quarta-feira, 16 de abril de 2008


  • ÁFRICA. A LÍNGUA PORTUGUESA NÃO TEM DONO

O Acordo ortográfico sobre a língua portuguesa é ou era para ser uma convenção entre todos os falantes da língua comum que é o português. Mas, ao que parece – e no caso o que parece é – não é nada disso.

Os países de língua oficial portuguesa – melhor dizendo os países lusografos (parece que esta deverá ser cada vez mais a expressão da realidade) – são (foram) de todo ignorados no processo de construção do acordo.

A todos os níveis se verifica essa desconsideração institucional, académica e social, como se os povos falantes de língua portuguesa que não Portugal e o Brazil não existissem. Mas existem, e não podem tolerar este tipo de tratamento de Senhor fidagal para como o seu servo.

Não existem senhores nem donos da língua; nem é preciso, em boa verdade, um acordo ortográfico como o que se tenta impor às comunidades falantes do português. Até porque, até me demonstrarem o contrário, a diversidade é um bem estimável.

É por essa razão – para não estarmos presos a um desejado e sub-reptício império da língua – que a língua cabo-verdiana deve ser implementada como língua de trabalho ao nível internacional. Se somos independentes, que o sejamos em tudo, caramba! Quem não tem coragem de fazer o que é preciso, que dê lugar a quem tenha. É, para os cabo-verdianos, uma questão bem mais importante do que aparentemente possa parecer.

Até se discute África sem a voz dos africanos, como aconteceu na semana passada em Lisboa em encontro subordinada à temática «Letras em Lisboa: Portugal, Brasil, Áfricao princípio da aliança» e que teve lugar nos dias 9 e 10 de Abril na Casa Fernando Pessoa e 11 a 13 de Abril no Teatro de S. Luiz.

Sintomático dessa realidade (para não dizer a sua prova provada), além de ignorar-se África – a não ser no uso instrumental do nome – foi o facto, de sofrível educação e civilidade, de somente terem feito parte dos painéis de discussão o Dr. Francisco Seixas da Costa (Embaixador de Portugal no Brasil) e o Dr. Celso Marcos (Embaixador do Brasil em Portugal).

Não estamos em 1885, nem somos – nós africanos em África e na diáspora – apêndices de nada nem de ninguém. Não se quer um pouco de respeito, não – quer-se o respeito tudo. Se fossem africanos a realizar o evento em causa a esta estariam a ser acusados de racistas, de sofrerem de síndrome de guetização, separatistas e quejandos; mas não foram. Então, o que devemos pensar, concluir e dizer? Procurar adjectivações? Para quê, digam-me? A realidade fala por si, e desta vez não se engana de todo.

O português está bem com sua diversidade – não que eu seja contra mudanças; Deus, não! – e se houver alguma coisa a mudar tal terá de ser feita com o assentimento e participação de todos; Estados e povos.

A língua não tem dono, cor ou continente. É só para lembrar-Vos, a Vós que pensais ter o senhorio da lusa palavra. É que, como diz bem o profeta (Amós III.3), “andarão dois juntos se não estiverem de acordo?” Há que regar os caminhos, sim. “O deserto cresce. Ai daquele que encobre desertos!” (Nietzsche, Assim Falava Zaratrustra); exorto atenção à esta realidade. Mas, como diz o filósofo, é “Coisa de que duvido, no entanto; porque venho da Europa, que é a mais incrédula de todas as esposas” (Nietzsche, idem).

Mas África não; Africa é terra de fé e de esperança. Não pode deixar de ter voz para gritar bem alto não somente a sua liberdade mas também a sua igualdade; não dada, mas por natureza de existência e de situação.

  • Foto: Dead Ulei, Deserto da Namibia

terça-feira, 15 de abril de 2008

  • Elefantes africanos. Para onde irão? - pergunto-me.

...

Lendo o Liberal de hoje (15.04.2008), ficou claro: o Tribunal da Comarca de S. Vicente não admitiu o recurso de não admissão (passe o pleonasmo necessário) da candidatura de Onésimo Silveira por entender que a interposição do mesmo foi intempestivo. Vénia seja feita à esta notícia; esta sim, esclarecedora.
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Espero os novos capítulos desta novela das "impugnações".

~ Flamingos, Lake Nakuru, Kenya ~

~ Milo Manara ~

  • GUARDADOR DE SONHOS

    Dizia, em exórdio de prazer:
    “Atravessei negro o túnel da vida
    e sei,
    sim sei
    que o silêncio dos meus actos
    são mil nós
    dos corvos que me rodeiam.”

segunda-feira, 14 de abril de 2008

  • O RECURSO DE NÃO ADMISSÃO DA CANDIDATURA DE ONÉSIMO SILVEIRA

Horas fatais. Quem é que nunca as teve na vida?

A notícia de que o Tribunal da Comarca de S. Vicente não aceitou o recurso contra a admissão candidatura de Onésimo Silveria, proposta pela UCID, surpreendeu-me. Não é porque esperava que assim não acontecesse. Não; pois sou contra essas manobras – legítimas, mas que têm qualquer coisa fétida que me incomoda – que visam ganhar as eleições fora do escrutínio da vontade popular.

O que me surpreendeu foi, ao que vem noticiado, a fundamentação do Despacho do Juiz para rejeitar o recurso interposto ao abrigo do Artº.344º., nº.2 do Código Eleitoral: a entrega na Secretária do recurso ter sido feita na manhã de hoje, Segunda-feira. Isto é, supostamente, ter passado o prazo do Artº. 342º do Código Eleitoral – a extemporaneidade do recurso, pois o prazo de 24 horas previsto na lei teria terminado no Sábado.

Este fundamento é, dito assim e nestes pressupostos, manifestamente improcedente e não pode nem deve colher assentimento da comunidade jurídica nacional.

E é assim porque, como é consabido, prazos processuais – tempo determinado para a prática de um acto processual junto do Tribunal – tem regras claras. No caso de um prazo – seja em horas ou dias – o mesmo só é considerável durante o período em que se pode praticar o acto. Tautológico, dir-me-ão.

Assim, se o prazo terminar no dia de Sábado, Domingo ou Feriado, o mesmo se suspende e a sua prática é admissível no dia útil logo a seguir – que é quando é possível, legalmente, praticar o acto.

Se foi no Sábado o terminu do prazo, o mesmo passou para Segunda-feira e poderia ser praticado nesse dia. “Mas – dir-me-ão ainda – o prazo é de horas e não de dias”. Sim, é verdade; mas as regras processuais são as mesmas – ainda que com uma particularidade não despicienda no caso sub judice.

Se o prazo terminava a hora determinada do Sábado – como é o caso –, deve considerar-se que o mesmo suspendeu-se às 24 horas de Sexta-feira (quando ainda seria possível praticar o acto via telecópia), começando a recontagem do mesmo contar na Segunda-feira, logo que o Tribunal iniciasse o seu funcionamento. De outro modo, o prazo não seria de 48 horas mas menos. O que é lógico, pois o acto não poderia ser praticado no Sábado – a não ser que o Tribunal funcionasse nesse dia…

Só entenderei a posição do Tribunal se o acto tiver sido praticado na Segunda-feira já depois da hora – considerando a suspensão da contagem às 24 horas de Sexta-feira – prevista na lei. Se não for esse o caso, o recurso interposto encontra-se ilegalmente retido, havendo lugar a recurso próprio por retenção inadmissível do recurso.

É uma questão formal, mas importante e premente. E pode vir a ter consequências futuras, pois a questão da inelegibilidade de um candidato não se coloca somente no momento da apresentação das candidaturas. É uma questão que se coloca mesmo depois das eleições – a eleição de uma pessoa não sana a ilegalidade emergente de uma inelegibilidade.

Há, como diz o povo, pano p´manga por aí. Este era, verdadeiramente, o momento adequado para resolver o problema substancial. Até porque a celeridade processual exigida nesta matéria daria alguma segurança jurídica e política às eleições que se avizinham. Assim, fica uma Espada de Dâmocles a pender sobre um (ou dois) candidato.

