terça-feira, 24 de novembro de 2009

  • O TEMPO DO ORÇAMENTO DO ESTADO

    Atento a Assembleia Nacional. Ao ouvir o deputado Rui Semedo, líder parlamentar do PAICV, lembrei-me de alguns textos que escrevi o ano passado sobre o Orçamento Geral de Estado de Cabo Verde (OGE). A minha memória raramente me atraiçoa, e lembro-me da discussão de então (do que ouvi na
    RCV). Mas, afinal, o OGE do ano passado foi ou não pensado num quadro de crise – como então disse a Ministra da Economia? Se foi neste contexto e ciente do mesmo, os objectivos deveriam ser alcançados e a crise e o mal dos outros não é nem pode ser desculpa para o Governo. O deputado Rui Semedo teria razão se o OGE em execução tivesse sido feito sem considerar o contexto de crise e as suas previsíveis incidências. Mas não é esse o caso.

    Leia, se tiver paciência, o que escrevi então, nomeadamente o texto «
    CABO VERDE: ORÇAMENTO DE ESTADO GASTADOR EM TEMPO DE CRISE?» e outros nesta hiperligação. Fala-se demasiado no passado (além de questões laterais), mas esquecem-se coisas que deveriam estar presentes, demasiado presentes e estudadas. Trabalho de casa, trabalho de casa e menos anexins ó deputado Elísio Freire. Escrevi, então, entre outras coisas:

    «Este Orçamento do Estado (proposta) é pensado para um clima instabilidade económica (como diz bem a Ministra da Economia) e, nesta perspectiva, o Estado não se pode dar ao luxo de investir a pensar em crescimento económico com base em receitas sustentadas e garantidas pelo investimento directo no país, receitas fiscais emergentes da riqueza produzida internamente e, tradicionalmente, remessas dos imigrantes e uma mais valia de um turismo de qualidade (cada turista deve(rá) ser visto como um embaixador da terra; mas não é). Estes factores (imprevisíveis, e se o são é num contexto de diminuição de receitas...) são, per si, aconselhadores de uma contenção nas despesas, mas não é, ao que parece, o que acontece.»

    Do ano passado para cá pouca coisa mudou, infelizmente. Agostinho Lopes aflorou alguns dos aspectos deste problema, mas precisava de mais folgo. A diminuição da taxa de desemprego efectivo, a pobreza estrutural, a crise da ELECTRA, a agonia dos TACV, a inexistência de saneamento básico adequado, a sustentabilidade económica e ambiental do país parecem o «Paradoxo de Aquiles e a Tartaruga» de Zenão. E o Orçamento que agora se discute é, substancialmente, mais do mesmo.

    Cristina Duarte explicou porque não recorreu ao Orçamento Rectificativo que era esperado o ano passado, aquando da discussão do OGE de hoje. Mas o que vai custar ao país «os recursos externos» a que se recorreu? A explicação da Ministra Cristina Duarte – que é uma óptima parlamentar! – não me convenceu, e seria desmontada se os deputados do MPD tivessem feito o trabalho de casa. Mas o problema é mais profundo, e entendo. As mesmas razões que se encontram na base do acordo de se congelar a questão da língua cabo-verdiana.

    Uma coisa é certa, o OGE não é uma comparação do passado mas sim uma gestão do presente e do futuro. Falhou objectivos, e tal deve(ria) ser assumido. Mas o Governo não o faz, e a Assembleia Nacional não se mostra capaz de escrutinar as questões. Há que repensar o discurso democrático.

    Ah, já agora: porque não perguntaram ao Primeiro Ministro pelo problema do lixo e do seu tratamento? O que diz o Orçamento Geral do Estado sobre isso? Confesso que fiquei curioso e vou dar uma vista de olhos no OE. O Presidente da Assembleia Nacional, Aristides Lima, começa a dar sinais ostensivos de parcialidade, o que não é nem será bom para a democracia nacional e para as suas ambições presidenciais…

  • SI EL HOMBRE PUDIERA DECIR

    Si el hombre pudiera decir lo que ama,
    Si el hombre pudiera levantar su amor por el cielo
    Como una nube en la luz;
    Si como muros que se derrumban,
    Para saludar la verdad erguida en medio,
    Pudiera derrumbar su cuerpo, dejando sólo la verdad de su amor,
    La verdad de sí mismo,
    Que no se llama gloria, fortuna o ambición,
    Sino amor o deseo,
    Yo sería aquel que imaginaba;
    Aquel que con su lengua, sus ojos y sus manos
    Proclama ante los hombres la verdad ignorada,
    La verdad de su amor verdadero.
    Libertad no conozco sino la libertad de estar preso en alguien
    Cuyo nombre no puedo oír sin escalofríos;
    Alguien por quien me olvido de esta existencia mezquina,
    Por quién el día y la noche son son para mí lo que quieroa.
    Y mi cuerpo y espíritu flotan en su cuerpo y espíritu
    Como leños perdidos que el mar anega o levanta
    Libremente, con la libertad del amor,
    La única libertad que me exalta,
    La única libertad porque muero.
    Tú justificas mi existencia:
    Si no te conozco, he vivido;
    Si muero sin conocerte, no muero, porque no he vivido.
    ------- Luis Cernuda
The seventh sky - Konstantin Kalynovych

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

  • DEPUTANDO COISAS INSÓLITAS

Um arquitecto – que não deve ter lido Copérnico, Galileu e Newton – causa esta obra de arte peniana (d’pixim d’terra, sima kiis dona cantora d’pon d’mar ta pregâ n’rua d’sabe y d’diazá na mund lá ne ruas d’Caniquinha, Kraca y de Um a Dez) uma vez por dia algures por aí. Coisas imprevisíveis, dir-me-á. Talvez, talvez. Tanto como o deputado da terra da fraternidade, perdão… da morabeza! que se lembrou de que o argumento não é à força verbal e da razão mas à cadeirada – caderada, diria o ufano representante (?) da nação. Há cada peixeirada! Digo: há cada caldeirada!

Deus! O melhor é ir ler um pouco de Adolfo Bioy Casares. Mas deixo-te, a ti que me lês – como convite a acompanhar-me na leitura –, estes versos de Dante Gabriel Rossetti, citados por JL Borges no brevíssimo prólogo que escreveu para «La invención de Morel» de Adolfo Bioy Casares:

I have been here before,
But when or how 1 cannot tell:
I know the grass beyond the door,
The sweet keen smell,
The sighing sound,
the lights around the soore...

O que sei é que, daqui onde estou, deputo a cadeirada – e penso se, por razões insondáveis, o arquitecto quis afastar os homens do local a dada hora, e por isso foi criativo o bastante para ter a sua voz gráfica sempre presente e na forma (todo lá dentro, da obra!).
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Grita-se, de forma gráfica: – «Kuidado cu kadera

Imagem: (Obrigado, Barbara B.)

