrevivemos com isso. Mas será pedir demais que se fale somente sobre o que sabe e se domina, ao menos ao de leve? As pessoas vão às escolas, institutos e universidades para aprenderem a aprender e a pensar, mas tais instituições parecem resultar em espaços pouco úteis para os mesmos. «Porquê? Mas porquê é que as pessoas não apreendem?» — perguntar-me-á. As razões são muitas, mas, no plano estritamente subjectivo da questão, esta lembra-me uma referência de Horácio, nas suas Odes, sobre Sócrates e o que podemos chamar de aprimoramento humano:
— Certo homem não melhorou com as suas viagens — disseram a Sócrates.
— Tenho a certeza de que não. Ele foi consigo mesmo — respondeu Sócrates.
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Por não percebermos o que é ser-se “intelectual”, porque pensamos que somos todos intelectuais a partir do momento em que aprendemos algumas coisas na Escola ou na Universidade, é que viajamos sozinhos na soberba e não chegamos a melhorar o que somos e a ansiar, cada vez mais, a melhorar e saber mais e, em última análise: “aprender alguma coisa antes de morrer”, como dizia Sócrates.
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Mas uma coisa é certa, e insofismável: a prostituição do corpo é um exercício de liberdade — em circunstâncias de excepção — ou da livre necessidade, consoante as circunstâncias causais, e deve ser compreendida no quadro social existente e não com considerandos subjectivos sem sustentabilidade em dados sociais objectivos sobre a comunidade onde emerge. Por vezes a prostituição revela-se um valor como acto em si mesmo e que só absolutismos éticos obtusos não compreendem.
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Agora, a prostituição intelectual é, pela sua natureza e em razão de quem a pratica, uma actividade perniciosa, profundamente danosa para a sociedade no seu todo: tem por base o egoísmo e por fim a subversão da realidade e não a sobrevivência pessoal ou de outrem que se encontra na raiz da prostituição (a existência “sempre” de alternativas é da ordem da fantasia de quem discursa de barriga cheia e prenhe de fantasias). E ela, prostituição intelectual, ao contrário da prostituição tout court, tem, também, uma dimensão omissiva…
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Não foi por acaso que o Imperador Alexandre Severo — a conselho de Ulpiano — punia severamente os homens de conhecimento que eram dados ao que hoje se chama “prostituição intelectual”: constituíam um perigo social, para o Estado e para a cidadania. Falamos de pessoas que sabem, mas sabem para o mal; e sabem para o mal porque usam o saber de forma amoral e instrumental; desde que sejam pagos em numerário, espécie material ou honrarias… o seu saber está disponível ao poder ou a grupos com poder ou com propensão ao poder ou a ter poder. Nestas circunstâncias o saber não consubstancia um valor mas sim um desvalor social. O que não falta no mundo são prostitutos intelectuais; assim como não faltam pobres sonhando serem abastados morgados.
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Os jovens falam em valores e em ausência de valores, mas fico sempre com a percepção de que não têm consciência do sentido poliédrico do conceito de valor. Acusam os mais velhos de não transmitirem “valores” ou “modelos” aos jovens, mas parecem não ter interiorizado os valores que reclamam para os “outros” concidadãos. Um dos convidados da RTC (Ladislaz Santos; espero que ter grafado devidamente nome) falava em “nível” — no mesmo sentido de ”classe baixa”, segundo expressão de uma Ministra do presente Governo… —, sem consciência de que tal epíteto é uma forma de estigmatização da sociedade por via da estratificação qualitativa dos cidadãos em razão da sua situação social. E, pelo seu discurso, assume isso como um valor social com alguma bondade… mas se pensar bem, o que encontrará é um discurso discriminatório em razão da origem ou situação social que colide com os valores constantes dos fundamentos da nação cabo-verdiana. Isto, sim! é um paradoxo… pois a discriminação, neste sentido, seria um valor.
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O debate foi, de todo, confrangedor.
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Os valores não são dados, são imanentes à dada sociedade e transmitidos e apreendidos pelos cidadãos e pela comunidade globalmente considerada. Álcool, droga, prostituição e violência sempre existiram; hoje haverá mais… mas importado em virtude e termos uma sociedade mais aberta e consumista; pois também importamos valores e “modelos”, a todos os níveis! Até o modelo de Estado — e os valores que propugna — foi importado, de um prêt-à-porter de segunda linha experimental da Europa democrática. Ademais, bom seria que tivéssemos em consideração que Valor é um produto da relação do sujeito com os fundamentos da sociedade em que vive, seja ela segmentada ou universal. Não é por acaso que encontramos em Nicolai Hartmann e Max Scheler a ideia de um direito natural de “conteúdo variável”.
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Todas as sociedades têm um conjunto de valores que emanam da livre necessidade da comunidade, não é dada, é apreendida de acordo com a ética que essa sociedade retira da natureza e adere ao longo do tempo e os agentes políticos têm o dever de sustentar com normas jurídicas adequadas e acções políticas necessárias e no plano da escolha certa (pelo que dever-se-á estar consciente de que nem todos os valores formais são, per si, universalizáveis). No plano substancial, é assertiva a afirmação de Montesquieu de que “Não tirei meus princípios de meus preconceitos, e sim da natureza das coisas”.
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Os valores não se dão, assim como as “mentalidades” não se mudam de forma voluntária — o tempo e dado sentido ético adquire-se naturalmente; e neste sentido o sistema educativo tem um papel primordial (e é por isso que o sistema educativo não pode ser gerido de forma casuística e conjuntural: deve ter preocupações geracionais) na formação e formatação da pessoa humana. Bastará olharmos para o sistema de multiplicação de certos extractos familiares na sociedade cabo-verdiana (com uma substituição da classe média colonial por uma “classe dirigente” no pós independência, e que geraria a intelectualidade balofa que hoje temos) para percebermos que a predominância de determinados valores positivos está conexa com a educação familiar e formal, em particular da educação religiosa ou conexa com ela, e outros, de natureza negativa, conexos com o darwinismo.
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E é este darwinismo social que engendra quer a prostituição somática quer a prostituição intelectual, esta ao nível da ambição e não da sobrevivência. E elas, reitero, agora de forma desnecessária, não são a mesma coisa! Messalinas ouve-as e haverá em todas as eras e sociedades — assim como a pobreza e as formas de pobreza —, Aspásia de Mileto foi só do seu tempo e lugar… mesmo quando ouvimos vozes como a da deputada italiana Angela Napoli dizer que, como citada no El País, "No excluyo que haya senadoras o diputadas que hayan sido elegidas después de haberse prostituído."
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Agora o que me preocupa é, ainda, ver a nossa juventude a não apreender os conceitos e a não perceber que não precisa de “modelos” para forjar a sua estrutura mental, emocional e moral, que o “modelo” de pessoa humana não pode nem deve ser dado pelas instituições — fazer apologia tal modelo e/ou aceitá-lo é estender e predispor a mente às cadeias da opressão; aceitando a ideia de sub-homem e/ou de super-homem — mas construída na liberdade de pensamento e de agir no quadro do que a humanidade em cada um de nós determina (e a humanidade inerente à pessoa humana não concede títulos nem classes ou níveis sociais…) no quadro de uma sociedade fundamentada na natural dignidade e na liberdade da pessoa humana. Um dia, quem sabe, talvez possamos todos dizer — e fazer! — como Propércio: Unusquisque sua noverit ire via (Deixemos que cada homem escolha o caminho que deve seguir).
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Agora, uma questão emerge e inquieta-me: deve um intelectual prostituir a sua alma, o seu saber e seu pensamento por amor à humanidade? Num Mundo cada vez mais feito de barricadas ser-se intelectual é uma actividade perigosa… para os que não se silenciam.
---- Prima forma: Liberal on line.
Imagem: Donna seduta — Joan Miró

