sábado, 24 de janeiro de 2009

  • ARTE E ARTESANATO EM CABO VERDE
Gostaria de perceber a lógica das pessoas que chamam artesanato à arte africana quando feita por africanos. Sim, porque quando é feita por gente de outros quadrantes civilizacionais, das terras da “cultura”, é arte. Serafins de harpa nimbam os céus de árias imodestas e nascem artistas como que por geração espontânea de almas novas. Mas não deveria ser assim – é um paradoxo existencial, pois o outro é visto com um superior a representar a nossa arte.

Pablo Picasso (que com Salvador Dali protagonizaram uma verdadeira ruptura epistemológica no plano estético da arte) não negava, de todo, a influência da arte africana na sua pintura – mas ele via-a como arte, representação da existência nua e dos seus tabus sem véus. Mas o Governo de Cabo Verde vê essa mesma realidade como artesanato (basta lembrar lembrar o discurso do Primeiro Ministro por altura do Natal – fraco, mas com algumas mensagens subliminares que vão sendo descodificadas...). É, de todo, a prova de que a cultura em Cabo Verde é enformada por um paradigma europeu conservador e não se acredita nem se valoriza o que nasce nos socalcos e nas fraldas da terra que já foi verde – mas vai parindo filhos com alma, sim… vai parindo sim.

Temos esta sina escusa: não sabemos vender o nosso peixe – bem, também o que temos é migrante como nós, povo das ilhas e desencarnada da terra, “de lo menos tierra de la Tierra”, para usar as palavras de Dulce Maria Loynaz del Castillo. Um dia as nossas raízes levantar-se-ão de uma terra sem vergonha do que é e não será tributável.
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  • Imagem: Mascara Africana, Maria Isabel Magalhães

2 comentários:

Ariane Morais-Abreu disse...

Nao negaram nao a arte africana, antes pelo contrario a beberam, a singraram, a integraram, e fizeram renascer as artes ocidentais... Quanto ao nosso PM nao conhece a diferença entre um e outra!! E barralha tudo. Coitadinho essas questoes sao demais para a sua cabeça, melhor ele nao dizer nada! Alias outros também do planalto deveriam ficar calados quando atrevem em falar de arte.

Virgílio Brandão disse...

Ariane,
acho que o nosso PM sabe a diferença, sim. Mas o discurso político nao comprometedor nao é fácil...

:-)