Cristo en la Cruz, Salvador Dali (1951)

Crucifixion ("Hypercubic Body"), Salvador Dali, 1954, Metropolitan Museum Of Art, NY

***
  • VOZES DE ATENTAR

    Si Allah te abre una senda al conocimiento
    ¿qué importa que tus obras sean mínimas?
    La senda, sólo la ha abierto para darse a conocer por ti.
    ¿Acaso ignoras que el conocimiento es Su don
    y las obras tu ofrenda?
    ¿Qué medida común puede existir entre lo que El te da
    y las ofrendas que tú Le haces?
    Ahmad Ibn Ata'Illah, Kitab Al-Hikam (El Libro de la Sabiduría), I, 8

sábado, 21 de novembro de 2009

  • LORD BYRON’S LAST LOVE
Lord Byron viveu toda a sua como um heterosexual, pelo menos esforçava-se por parecer que o era – contrariava a sua natureza. Nos seus últimos dias de vida caiu de amores por um jovem, um grego de quinze anos, e a quem escreveu este poema. Louco de amor, o seu sentimento não era correspondido. E sofria. Morreu apaixonado, o poeta Byron.

I WATCHED THEE...

I watched thee when the foe was at our side -
Ready to strike at him, – or thee and me –
Were safety hopeless – rather than divide
Aught with one loved – save love and liberty.

I watched thee in the breakers – when the rock
Received our prow – and all was storm and fear
And bade thee cling to me through every shock –
This arm would be thy bark – or breast thy bier.

I watched thee when the fever glazed thine eyes –
Yielding my couch – and stretched me on the ground -
When overworn with watching – ne'er to rise
From thence – if thou an early grave hadst found.

The Earthquake came and rocked the quivering wall –
And men and Nature reeled as if with wine –
Whom did I seek around the tottering Hall –
For thee – whose safety first provide for – thine.

And when convulsive throes denied my breath
The faintest utterance to my fading thought -
To thee -to thee - even in the grasp of death
My spirit turned – Ah! oftener than it ought.

Thus much and more – and yet thou lov'st me not,
And never wilt – Love dwells not in our will –
Nor can I blame thee – though it be my lot
To strongly – wrongly – vainly – love thee still.

Imagem: Goodyear excellence, Jean Louis Grig

  • MANHATHAN SWEET1

    Copo: Cocktail glass
    Ingredientes:
    2 oz de Makers Mark ou Jack Daniels (Four Roses ou Jim Bean servem, mas dá um sabor diferente, mais delicado ou efeminado diria);
    ½ oz de Martini;
    2 gotas de angostura bitter (em regra usa-se uma mas eu gosto com duas pois fica com um travo mais forte);
    Uma cereja cristalizada.
    Forma de preparar:
    (i) Refrescar o copo
    (ii) Meter gelo em cubo no shaker
    (iii) Colocar o bourbon e o vermute no shaker e mexer (não bater, pois o gelo alarga e a bebida fico com sabor a água e o angostura bitter abre e dá uma aspecto turvo, castanho e desagradável a bebida que deve ter aparência próximo do bourdeaux, além de que o sabor é influenciado pela mistura violenta)
    (i) De seguida verter no copo, e depois colocar a cereja cristalizada (convêm que seja mesmo cristalizada, pois, por vezes, usa-se cereja em calda e/ou de conserva e não é a mesma coisa).

    Serve, e verá que terá uma bebida extraordinária (se não acertar a primeira, vai tentando pois o processo de aprender também educa o palato). Pode, quando já estiver treinado, verter o máximo de três gotas de angostura bitter no copo e brincar com a imaginação rodando o copo e fazendo desenhos abstractos antes de verter os demais líquidos no copo. Para as Senhoras, pode-se fazer com 1 ½ bourbon e 1 ½ de martini (pode ser dry martini para quem aprecie bebidas secas, o que altera ligeiramente a originalidade da bebida, mas descobrir é bom, não é?) e misturar os dois tipos de martini: rosso e bianco. Mas melhor mesmo, é experimentar até encontrar a "sua" formula.

Imagem: Diya Mirza

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[1] Prometi deixar aqui a receita, e cá está.

  • PROVÉRBIOS DO INFERNO

    Todo alimento sadio se colhe sem rede e sem laço, William Blake, «Provérbios do Inferno» (13), in O Casamento do Céu e do Inferno

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

  • LA INSERCIÓN SOCIAL EN DIOS

En recuerdo de Alcestina Tolentino

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La muerte es demasiado grande para nosotros, los hombres. ¡Son páginas de mi corazón, riachuelos de mi que se van a la tierra verde contigo, o mi amiga! He cesado de esperar el tiempo de diserté que eres preciosa — no tanto como la vida, que, de verdad, solamente es preciosa porque lo vivimos —, amiga, puerta de acuerdos y desacuerdos y todo eso que hace la lucha necesaria que hemos heredado de dios o de las estrellas un terrero que es poco más que soportable. No importa, lo que importa es que somos herederos de demasiadas cosas, de demasiados ánimos, de demasiados sueños de otros y el mundo es demasiado ingrato y peñascoso para todo eso.

Me recuerdo de diserte, hace algunos anos, con la pasión que me férrea la razón y hace de mi un volcán, una lluvia de pensamientos, que «lo necesario es la integración» de los jóvenes delincuentes afro descendientes. Era por la tarde, sí, por la tarde. Y recuerdo-me de escucharte con tu voz de sueños cansados y de desencanto con nosotros, nosotros que eres tú, yo y ellos también y de anotar tu desacuerdo. Me dijiste que no, que lo necesario no era, no es la integración pero si la «inserción social» de ellos. Sí, me recuerdo y es verdad, tienes razón y te le dice entonces: tenemos de ser lo que somos, no importa adonde estamos, lo que importa es lo que transportamos, lo que somos… y eso es valor, dignidad.

¿Tendrá Dios hogar para los disientes como tú, como yo y los que sangren los sueños en las carreteras, puentes y en casas que no pueden comprar o vivir? Es como se fuesen pálidas estrellas en exilio forjado de dolor, ribaceras de nubles negras heridas y corazón tirano de amor que se da a la fiesta de ellos, siempre de ellos, los tiranos que amamos – los amantes segadores de nosotros, los hijos a quien damos esencia y todo y la tierra, la tierra que no desiste, sí, ¡que no desiste nunca! Yo creo que sí, que sí. ¿De otro modo, como es que la tierra no desiste nunca? ¿Porque es, como tú, como Dios y sus madres, mujer? ¡Oh, sí! Hay tierra que no desiste y hay tierra que se olvida.

Y continuaremos, tu y yo, en las crespas arenas olissipas esperando por el tiempo de hablar, de ferrar los balones del silencio que nos mira — a ti que no te miraran mas , y a eses caballeros ebrios de poder y que cabalgan sobre los sueños ajenos hasta al cielo de sus santas madres. Tienen una venta en los ojos, sabemos: miran el Sol, soberanos, pero no la estrada que los lleva a los elíseos. E estos, hay para todos. El camino importa más que todo, pues el final de la estrada es igual, demasiado igual. Y es por eso que la tierra, la tierra que olvida, no debería desistir.

La separación es, tienen que ser, demasiado pequeña para la persona. Ahora estas en la comunidad de los espiritos — parte de ti alimenta la tierra y la otra se insiere en la esencia del olvido de unos y de la memoria de otros. ¡Que triste! Mismo en la muerte… mismo en la muerte el valle es muy largo y los hombres demasiado estrechos de Ser, tan lucios y tan poco lucidos. La tierra que no desiste no. Es paciente demás para no bullir triunfante todos los días. Y me va a mirar, luego por la tarde, y me dirá:

— Mañana, eres tú.