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

[…]
O esgoto aéreo já não tem latas…
a água que bebo mata-me em silêncio
e tenho o inferno no estômago a gritar: civilização!

  • LA EDUCACIÓN POLÍTICA DE LA JUVENTUD AFRICANA POST-COLONIAL Y EL CONTROL DE LOS MEDIA (1)
           «El deber de cualquier movimiento colonial importante para la liberación nacional, sin embargo, debe ser la organización del trabajo y la juventud; y la liquidación del analfabetismo político. Esto debe conseguirse a través de una educación política de las masas que se mantenga en contacto constante con todas las masas de los pueblos colonizados. Este tipo de educación debe apartarse de la intelectualidad que ha sido el verdadero artífice del vasallaje colonial.

           Luego, las organizaciones deben preparar a los agentes del progreso, deben encontrar lo mejor de su juventud y encaminarla por el sendero de sus verdaderos intereses (tecnológicos, científicos y políticos) y establecer un fondo de educación para ayudar y estimular a los estudiantes de las colonias para que estudien en sus casas y en el extranjero, y deben encontrar escuelas propias para diseminar su educación política. El propósito principal de la organización es darle muerte al colonialismo y liquidar de una vez la dominación imperialista extranjera.

          Toda organización debe profundizar y asegurar sus propias bases y fortalecer al movimiento obrero, los campesinos (trabajadores y pequeños campesinos) y la juventud. Este movimiento de liberación nacional debe luchar por sus propios principios y conseguir sus objetivos.