O que, em minha opinião, consubstancia uma injustiça e uma limitação substancial da capacidade objectiva de lutar pela eleição a que se propõe(m). O povo e a Democracia que estamos a construir merece mais, muito mais, parece-me.

A questão substancial – de se deve ou não haver procedência do pedido de impugnação – é outro problema. Tenho opinião sobre isso, e este escrito fica como exórdio da mesma. Parafraseando Publius Virgílio Maron, Iuris omnia plenatudo está cheio de Direito (Virgílio, Écloga, III, 60).

  • NOTA IMPORTANTE: Custa-me a crer nesta decisão; pois ambos os recursos, mesmos entregues na Segunda-feira, deveriam ser aceites, como verti supra. Será um mal entendido dos órgãos de comunicação social? É que, lendo os jornais on line de Cabo Verde (Expresso das Ilhas, A Semana e Liberal) fica-se confuso, pois todos dizem coisas diferentes e não consentâneas com o sistema de recurso constante dos Artºs.344º. a 346º. do Código Eleitoral.

~ A Espada de Dâmocles, Richard Westall (1812) ~

domingo, 13 de abril de 2008

~ Praça Nova, Mindelo, foto de Nuno Pombo Costa © ~

  • VÔT NA MON, COSTA NA TCHOM

Antes, falava-se de “vitória na secretaria”; agora – com tantas impugnações judiciais de candidaturas –, se calhar, teremos que começar a falar em “vitória antecipada no Tribunal”.

É uma questão de linguagem. Ou será que a linguagem não migrou de um universo para outro, por serem mais ou menos a mesma coisa - análogas? Ópio de e para o povo? Dá que pensar. Ah, se dá!…

Futebol e política?

Não, não é futebol e política. É futebol e bundabol, pois o povo leva o pontapé é mesmo aí. Mas só depois de votar, é claro. Vôt na mon, costa na tchon; sem mais. E leva cada bailinho, o povo… Agora, não é o da Madeira, nem de Ronaldos, Ronaldinhos e Pato que stá na moda, não; é o do pós idos de Maio.

Ah, não esquecer o bilhetinho julgador chamado voto que deveria dizer: costa na tchon, Vôt na mon; assim mesmo. No more bundabol! Deveria ser o grito do Ipiranga dos cidadãos. Na Sexta-feira as coisas inverteram-se aqui em Lisboa. No Estádio da Luz, o que houve foi mesmo bundabol aos sócios do clube da Águia.

Com os três assim, a do Mindelo, deve ter levantado voo. Sem três-café na área.


  • O CANTO DOS PIRILAMPOS

    Epitáfio testamentário de um poeta:

    «Era um Deus louco
    que amava
    sob o canto dos pirilampos.

    Era um Deus louco
    que amava
    com as mãos inocentes sangrando.

    Era um Deus louco
    que amava
    com lágrimas eternamente rios
    em mim…

    Era um Deus louco
    que amava
    com egoísmo extremo e eterno
    – medo que trouxe igual saudade
    de mim no plenilúnio da hora.

    Era um Deus louco
    que amava,
    que nunca conheci ou amei
    como amo-me, gândara de ti,
    por imperativo de viver
    e de ser eternamente eu.

    Era um Deus louco
    que amava
    no momento que me perdi
    com a plena convicção da perdição
    empolgando meu coração
    com sonhos tão longínquos
    como um sonho e a banda do Norte
    podem ser…

    E era, enfim…
    um Deus louco que amava
    quando, com vontade renegada,
    colhi da bailar eternidade
    uma flor mais que flor
    permanecendo o orvalho eterno
    de uma manhã adiada
    e nunca nascida no rosto.

    E permanece na sombra de tudo o que sou
    essa imagem de Deus
    que Deus amou e perdeu
    por amar um sonho e uma loucura
    mais do que Eu.

    E, à beira da minha porta,
    misturado com o pó que já foi gente,
    escondem-se os pirilampos
    que no silêncio mais silencioso que o silêncio
    das negras noites canibais
    acordam-me com um canto sem palavras
    e perguntam-me para onde vou
    ao que eu respondo sempre: – “Sou um rio
    manando sem fonte para o deserto sem fim
    que espera-me landa
    como uma mãe um filho perdido”.

    Ah, sempre, sempre a sorrir, os pirilampos…
    E brilham, brilham como uma trilha
    sem nome. Sou eu, eu
    voltando da aventura. Enterrem-me, ali mesmo.»
  • Maio, 1992

  • Mad, Mad, Mad Minerva - Illustration for Memories of Surrealism (1968)

sábado, 12 de abril de 2008


Em gavota, escuto:
"Quando nasceram de rochoso parto
solitários vaguearam os rios e os ribeiros
nos montes e vales de mel
até o corpo do mar-fermento-vida
onde beijaram o sal da companhia
serenos
e perdidamente unos."

~ Dragon And Unicorn, Luis Royo ~

  • O MENTIROSO E O BURRO DE NAÇÃO SABE P´CAGÁ

Era uma vez, há muito, muito tempo, dois amigos e amantes da Respublica Nação Sabe p´Cagá – Mentiroso e Burro de seus nomes.

Viviam em Nação Sabe p´Cagá, ilha sobranceira à terra da abundância, contentes porque Mentiroso era Cônsul e quase dono da terra e Burro um ambicioso Senador que pensava que cedo ou tarde herdaria a Fortuna de Mentiroso e o seu consulado Sabe p´Cagá.

Era sabido de e por todos: Mentiroso dizia-se, além de Cônsul pró hereditário, futuro Senhor dos morgadios; enquanto Burro vociferava que isso era somente Sol de Inverno rigoroso e que ele, sim ele, seria nomeado pelo Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá como sucessor natural de Mentiroso e de todas as suas possessões consulares.

Mentiroso e Burro evitavam encontrar-se, como Diabo escondendo rosto da cruz ou dia da noite. Mas aconteceu que, num dia que Deus p´tâ n´Mund, encontraram-se no sopé de umas montanhas viçosas e prontas a perder a sua inocência. Iam encontra-se com alguns representantes do Rei de Nação Sabe p´Cagá e de ancoradouros da terra da abundância.

Discursos de circunstâncias foram ocorrendo, à moda de conversa pâ boi n´trapitche. Chegado a vez de Mentiroso, este não se fez rogado e, inspirado pela fortaleza das montanhas e pela brisa marítima próxima d´Aga-doce, adquiriu alma oratória de Cícero.

– Eu levei o povo desta terra à grande terra da abundância, não há gente com fome, quaisquer castas de necessidades ou salários abjectos por aqui; somos uma sociedade desenvolvida e da informação! Agora, nô stá na moda na tude Mundo – dizia.

Burro ouvia-o e franzia a testa, incomodado com as palavras de Mentiroso que continuou o seu discurso enquanto Burro pensava para si mesmo: «Este gajo deve andar no Mundo da Lua. Nação Sabe q´Cagá já psû nhondenga»…

– Nesta terra de Sabe q´Cagá, o desemprego desce a olhos vistos, a segurança nunca foi tão boa como agora e os índices macro económicos – fez uma pausa para agarrar numa pasta que mostrou orgulhosamente, brandindo-a no ar como se fosse um esforçado e sonhado diploma – satisfazem toda a gente; até o Banco Mundial! Ainda teremos asas! Podem estar certos disso; ainda teremos asas! E só não as temos porque não me deixaram ir buscá-las… – disse, com tom justificativo e só não foi aplaudido em apoteose pelos
correligionários porque o lugar não era próprio.

Burro mexia-se na cadeira, nervoso. «Será que o homem tinha razão? Asas!? Quem é que não queria asas?...» – pensava com os seus botões, enquanto olhava para o seu séquito com olhar inquisidor.

– Isto estava em trevas, eminências, Senhoras e Senhores; mas acabou! Eu sou a luzzzz desta terra! – disse Mentiroso com acentuada convicção de meteoro e um sorriso nos lábios. Ao ouvir isso, Burro não se conteve – era demais, pensava – e, levantando-se como que por instinto, gritou:

– Mentiroso!