¿Justo es, necesario es? — dime… yo no sé, tú también no. Mi ángel es de muselina, mi sueño un beso de principio y agua del Cantábrico en las calles del Teneré: por mañana quería a sueños de ella, imaginaciones de ella, huellas de ella, razones y no razones de ella, ella tudo… ¡y no a Hella! De verdad, ¡de verdad mismo! Lo que quería era vivir, vivir para siempre… y no sé como lo he de hacer. No lo sé esta mañana, pero a la tarde… eso es otra cosa. Hay que haber una forma de vencer la mañana, y puede ser que integrarme en Dios sea la solución. Enoch, Yudisthira y Melquisedec me darán unos consejos, yo lo sé. ¿Pero y yo? — dime. ¿Qué será de lo que soy, del niño que flotea sobre todo y los rincones de hierbas, flamas de silencios, hierbas de ella — ese amor que todos conocen menos yo —, baños de colores estrechos y que todo lo que sabe es que es más que la bruma de tus sueños y el sal de tu pan?

¡No! Sin Hella, sí. Sin ella, no.

La inserción en Dios es mejor, pero ser pecador y ella es más. Y me recuerdo de Camus, que quieren matar el descanso de sus huesos para lo colocar en el Pantheon de Paris, como sé el no estuviese ya en verdadero Panteón — ¡que no es el del Capitolino de Roma, el Supulcrum Adrianii y otros mas, no¡ , de los seres. Eso es el que está en el corazón de los hombres, eso que se chama memoria de la humanidad, eternidad, cualidad y esencia de Dios. Es lo que hace los hombres personas, unas personas más personas que otras… pues es lo mismo que separa los hombres de los puercos, Picasso de una mariposa y el efecto de esta de las estrellas en el firmamento, la orden de las cosas, como tu ahí y poco menos do que todo, yo aquí, África en mi corazón, yo en ella, ella en ella, ella en min. ¡Grande ditador!, vivir.

¿Hace sentido todo eso sin Dios, mismo que sea una mujer que quiere integrar-me, como te hace a ti, mi amiga? Sí, me recuerdo de Camus y del dia en que dice no, límpidamente ¡no! Rebelde se torno capitolino, y lo sabemos todos que hoy diría: — ¿No, al Panteón, no! Yo vivo para siempre, estoy adonde están los dioses de la tierra, en el Eliseo en que todos quieren Ser y ser yo antes de lo ser. Yo estoy inserido y integrado en la tierra, la tierra del Tao que todos tienen ahí, en el segrego bruto.

Y yo, soy una presa del tiempo.

Tengo hambre, muchísima hambre. De eso, eso todo, del efecto mariposa en Deus y en Hella, sí, en eso; pues ella es más que todo y lo será. Una sentencia lejana y después voy a mirarte en los ojos sociales, seres y tierra legándote al primero olvido de la tarde, al primero momento de nacer.

Yo no sé como se dice Adiós. ¡Me gusta quedar-me con todo!

Imagen. Angels and Epaulet, James Christensen‏
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Nota: este texto não era para ser editado, aqui ou em lado nenhum, é somente terapia matutina (escrever com pena e tinta, dos princípios do Sec. XX, é minha terapia preferida – e ler os Lusíadas, claro! Não estando por perto nem uma coisa nem outra, escrevinhar numa língua qualquer é satisfatório) de um dia pouco desejado. se fosse papel, estava rasgado. Logo posso precisar de ler o que acabo de escrever.

  • INGRATIDON D’GENT Y D’POVO
Um'me uvi nhe poeta, há b’kadim: — Kônd um morrê, um krê v’râ cinza e ser p’tod num komp d’batata p’tud gent k’mê um b’cadim d’mi. É nha forma d’homenajeá nhis gente. Mas se un tiver um pátria ingrôt, um ta dzê, sima Cipion Nasica gritá sis gent lá d’ Linterno, exilod y eskecid: Ingrata patria ossa mea non possidebis.
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E ke no eskecê kel dzê isso viv, t’sinti y t’sofrê ingratidon d’sê país.

O graffiti diz «Tenho fome»…(Metro de Tiblissi, Georgia)

Herman Van Rompuy

O Presidente do Conselho Europeu, Mister Europa... e como custou chegar aqui!

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A minha amiga Alcestina Tolentino, na maior aventura. Sic transit mundi.
*

Ave Maria, Jessye Norman

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

  • DEUS À CHUVA

    Ontem à noite vi Deus
    a passear nas sombras da chuva.
    Sorriu-me, e persegui-o.
    Ia fugindo das fundas, do coio e do mal
    a brotar do viscoso «Deus não existe…»

    Encontrei-o na seiva de uma folha
    nascida de árvore inominada
    — voltou a sorrir-me, e beijei-o.
    Mas pensava em ti, longe, aí.

    E onde estava Deus, outra vez?
    Procurei-o, sedento de falar,
    de ouvir tudo o que sempre quis.
    «Mas onde estás, ó Deus!?» — gritei.

    Com lágrimas nos olhos, vi-O
    outra vez: era um menino negrinho
    a sorrir e a balançar-se de enigmas
    nos braços da mãe: tinha o meu olhar.
    — «O que eu queria ver eras tu» — disse-me,
    enquanto seguia, verbo rasgado,
    nos meus sonhos de ti
    para te ver, e beijar-te
    com os meus olhos mutuados.
    ----- Lisboa, 15 de Novembro de 2009
Prima forma: Liberal

Imagem: Jovem pescador, Bua, Indonésia

I. Instrucción no es lo mismo que educación: aquélla se refiere al pensamiento, y ésta principalmente a los sentimientos. Sin embargo, no hay buena educación sin instrucción. Las cualidades morales suben de precio cuando están realzadas por las cualidades inteligentes.

II. Educación popular no quiere decir exclusivamente educación de la clase pobre; sino que todas las clases de la nación, que es lo mismo que el pueblo, sean bien educadas. Así como no hay ninguna razón para que el rico se eduque, y el pobre no, ¿qué razón hay para que se eduque el pobre, y no el rico? Todos son iguales.
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III. El que sabe más, vale más. Saber es tener. La moneda se funde, y el saber no. Los bonos, o papel moneda, valen más, o menos, o nada: el saber siempre vale lo mismo, y siempre mucho. Un rico necesita de sus monedas para vivir, y pueden perdérsele, y ya no tiene modos de vida. Un hombre instruido vive de su ciencia, y como la lleva en sí, no se le pierde, y su existencia es fácil y segura.

IV. El pueblo más feliz es el que tenga mejor educados a sus hijos, en la instrucción del pensamiento, y en la dirección de los sentimientos. Un pueblo instruido ama el trabajo y sabe sacar provecho de él. Un pueblo virtuoso vivirá más feliz y más rico que otro lleno de vicios, y se defenderá mejor de todo ataque.

V. Al venir a la tierra, todo hombre tiene derecho a que se le eduque, y después, en pago, el deber de contribuir a la educación de los demás.