           Hay que contar con su propia prensa. No se puede vivir separado de ella, sin desviarse de sus objetivos y aspiraciones, sin olvidar las masas, la fuerza organizada del trabajo, los campesinos organizados, y la organización responsable y activa de la juventud. Estas son las principales fuerzas en el movimiento de liberación colonial, y según ellas se desarrollan y ganan conciencia política, de este modo la liberación sale de la esfera de meras ideas y se vuelve real y tangible.»  in Kwame Nkrumah, Hacia la Libertad de las Colonias, p.26-27.
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(1) Amílcar Cabral e o PAIGC/CV são tributários do pensamento de Kwame Nkrumah. O sistema político instaurado em Cabo Verde seguiu de perto o pensamento e as práticas políticas autoritárias de Kwame Nkrumah. Foi uma decisão voluntária: as milícias, o controlo dos media e a criação da JPAI, da OPAD-CV e de outras organizações no seio da sociedade para a sua educação política são testemunhos bastante dessa realidade. É claro que há cegos que não querem ver…
Imagem: Bandeira do Ghana

  • PROVÉRBIOS DO INFERNO
"A verdade jamais será dita de modo compreensível, sem que nela se creia.", William Blake, «Provérbios do Inferno», in O Casamento do Céu e do Inferno

Imagem: Pinóquio — Milo Manara

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay — Sancho Panza in Don Quijote de La Mancha

  • OPAD-CV. A LAVAGEM DE CÉREBRO E O LIVRE DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE DAS CRIANÇAS CABO-VERDIANAS OU COMO OS CEGOS CONSEGUEM VER
A propósito de uma afirmação de Carlos Veiga de que a OPAD-CV era uma organização típica dos regimes comunistas, análoga à organização fascista da Mocidade portuguesa, que tinha como objectivo a lavagem do cérebro das crianças cabo-verdianas — asserção que subscrevo sem reservas! —, o Primeiro Ministro José Maria Neves reagiu de forma atrapalhada, atabalhoada até!, e a Primeira Dama, D. Adélcia Pires, primeira Presidente da OPAD-CV (o marido, hoje Presidente Pedro Pires, era então Primeiro Ministro), veio a terreiro dizer que não, não era lavagem cerebral – era uma forma de organização da sociedade, de ocupar os tempos livres dos jovens que se “manifestaram a defender os seus direitos” e porque a sociedade era «desorganizada» e precisava de ser «organizada»; isto é: controlada. Isto num país em que eram proibidas as manifestações…

Adélcia Pires afirma o que todos sabem: organizou-se o país segundo a matriz do socialismo democrático — do comunismo, e com o respeito pela novel Pátria e a Nação e os seus símbolos como matriz formativa. Aliás, a mesma não diz que «o Estado organizou-se» ou que «o Governo decidiu» por determinado modelo de sociedade, não. Diz que o «Partido decidiu…» e o Partido, que se confundia com o Estado, com o colectivo, decidiu criar organizações para controlar as crianças, as mulheres, os trabalhadores e a sociedade em geral com instrumentos de opressão como as malditas milícias e os tribunais populares…

A OPAD-CV era o instrumento do PAIGC-CV para o controlo da liberdade de pensamento e formatação ideológica do cabo-verdiano, ainda menino, através da doutrinação dos mesmos num contexto lúdico (e nem vou deter-me na importância política deste mecanismo social de conformação da cidadania). A reformatação ideológica do homem cabo-verdiano ab ibnitio, na sua origem formadora, na sua meninice e juventude — na sua primeira idade, não era uma «lavagem de cérebro»? (Tentava-se, ao mesmo tempo, fazer o mesmo com a sociedade adulta, através da «reorganização da sociedade» que vinha desorganizada — isto é, com uma outra matriz ideológica de dominação — do tempo colonial.) Basta ouvir-se muitos dos membros da OPAD-CV para se perceber, mesmo para um leigo nas ciências adequadas ao diagnóstico de tais discursos, o que era, na verdade, tal organização: um instrumento de doutrinação das crianças pelo Partido «dirigente da Nação». Não ver isso, sim!, é algo pior do que cegueira… e que recuso-me a adjectivar, a qualificar… até porque os invisuais são privados de um sentido mas não da graça de pensar.