A sua voz ecoou com estrondo na sala, como beijo melado de boca dos pais do Messias em hora de santa comunhão e com o penitente Cristo repartido em bocados que faltam em Tchom bom. Olharam todos para ele, espantados, mas ninguém atentou no que disse, excepto um jurista que sussurrou nos ouvidos de Mentiroso:

– Isso aí é ofensa, Sr. Mentiroso! É ofensa grave, muito grave. Dá lugar a processo criminal. Olhe que vem aí os morgadios…

Foi de imediato secundado pelos demais sequazes de Mentiroso que clamaram em uníssono:

– Desculpa ou processo! Processo ou desculpa!

Mentiroso olhou para eles, não entendia bem o que queriam dizer – até o seu adversário estava a aclamar o seu nome bendito entre os géneros e agora pediam-lhe para processar o homem… «Mas que néscia gente é esta que me acompanha?» – pensou e retorquiu placidamente:

– Porque Vos preocupais tanto? O meu nome é Mentiroso, não é?...

Sem saber o que dizer, ficaram calados – se o Cônsul Mentiroso não se importava com o agravo também não se importariam; assim diz a arcana “regra da mama sagrada”, criada pelo amado séquito de Sardanápalo. Ao ouvir o questionamento de Mentiroso, Burro levantou-se de novo e disse com esbatida convicção:

Layer! – E saiu apressado do encontro com os representantes do Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá e dos ancoradouros da terra da abundância. Tinha tempo para falar com eles – se calhar com o próprio Senhor Rei… –, mas não para ouvir o verbo inepto de Mentiroso; isso não, pensava.

Mas Mentiroso ouviu as vozes de bruxas em noite escura da Assomada que tinham voltado à carga e, agarrando no microfone de marfim da nação, foi até às portas do Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá reclamar.

– Burro ofendeu-me. Tem de me pedir desculpas! E já! – gritou, com dores de vitimado, no microfone de marfim.

O Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá, a pensar nas festas que se avizinhavam e que já lhe corriam nas veias de antecipado prazer, ao ouvir as suas queixas perguntou-lhe:

– Mas, Mentiroso; o teu nome não é Mentiroso?...

– Sim, é – respondeu Mentiroso, envergonhado pelo seu nome inusual. Não era epíteto, não. Era mesmo nome. Os pais quiseram dar-lhe «um nome sabe p´cagá» e deu nisso… Ainda chegou a pensar em falar com o Mestre da Liberdade para mudar o nome, mas pensou que isso poderia ser visto como favor e mudou não de nome mas de ideia. Mas, consciente da sua razão e da sua graça ofendida, continuou:

– Mas é que me ofendeu!... – acrescentou em voz suplicante, como se o Senhor Rei Nação Sabe p´Cagá fosse a Casa da Suplicação de Nação Sabe p´Cagá. Mas não era, não era não…

Ao ouvir isso, o Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá perguntou-lhe porque é que se achava ofendido e pediu-lhe para expor as suas razões. E assim fez.

– E foi isso que aconteceu, Senhor Rei d´Sabe p´Cagá. Mas foi quando eu disse que era a luz da terra que Vossa Senhoria me entregou que o Burro me ofendeu – disse Mentiroso.

Ao ouvir isso o Rei de Nação Sabe p´Cagá riu-se desbragadamente e disse a Mentiroso.

– Oh, mentiroso!... Isso não é mentir, é dizer uma mentira. Vai, vai e não tornem a dizer mentiras.

– Tornem!?... – perguntou Mentiroso estupefacto. «Como é que o Senhor Rei se atrevia a dizer tornem? Ele, sim ele, é que fora ofendido!» – pensava enquanto olhava para o Senhor último de Nação Sabe p´Cagá que, meio aborrecido, cogitava em que festa iria nessa noite e tinha de perder o seu tempo precioso de quase sêbura a aturar dissensões menores. «Nação Sabe p´Cagá é p´sêbura e sêbura én´é p´ser estragôde» – pensava para os seus botões o Senhor Rei.

– Sim, tornem… – reiterou o Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá com um sorriso divertido enquanto o dispensava com um gesto régio. «Felizmente – pensou, aliviado, o Senhor Rei – o Cônsul Mentiroso não veio falar de mais aumentos e da culpa culpada do petróleo»…

Mentiroso, confuso e escandalizado, foi-se embora. Mas haveria de apanhar o Burro. Ah, sim! Não perdia por esperar, não. Mas tinha de falar com os representantes do Senhor Rei, pois aproximava-se a época da divisão dos morgadios e queria que os seus filhos dilectos ficassem com as melhores terras, pois então sim – Nação Sabe p´Cagá seria mesmo sêbe p´q´guê.

E lá foi encontrar-se com os representantes da Nação Sabe p´Cagá. Ao chegar ao local, Burro já lá estava – queria ser o primeiro a falar do futuro dos morgadios aos representantes do Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá.

Burro levara os filhos e amigos mais próximos, assim como Mentiroso que nunca dispensava o seu séquito. Ambos queriam a precedência para falar com os representantes e dispunham-se a ocupar o lugar de eminência. Mas este, por natureza de situação, não podia ser de ambos. Então, como se fossem réprobos do verbo, iniciaram um fungagá elocutório.

– O lugar é meu, cheguei primeiro! – disse Mentiroso.

Burro olhou para Mentiroso e, ainda que sumamente aborrecido – queria, a todo o custo, mostrar a sua dimensão de Cônsul aos representantes de Nação Sabe p´Cagá –, sorriu e disse-lhe:

– Olha lá, ó Mentiroso; isto é mesmo coisa do teu nome!

– O quê, Burro? – perguntou Mentiroso, que não ouviu ou não entendeu bem o que Burro tinha dito, ou então não queria saber nem de uma coisa nem de outra.

– Eu disse que o lugar é meu, pois eu cheguei primeiro – insistiu Burro.

– Primeiro? Ah!, lugar de Bûrro ê na ladera. Nho ka sabê, Bûrro? – disse Mentiroso, convencido da sua prioridade como Cônsul e de que vox populi vox Dei est; isso segundo fladuprudência nascida com Sabe p´Cagá, ainda antes desta ser Nação Sabe p´Cagá, e que era consabida por todos.

Burro, “consulmente”, conteve-se, pois não havia nenhuma ladera por perto e os representantes estavam era ali; sim, ali mesmo e não na ladera… Não, não era ele que Mentiroso chamava burro, mesmo sendo Burro, era a gente que o acompanhava. Sim, era isso. Oh, isso sim, era ofensa! Tinha de falar com o Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá. Se calhar – pensava –, depois de consultar os seus jurisconsultos, até teria de recorrer à Casa da Suplicação sabecaganense.

E lá foi Burro falar com o Senhor Rei, a quem aclarou as suas razões. Depois de terminar, o Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá perguntou-lhe:

– Mas, Burro; o teu nome não é Burro?...

– Sim, é Burro… – respondeu, constrangido com o nome. «Mas porquê é que eu, sátrapa desta terra Sabe p´Cagá, não tenho um nome de santo, de Deus ou poeta grego?» – perguntou em silêncio a si mesmo.

– Então!?… – o Senhor Rei olhava para ele com um olhar inquisidor –. Como é dito n´Nação Sabe p´Cagá, lugar de burro é mesmo na ladera; não é?

– Sim, Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá; é sim… – disse Burro, meio titubeando pois tinha esquecido da fladuprudência d´Nação Sabe p´Cagá. «Porra! Mas como é que me esqueci da fladuprudência de Sabe p´Cagá?» – gritou ao seu silêncio, embaraçado.

Então – disse-lhe o Rei de Nação Sabe p´Cagá –, o que o Mentiroso disse foi uma verdade; não foi uma mentira.

Ao ouvir isso, Burro começou a rir. «Mentiroso a dizer uma verdade?» – pensou. Essa tinha de apontar, dizer aos filhos, aos amigos, ao seu séquito e fazer uma grande festa. Sim. Oh, sim!... Olhou para o Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá – que não percebia nem queria perceber a razão do seu riso – e disse-lhe, com a alma satisfeita e grata à sabedoria colectiva de Sabe p´Cagá:

– Obrigado, obrigado! Mentiroso a dizer uma verdade?… Essa é boa!

