sábado, 10 de janeiro de 2009

  • CIDADÃOS HONORÁRIOS DA CIDADE VELHA
Como é que cidadãos nacionais se tornam «cidadãos honorários» do berço da sua nacionalidade? – ocorreu-me. Na azáfama de fazer coisas não perceberão certas pessoas que a pressa orgástica de mostrar que se fazem coisas é inimiga da obra sustentada e contraproducente? Que o caminho que se quer mostrar ao Mundo é um caminho de sangue, suor retirado a chicote e lágrimas profundamente cavadas na nossa memória e que urge resgatar como exemplo da nossa imanente resiliência?

Sim, não é uma passadeira vermelha, champanhe e honrarias que se procura ou se deve procurar com a candidatura da Cidade Velha junto da UNESCO para que a mesma seja reconhecida como património cultural – da sua expressão mais hedionda mas também mais bela: a nossa origem – e memória da humanidade. Antes das proclamas, já há quem queira ter o privilégio da primeira noite, a noite de honra, com a Cidade Velha.

Dos estrangeiros – e desde que sejam objectivamente merecedores – acho bem que sejam reconhecidos como «cidadãos honorários» do berço da nossa nacionalidade; agora dos nacionais… Sou eu que estou ver mal ou existe um non sense nisso? Mas que importa o bom senso se o que as pessoas querem mesmo é acumular honrarias?
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Vanitas vanitatum et omnia vanitas.
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  • Imagem: Alusão ao tráfico negreiro na Cidade Velha

2 comentários:

Ariane Morais-Abreu disse...

Totalmente de acordo contigo, irmao!! Alem do "non-sens", vigora a extrema estupidez, desta vez mais grosseira, sem lata e oportunista, de individuos que todos os dias pisam a ideia mesma de cultura, de memoria e de historia. Mais uma deturpaçao e perversao do essencial da existência do povo cabo-verdiano!! Se precisam de tal artificial encenaçao é que nao confiam na solidez do dossier de candidatura junto da Unesco. A Cidade Velha nao precisa de mais justificaçao que a sua propria genealogia e personalidade. A palavra "cidadao" nao convem neste sentido porque significaria que a Cidade Velha volta a ser um pais?!! Residentes, municipes ou habitantes honorarios, poderia ser. Algum deles sonha talvez além das honrarias?! Ils sont capables de faire feu de tout bois, même précieux...Que tipo de preservaçao projetaram para este berço nacional? Que trabalho estao fazendo realmente para que o nosso patrimonio seja preservado? Que projecto de valorizaçao e de preservaçao levam a cabo com as riquezas humanas em extinçao no arquipelago e na diaspora? Quando nao ha meios, nem ideias devem seguir a logica do mais essencial, do mais "périssable", mas o homem cabo-verdiano nao é a preocupaçao dessa gente, nunca foi.Portanto a logica impoe de preservar antes os homens que fazem viver a cultura. O anonimato despojado em que vive hoje a Cidade Velha da conta da indigência da condiçao cabo-verdiana, perpetuada por fatalismo, facilidade e ignorância.

Nita disse...

NISSO TUDO EXISTE MAIS QUE "non sense".
O que creio existir, sim, são interesses " PARA MEIO PUNHADO DE GENTE "grande" (com letra minúscula) ... ...
Como parafraseaste e bem, adequado a tais atitudes e comportamentos: - "Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade".
Isso é escarnecer dos sofrimentos, das dores e menosprezos que sofreram nossos antepassados.
Que julgam essa gente com esse "show"? Adormecer-nos a mente?
A História revive e vive na memória do Humano e do Consciente. Sabemos as realidades que se vive e que viveram esses nossos "infelizes" irmãos de sangue.
A HISTÓRIA NÃO SE FEZ NEM SE FAZ NUM ÁPICE.
Muito menos podemos apagá-la com uma borracha.
Mas, querido Virgílio ...
"VERITAS ODIUM PARIT".
beijos,
Anita