A lavagem de cérebro é, grosso modo, uma reforma do entendimento ou do pensamento; uma reformulação ou reformatação da forma de pensar o Mundo, de estar em sociedade e de entender o outro. No caso de Cabo Verde, segundo o ideário autoritário do Partido dirigente da nação — o PAIGC-CV: a matriz comunista. A fórmula é usada há muito tempo; não é nenhuma invenção da modernidade e muito menos da política enquanto ciência. Há uns anos trabalhava para uma dada instituição e o Presidente do Conselho de Administração começou a ter a política de contratar jovens inexperientes, muitos ainda em formação académica, em detrimento de pessoas com experiência comprovada. Percebi a razão de ser da sua política, mas não podia deixar escapar a oportunidade de aprender como ele pensava, como funcionava o seu pensamento no plano estrutural, e acabei por perguntar-lhe:
— Adeodato Pacífico (nome fictício), porque é que insistes em contratar gente jovem e sem estar devidamente preparada? Não seria conveniente contratar pessoas com maior experiência profissional?
E respondeu-me:
— Sabes, a razão porque opto por jovens é simples: os profissionais experientes têm muitos maus hábitos, e são difíceis de controlar; estes jovens não. Pelo que poderei moldá-los à minha forma de pensar e de fazer as coisas…

Sorri. Era isso, e muito mais. Sabíamos isso, e bastava-nos. Por vezes as palavras sobram, e o que não se diz é por demais eloquente. E era esse o caso. E não é que, em termos práticos (como era então previsível — hoje é política de emprego de grandes corporações), ele tinha razão no que dizia?

A formação e conformação ética das pessoas, ainda que não nos apercebamos disso, é a prática social mais comum que enfrentamos na modernidade e é a maior arma do Estado enquanto ente social — o sistema de educação é a prova acabada desta realidade: é a expressão de um determinado sentido de sociedade e que as políticas do Estado para a Educação, a Cultura (em muitos casos de contra cultura, de embrutecimento selectivo de determinadas franjas da sociedade ou de construção de referências icónicas transversais à sociedade) e a Justiça levam a cabo. Nos Estados autoritários a formatação social é, também e deste modo, de ordem política e ideológica mais funda; pelo que extravasa, por imperativo da própria lógica de tais sistemas políticos, as estruturas educacionais tradicionais. E começa, naturalmente e ao nível estrutural, na juventude em desenvolvimento da personalidade…

As crianças da Mocidade portuguesa faziam a saudação nazi, à imagem da Juventude italiana — cuja ideologia matriz influenciaria, v.g., a Alemanha hitleriana e as ditaduras do Brasil e da Argentina —, as cabo-verdianas uma saudação análoga, ainda que de matriz ideológica opostas; mas todas tinham em comum um factor: expressar um dado sentido de louvor e glorificação a um líder ou à ideia de nação e aos seus símbolos. Estas organizações, de matriz funcional com base científica, nomeadamente do comportamentalismo — tinham e têm como prática doutrinar as crianças num dado sentido de cultura, tidas como «revolucionárias» ou detentoras de dados valores fundacionais. Deus, pátria e nação, em regra — era a matriz do fascismo. Como o Estado autoritário de Cabo Verde entre 1975 e 1991 era de matriz socialista e ateísta, Deus desapareceu da equação, além de outras razões de ordem política; mas a lógica formativa e conformadora do homem cabo-verdiano era a mesma.

Espero que se perceba, agora e de uma vez por todas, o discurso da «perda de valores…» e a sua conexão à violência juvenil em Cabo Verde; assim como outros esforços de afirmação de primazia de dado sentido de instrumentos de cultura. Nada acontece por acaso, e a reorganização da OPAD-CV era previsível no presente contexto do discurso ideológico cabo-verdiano (por vezes de apropriação de um dado sentido da história e da memória colectiva) que, infelizmente, passa desapercebido ao cidadão comum.

Todas as sociedades autoritárias arregimentam as crianças, para ensiná-las a serem homens, melhores cidadãos, educá-las... na senda de sustentarem o seu modelo de sociedade. (Chandragupta, visionário, tinha como sua segurança e polícia secreta os seus filhos; e estes tudo faziam para proteger o Pai…) É a doutrinação social, a construção em massa de um dado modelo ético de homem — que Salomão já ensinava a fazer com as crianças: «Ensinai a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele» (Provérbios, XXII.6). Por isso é que muitos cabo-verdianos adultos, ainda hoje, se recusam a reconhecer a bandeira e o hino nacionais emergentes da II República, e chamam Abel Djassi (Amílcar Cabral) de Pai (que é uma espécie de anagrama de Partido Africano da Independência e procede à uma duplicação subliminar da representação icónica da imagem de Amílcar Cabral e do PAICV). Não é, de todo, somente uma questão de quererem ou não; é, também, de não poderem. Estamos, neste plano, de um condicionamento psicológico de ordem subliminar herdada da I República e que a sociedade cabo-verdiana ainda não encontrou mecanismos de lidar de forma adequada.