Saiu maneando a cabeça e foi para casa contar este evangelho sabe p´cagá gerado pelo verbo de Nação Sabe p´Cagá. Teve então notícias de que Mentiroso tinha ido falar com o Senhor Rei através do microfone de marfim da terra e resolveu escutar as suas palavras. «O que iria dizer, o Mentiroso?» – cogitava.

– Não peço desculpas ao Burro nem aos seus burrinhos; mas, como Cônsul sabe p´cagá, retiro as palavras que proferi – disse Mentiroso, contente e com a alma tranquila porque sabia que o Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá iria gostar da sua resposta.

Burro, ao ouvir estas palavras, passou horas e horas a rir. Quando conseguiram falar com ele, perguntaram-lhe porque ria tanto. E respondeu:

– Mas Vocês não vêem? Ele não sabe que palavra dita não se retira, que nunca volta atrás sima pedra lançôde n´ladera? Eu sou Burro, mas é só de nome…

E voltou ao riso compulsivo. Não estava só, agora.

No dia seguinte, encontraram-se em Cidade Escura – capital de Nação Sabe p´Cagá – e começou tudo de novo.

O Senhor Rei de Nação Sabe p´Cagá, farto destas polémicas estéreis que o distraíam da sua distracção, decidiu fixar polisprudência nacional por liminar Real Édito Sabe p´Cagá:

1. Mentiroso e Burro têm de mudar de nome.

2. Se Burro e Mentiroso não mudarem de nome até a escolha dos morgadios, serão nomeados Morgados de acordo com o livre alvedrio de Sabe p´Cagá e outro Cônsul e Senador, com nomes mais simples, serão ponderados para o futuro da Nação Sabe p´Cagá.
.
3. Nação Sabe p´Cagá tem de mudar de nome. Assim, determino que será efectuado um referendo para decidir se Nação Sabe p´Cagá quer continuar a ser ou não Nação Sabe p´Cagá.
.
4. Eu é que voto. Vai ser Sabe p´Cagá.

E continuaram a viver Sabe p´Cagá para sempre.
  • Nota de escriba: Qualquer semelhança desta quase fábula com a realidade – que a alma de Ceres me contou ao fim da tarde na Praia de Carcavelos – ou com qualquer pessoa física ou moral é pura, mas pura coincidência. E se, por mera ventura, encontrarem algum laivo de comparabilidade com a realidade, é porque a realidade se engana.
    Virgílio Rodrigues Brandão


  • Noite escura. Não estou aqui; não existo, não. Será mesmo assim?

~ Las meninas after Velazquez, Pablo Picasso ~
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  • APHRODITE

Quando levemente criança
amei Santa Auxiliadora e seu sorriso.

Hoje sei.

Sim sei, como El Elohim viu Eva,
que existem sorrisos que encantam
e matam efémeros a solidão;
que existem formas que pensamos moldar
e moldam-nos do altar;
que existem deuses que não criamos,
que não são bem nem mal
mas tu criação.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

  • MORATÓRIAS PARA UMA OUTRA VIAGEM
I
[...]
Tu procuras a sementeira que alguém rasgou pois esse é o sinal
de que chegarão as asas das aves quando o sol mourejar.
Então os estampidos traduzem os homens cujas bocas se abeiram dos regatos
para tomar em mãos o sangue da carnificina e então serás
o que há-de vir no percurso dos silêncios, o mesmo percurso das tectrizes
e das borboletas que, porque voam, navegam entre as papoilas
se as estevas. E então dirás que a liberdade também se esquece
como o furor aquece a linfa. E então estarás teso
como o eucalipto que já secou a fonte.
in Nuno Rebocho, O Discurso do Método, Lisboa, 2008, p.9
.
  • Livro apresentado ontem (10.04.2008) na cidade da Praia, Cabo Verde. Para ser lido com calma e alma aberta - os preconceituosos poderão ler o que não desejam. Como diz o poeta, "As vísceras do silêncio são cadelas rosnando ao vento [...]" (ibidem)

~ Prisioner in chains, Francisco de Goya ~

  • A PRISÃO DE POLÍCIAS E O GOVERNO

A detenção de três agentes da Polícia Judiciária nacional - suspeitos de furto, apropriação indevida de estupefaciente e tráfico de estupefaciente - e posterior aplicação da medida de prisão preventiva aos mesmos pelo Juiz de instrução criminal é um facto social grave, mas que tem dois aspectos claramente positivos e que contribuem para a tranquilidade da sociedade e da paz social.

A primeira é de que temos uma Polícia Judiciária competente e que age sem ter em consideração aspectos corporativos quando está em causa a legalidade e que tem uma postura substancialmente diferente da demais Policia Nacional (alguma, em boa justiça seja dita), sabendo distinguir as competências dos órgãos de soberania.

A segunda é de que, também, temos uma magistratura corajosa e que age de acordo com a legalidade estrita, independentemente dos factores externos às suas competências e obrigações. E menos não se poderia esperar - pois isso é o mínimo que se pode exigir.

Um facto resulta, mais uma vez, evidente: é necessário um espaço prisional próprio para os agentes de autoridade em prisão preventiva ou a cumprir pena. Este caso é ainda mais flagrante do que no do agente da Policia Naciona do "cerco ao Tribunal" - no que à exigência de prisão em local diferenciado -, pois estamos perante agentes que, certamente, encontrarão na prisão com quem se cruzaram em determinados momentos das suas funções como agentes de polícia criminal.

É tempo do Governo tomar medidas neste aspecto. Não deve nem pode esperar pela emergência de uma tragédia no seio das prisões para agir de forma adequada. Os agentes da autoridade fazem o que lhes compete – proceder à detenção da pessoa suspeita e, colocando-a à ordem do Tribunal este, decidindo (quando e se) pela prisão preventiva coloca, à sua ordem, o mesmo sob guarda da Administração.

Qualquer há lugar à qualquer falha, em termos de segurança e/ou outros domínios que atentem contra a integridade dos presos – preventivos e/ou a cumprir pena – esta é imputável à Administração, isto é, ao Governo. A acontecer uma tragédia, com nexo causal na omissão governativa, o Estado é civilmente por factos ilícitos. Esse facto é, certamente, pacífico.

Estranho, no entanto, que a oposição – a UCID e o MPD, para não falar dos parlamentares do PAICV -, todos com juristas de mérito nas suas fileiras partidárias, não coloquem esta questão no Parlamento. É que são vigias da acção política e governativa do Governo; tendo não somente o direito mas também o dever de fiscalizar como este administa a República - inclusive as prisões.

É que, ao contrário do que se possa pensar, não é questão de somenos importância. E não estou a falar da questão da segurança em si e da necessidade de proteger a integridade física e a vida das pessoas, não; é mais do que isso. Tem uma questão política substancial de base e que deve ser ponderada, principalmente agora que o Governo decidiu, e bem, diga-se an passant, reforçar o Estatuto da Polícia Judiciária.

Esta questão, necessariamente, entronca nesse mesmo estatuto. No outro dia lia numa esquadra da Polícia de Segurança Pública aqui em Portugal o lema que acompanha o seu escudo: Res. Non Verba, diz. O Governo pode e deve fazer nesta questão o mesmo: É preciso acção, não discursos ou palavras de circunstância.

O povo agradece, certamente.

  • AVÉ! MAYRA

Mayra Andrade venceu o Prémio Revelação BBC - Radio 3 World Music, adiantou a organização.

Mayra Andrade, uma das vozes da nova geração de cantores e músicos cabo-verdianos, vê reconhecida o que toda a gente já sabia: tem asas para voar muito, mas muito alto e muito longe.

O seu álbum de estreia, "Navega", aplaudido pela crítica internacional, já tinha foi distinguido em 2007 com o prémio “Deutscheschalplatten” pela crítica alemã.

Mayra Andrade – além de excelente artista, é reveladora de uma sagacidade e esclarecimento inusuais na sua idade – reconhece que o caminho não é feito sozinho e diz, com justiça, que faz "parte de um leque de artistas que tem dado à música cabo-verdiana oportunidade de renovar e conquistar novos horizontes".