VI. A un pueblo ignorante puede engañársele con la superstición, y hacérsele servil. Un pueblo instruido será siempre fuerte y libre. Un hombre ignorante está en camino de ser bestia, y un hombre instruido en la ciencia y en la conciencia, ya está en camino de ser Dios. No hay que dudar entre un pueblo de Dioses y un pueblo de bestias. El mejor modo de defender nuestros derechos, es conocerlos bien; así se tiene fe y fuerza: toda nación será infeliz en tanto que no eduque a todos sus hijos. Un pueblo de hombres educados será siempre un pueblo de hombres libres. – La educación es el único medio de salvarse de la esclavitud. Tan repugnante es un pueblo que es esclavo de hombres de otro pueblo, como esclavo de hombres de sí mismo.
---------- José Martí, Obras Completas, tomo XIX, Editorial de Ciencias Sociales, La Habana 1975, pp. 375-376.
Imagem: José Martí

quarta-feira, 18 de novembro de 2009


Paul Klee, Picasso y el Contagio de la imaginación, George Steiner

Ao Zé Cunha

  • O RANKING DA CORRUPÇÃO

    O que o estrangeiro diz não deve ser levado em consideração – anoto, pois li ou vi isso não sei bem onde. Onde será que foi, alma minha que te partiste neste momento de gozo sem prazer? Pragmatismo retórico, será.

    Mas foi publicado O Index de Percepção da C
    orrupção internacional da Transparência Internacional, e convêm lê-lo e, já agora, saber o que os Governos e as oposições dizem dele, não desta vez, mas de todas as vezes.

    Mas convêm ver, também.

    Imagem: Um iraquiano a votar (a democracia que os EUA levaram ao Iraque), e tem por perto um funcionário. O Iraque está no 176º. (estão a ter em consideração o Oil for Food Program?).

Sic transit Gloria mundi
*
Imagem: Luis Royo (1984)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

  • A CUECA DA NATUREZA

    Tertuliano explica as razões porque se tornou cristão. Elas sempre me pareceram perceptíveis e compreensíveis à luz do mundo em que vivo… mas difíceis de compreender no seu tempo, por acarretar alguma irracionalidade existencial. Era, se assim se pode dizer, um elo dissociado da minha compreensão da sua pessoa, do seu pensamento, das suas opções e do seu tempo. Hoje, como que por uma epifania da razão, descobri o elo. Entendi. E é tão óbvio, tão elementar, tão patente — tão frio…

    Tem razão Vargas Villa, sobre a consciência das épocas. E lembro-me de José Martí, da sua reacção a morte de
    Garfield — não o gato, mas aquele que foi Presidente dos Estados Unidos da América: James Abraham Garfield — e do que dizia, no longínquo dia 1 de Outubro de 1881 (em artigo publicado no La Opinión Nacional, Caracas, 19 de octubre de 1881): «Quando se é testemunha das grandes explosões de amor da humanidade, sente-se orgulho de ser-se homem, assim como quando se presencia as suas prostrações ou fúria dá vergonha sê-lo. A morte é útil, a virtude é útil, a desgraça necessária e reparadora, porque desperta nos corações que a presenciam nobres impulsos de as eliminar. […] A dor alimenta, a dor purifica, a dor nutre.»

    A guerra corpo a corpo entre a lei do amor e a lei do ódio, como dizia José Martí, é contínua, como a natureza: todos os dias morrem e nascem coisas, sentimentos e pessoas, pessoas que morrem na luz e sem ira — digo eu. No plano da razão, também.
    «Sempre quis olhar para o meu caixão, ver-me exposto ao Mundo… saber onde andam as lágrimas. Curiosidade satisfeita. Vi a cueca da natureza» diz-me o meu poeta.

    Imagem: Mahmoud Ali, 8 anos (escola de Al-Qabs — Ramallah, Palestina)

Yo sé de Egipto y Nigricia,
Y de Persia y Xenophonte;
Y prefiero la caricia
Del aire fresco del monte.

Yo sé de las historias viejas
Del hombre y de sus rencillas;
Y prefiero las abejas
Volando en las campanillas.

Yo sé del canto del viento
En las ramas vocingleras:
Nadie me diga que miento,
Que lo prefiero de veras.

Yo sé de un gamo aterrado
Que vuelve al redil, y expira,
Y de un corazón cansado
Que muere oscuro y sin ira.
------ José Martí

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Como tinha prometido, inicio a publicação das Palavras Cínicas de Albino Forjaz de Sampaio. Hoje é tempo da primeira carta.
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***
Vi que a vida era má e escrevi estas cartas. Se as leres no meio de um festim, as porás de parte com enfado, mas buscarás a sua consolação quando o mundo te fizer chorar.

Carta I

Meu amigo:
Escrevo-te de longe, de muito longe, perdido nos confins deste meu bairro onde só muito fraco chega o rumor da grande cidade. De que hei-de falar? Da Vida? Pois seja. Tu vens para ela, para o imenso brouhaha. A vida é a escola do cinismo. Trazes coração? Esmaga-o ao entrar como uma coisa que nos compromete, que nos avilta. Se acaso és bom, tolice. Não venhas. Aqui para triunfar, é preciso ser mau, muito mau. Sê mau, cínico, hipócrita, e persistente que vencerás. Serás aclamado, respeitado e invejado. Ri do Bem e da Virtude, da Alma e do Sentir. Ri de tudo, que é preciso que rias. Abafa um protesto com um sorriso, uma agonia com uma gargalhada, um estertor com uma praga.

Sê polido, meu amigo. Encobre a raiva sob o riso, e o riso sob o pesar.

Sê mau, sobretudo. Se a alma compromete estrangula-a, se o riso desmascara sufoca-o, se o choro atraiçoa esfibrina-o às gargalhadas.

Não ames nem creias. Todo o homem que ama é homem perdido, e todo aquele que crê nunca será ninguém. Odeia sempre. Odeia os que sobem e os que pretendem subir, odeia os que subiram e os que um dia subirão. Odeia todos e desconfia. Lembra-te que o Ódio dá mais prazeres que o Amor.

A satisfação de ver agonizar um canalha, quer ele seja um mártir, quer ele seja um ladrão, é maior que a de sentir os braços opulentos de uma mulher que se entrega. É menos um. Sê pois forte como o diamante e como o Ódio.

No Amor —
gentil comédia — sê pródigo, e sobretudo nunca ames uma só mulher. Se és bom serás ridículo, se és mau serás temido. Sê mau sempre. Este farrapo a que se chama Vida foi, é e há-de ser sempre assim.

Tudo é egoísmo. Se és bom morrerás como Judas, se és mau, meu amigo, serás lembrado como Satã. Vem, mas vem cínico. Triunfarás, terás ouro, amantes, mulheres, o diabo.

Acredita que metade da humanidade nasceu para se rojar pela lama, para que tu, eu, todos os maus, todos os cínicos, a
esmagássemos e lhe cingíssemos fraternalmente as carnes com um chicote. Depois da morte há o Nada. Portanto, meu caro, aqueles que o sabem, o que pensam é em sugar a vida com um furor de agiotas sem entranhas. Isto é como no mar; já Shakespeare dizia que “o mugem vive para ser tragado pelo lúcio”.

Ou serás vencido ou vencedor. Se vencido esperam-te todas as humilhações, desde o desprezo até a compaixão. Se vencedor todos os triunfos, desde o respeito ao Capitólio. Luta sempre calado, fino, sabido, que se não tens jeito para isto serás um eunuco eterno, castrado para a Vida, para o Amor e para o sonho.

A raiva também tem o seu gozo, o Ódio também tem o seu amor. E o amor do Ódio é maior porque é mais forte. Não poderás gozar e serás mais desprezado do que uma serapilheira que o uso condenou.