S. Paulo — que distinguia a relação entre (i) o homem com Deus e (ii) o homem com o Estado — dizia aos cristãos em Roma que deveriam ser «transformados pela renovação do entendimento», do pensamento (Romanos XII.2). E isto foi a causa maior da perseguição dos cristãos no Império romano: o seu desrespeito pelas regras anteriormente existentes no plano religioso que a transformação de sentido ético e social da mensagem cristã transportava e que revolucionou a sociedade romana, mesmo sem esta querer. Um olhar atento ao pensamento de S. Paulo — nomeadamente a dimensão jurídica — e da sua evolução proporciona uma compreensão mais cabal desta necessidade do homem conformar-se à normalidade social ou transformá-la nas suas raízes. E foi o que o cristianismo fez ao Império romano… iniciou o ensino de uma nova forma de pensar e de ver o Mundo e a existência, introduzida lentamente no coração de Roma, até ter poder suficiente para se impor como lei (Édito de Milão, de Constantino e Licínio em 313 d.C) e acabar por ser o «normal» em todo o Império. Quem, hoje, no Ocidente, admite, por mera possibilidade, a existência de algo diferente do monoteísmo, e defenda o modelo religioso romano? Foi uma transformação social que começou com a transformação do entendimento, do pensamento. «Ensinai a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele» — asseverava com razão Coélet.

É que no que às crianças diz respeito, a situação é bem mais simples: a sua idade mental permite que, facilmente, a sua formatação ética e ideológica seja feita com naturalidade pois a sua personalidade está a ser formada, em desenvolvimento. Neste aspecto, estes movimentos, quer a Mocidade Portuguesa quer a Organização dos Pioneiros de Abel Djassi e organizações análogas constituiam instrumentos políticos que brigam com o princípio do livre desenvolvimento da personalidade da pessoa humana.

Poderá ser uma questão de cegueira, de se ser incapaz de ver ou não ver esta realidade. O que sei é que não sou cego quanto a isto. Poderei ser estrábico no que concerne à compreensão cabal da mecânica quântica, mas não quanto a este aspecto. Agora, concordo com o Primeiro Ministro José Maria Neves: não faz sentido cercear a liberdade das pessoas — nunca fez sentido! Mas, disse que não faz sentido, hoje, cercear a liberdade das pessoas. E anoto o «hoje» da sua afirmação. E pergunto: Mas, e durante o regime autoritário do Partido Único do PAIGC/CV, fazia sentido cercear a liberdade das pessoas ó M.I. Primeiro Ministro José Maria Neves? É que não existia em Cabo Verde a liberdade de locomoção dos cidadãos para o estrangeiro (de emigração — que dependia de «autorização de saída» do Partido), de reunião, de manifestação, de pensamento, de livre expressão... Era essa a «liberdade», a «tolerância» e a «dignidade» que se ensinava às crianças cabo-verdianas? A opressão social, a castração do maior bem que o homem tem depois da vida? Give me a break, Prime Minister! A realidade não se engana.

A verdade é simples: A OPAD-CV era uma organização de natureza política e cerceava a liberdade de pensamento e o livre desenvolvimento da personalidade das crianças cabo-verdianas. É um facto histórico objectivo que vai para além da percepção dos sentidos ou da interpretação subjectiva do devir histórico cabo-verdiano.

A repristinação desta organização não constitui nenhum bem à comunidade, pelo contrário; é um desvalor histórico, uma desconsideração da memória colectiva e um, mais um, mau sinal dos tempos. Pode, sim, trazer algum bem ao novo mundo amarelo do PAICV por via da mensagem gráfica subliminar que as crianças levarão aos seus progenitores e para a sociedade em geral. A pseudo ressurreição da OPAD-CV neste ciclo eleitoral não é, de todo, inocente. Assim como não o foi o famoso fundo amarelo do boletim de voto de certo candidato em eleição passada… Não querer ver é cegueira moral, sim. E nisso tenho de concordar com a Primeira Dama Adélcia Pires — e eu sou daqueles que teimo em ver o que deve ser visto.

A dignidade das pessoas demanda liberdade — a que não se tinha durante o regime de partido único que pariu a OPAD-CV, braço cívico e ideológico do PAIGC-CV entre as crianças —, e uma liberdade plena, nomeadamente a do livre desenvolvimento da personalidade da pessoa humana. Esta fica ferida com a reactivação desta organização que, na verdade, não é meramente recriada mas sim reactivada em pleno pois esteve na clandestinidade social envergonhada ao longo de muitos anos… e agora arregimenta-se o saudosismo dos ex-membros no tempo próprio. Mais reitero: fere a memória histórica do país; e deveríamos ser mais cuidadosos com a nossa memória colectiva e com os ganhos obtidos com o Estado de Direito Democrático que, aos poucos, vão tendo um efeito boomerang...

