sábado, 28 de novembro de 2009

  • A OUTRA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E O AMOR
Há alguns anos fui contactado por um homem acusado de violência doméstica continuada. Queria o meu patrocínio judicial. A situação era típica: a mulher aparecia com marcas de violência física imputada ao marido, este, a final, acabava no Tribunal a ser julgado e condenado pelos factos — as marcas e os testemunhos de familiares e amigas da vítima convenciam o Juiz. Mas sentia que havia qualquer coisa de errada na história daquele homem acabrunhado, com ar sofrido e que, mau grado uma longa história de violências, continuava a viver com a mulher. Resolvi descobrir mais sobre a história, e fui ao local onde vivia. Conversei com algumas pessoas que conhecia o casal, e depois tive um conversa com ele.

— Senhor, Trajano (nome fictício), porquê é que nunca me disse a verdade sobre os processos de violência doméstica que teve no passado? — perguntei-lhe.
— A verdade como, Senhor doutor? — respondeu.
— Sim, sobre a sua mulher…
— Ah, isso já sabe…
— Sim, sei. Estive no seu bairro, conversei com algumas pessoas que o conhecem, e agora sei a verdade. Vá lá, conte-me o que tem acontecido; mas com verdade.
— Mas isso o doutor já sabe, leu os processos…
— Sim, li e sei o que me disse. Mas isso não é a verdade, pois não? — insisti.

Olhou para mim — podia ver a vergonha estampada no seu rosto como uma chaga gangrenosa — e baixou a cabeça. O silêncio abarcou-o, e lágrimas começaram a sair do seu rosto avermelhado, parecia as entranhas do inferno num dia mau, tempestuoso. Compartilhei o seu silêncio, e esperei. Até que gritou:

— A minha mulher é um demónio! Um demónio, doutor!

Olhei para ele, e não disse nada. Continuei em silêncio, esperando. Queria ouvi-lo e ele precisava de falar, de dar-me os instrumentos que precisava para a sua defesa. Mas remeteu-se de novo ao silêncio, arrependido do que disse. Ao fim de algum tempo, olhando-o a limpar os olhos com um lenço de pano gasto de tanto uso, perguntei-lhe:

— Mas porquê, Senhor Trajano? Porquê é que faz isso?
— Ah, doutor! Porque a amo, sabe… — volveu, com voz trémula.
— Sim, entendo-o — respondi, sem estar convencido. — Mas porque não diz a verdade, toda a verdade ó homem?
— Toda a verdade!? Toda a verdade, doutor? — esbugalhou os olhos de espanto.
— Sim, toda — insisti.
— Mas o doutor quer que eu morra, é? — perguntou-me, como se fosse coisa para me espantar, convencer-me das suas razões.
— Não, só quero o seu bem, que não vá parar numa prisão por reincidência neste tipo de crime. Quero que ajude a Justiça a ser justa…
— Ah, sim! O doutor quer que eu acredite na Justiça, é? — perguntou-me de olhar desperto, quase rancoroso, desalmado de sentidos.
— Sim, Senhor Trajano, sim… — volvi, tentando levá-lo a perceber
— E como posso me safar disto, ó doutor? — retorquiu, de olhos vidrados.
— Dizendo a verdade, Senhor Trajano, dizendo a verdade e provando-a.
— Ah, doutor! — exclamou, levantando-se da cadeira e agarrando na cabeça. — O doutor quer que eu morra, é isso.
— Mas que morra como, ó homem!? Só quero ajudá-lo — insisti.
— Não! O doutor quer eu morra de vergonha, pois como vou dizer aos meus amigos, à minha mãe e ao meu pai que a minha mulher me bate como se eu fosse um menino? — respondeu, confessando a verdade odiosa. — Como, como ó homem de Deus? O doutor sabe que nunca bati nela, não sabe? (fez uma pausa, como que esperando o meu assentimento, que dei na forma de um manear de cabeça) Nem em pensamento o fiz, mas já levo duas condenações e tenho uma prisão suspensa…
— senhor Trajano, perceba o que vou dizer-lhe agora — tomou uma postura de atento, de uma atenção frágil, submissa e de espantosa desesperança enquanto passava as mãos no casaco, como se tivesse larvas a nascerem nas suas palmas. — É a única que tem de evitar ser preso!
— Pois bem, prefiro ser preso a toda a gente ficar a saber que a minha mulher me bate, mutila-se e depois finge que sou eu que a maltrata — anunciou-me, resignado.
— Senhor Trajano, sabe como é que eu sei a verdade? — resolvi perguntar-lhe.
— Não doutor, não sei. Mas o doutor tem os seus meios…
— Sim, tenho os meus meios: fui ao seu bairro, e todos os seus vizinhos e amigos sabem que a sua mulher lhe bate há anos, mas ninguém lhe diz nada para não o ofender, poupam-no à vergonha que sabem sentir. Por isso, Senhor Trajano, pode ter todas as testemunhas que desejar, e com elas no Julgamento não terá de ir para a prisão pois será absolvido e esta questão ficará resolvida — disse-lhe, enquanto olhava para mim, espantado.