A carne é matéria como a rocha, a rocha é matéria como a flor. Da mulher honesta à prostituta não há diferença, a distância de uma à outra é nula. Não beijam ambas? Uma por prazer, outra por precisão. Pois, meu caro, eu prefiro a prostituta sempre. Acredita que todos se vendem, homens e mulheres, palhaços e imperadores, Cristos e mendigos: a questão é de preço e o preço sufoca todas as consciências, todas as revoltas.

Acredita que falta quem compre toda a gente que se quer vender.

A mulher mais honesta capitula, e aquilo a que tu chamas acaso, chamo eu persistência, e a persistência gasta a vida como a água gasta a rocha. Tu és filho de uma prostituta pois que tua mãe só foi de teu pai e teu pai foi o primeiro a quem ela se entregou, que depois o egoísmo do seu amor fez conservar junto de si...
O seu corpo tinha gozos inusitados que ele demandou primeiro. E se teu pai não fosse dela, seria o primeiro que lhe agradasse, o primeiro que a sua carne lhe impusesse, o primeiro que passasse à sua rua. Assim, tu és filho de um operário como o poderias ser de um assassino. Podia mais a sua carne do que ela, mas o seu egoísmo foi maior do que a sua carne.

A vida é uma luta brutal” (Tourgueneff).

Tu crês em Deus? Crês sim, que bem o sei. Pois bem; vai dizer-lhe que eu o odeio com toda a força do meu ódio. Tu que te dás com ele, que crês nele, que és amigo dele, vai dizer-lhe que ele é mais vil do que as coisas vis. Vai dizer-lhe que eu o odeio, porque ele deixou morrer aquela criatura aqui do lado, cujos seis filhos abandonados me vieram comer o meu jantar. Vai dizer-lhe o ódio que lhe tenho por ele deixar morrer aquele justo, que por ser bom teve de se matar; diz-lhe finalmente que nada disto se deve fazer quando se é Deus.

Que me odeie agora também porque eu dei o jantar aos pequenos que não o tinham; que me odeie porque a última camisa a dei a um pobre que quase ma roubou; que me odeie porque eu o castigo como no outro dia castiguei um velho que maltratava um cão. Anda, vai dizer-lhe que me odeie, que se avilte ainda mais se é capaz...

A geração é de covardes e “cada ano que passa está mais corrupto o mundo” (M. Gorki).

Ah, não ter eu muito que dar a este pequeno miserável que me bate agora à porta, para que ele me chame o mais vil que o sol cobre, o mais canalha de todos, o mais indigno, o mais bandido!
Ele não se engana. Lá tem o seu raciocínio que não falha nunca. Dei-lhe tudo o que tinha e todavia vai a resmungar baixinho que um dia, um dia que virá cedo, me virá bater à porta com uma coronha e me há-de fuzilar a mim, o maior dos patifes que o socorri.

Vai-se embora a pensar que se fosse rico, havia de azorragar toda essa ralé que pede esmola e toda aquela que dá tudo o que tem. E cisma em ser um dia o maior dos Neros que o mundo tem visto; em ter um chicote com que possa de uma só vez azorragar a Terra, ele, cujo corpo deveria ser balançado no candeeiro ali defronte.
De trinta mendigos a quem dei esmola hão-de nascer noventa patifes para me apedrejar. Abençoada esmola! Mas explica-se. É que a minha esmola — esmola humana — fecunda lá dentro todo o meu cinismo e toda a minha canalhice.

Deste-me esmola? Muito bem, odeio-te. Odeio-te porque não posso também dar esmola e porque me curvei a ti. Toda a vida me fizeste bem, socorreste-me, agasalhaste-me. Um dia eu — mau como sou — estou por cima. Então eu havia de perder a ocasião de me vingar de tudo o que tu me fizeste? Chegou o meu dia. Agora, meu velho, eu sou maior, ouves? Eu dobrei-me e tu socorreste-me, mas eu dobrei-me. Eu era um faminto e tu sentaste-me à tua mesa, mas eu dobrei-me. Tive fome tu encheste-me, tive frio tu agasalhaste-me. Irritante Tu, sempre Tu.

E eu não podia vingar-me, mas agora chegou minha vez.

Acredita que todos aqueles a quem fazemos bem nutrem lá dentro a secreta esperança de um dia nos correrem a pontapé. Logo no primeiro dia em que não temam desconjuntar a bota quando o fizerem, percebes? Escutaste? Vem, se te sentes com forças. Demais és pobre. Então para ti a vida é tudo isto e tudo o mais que tu tiveres coragem de inventar. “O pobre será odioso até ao seu parente mais chegado” (Provérbios, XIV, 20), que não "merece carinhos quem não tempera caldo" (Silva Pinto), ouves? Tu virás e triunfarás. Tu serás mau e cínico e traidor. A Vida? "Seria loucura, na verdade, conservarmos alguns sentimentos compassivos quando vivemos em semelhantes cavernas" (M. du Camp).

A Vida é uma canalhice, uma farsa, “uma luta brutal”, como diz
Tourgueneff.

In Albino Forjaz de Sampaio, Palavras Cínicas

Imagem: Subvertive beauty, Luis Royo

  • VOZ DA CIÊNCIA, BELA CIÊNCIA

    Diz a gerontologista Karen Weatherby e uma equipa de investigação que dirigiu que olhar para para mulheres com mamas tamanho “D” ou maior (com no caso desta bela modelo russa) por dez minutos ou mais, é como ir 30 minutos ao ginásio e faz os homens ganhar cinco (5) anos de vida. Isto é: Mamas grandes, longa viva; pelo que se quiseres viver mais tempo do que é suposto, casa com uma mulher de S. Nicolau.

    Mamas, mamas dão vida. Não é preciso silogismo para saber isso.

domingo, 15 de novembro de 2009

OS POLÍCIAS DO LULA DA SILVA E A CPLP

Lula da Silva, Presidente do Brasil, dizia no outro dia que os polícias devem ganhar bem para não terem de receber propinas, i.e., não serem subornados (e isto tem uma dimensão que vai para além do dinheiro). Mas não é só policial, não… ainda que, ao que se diz, mesmo políticos com ordenados milionários se deixam corromper. O que quer dizer que o problema vai para além da questão monetária pelo que se tem de considerar, para o caso, a normalidade do problema e não todos aspectos da mesma.

Mas concordo com o
Presidente do Brasil. Só não sei porquê é que não fez isso durante o seu consulado presidencial, que, afinal, foram dois mandatos. Descobriu isso agora? Não creio, mas mais vale tarde do que nunca. E, já agora, que não saia da presidência do Palácio presidencial sem fazer o que agora reclama: polícias a receberem o que é devido e dignificante para a profissão. Mas mais e melhor formados, necessariamente.

O que o Presidente Lula diz serve não somente para o Brasil, serve como uma luva à medida para todos os demais países da CPLP, o elefante branco que, até agora, só tem servido os interesses dos políticos e não dos cidadãos. Só assim se combaterá a corrupção e outros comportamentos menos edificantes nas estruturas policiais e se contribuirá para uma melhoria da qualidade de vida dos cidadãos no que concerne à paz social, melhor justiça e segurança.

Pode-se até lutar para a proficiência do sistema judicial, e ter-se boas intenções neste plano e noutros, mas se a Policia não for eficaz e deter tranquilidade pessoal para se dedicar exclusivamente à defesa dos valores da sua função nunca se terá uma justiça adequada e uma sociedade verdadeiramente segura. O que é dizer que nós, os cidadãos, um dia começaremos a ser vigilantes, a nos nomearmos juiz Dredd. O que, de todo, não pode ser o caminho da civilização.