O horizonte está aberto, para todos. Para navegar em novas águas, lembrando, sempre, que o passado da nossa cultura é tão importante como o seu futuro; o que é o mesmo que dizer que o futuro da nossa cultura é tão importante como o seu passado.
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Mariza, fadista portuguesa de origem moçambicana – hoje Super Star da música portuguesa – tornou-se conhecida e reconhecida no seu próprio país depois de ganhar o prémio na categoria Europa em 2003.

Ave! Marya.
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  • Hoje, Sexta-Feira, 11.04.2008, a BBC - Radio 3 emite o programa entre as 19:00-20:45.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

~ La Mort de Sardanapale, Delacroix (Louvre, Paris) ~

  • COLÍRIO IMPREVISTO

    Um dia, passeava
    pelas sete colinas desta cidade
    descuidada de tudo
    quando vi um velho cego
    sentado numa dessas escadas de xistos
    que branqueiam as avenidas
    e, sem dinheiro, disse-lhe: “ Boa tarde!...”
    E ia seguindo o meu caminho,
    quase envergonhado por estar teso,
    quando escutei um murmúrio...
    – … Boa tarde! Obrigado…
    Intrigado, voltei atrás e perguntei-lhe:
    – Porque me disse obrigado? Não lhe dei nada…
    – Pensa que não – respondeu da escuridão
    brilhando como uma super nova –,
    mas deu-me uma boa tarde,
    viu em mim uma pessoa…

    Fiquei, nessa tarde,
    redimido dos meus silêncios
    e as minhas trevas ganharam sentido.
    . Abril de 1981.

MARIANA RAMOS

  • EN CONCERT AU TRITON . LE VENDREDI 11 AVRIL 20h30
    11 bis, rue du Coq Français - 93260 LES LILAS (Métro Mairie des Lilas) tél: 01 49 72 83 13 - fax: 01 49 72 83 11 - email: contact@letriton.com

quarta-feira, 9 de abril de 2008

AULA MAGISTRAL - Amanhã, na Universidade de Coimbra
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  • Tema proposto: "Meditações anti-cartesianas. O primeiro antidiscurso da modernidade" por Enrique Dussel, da Universidade Autónoma Metropolitana/Iztapalapa, México

10 de Abril de 2008, 16h00, Sala de Seminários do CES da Faculdade de Economia da Universidadede Coimbra.

Enrique Dussel, CES dixit:

"Enrique Dussel, filósofo argentino, é um dos maiores expoentes da Filosofia da Libertação e do pensamento crítico latino-americano. O seu trabalho tem incidido sobre temas como filosofia, política, ética e teologia. Assumindo uma atitude crítica face ao pós-moderno, tem vindo a desenvolver, em diálogo com outros académicos, uma perspectiva mais ampla de diálogo intercultural que designa de transmodernidade.

Actualmente é Professor de Ética (Departamento de Filosofia da Universidade Autónoma Metropolitana/Iztapalapa e na UNAM - México), sendo também o Coordenador da Associação de Filosofia e Libertação (AFYL). Enrique Dussel tem sido também um professor convidado e palestrante em várias universidades do mundo".

A Aula Magistral está enquadrada no Programa de Doutoramento "Pós-Colonialismos e Cidadania Global" da Faculdade de Economia da Universidadede Coimbra.

  • Quem puder, não deve deixar de ir. Eu não posso, infelizmente. Se for, será objecto da minha inveja.

  • MARIA DE BARROS EM LISBOA
SÁBADO, 17 de Maio de 2008
Casa do Artista (Teatro Armando Cortez).
Referência: Atrás do Centro Comercial Colombo; ao lado do Terminal de autocarros da Carris na Pontinha; Estação de Metro da Pontinha ou de Carnide.

~ El Enigma de Hitler, Salvador Dali ~
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  • A TRAIÇÃO A ALCINO MONTEIRO

    Em Portugal proliferam as associações de imigrantes e de organizações de defesa de Direitos humanos dos estrangeiros – muitas existentes somente no papel e outras que, claramente, instrumentalizam politicamente a questão da imigração.

    Mas quando é preciso – exceptuando raras vezes e com objectivos nem sempre claros – não se vê essas organizações. As razões, consabidas, não vêm ao caso agora; a razão porque estou a alinhavar o presente juízo tem a ver com o julgamento dos skinheads acusados de discriminação racial e que começou ontem (08.04.2008) no Tribunal do Monsanto em Lisboa.

    Uma dessas pessoas – que não vem ao caso se é ou não culpado do que é agora acusado, pois presume-se inocente, como qualquer outro cidadão – esteve envolvido na morte de Alcino Monteiro há alguns anos em Lisboa.

    Na sequência desse fatídico acontecimento – que esteve na origem da maior mobilização de sempre de cidadãos africanos e afro-descendentes em Portugal –, a Assembleia da República legislou no sentido de permitir às Associação de imigrantes e ONG´s de defesa dos direitos humanos a constituição como Assistente processual em processo penal de natureza racial ou de discriminação racial.

    Lembro que tal (aprovado no ano seguinte) foi uma exigência das associações de imigrantes e terá sido – na minha opinião foi – o melhor momento do consulado de José Leitão como Alto Comissário para a Imigração e minorias étnicas (ACIME); o que a sua sensibilidade de jurista e o momento político de então terão ajudado em muito.

    Acontece que essas organizações nunca fizeram uso dessa prerrogativa da Lei 20/96 de 6 de Julho – mesmo estando dispensadas de taxas de justiça – em defesa dos direitos daqueles que defendem.

    Agora, mais uma vez, deixaram passar a oportunidade de demonstrar a sua real preocupação com a comunidade que é objecto da sua acção. Sim, o silêncio de acção continua a imperar. Quem não existe não pode ser crucificado, dizia-me um amigo; não sem razão.

    Alcino Monteiro, um português negro assassinado por causa do ódio racial, foi quem, com a sua morte, deu origem a esta Lei que ninguém usa. Essa omissão contínua avilta a sua memória e amordaça as comunidades que, por fortuna, têm o rótulo de “diferentes”.

    O facto da Alcino Monteiro ser meu primo, nascido na mesma terra que me deu o fôlego da vida, faz-me lamentar duplamente esta traição à sua memória. A 10 de Junho assinalar-se-á a data do seu assassinato (m. 10.06.1995) e, espero, que não me venham com hipocrisias de homenagens; não.

~ Nun, Milo Manara ~

  • NOVA JERUSALÉM

Quando nasci,
tanta dor senti
que gritei de protesto…

Desde então
procuro a sua ausência
sorrindo com lágrimas
e pés cansados…

Ainda moço, falaram-me
de uma cidade justa
chamada Nova Jerusalém
cujos muros são compreensão
e a dor irmã
palavra insana e sem sentido.

Depois de muitas buscas
e já com os anos pesando,
encontrei a cidade sagrada.
Aproximei-me dos seus portões de bronze,
toquei nos seus ferrolhos de ferro
e abriram-se…

Vi então um ancião –
tão velho como a noite,
de cabelos brilhantes como o Sol
sentado num tronco de azinheira
– e perguntei-lhe: – "É-me lícito
entrar no descanso que procuro
desde o primeiro pulsar no meu peito?"

O ancião agarrou num livro
e leu do verbo das coisas ditas:
– “Só é digno de entrar na cidade santa
quem tenha as mãos limpas,
o coração puro
e saiba amar.”

Ditas estas palavras,
fechou o livro e continuou
sentado com o Sol no tronco de azinheira.

Então pensei para comigo
e disse-lhe: – "As minhas mãos
estão sangrando o sangue da minha mãe
que não viu o meu rosto;

o meu coração está manchado
pelo ódio
que sinto pelo mal
que me afronta sem razão;

e não sei amar,
como diz o Nazareno,
sem ser hipócrita, verme
e indigno de mim…"

O ancião voltou a abrir o livro
e leu com a tez serena e enegrecida
pela testemunha das auroras:
– “Pelas tuas palavras serás salvo
e pelas tuas palavras serás condenado…”

Percebi então que a cidade santa
não era para mim
pois até no Paraíso
uns são mais iguais que outros.