Claro que tudo pode ter acontecido por acaso, que não havia nenhuma ideia ou plano de conformação e de formatação do pensamento do cidadão cabo-verdiano segundo uma matriz de pensamento baseado no socialismo democrático — comunismo; claro que tudo pode ter sido uma espécie de «obra e graça do Espírito Santo» ou uma extraordinária coincidência: a existência dessa realidade e matriz ideológica conexa à OPAD-CV e outras organizações criadas pelo PAIGC-CV… mas como tal forma de pensar o Mundo e a existência não liga com a ideia de Espírito Santo e o acaso, como Jean-Louis Boursin demonstra (As Estruturas do Acaso), não existe… só pode ser o que é! E não é uma questão de cegueira, não; é soment uns caloi t’krê ser Rei na terra d’gent ceg. E, parafrasenado uma das leis de Murphy, entre uma explicação complexa e uma simples, a simples é, em regra, verdadeira.

E sobre cegueira, há muito que estamos conversados… pois o 13 de Janeiro de 1991 retirou um glaucoma facolítico chamado Estado autoritário e de sentido único do PAICV dos olhos dos cabo-verdianos. E agora, agora… os cegos vêm! Eu, que nunca fui pioneiro nem militante de coisa nenhuma — nha militância era corrê orc e lê — sempre ouvi dos mais velhos e sábios: Ôi viv ne melom…
------- Prima forma:
Liberal on line.

Imagem: Aristóteles meditando

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

  • VOZES DE ATENTAR
A política é em nosso país o mesmo que tem sido em toda a parte, uma cortesã — José de Alencar.

Imagem: Castidade — Salvador Dali

domingo, 12 de setembro de 2010

  • A «BÍBLIA PARA TODOS» OU A MORTE DA BÍBLIA E A REDUÇÃO DE DEUS
A Bíblia é uma obra que não tenho entre a minha lista de livros preferidos, simplesmente porque é muito mais do que um livro. Faz-me falta, como os livros em geral, mas ela em particular! Assim, depois de ter lido oito versões das escrituras sagradas cristãs, tenho-me contentado, nos últimos anos, a revisitar uma tradução de João Ferreira de Almeida ou a ler uma passagem, diariamente, da King James no meu telemóvel. Não pensava, tão cedo, decidir ler o texto de uma ponta a outra — e de forma atenta. Mas não é que tive a notícia de que foi publicado uma nova tradução em português: «A Bíblia Para Todos»? Assim, lá me lancei, entusiasmado, a ler esta nova tradução da Bíblia.

Há muito que não tinha uma decepção literária tão grande, nem encontrava uma obra análoga com tantos erros. O primeiro erro aparece logo na primeira frase, com a introdução do advérbio «quando» que denuncia a natureza interpretativa — de compromisso ecuménico da moderna cristandade com outros grupos religiosos — e não meramente tradutora e de simplificação compreensiva da obra em si. Este advérbio vem truncar uma riquíssima dimensão interpretativa de Génesis I.1: «No princípio criou Deus os céus e a terra.» Parecerá coisa de pouca monta, mas não é! É uma questão de exegese; e no texto em causa a interpretação funde-se ao texto literal, retirando-lhe forma e substância interpretativa para quem entende, como eu, que houve dois momentos de criação da Terra no devir temporal que é descrito entre os versículos 1 e 2 do primeiro capítulo do livro de Génesis.

O texto, neste caso, passa a ter um outro sentido para o leitor; leitor que é, por si mesmo e segundo a natural liberdade de livre interpretação, um intérprete do texto que se lhe apresenta. O sentido interpretado passa, assim, a ser o texto a ser interpretado. O que tem e terá consequências sobejamente negativas na forma como se vê e se verá — o leitor mediano não deixará de o ver — a Criação em si e o homem pré-histórico a partir desta nova versão da Bíblia.

Como se não bastasse isso, Genésis I.3 (“E disse Deus: Haja luz; e houve luz.”) é traduzido na seguinte forma: “Então disse Deus: «Que exista a luz!» E a luz começou a existir.” Uma frase, a terceira do texto! e temos um livro — sagrado para muitos e memória dos antigos para outros (o que torna o ecumenismo, a partida, uma falácia bem intencionada) — com 2415 páginas assassinado. É a tradução «A Bíblia Para Todos»; para todos, menos para mim. Este é o segundo de quatro erros colossais que se descortinam logo no primeiro parágrafo do livro de Génesis desta nova tradução. E os erros acumulam-se nos parágrafos seguintes… e, note-se, só falo da página 17 de um livro com 2415 páginas. E já nem atento no aspecto formal do livro que, a um leitor comum e iniciante na leitura da Bíblia é passível de causar estranheza e confusão, pois assume uma disposição não tradicional dos livros.