Imagem: Luiz Inácio da Silva, Presidente do Brasil

  • NADEJDA

    Escrevia uns poemas, e parei: ouvia Nadejda de Solange Cesarovna. Não percebo russo, mas gosto da música… mas depois, perguntei-me: o que está esta Calíope crioula a cantar? O que anda a dizer? Não pode ter nada a ver com a Nadejda que me recordo sempre que ouço a música: Nadezhda Krupskaya, a mulher de Vladimir Lenin. Lá fui à Enciclopédia da História da Rússia ver, se encontrava uma outra Nadejda… e não encontrei. Se estivesse aí em CV, procuraria essa síntese de Calíope, Flora e Vénus para me explicar o que diz a música, mas como eu estou longe, vou ter de perguntar a um dos meus amigos entendidos em russo.

    Odeio não perceber as coisas, e a razão das coisas, também. Mas chegarei lá, e ter esperança é um bom princípio. A mulher de Lenine chamar-se Esperança, é curioso, não é? Agora, é tempo de ouvir o Debate Africano na RDP-África. Logo is another day, lá diria a Scarlett O’Hara.

    Imagem: Nadezhda Krupskaya, mulher de Vladimir Lenin sentada à sua secretaria de trabalho (Enciclopédia da História Russa)

  • A Constituição da República tem um hímen complacente? — pergunta-me o meu poeta.

  • DECLARAÇÃO DE AMOR

    Há dentro de mim
    um Cristóvão Colombo metafísico
    e tu, tu és o Mundo que ainda não descobri.

    Irei com tudo o que és,
    esperas-me com tudo o que sou,
    e vamo-nos cruzar de essências
    Deus será testemunha dos nós gerados
    e as suas vísceras de plumas serão o nosso leito
    no Novo Paraíso.

    Estou no porto, pelos reis ainda rejeitado…
    E sou uma larva de poemas, tu inteira.

    ------ Publicação originária:
    Liberal

    Imagem: Triplet galaxy ARP 274, Hubble, NASA

Linda O’Neill

Chove, chove
sinfonicamente em Lisboa…

sábado, 14 de novembro de 2009

  • A DEMOCRACIA DA CULTURA: «MEMÓRIAS DE ADRIANO» DE MARGUERITE YOURCENAR

    Recebi uma chamada telefónica, de um amigo escandalizado com o texto que escrevi sobre os clássicos, pois, na sua perspectiva, Youcenar não é uma autora difícil. E lá tive de estar a explicar-lhe o quão difícil é uma obra como Memórias de Adriano. Livro que, reitero, aprecio em particular, por destoar das obras do género: a autora revela um conhecimento de Roma, em particular do Século dos Antoninos, que escapa a estudiosos da história em geral. Memórias de Adriano não é um livro fácil de ser lido, na verdade é um livro muito difícil de ser percebido para quem não é versado nos clássicos e na história romana, nomeadamente do Século II da nossa era. A autora chega a usar o nome de locais hoje desconhecidos para o leitor, v.g., a Bitínia ou a Capadócia, ou de figuras de todo desconhecidas para o público em geral, como Terêncio Escauro, Alcibíades ou coisas que não diz e deixa o leitor descobrir (se perceber isso), como é caso de referir.se aos «lagos de Alba», sem mais, querendo dizer Alba Pompeia.

    Mas não é livro isento de erros e/ou imprecisões. A referência ao Templo de Serápis em Alexandria e às controvérsias cristãs de então, como, a que, diz a obra, existir entre Basilides e Valentim (o que é uma imprecisão, pois eram ambos gnósticos) mas que existia, sim, entre estes e outros cristão da Escola de Alexandria. Mas é verdade um facto: essas controversias eram comuns na cidade egipcia, mas não entre estes dois. Mas o livro tem mais coisas deste género. Por exemplo, Adriano de Yourcenar diz, a dado ponto: «A moral é uma convenção privada; a decência, um as­sunto público; toda permissividade muito visível sempre me pareceu uma exibição de mau gosto. Proibi os banhos mistos, motivo de rixas quase constantes […].» Tal é uma incongruência da obra, pois Adriano se motivou, tão-somente, no plano moral para o fazer e não por causa de dissensões públicas ou privadas. A biografia de Adriano na Historia Augusta – que a autora usa como referência primeira – é clara sobre este aspecto.

    Aparece na obra a referencia à Espanha, o que deverá ser um erro de tradução, pois certamente que teria usado o nome de então Hispânia, pois a referência actual não é Espanha, mas sim Península Ibérica. E alongar-me-ia em exemplos desta natureza, mas isso não retira mérito ao livro, quer pela densidade histórica e narrativa quer pela beleza e desafio cultural que constitui a compreensão das realidades dentro das referências da obra cujos nomes são mais do que nomes, mas referencias da história. É, sim, uma obra extraordinária. Mas não para todos, não para toda gente. É uma obra que demonstra que a cultura não é, afinal e de todo, democrática.

    Para percebermos isso, vejamos este excerto do livro (Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, p.22):
    «Marulino, meu avô, acreditava nos astros1. Esse velho alto, magro e encardido pelos anos dedicava-me o mesmo grau de afeição sem ternura, sem sinais exteriores, quase sem palavras, que votava aos animais da sua propriedade, à sua terra e à sua coleção de pedras caídas do céu. Descen­dia de uma longa sucessão de antepassados estabelecidos na Espanha2 desde a época dos Cipiões3. Era, na linha senato­rial, o terceiro do nome: a nossa família até então fora da ordem equestre. Tomara parte, aliás modesta, nos negócios públicos sob o reinado de Tito4. Esse provinciano 5 desconhe­cia o grego e falava o latim com um sotaque espanhol gutural que me transmitiu, e que foi motivo de riso mais tar­de. Todavia, seu espírito não era de todo inculto. Após sua morte, foi encontrada em sua casa uma arca cheia de ins­trumentos de matemática e de livros nos quais ele não to­cava havia vinte anos. Possuía conhecimentos em parte científicos, em parte camponeses, naquela mistura de pre­conceitos rígidos e de velha sabedoria que caracterizaram Catão, o Velho 6. Mas Catão foi durante toda a vida o ho­mem do Senado romano e da guerra de Cartago,7 o perfeito representante da impiedosa Roma da República8
Imagem: Men and Angels, James Christensen‏
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NOTAS:
[1] Era comum os romanos acreditarem não somente nos deuses, mas também nos astros. Eram, neste plano, também animistas. O que tem, naturalmente, a sua razão de ser na origens rurais do povo romano.
[2] Hispânia, e não Espanha, como referi. Esta é uma realidade histórica e política diferente e fora do cotexto da obra. Isto é, depois dos africanos liderados por Aníbal Barak serem expulsos da Hispânia (hoje Península Ibérica) na sequência da II guerra púnica.
[3] Aquando das guerras púnicas, em que a Hispânia era parte, em parte, uma colónia africana e parte grega; aliás, foi o ataque à colónia de Sagunto que deu origem a II guerra púnica e em que emergem os Cipiões da gens Cornélia.
[4] Tito Vespasiano, que foram dois. O primeiro tornou-se Imperador romano durante o cerco de Jerusalém, deixando para o filho, então general das legiões, a tarefa de tomar a cidade, o que faria em cerca de dois anos depois, em 70 d.C e dando origem a grande diáspora judaica. Para isso, há que rever a genealogia de Aelius Adrianus Antoninus na Historia Augusta, e na Historia Romana de Cássio Dio e assim identificar-se qual dos Titos autora fala.
[5] A língua de cultura dos romanos era, então, o grego e não o latim. Mesmo com todos os esforços iniciados com Octávio Augusto, o grego era ainda visto como a língua de cultura entre os romanos.
[6] Na verdade odiava o grego e as modas gregas, o que o tornou inimigo de Cipião que, por outro lado, amava as novidades gregas. Um, Catão, simbolizava o mundo rural romano e as suas traições e o outro, Cipião, a modernidade e a cultura gregas; diríamos hoje que um era um nacionalista e o outro um moderno defensor da uma cultura global, helenística.
[7] Por causa da sua famosa frase: Delenda est Cartago. Participou na Segunda Guerra púnica (sobreviveu às batalhas de Tesino, Transimeno e Zama, com Cipião Nasica) e foi o seu ódio pelos africanos de Cartago que viria a causar a destruição da potência militar e económica africana de Cartago. Mas Catão, o Velho (ou o Censor), mas não veria Cipião Emiliano, filho adoptivo de Cipião Nasica, o Africano, destruir Cartago em 146.
[8] A Roma da República, para se diferenciar da Roma imperial… essa percepção dessa diferença, do plano político e prático, é deveras interessante de verificar. A expressão «impiedosa», aqui, é de uma assertividade histórica extraordinária. O primeiro Cipião Nasica, o Africano, foi desnecessariamante cruel com Aníbal Barak em Zama, e o seu descendente, Públio Cornélio Cipião Emiliano, o Africanas minor, também o seria no cerco e destruição de Cartago.