Levantou-se, olhou para mim, sorriu e disse-me:

— Obrigado doutor, mas não. Acho que não vou precisar de Advogado para este processo. Não vale a pena, ó doutor, não vale a pena…
— O que é que é que não vale a pena, Senhor Trajano? Defender-se com a verdade, ou quer me dizer algo mais do que isso? — perguntei-lhe, ao ver os seus olhos endurecerem, como que petrificando a alma. Desistia, simplesmente.
— Não é nada doutor, depois terá notícias minhas.

E foi-se. Algum tempo depois tive notícias dele: mudara de casa, abandonara a mulher e tudo tinha tido um acidente de viação — atravessou o carro na estrada e deixou-se morrer esmagado por um camião pesado. Esmagamento menor, diria o meu poeta. Amava a mulher — dizia.

6 comentários:

Joshua disse...

Já pensaste que essa tua intervenção pseudo psico-social pós actividade detectivesca poderá ter levado a criatura ao suicídio? Digo eu.

Virgílio Brandão disse...

Joshua, Josuha...
Bem, de suicído entendes tu. Mas não me parece que fosse o caso. O que e posso dizer é que um homem que respira sob a mão opressora da mulher não vive, e o suicídio é uma coisa honrosa e libertadora: coloca-o no lugar natural.

Mas um suicído a modos de Petrónio, com honra e dignidade. Todos morrem um dia, e morrer quando se quer e não surpreendido por uma fatalidade qualquer não é nada assombroso.

Ademais, a morte é a única coisa que possuimos de verdadeiramente nossa, desde de que nascemos começamos a morrer, quando beijamos, amamos estamos a morrer, a caminhar para a morte, a ceder um pouco da nossa anima.

Morrer como Petrónio, ter um funeral como César, com um Pacovio Armorum cantando... é algo que todos os homens sábios deveriam almejar. Pena eu não ser sábio.

:-)

JB disse...

O interessante não é pensar que isto também pode acontecer aos homens. O interessante é ter consciência que esta história, com os gêneros trocados, acontece diaria e recorrentemente, com mulheres de todo o mundo, nomeadamente em CV. E lá não há adbogados a convencer as vítimas a dizer "toda a verdade"...

Virgílio Brandão disse...

A verdade liberta João, e isso tem de ser ensinado às mulheres, aos homens, às crianças, à sociedade... a todos os que são vítimas de violência, quer física quer moral.

Abraço fraterno

Joshua disse...

É verdade que a verdade liberta.
Neste caso é verdade que a tua intervenção neste caso foi desastrosa...
E é verdade o que João diz, é violência de género e, são as mulheres que são mais afectadas e...no caso delas nem têm tempo muitas vezes de atravessar o carro na estrada porque antes disso já foram atingidas por um disparo de caçadeira.
Enfim.

Virgílio Brandão disse...

Ah, Joshua!
E tu a esquecer a lei de Murphy (Se algo pode correr mal, mal correrá) e o princípio da inevitabilidade natural e de situação.

Ah, é pena os homem não serem bons, não saberem amar e outras coisas mais. As mulheres deveriam ter aulas de defesa pessoal nas escolas, desde muito cedo e o crime de violência física sobre as mulheres deveria ser considerado um crime agravado, inafiansável e não sujeita a qualquer forma de suspensão de pena ou pena alternativa à privação da liberdade.

Mas isso é uma problema de política criminal, de opções do Estado e de sensibilidade de quem detém o poder em dado momento. Um país como Cabo verde - onde até governantes e "intelectuais" são achados neste mal - deveria seguir esta senda. Para grandes males, grandes remédios!

Kisses