E grito; sim, grito de protesto…

segunda-feira, 7 de abril de 2008

~Produção de grogue, Santo Antão; Nuno Pombo Costa © ~

  • AT PARTING, Wang Wei

    I dismount from my horse and I offer you wine,
    And I ask you where you are going and why.
    And you answer: "I am discontent
    And would rest at the foot of the southern mountain.
    So give me leave and ask me no questions.
    White clouds pass there without end."

~ Francisco de Goya - Saturn devouring one of his chidren ~

  • PLÁGIO. DITIRAMBO MATINAL

A propósito de um artigo do Nuno Ferro Marques publicado no Liberal on line de 07.05.2006, lembrei-me de um facto: quem plagia come-se a si mesmo – a sua capacidade de criar, o seu pensamento e a sua consciência.

São as únicas coisas que o homem nunca, mas nunca deveria colocar sujeito a vitupério. Quem não pode construir uma barragem, que construa um dique. Ademais, como dizia Confuncio em sábio conselho, “quem carrega uma mão de terra todos os dias um dia terá uma montanha”.

Mas a tentação de carregar uma montanha de uma vez só é terrível, terrível como querer e não poder. Summ cuique tribuere (dar a cada um o que lhe é devido), dizia Ulpiano no Digesto – citar os autores é isso. Acrescenta: neminem laedere (não prejudicar a ninguém) – isto é, tirar o mérito a quem o merece ou, ao caso, os direitos de autor ao criador.

E Ulpiano dizia isso a propósito do princípio da Justiça. É uma coisa bela, mas anda nua pelas ruas da amargura, em todo o lado, com cadeias de mentira a tolher o seu caminho. Segundo José Ortega Y Gasset, o homem é ele mesmo e a sua circunstância – nunca está sozinho. E quem escreve, tem de ter consciência disso – é ele mesmo e a sua circunstância. Esta nos rodeia e nos condiciona – como se fosse uma extensão da nossa consciência.

O que não tem nada de fatalismo, não; pois o que o filósofo disse realmente foi "Yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo". A imagen do que dizia Jean Paul Sastre – o que importa não é o que fazem com o homem, mas o que faz do que fizeram dele. Se a herança genética ou o adquirido social não fez de um homem um criador, então que use a criação de outrem – mas que o diga.

Há algum tempo falei com José Luís Hoppfer Almada sobre uma novela que estava a escrever e, depois de falarmos an passant sobre o conteúdo da mesma disse-me:

– Olha que o João Vário escreveu algo parecido em o «O Estado Impenitente da Fragilidade” (romance de D. T. Didial).

Fiquei a pensar nisso, pois não conhecia a obra, e lá fui a procura dela. Comprei o livro e li-o com prazer, verificando que não tinha nada a ver (quer na forma quer no conteúdo) com “O Morto Que Não Queria Morrer” que estava, na altura, a ultimar. Dei-lhe um draft do esboço de livro, que entretanto foi substancialmente modificado e que hoje, certamente, não reconhecerá de todo.

E porque digo isso? Porque é possível, mesmo sem conhecer o texto de um autor, coincidir com ele no pensamento, na ideia substancial e na dimensão estética – é possível e acontece com maior frequência do que se imaginará. Agora, o que não é possível de ser coincidência criativa é a identificação formal plena, com estrutura gramatical e vocabulário iguais, de duas obras.

Isso, não. Está na moda, em Portugal, pagar-se a quem tem talento para escrever obras que depois são apostas os nomes dos autores (desde celebridades a trabalhos científicos). Uma ideia para quem plagia porque a circunstância assim o obriga; basta contratar um writer e terá obra feita sem crime.

É uma ideia, uma ideia que fica como conselho pro bono.

domingo, 6 de abril de 2008

HU JIA. O NASCIMENTO DE UM MÁRTIR DA DEMOCRACIA?

Pensava há pouco num facto. Não temos consciência de como somos felizes com essa coisa estraordinária – e que usamos muitas vezes de forma tão leviana – chamada liberdade de expressão e de pensamento. Isso a propósito do activista de direitos humanos Hu Jia.

Na Quinta-feira, 3 de Abril de 2008, Hu Jia – activista de direitos humanos e uma das consciências chinesas na luta contra o HIV-SIDA –, foi condenado por um Tribunal do povo de Pequim a três anos e meio de prisão e a um ano de privação de direitos políticos por, na perspectiva do Tribunal, ter atentado contra o sistema político e social chinês e instigar a subversão do Estado ao publicar dois artigos na Internet: “China Political Law-enforcement Organs Create Large-scale Horror ahead of CPC National Congress” e “One Country Doesn't Need Two Systems”, onde defende a democracia, a liberdade religiosa e a autodeterminação do Tibete.

A mulher de Hu Jia, Zeng Jinyan – também ela uma crítica do Governo chinés – encontra-se em prisão domiciliária com uma criança de tenra idade e com os telefones cortados, não podendo contactar com o exterior da sua casa e dizer o que pensa ou não. Assistiu, acompanhada pela sua filha e sob escolta policial, à leitura da sentença do marido. Não será dificil imaginar o que irá na sua alma enquanto escrevo ou lê estas linhas.

Hu Jia foi um dos nomeados pelo Parlamento Europeu para o Prémio Shakarov de 2007 e foi objecto de conversa aquando da visita de Condoleezza Rice a Pequim em Fevereiro de 2008. Segundo o seu Advogado, Hu Jia – que se encontrava em prisão domiciliária há cerca de dois anos –, poderá sair da prisão por razões de saúde. A ver vamos.

Se a questão da defesa ou apologia da autodeterminação do Tibete tem uma dimensão complexa e pode ser vista como crime pela ordem jurídica chinesa, a verdade é que em qualquer outro país democrático – ou com padrões de respeito pela individualidade e liberdade da pessoa humana que o actual estádio de desenvolvimento da humanidade exige – tal estaria abrangido pelo direito, pela liberdade e garantia de expressão.

Ser preso por defender a democracia e os seus valores, assim como os direitos, liberdades e garantias fundamentais do homem, é contrário aos direitos humanos. E não me venham dizer que a China tem “outra perspectiva” dos Direitos humanos! É mera falácia argumentativa.

Os Direitos humanos têm uma dimensão universal pois alicerçam-se em valores que não estão sujeitos ao arbítrio da decisão política. A dignidade humana é fundamento, não é para ser espezinhada em nome de qualquer razão de Estado ou de partido-Estado.

Hoje, também sou Hu Jia.



I HAVE A DREAM, Rev. Martin Luther King, Jr. In memoriam

sábado, 5 de abril de 2008

  • "Goya y la Duquesa de Alba", in Goya en Burdeos (1999), Carlos Saura

sexta-feira, 4 de abril de 2008

  • INDÚSTRIA DE CULTURA OU "INDUSTRIALIZAÇÃO" DA CULTURA?

Li, sim li.

Não quis crer, mas li. Manuel Veiga dixit.

"Vamos discutir o financiamento corporativo que deve existir na cultura, porque a responsabilidade de financiar a cultura é dos poderes públicos mas também é da cidadania, do mecenato, e sobretudo vamos discutir a questão da industrialização da cultura" – disse Manuel Veiga, Ministro da Cultura de Cabo Verde, sobre o Fórum internacional sobre a economia do desenvolvimento cultural que o seu ministério promoverá.

Mas, a cultura pode (ou deve) ser industrializada?

Vou reflectir sobre isso, começando a pensar em como se industrializa Salvador Dali ou, para ficarmos na terra, o talento de Vasco Martins, Bau ou Mário Lúcio, a poesia de José Luiz Tavares ou de Arménio Vieira, as vozes de Cesária, Bana ou Lura…
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Cultura não é coisa democrática, não.

Deve haver alguma maneira de se encontrar pílulas de cultura e, com felicidade, arranjar uma forma de fabricá-las no Maderalzinho, na Assomada ou n´Lajêde. Deve, e de certeza que há, uma forma de tornar o acto de criar e a grandeza estética meras massas informes para o consumo rápido, sim – tem de haver. Vamos em frente, vamos criar o nosso Capeverdean Fried Culture - sim, for all e p´tude gente.
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Sei que já estivemos mais longe, já. O futuro, em catarse de grandeza chega devagar – mas vai chegando. Sempre pensei que Cultura não liga(va) muito com industrialização, mas é mea culpa, mea maxima culpa!