A CONDECORAÇÃO DO MAJOR PIRES E A MINISTRA DA DEFESA

A Ministra da Defesa, Cristina Fontes, revogou a condecoração dada ao Major
Adriano Pires e que este recusou. Uma condecoração é uma honra que o Estado concede à um cidadão que considera ser merecedor de méritos excepcionais – pelo menos assim deveria ser –, não é um direito de ninguém. É, quanto muito, uma expectativa subjectiva, legítima ou não, mas nunca um direito pois está no âmbito do poder discricionário do órgão de soberania que a concede. Ponto final.

Uma condecoração é um acto formal, um acto de honra e reconhecimento que é concedido a um cidadão, mas que pode ser recusada – e se é recusada, não pode ser mantida. Assim como o cidadão não aceitou ser honrado pelo seu Estado, esse também, da mesma forma, decidiu retirar o reconhecimento do mérito pois a recusa não foi feita à Ministra da Defesa, foi feita ao Estado de Cabo Verde e a todos os cabo-verdianos que o órgão de soberania outorgadora da condecoração representa. Não revogar a condecoração é que seria inaceitável.

As razões do Major Adriano Pires, pelo menos as que eu conheço, não me parecem convincentes, mas as do Ministério da Defesa de Cabo Verde de revogar a condecoração é de aplaudir. Eu aplaudo, assim como tenho criticado a orgia de condecorações feita pelo Presidente da República, Pedro Pires (tem graça ser o seu irmão a recusar uma condecoração) aplaudo a decisão da Ministra da Defesa, Cristina Fontes. E digo mais: se estivesse no lugar dela, tomaria a mesma decisão.

A branca seduz, mas depois mata… principalmente as «mulas».

sexta-feira, 13 de novembro de 2009


  • OS CANDIDATOS A PRESIDENTE DA UNIÃO EUROPEIA

    A eleição – que provavelmente será depois das eleições britânicas, já com David Cameron como novo Primeiro-ministro do Reino Unido –, será, certamente, decidido pelas influencias do eixo franco-alemão, isso se a realidade não demonstrar que a Nova Europa desloca o seu centro de decisão para outras e inesperadas paragens. A democracia vencerá a lógica dos interesses? A ver vamos, mas Mary Robinson parece-me ser a candidata que melhor serviria os interesses dos cidadãos europeus.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

  • DE MANDELA A ÓSCAR ROMERO – O HUMANISMO LIBERTÁRIO
A maioria das pessoas com quem falo e Nelson Mandela aparece como tópico lembram-se, sempre, da política. Mandela, deixou o poder voluntariamente, e por isso é um exemplo para os africanos – dizem todos. É verdade. Mas isso, isso não é nem tem nada de extraordinário no plano da política; extraordinário mesmo, a este nível, foi Chandragupta. Mandela só cumpriu com o seu dever, e isso não merece nenhum galardão, pois é o mínimo que se pode exigir a uma pessoa: que cumpra com o seu dever. Mas Nelson Mandela é um ser humano extraordinário, sim. Não por ser um político extraordinário, mas por ser um ser humano… humano.

Dá que pensar, por vezes dói-me até, como conseguimos transformar o cumprimento do dever num mérito, numa excepção digna de galardão e não na regra. Quem faz o seu dever não merece nenhuma outra recompensa para além daquela que emerge do dever cumprido. Existe uma diferença entre o ordinário e o extraordinário, e tal tem vindo a desaparecer na percepção social da humanidade. Isso, na verdade, tem desumanizado o homem, tem-no afastado, por adquirido social prático, da lei natural que lhe é imanente. O extraordinário está em ir para além do dever, para além do que nos impele a natureza, fazer o que o outro não faria – mais: o que o outro não faria por nós!

E impressiona em Nelson Mandela este exemplo: agarrar nas mãos do seu inimigo, perdoar-lhe o mal causado. Compreender o outro, e, compreendendo-o, perdoar-lhe. Isso é humano, verdadeiramente humano. Nelson Mandela, que gosto de ver como um verdadeiro cristão animista, é, neste sentido, mais cristão que João Paulo II e Benedictus XVI que não perdoaram a teologia da libertação (na verdade teologia libertária) de Leonardo Boff, Rubem Alves e outros defensores da teologia cidadã. Desmond Tutu, Ximenos Belo, D. Manuel (Bispo de Setúbal) estão próximos desta teologia libertária, mas não vão tão longe como foram Leonardo Boff e, de certa forma e noutro registo, César Romero.

O perdão é a essência do cristianismo, assim como o diálogo mitigado e balizado pelos princípios. Há um problema de natureza, de paradigma na teologia da libertação e que se confronta com o cristianismo cristocêntrico? Sim, há, mas nada que não seja superável. Óscar Romero dizia, de forma clara e precisa (mas que pode levar a interpretações nocivas), que a «Igreja cristã tinha uma preferência 1 pelos pobres» e ouve, há, muita gente que confunde isso com a teologia da libertação, que em verdade, não é de libertação mas sim libertária quando entendida no plano político — como já vem de Tomás de Aquino e o seu direito à revolta contra a injustiça — pois no estrito plano da teologia, o cristianismo é, em si mesmo e todo ele, pois é a sua essência, uma teologia da libertação, e da libertação do homem total: corpo, alma e espírito.

