sábado, 7 de novembro de 2009

Primeiro Ministro José Maria Neves
Ministro da Cultura, Manuel Veiga

  • O SILOGISMO DA PÁ E DAS MÃOS LIMPAS

    Quem não conhece o bê-á-bá do
    silogismo aristotélico? Aquele: todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal. Ao ver as imagens da nação a ser limpa (ai, Churchill! lembrei-me de ti, agora…), com os políticos a darem o exemplo, também, não deixei de pensar em tanta coisas, mas tanta coisa que o melhor é não partilhar, ter alguma contenção no verbo (não gostei, nada, mas nada do que vi – não da acção, mas da sua dimensão visual).

    Assim, numa espécie de
    catarse visual, remeto a questão para o plano do mundo das ideias, e pergunto-me, perante as imagens do Primeiro-ministro José Maria Neves e do Ministro da Cultura, Manuel veiga: qual é diferença entre estas duas imagens? O que pensar delas, além das suas razões de ser?

    Bem, antes disso, tenho de dizer o seguinte: agarrar numa pá não é coisa simples, não! tem ciência (e escreve quem descarregava, sozinho, um caminhão de arreia a pazada em 13 minutos!), e não é pouca. A forma como os M.I. Ministros agarram na pá, digo-vos, não só lhe dá cabo da costas, como os deverá ter cansado rapidamente — a não ser que tenham agarrado nos instrumentos somente para a foto, o que não creio. Uma pá pede gentileza: a mão esquerda do destro, v.g., deve estar solta, leve… deve libertar a pá quando se livra do material, para não forçar o corpo, obrigado a fazer força no sítio indevido. Mas, não quero falar sobre a ciência que os operários têm e que falha, que escapa a muitos doutores & engenheiros, o que quero é sofismar um pouco em torno de um silogismo que emerge das diferenças entre estas duas fotografias.

    Todos usavam pá. Quem usa pá é operário. Logo, eram todos operários. Não, está errado! — dir-me-á, aprestamente. — Não são operários, são Ministros.

    Talvez, talvez tenha razão. Note bem: talvez. Mas fiquemos por aqui, pois admito este sentido restrito de operário. Eram Ministros, o primeiro e o da cultura. As diferenças? O primeiro é canhoto (ou será que não lhe ensinaram a agarrar na pá?), o da cultura destro. O destro usa luva, o canhoto não. Logo, tenho de concluir que todos os destros usam luva, e todos os canhotos não usam luvas.

    Mas o meu poeta, que não gosta de silogismos e muito menos de sofismas, alerta-me para um pormenor: a luva é cor-de-rosa! Cor-de-rosa, deuses! Assim, entendo o Primeiro-ministro: luvas cor-de-rosa e adequadas para lavar loiça ou roupa, não! Até porque as luvas, rosadas e frágeis, duraram pouco mais de uma hora naquele tipo de tarefa ministerial. O quê!? Falar de boné, gorro, ou de chapéus? E de máscaras? Please, give me a break! Saúdo a boa vontade, mas não se salva a imagem e algo mais (procedimentos, e mais não digo!).

    Ah!, impressionou-me o carinho com que Manuel Veiga olhava para um velho pé de chinelo, quase que o afagando com a borda da pá, cansada, pesada (deveria estar a pesar o dobro do peso normal) — por não ser limpa há muito —, mas não tanto como a dor de cabeça que é o ALUPEC/Ak. Nessa tentativa de afagar o chinelo, como se tentasse descobrir um tesouro escondido ou o petróleo (também chamado «asas de 2011») sonhado e terá pensado para si mesmo:

    — Aqui está um aspecto da cultura que nunca atentei…

    Terá sido por isso, para não colocar mão na massa dialéctica, que não apareceu na Assembleia Nacional quando se discutou a questão da língua? Quem se interessa, aparece. Todos os interessados apareceram, menos Manuel Veiga. Logo, Manuel Veiga não estava interessado. Os silogismos são mesmo tramados, não são?

    Imagens:
    A Semana on line

3 comentários:

Anónimo disse...

Mas John Djini que é medico disse duvidando no Parlamento que só compreenderia a ausência do ministro da cultura nesse debate sobre o crioulo se o referido responsável politico estivesse doente. Mas vendo dois dias depois o mesmo ministro na foto faszendo esforço fisico conclui-se que ele não estava doente, ou é mesmo irresponsavel para ir trabalhar como varredor de câmara desobstruindo a capital da lixeira que tem em todos os cantos. A conclusão é que poderia ter ficado pela sua frase de que tudo não passou de pose para "foto". O que é gravissimo, pois é manipulação e propaganda!

Virgílio Brandão disse...

Anónimo 8/Nov/2009 17:34:00,
não diga isso, não...

O Ministro da Cultura teve, de certeza, uma coisa mais importante para fazer nesse dia do que discutir a língua cabo-verdiana, o crioulo ou o ALUPEC. Mas não sabemos o quê, porque ninguém perguntou ao Ministro o que era/foi...

E a agenda do Ministro é pública, não é? Pública, e temos o dever de saber aonde foi e o que foi fazer para não estar nesse dia na Assembleia Nacional. Quem é que faz a pergunta?

São os deputados e os jornalistas que temos... e é por isso que temos um índice elevado de «liberdade de imprensa», pois os jornais e os jornalistas têm a liberdade de não perguntar, quando deveriam ter em consideração que têm o dever de perguntar e de informar.

Propaganda? Mas o Governo era, agora, ente para se aproveitar politicamente desta situação? O Governo a fazer propaganda? Ah, não diga isso, pois algum pode ficar «ideolgicamente» ofendido!

Bom Domingo

Anónimo disse...

Não é apenas propaganda, como há manipulação e desinformação. Veja esse passo duma noticia no Liberal, escrita depois do meu post:

2. Todos os que tiveram a oportunidade de ver o telejornal do dia 6 de Novembro puderam assistir a imagens e declarações de cinco ministros, para além do Primeiro-Ministro, em ambiente de trabalho na rua, com a mão na massa a fazer a limpeza. Em contraste, o Presidente da Câmara Municipal que esteve na rua, em várias localidades da cidade durante quase todo o dia, com o conhecimento da TCV, só foi contactado para dar uma declaração no final da tarde quando se encontrava já no Gabinete nos Paços do Concelho. As imagens e os cenários falam e os senhores jornalistas da TCV sabem bem disso.