Que ganhos se tem com isso? Nenhuns, a não ser para os estudiosos do Livro — que não serão os alvos primeiros da edição. Mas mesmo para estes, resulta estranho a disposição dos livros, mau grado a justificação constante da apresentação — que não tem um critério uniforme e, do meu ponto de vista, pouco convincente tendo em consideração os fins da obra em causa. Perceberei a lógica de igualdade aristotélica subjacente a tal critério, se fosse de aplicação universal, mas não! Só é aplicável às tradições religiosas diferentes, não ao cidadão… o destinatário primeiro da obra. Mas esta é uma outra dimensão da questão…

A primeira conclusão que tiro, desde já, é que esta tradução, ao querer simplificar, procede à uma subversão ontológica de Deus e retira o sentido teleológico da Criação do texto, impossibilitando qualquer cotejo lógico da ciência — no seu actual estádio — com o relato da Criação como facto histórico. O que é de gravidade extrema no plano teológico, pois enfraquece as posições de fé do cristianismo em frente da razão como ciência.

A ponte compreensiva entre as várias facções do cristianismo, e destas com o judaísmo, não deve ser feita com o corte da corda que une aquelas: com o sacrifício (i) de uma ideia de Deus omnipotente e (ii) de um Verbo divino criador como a Luz da existência (iii) com um plano para a pessoa humana no devir da história e da existência. Estes dois aspectos, sendo que o segundo não é compartilhado pelos outros povos e religiões do Livro (o judaísmo e o islamismo), são fundamentais para o cristianismo — tanto quanto a ressurreição. E esta tradução, «A Bíblia Para Todos», briga com estes valores fundamentais do pensamento e da ética cristãs; e vai para além do farol da razão que foi bandeira de Lutero e demais reformadores da Igreja — a liberdade de livre interpretação das escrituras (é necessariamente pleonástico). Mas esta livre interpretação é de ordem subjectiva, e não pode — seguindo a lógica do glosadores do Talmude ou dos comentadores da cristandade medieva — é integrar a interpretação no texto dando-lhe uma dimensão objectiva na forma, na compreensão literal da mesma, que é dimensão hermenêutica mais básica para o leitor comum.

Genésis I.3 (“E disse Deus: Haja luz; e houve luz.”), traduzido na forma: “Então disse Deus: «Que exista a luz!» E a luz começou a existir” consubstancia — assim como a questão do mal no sentido maniqueísta — uma redução da grandeza de Deus (o que, em última análise, é a negação de Deus como conceito) ao expurgar da divindade a luz. Assim como a autonomia do mal diminui a totalidade de El Eloha, o Deus criador, a emergência da luz no momento da Criação demanda a conclusão de que ela não existia antes. E o verbo divino, então, no sentido hermenêutico que emana do texto em causa, deixaria de ser a Luz do Mundo antes da criação deste, e Deus não poderia ser Luz (e até o argumento de que existe luz em sentido físico, ético e teológico não procederá nesta sede, naturalmente… pois nada é ou pode ser subtraído a Deus). O que, do ponto de vista do cristianismo, é um contra-senso. Uma heresia, dir-se-ia noutros tempos. E digo-a agora: é uma heresia! Uma interpretação herética do sentido das escrituras, que no plano do texto em si quer na globalidade das escrituras.

Esta tradução, se bem que legítima e com louváveis intenções, não constitui uma mais-valia para o cristianismo da actualidade e muito menos para os fins últimos do cristianismo, pelo contrario! A equivalência semântica não deve, nem pode, levar a alterações formais que alteram a substância do texto bíblico. Mas esta tradução, se bem que avisa que «procura preservar certos aspectos formais do texto original», vai longe demais: assassina o texto bíblico logo no início e, no plano teológico, apresenta um Deus menor ao leitor e uma terra inicialmente sem ordem, que não é a mesma coisa que vazia — o que tem um sentido hermenêutico — contrário às tradições cristãs.

Como se não bastassem o ateísmo e os tocadores de tambor da “morte” de Deus, agora temos um texto Bíblico que, além de matar o conceito tradicional de Deus, abre brechas insanáveis perante a ciência ao nos apresentar uma Terra criada “sem ordem”; o que é absurdo pois contraria a natureza em si e a história geológica do planeta. Parafraseando Salomão: «Há caminho que ao homem parecem direitos, mas cujos fins são caminhos da morte» (Provérbios XIV.12). Nada poderia ser tão assertivo como esta asserção do sábio Coélet.
---- Prima forma: Liberal on line.  