Oh! Abra-me os olhos, meu Deus. Tenho olhos e não vejo…

~ Salvador Dali, Human Skull Consisting of Seven Naked Women ~

~Mines at Iraque ~

  • INTERNATIONAL DAY FOR MINE AWAREENESS AND ASSISTANCE IN MINE ACTION

Today is a day who deserves an appointment. Is the International Day for Mine Awareness and Assistance in Mine Action. But more than the day, the victims must be remembered, every day, by their governments and all those who have or had responsibilities on mine ´s proliferation.

«While the number of victims of landmines and explosive remnants of war has dropped significantly in the last decade, continued support is crucial to eliminating the threat posed by these deadly devices and ensuring a mine-free world» – a senior United Nations humanitarian official said yesterday.

We in the UN would want the number of new casualties to be reduced to zero as soon as possible,” she told reporters on the eve of the International Day for Mine Awareness and Assistance in Mine Action, observed today – 4 April.

Ms. Bragg, who is also Deputy Emergency Relief Coordinator, noted that the number of survivors continues to increase, with an estimated 473,000 people who may need life-long medical care and rehabilitation services.

According to the non-governmental Landmine Survivors Network, for each survivor, there are about four or five victims – members of families whose breadwinners may have lost limbs or eyesight. “That adds up to close to two million victims,” she said.

In the decade since the landmark international anti-landmine treaty, often referred to as the Ottawa Convention, opened for signature, legal trade in anti-personnel landmines has been halted, tens of millions of stockpiled landmines have been destroyed and land has been cleared and returned to communities.

A team of 14 UN agencies, programmes, departments and funds – comprising the UN mine action team – supports and manages programmes in 42 countries and territories. “The UN pledges its support to any State that requests it,” Ms. Bragg said.

But our goal is to put ourselves out of business as soon as possible by eliminating the threat and by equipping national authorities with the technical and human resources they need to address the problems on their own,” she announced.

The International Day is being observed globally through a number of events, including press conferences, mine-risk education theatre performances, art exhibits and film screenings.

I, at Terra-Longe, don’t forgot. And I remember, especially my brothers and sisters in Angola, Mozambique and all African countries victims of land mines.

Land mines are death gifts of war, after it is finished. Land mines, as chemical weapons, should be banned as instruments of war. Better would be to ban war forever.

~ Arco de Severus, Forum romano, Roma ~
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  • PAPAS E IMPERADORES AFRICANOS EM ROMA
    – S. VICTOR I

A história de África e dos africanos ainda está para ser escrita de um ponto de vista que não a do ex-colonizador ou da perspectiva eurocêntrica. Como prometido, escrevo estas notas hoje sobre o tunisino S. Victor I – o primeiro Papa africano.

S. Victor I foi Sumo Pontífice, Bispo de Roma, entre 189 a 202 [198 (199)?] a.D, durante os consulados imperiais de Aurellius Commodus, Helvius Pertinax, Didius Julianus, Clodius Albinus e Septimius Severus.

Estes dois últimos, foram os primeiros Imperadores africanos do Império Romano na sequência da guerra civil que se seguiu a morte de Commodus (hoje muito conhecido graças ao filme “Gladiador”), a sua sucessão por Pertinax e a morte deste pelos pretorianos que venderam o Império – num leilão ocorrido na Porta Salaria de Roma três dias depois do assassinato de Pertinax (28.03.193 a.D) – a Didius Julianus.

Viu, durante o seu pontificado, o Império romano cair nas mãos de Aurellius Commodus (jovem desregrado e não tão louco como apontado pela história), de um justo de merecida fama (Pertinax), um ambicioso (Didius Julianus) e dois africanos (Clodius Albinus e Septimius Severus).

A sua cronologia é historicamente confusa e errática. Terá morrido durante o Império de Septimius Severus. Há quem refira o ano de 197 a.D – data em que termina a Guerra Civil romana causada pela emergência do «usurpador» do Imperium de Pertinax (segundo pensavam Clodio Albinus, Septimius Severus e Pescenius Nigro) e que Septimius Severus consolida o seu Império ao vencer o César Clodio Albinus.

Outros colocam a sua morte em 202 a.D; o que é plausível e, parece-me, historicamente mais sustentável. É muito provável que tenha morrido na sequência da purga social que Septimius Severus fez em Roma logo após a sua vitória sobre Clodio Albinus – entre as pessoas mortas estavam muitos africanos com responsabilidades no Império. Mas o seu nome não aparece na lista de mortos ilustres que os historiadores da época referem, nomeadamente Cassius Dio – então Senador em Roma – na sua Historiae Romanae.

No entanto, parece-me que a morte de S. Victor I ter-se-á verificado por volta do ano 202 a.D – quando Septimius Severus entra em Roma para festejar as Decennalias imperiais e os cristãos se recusaram a honrá-lo; o que foi causa directa de uma violenta repressão. A “perseguição” que fez aos cristãos não era de natureza religiosa, mas sim política e filosófica; o que hoje se chamaria de uma razão de Estado.

Até porque, como diz Eusébio de Alexandria na magistral História Eclesiástica, os cristãos tinham uma vida tranquila no tempo de Septimius Severus. E não existem razões para duvidar desse juízo, pois Severus era muito tolerante em termos religiosos. Júlia Domna (segunda mulher de Severus e com quem casou depois da morte da sua mulher africana) era ela mesma síria e sacerdotisa do Deus Sol em Emesa e, inclusive, terá patrocinado a «Vida de Apolónio de Tiana» – escrita por Filostrato que teve livre acesso à biblioteca da Imperatriz para a sua realização (obra que só terá sido completada no consulado imperial do filho de Severus, Caracalla, por volta de 216 a.D); assim como Tertuliano enviou a sua «Apologia» a Septimius Severus.

Na casa do próprio Imperador Septimius Severus havia cristãos, nomeadamente a enfermeira do seu filho Antoninus Bassianus (Caracalla) – pois ela teria realizado um milagre de cura com o jovem filho do Imperador. Acontece que os cristãos eram pouco tolerantes com a religião aberta de Roma que prestava culto a deuses de todas as paragens, como são os casos das divindades africanas Isis – importada da trindade Egípcia: Isis, Horus e Osíris – e Tanit (Juno Celeste) que ascenderia à Trindade Capitolina conjuntamente com Júpiter e Minerva.

O cristianismo era “conquistador”, intolerante e não admitia nenhum outro Deus senão o seu – e afrontava a religião politeísta romana, recusando-se a honrar o Imperador e demais deuses de Roma; como ainda hoje acontece com os membros da Sociedade da Torre de Vigia, mais conhecida como As Testemunhas de Jeová.

E S. Victor I, também conhecido pela sua intempestividade e carácter forte, estava neste contexto de pensamento do seu tempo. E não me admira que tivesse aderido à afronta de não querer honrar o seu compatriota da África pró Consular – o Imperador Septimius Severus.

Nesse ano de 202 a.D, Tertuliano, filósofo, jurista e também ele oriundo de África, sai de Roma – certamente porque sabia que Septimius Severus (como qualquer outro detentor do Imperium) não toleraria a afronta feita pelos cristãos, e ele era cristão. A sua razão, defendida na «Apologia», tinha sido negligenciada e deitada fora pela acção impensada dos cristãos em Roma.

S. Victor I terá morrido então, entre a massa anónima de gente que morreu nessa altura. O facto de não aparecer nos registos dos historiadores de então prender-se-á com o facto de que o Bispo de Roma não ter, à data, a eminência que viria a granjear na história.

Antes tinha decidido algo que marcaria a História da liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana – um pouco como a decisão do Concílio Vaticano II: a Igreja deixou o uso do grego, língua culta de então, para passar a usar o latim nas celebrações religiosas.

Do mesmo modo que se hoje celebramos a Páscoa ao Domingo – dia da ressurreição de Jesus Cristo – é a S. Victor I, antecedendo em mais de um século o Concílio de Nicéia (325 a.D), que o devemos, pois fixou no Domingo posterior ao décimo terceiro dia do plenilúnio de Março a data da celebração pascal; como acontece até hoje.