O problema é a politização do Evangelho — uma tentativa, inclusive, de a minar com o ideário marxista. Este é, ainda que não compreendida, a razão maior das resistências da Igreja à teologia da cidadania popular, à teologia da libertação. São, na verdade, várias faces do humanismo contemporâneo, de um humanismo que, por vezes, desespera, procura e se deixa seduzir pelo discurso-caminho que parece fácil, mas cujo fim, cujo é o que diz Coélet. Salva-nos homens humanos, pessoas com sentido de humanidade comprometida com o outro, como Nelson Mandela.

Mandela, sem grandes teorizações, mostra-nos que o que o homem precisa não é grandes construções teóricas e de títulos académicos — que são, também, necessárias e socialmente úteis — mas de acção em favor daqueles que mais precisam, daqueles que não têm voz. O facto da O facto das Nações Unidas ter criado um Dia de Mandela é da mais elementar justiça, e faz-me crer em dia melhores, numa humanidade melhor.

Imagem: Nelson Mandela e Frederik de Klerk
________
[1] Na acção social, deve-se entender.

  • A MANHÃ

    Quando me encontrares,
    diz-me onde estou
    — irei contigo pela madrugada
    visitar-me, beijar-me
    transformar-me num poema...

    Imagem: Abraço amoroso, Samarel

Perm-35, o ultimo Gulag

MEMÓRIAS DA HISTÓRIA

  • CONTRA LA SEDUCCIÓN

    ¡No os dejéis seducir!
    No hay más retorno.
    El día está a las puertas;
    El viento de la noche podéis ya sentir:
    No llega otra mañana.

    ¡No os dejéis engañar!
    Poco es la vida.
    ¡Saboreadla a rápidos sorbos!
    ¡No os resultará suficiente
    Al tenerla que dejar!

    ¡No os dejéis esperanzar en vano!
    ¡Harto tiempo no tenéis!
    ¡Dejad a los redimidos el moho!
    La vida es lo más grande:
    No está dispuesta otra vez.

    ¡No os dejéis seducir
    A esclavitud y explotación!
    ¿Qué os puede infundir angustia?
    Morís con todos los animales
    Y después no hay nada más.
    ------Horst Krüger
Imagem: Guennady Shlykov


BURMA’S POLITICAL PRISIONERS

The fundamentals of democracy are people’s freedom and critical minds, says my poet.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

  • MANUEL VEIGA NA RCV – A LINGUA CABO-VERDIANA

    Acabei de ouvir Manuel Veiga, O
    Ministro da Cultura, na RCV (ouço, ainda, a rádio… e Nadejda de Solange Cesarovna… que bela voz! E penso que valeu ouvir a rádio, por isto que escuto agora). Orlando Lima, jornalista da RCV saiu-se com uma tirada infeliz na conversa com Manuel Veiga:

    No ti ta papiá um kriolo fedi kê di Praia

    No comments!

    Mas o Ministro da Cultura não disse nada de novo, nem o jornalista perguntou. Mas que oficialização é que se vai fazer se (i) o que se pretende com a revisão do Artº.9º. da CRCV é a clarificação (sic) da norma? Clarificação que o projecto do PAICV, como proposta, não faz – infelizmente, mas pode(rá) ser socializado. Mas (ii) e o Decreto-lei nº. 8/2009 de 16 de Março que oficializa o ALUPEC como alfabeto cabo-verdiano, o que foi que fez? Não foi a oficialização da língua cabo-verdiana com base no sistema ALUPEC? Será que deixou de existir? Porquê, diga-me: qual é a razão de todos ignorarem esta aberração de haver uma lei contra a República e todos fazerem de conta que não existe? É que, como se viu na AN, o PAICV está a espera que o MPD mude (mas de que discurso?) e se resolva a questão da língua no plano constitucional e se repristine o Decreto-lei nº. 8/2009 de 16 de Março.

    O argumento da variante que se fala mais é preocupante… critério quantitativo?, não! É claro que eu percebo o que o Ministro da Cultura quer dizer, todos os cabo-verdianos percebem. O que não é, de todo e do meu ponto de vista, o problema, ainda seja parte dela; a questão resta nos procedimentos, sempre os procedimentos... O que me admira, pois sempre que oiço o Ministro da Cultura me parece uma pessoa com bom senso, mas depois age de forma diametralmente oposta…

    Já tardava ouvir o do poder político, nomeadamente do Ministro da Cultura, o argumento de que o Acordo Ortográfico está próximo do ALUPEC
    como previsto... — e da economia da língua. Uma entrevista para o Ministro Manuel Veiga dizer o que tem dito, repetidamente, em todos os fóruns por onde tem passado? Haja paciência! O Ministro da Cultura termina a entrevista dizendo que «os deputados vão dar uma prenda de Natal» aos cabo-verdianos: a oficialização da língua cabo-verdiana. Sim, espero que se chegue a um consenso sobre a revisão da Constituição — e a questão da língua nem é das questões mais prementes. Mas e então, volto a perguntar: o que é o Decreto-Lei nº 8/2009 de 16 de Março? É altura de alguém falar claro! Fica este diálogo (da Antígona de Sófocles):

    Creonte: — Só tu, em Tebas, sustentas tais opiniões.
    Antigona (apontando para o Coro): — Todos eles pensam como eu, mas mordem os lábios.

    Imagem: Pleasure, René Magritte

terça-feira, 10 de novembro de 2009

  • DE DOCTA IGNORANTIA

    Ainda soa na minha mente, o meu momento de reflexão. «Existirá, pois, um máximo absoluto sem o qual nada pode existir» – diz Nicolau de Cusa (Nicolau de Cusa, De Docta Ignorantia, I.4). E, tenho de assentar, há parcialidade de conhecer, a não ser em YHWH. E lembro-me das palavras de Hemon a Creonte: «Aqueles que pensam ter recebido a sabedoria em exclusivo, ou possuir uma eloquência, ou um talento sem igual, fazem prova muitas vezes, da inconsistência das suas pretensões. Mesmo para um grande magistrado , não é desonroso aprender constantemente a rever os seus julgamentos…» (Sofocles, Antígona, II).

    Mas há quem ache que não, há quem ache que não… o Mundo está cheio de sábios e de donos da razão, da ciência (das ciências, Deus meu, das ciências!) e tutti quanti que é saber. É, de todo, a douta ignorância; a douta e papagueante ignorância. E, como dizem que disse o grego, não sabem que nada sabem; de todo. E o Pai os perdoará, como perdoou a todos aqueles que não sabiam o que faziam.

  • SÓCRATES E O CASAMENTO DE PESSOAS DO MESMO SEXO

    O Primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, decidiu que irá apresentar uma proposta de Lei à Assembleia da República para a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mais do que previsível, como escrevi aqui ainda na anterior legislatura. Não terá dificuldade em conseguir aprovar essa lei, pois o Bloco de Esquerda e o PCP farão a maioria necessária no Parlamento. Mas parece-me que procede a duas coisas, graves, a meu ver: (i) desconsidera a natureza do casamento e a sua sacralidade e (ii) e o espírito das leis, a que emana da comunidade.

    E sabe isso. E por saber isso, não quer o referendo. Todas as pessoas têm direito a constituir família, mas existem várias formas contratuais e modalidades jurídicas para se resolver esse problema sem ser por essa via. Mas o problema é ideológico, não é jurídico, social ou muito menos de defesa dos direitos das pessoas do mesmo sexo a constituir família, pois uma coisa é constituir família, a liberdade sexual e a esfera da vida privada e suas opções e outra é casar.

    Imagem: Enter my mind, Samarel