  • IRONIA OU IRONIA EX POST DE FIDEL CASTRO?
Fidel Castro desmente Jeffrey Goldberg, jornalista do The The Atlantic. Afinal, a revolução e o modelo cubano não estão falidos… é o modelo americano que está! Fidel Castro esclarece o sentido das suas palavras, em verdadeira interpretação autêntica e teleológica da sua conversa com os enviados norte-americanos:

«En otro momento de la conversación Goldberg cuenta: “le pregunté si él creía que el modelo cubano era algo que aún valía la pena exportar.” Es evidente que esa pregunta llevaba implícita la teoría de que Cuba exportaba la Revolución. Le respondo “El modelo cubano ya no funciona ni siquiera para nosotros.” Se lo expresé sin amargura ni preocupación. Me divierto ahora al ver cómo él lo interpretó al pie de la letra, y consultó, por lo que dice, con Julia Sweig, analista del CFR que lo acompañó, y elaboró la teoría que expuso. Pero lo real es que mi respuesta significaba exactamente lo contrario de lo que ambos periodistas norteamericanos interpretaron sobre el modelo cubano.

Mi idea, como todo el mundo conoce, es que el sistema capitalista ya no sirve ni para Estados Unidos ni para el mundo, al que conduce de crisis en crisis, que son cada vez más graves, globales y repetidas, de las cuales no puede escapar. Cómo podría servir semejante sistema para un país socialista como Cuba.»

Isto é, Jeffrey Goldberg não percebeu a ironia de Fidel Castro…

Imagem: Fidel Castro na Aula Magna da Universidade Havana (Foto de Alex Castro).

sábado, 11 de setembro de 2010

  • A CORDA DE PAGANINI

No meu sono de Epiménides
escuto o meu poeta a viver-me na dor
das manhãs do Sábado:

«Sou o universo de Bhisma;
uma coisa tão grande e abissal
que Deus é a minha marionete primeira.
E pensa Ele que a ordem das coisas
foram geradas e não criadas
pela sua dança, pela sua liberdade
de ser verbo a libertar-se da luz
dos acordes de Paganini e uma corda.

Proslogion de todas as horas à espera
de ouvidos que ouçam
a pedra que piso: também já foi amor...

Que tragicomédia! o criador
não conhece esta pena que não se curva
para a quebra.»
---- Lisboa, 11-09-2010
Virgílio Brandão

Imagem: Crucifixo – de Kooning

  • VOZES DE ATENTAR
Não pode exercer um direito quem não dispõe dos meios necessários – José de Alencar.

Imagem: Nikita Khrushchev e Fidel Castro assinam o Acordo comercial entre a URSS e Cuba (Janeiro de 1964).

domingo, 5 de setembro de 2010

  • EU E O MEU POETA
«Um mar de desejos e um céu de poesia acordam-me. A vida pode até ser bela… mas é essencialmente cruel. Deveríamos nascer velhos e morrer plenos, numa velhice de vontade, como Catão o Novo» — escuto do meu poeta.
Imagem: Konstantin Kalynovych — The Seventh Sky

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

  • PONTIFEX MAXIMUS

Tenho-te até às entranhas
e só não sonho parir-te nos nossos sonhos
porque Sonho é terra pouca
e estarias fora de mim, ó Além do altar
do mundo, do mar de Via Láctea e Shamayim.

Oh, céus! E nós de nós…
Como queria poder dizer-te
com as vozes de El Elohim que migram de mim
quando sou teu à todas as horas
e todos os horizontes de incenso e mirra
que fenecem no langoroso ouro crepuscular
saudoso de nos ver unos.

Dias há em que tudo é mais do que perfeito:
Sou amor de um dia
do meu berço — sua manhã e entardecer…
— e tu és o dia viçoso e luz cortesã,
a alma dos meus aromas a consumir o mundo
quando morro e ressuscito por ti.

Dir-me-ão que te amo… mas não!
Que coisa pouca, amar-te!
Vou te confessar, a ti e ao Mundo todo,
o que sou, tudo o que posso ou poderei ser:
Pontifex maximus de ti!
---- Lisboa, 02-09-2010
Virgílio Brandão


Imagem: Mater — Luis Royo

  • EU E O MEU POETA
A Constituição de 1992 constituiu uma ruptura epistemológica na compreensão do Mundo pelo cabo-verdiano; menos para os que o não votaram — digo ao meu poeta.

  • O MEU POETA E A OPAD-CV
Enquanto os ex-pioneiros da OPAD-CV não entenderem o que é a Weltanschauung… serão discípulos do mestre Pangloss, mesmo que a manhã não cante — digo ao meu poeta.

Imagem: 1984 — Luis Royo,

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

  • VOZES DE ATENTAR...
Nós agimos como se qualquer coisa ultrapassasse em valor a vida humana… mas o que é? — Antoine Saint-Exupery.

Imagem: Lawrence Alma-Tadema