O que, segundo Eusébio de Cesareia, na sua magistral História Eclesiástica, era uma tradição que vinha desde o tempo dos Apóstolos: celebrava a Páscoa no dia da ressurreição do Senhor. Era, segundo Eusébio, uma questão teológica fundamental, pois a tradição judaica fazia o sacrifício do cordeiro no 14º. dia da lua cheia de Março e que coincidia com a celebração pascal e que era «preciso terminar com essa prática, fosse em que dia fosse» (Eusébio, idem, XXIII).

É que, não nos podemos esquecer, Jesus Cristo é o “cordeiro de Deus que tira o pecado do Mundo”; a ideia de renovação do sacrifico era uma prática do antigo testamento que o sacrifício na cruz do Gólgota e a ressurreição aboliram. Seguir essa tradição judaica seria, na prática, negar a verdade do sacrifício e a ressurreição – logo, como diz S. Paulo, toda a essência do cristianismo (I Coríntios, XV).

Como se pode ver, não se trata(va) de, simplesmente, mudar uma data. Era uma questão da essência do cristianismo e S. Victor I soube perceber isso e o Concílio de Nicéia, naturalmente, caucionou a sua perspectiva doutrinária.

Por essa razão se percebe que tenha, segundo se eventa, excumungado Teódoto de Bizâncio por defender o «Adopcionismo» que, em última análise, nega a dimensão divina de Cristo ab ibnitio, logo: a sua divindade e valia como cordeiro de Deus; além de que colocava em causa a dimensão do Deus Scientarium que, na perspectiva de S. Paulo (Efésios, I.3) nos escolheu antes da fundação do Mundo. Ensinar que Jesus era um mero homem à nascença e que somente se tornou divino depois da morte era – verdadeiramente – uma heresia demolidora dos fundamentos do crsitianismo.

No entanto, parece-me que Teódoto de Bizâncio ter(á)ia partido de uma premissa de razão sustentada: o homem tornou-se uno com Cristo (o que acontece de jure com a ressurreição) e, por essa razão, assentou-se com ele nos lugares celestiais – no dizer de S. Paulo – sendo deuses (pois fomos criados um pouco menor do que El Elohim – Salmos VIII.5). A dimensão humana de Cristo não era assim tão despicienda como parece. Diz a versão portuguesa da Bíblia (João Ferreira de Almeida) do Salmos VIII.5:

«4. Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?
5. Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste».

A versão da New American Standard Version (é a que, entre as muitas que lá li, mais aprecio) diz:

«4. What is man, that thou art mindful of him? And the son of man, that thou visitest him?
5. For thou hast made him but little lower than God, And crownest him with glory and honor».

A palavra anjos da versão portuguesa vem das suas influências da versão de referência – a King James Version que traduz a palavra El Elohim (plural hebraico de El Eloha=Deus) como anjos; deveria ter sido traduzido deuses. É o que faz a New American Standard Version.

Jesus era verdadeiro Deus e verdadeiro homem – como ensinam os Evangelhos. Mas se podia morrer como homem, como poderia, sendo Deus no momento da morte, morrer? Era (é) uma questão pertinente que os gnósticos, outro grupo herético da Igreja primitiva, atentavam.

S. Victor I que, segundo S. Jerónimo, foi o primeiro a escrever em latim sobre teologia (cristã, entenda-se), era avisado nestas questões de profundidade teológica e resolveu as coisas como a Igreja sempre fez: excomungou o dissidente do pensamento ortodoxo que se estava a sedimentar na Igreja.

Mais tarde, quando a Igreja resolveu assentar o seu cânone doutrinário, será Gelásio I – outro Papa africano de que darei notícias um desses destes dias – a determinar quem era ou não herético. É de ler, para quem se interessa por estas coisas, o Decretum Gelasium que enuncia os escritos e autores heréticos e onde, entre muitos, encontramos o nome Tertuliano de Cartago – contemporâneo e, certamente, amigo de S. Victor I pois partilhavam a mesma fé e viviam na cidade de Roma sobre o consulado de Septimius Severus.

Se é que se podia falar em ortodoxia doutrinária, pois o pensamento cristão de então era de uma profunda heterodoxia interpretativa do pensamento de Jesus Cristo, em particular dos pensadores da Igreja africana que deixariam a sua marca na história do pensamento da Igreja Católica Apostólica Romana.

Somente com o Advento da Reforma e a defesa por Martinho Lutero de uma liberdade de interpretação das escrituras se consegue vislumbrar uma dimensão tão heterodoxa do pensamento do Nazareno; mas já muito longe da pujança de alma e de pensamento que se encontra na patrística.

O legado de S. Victor I, como se vê, continua bem vivo. Pode ter sido “esquecido” e relegado para limbo da memória histórica mas a sua obra está bem presente, imutável como as obras do génio humano.

Quem for a Roma, não deve esquecer de visitar três coisas: a) O grande Obelisco egípcio (sim, aquilo foi trazido do Egipto…) colocado em frente à Basílica de S. Pedro, na praça com o mesmo nome; O Arco de Severus, no Forum de Roma e ir ver o Papa; no caso o Papa africano: a tumba de S. Victor I – está mesmo ao lado de S. Pedro e João Paulo II, não dá para enganar.

Numa vista pormenorizada do Arco de Severus pode-se ver umas inscrições apagadas – são de Antoninus Geta, filho de Septimius Severus e Júlia Donna; morto pelo irmão, Antoninus Bassianus (Caracalla), nos braços da mãe e cuja recusa de defesa no Senado determinou a morte do mítico jurista Papiniano (Magister Liberum de Septimius Severus e de Caracalla).

É o mais novo dos filhos de Septimius Severus, o primeiro Imperador africano do Império romano. Quando o meu livro («Os Imperadores Africanos do Império Romano – A multiculturalidade no berço da Europa») for editado saberá mais.

Conforme o tempo e a disponibilidade de alma for deixando, compartilharei algumas notas sobre a(s) memória(s) de África e dos africanos que, num passado não muito remoto, construíram grande parte da essência do que é hoje a «cultura ocidental».

quinta-feira, 3 de abril de 2008

La Maja Desnuda, Goya (1797)

A grandeza de um povo
está na maneira como enfrenta a adversidade.

Plutarco

ÁFRICA

A tua realidade é ser gaivota.
Dor, voando no tempo.
No mar, cruel solidão…
Fome olhando os céus
ouvind´os sons do silêncio
quebrando a voz dos canhões
que cantam teu pranto.

No rio vermelho da batalha,
chora, ó Mãe velha!
Chora lágrimas que alimentam
crianças de ventre circular,
sonhos desérticos, efémeros,
divino arrependimento.

Nas sombras das palavras sedentas
as nuvens impiedosas não choram
pelos poetas que enganam a realidade
à imagem da minha imagem.

O mundo gira, languidamente…
Nas fogueiras nocturnas, de esperanças
perdidas, mamas insensíveis estendem-se
sem prazer, sem dor, de regresso da morte
por via do pão
perecem ternamente,
o prazer de ser Mãe,
a dor de ser filho…

Nos olhos horizontais, cansados,
sonham o descanso do estômago
os esquecidos do trigo.
Um sonho latejante, goteja
lágrimas secas fertilizando a terra
de vermelho transitório.

Com o corpo sugado pela memória
abutres invisíveis cantam ao sol
que tarda em chegar. Na aurora do sonho
África grita e chora liberdade
pela força da águia do norte,
pela força do urso cansado
para além do sol; a morte é miragem.

No corpo de ébano, o prazer é voar
para lá dos insondáveis sons da dor
procurando o verde da alma menina
que ficou florida de cinza.

  • Este poema é do princípio dos anos oitenta, talvez 1984. Represtino-o hoje. Com um pouco mais de esperança? - Sim, muito mais; mas foi construida pelo tempo alheio.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

~ Luciano Pavarotti & Edita Gruberova, «Rigoletto» - Verdi ~

  • LOVE AND DICTATORS

    Following Zimbabwe’s elections I remembered of some words in a history book lost somewhere. I looked and found it, just as the Master says. But the book has something else to say than my Master’s advice and I was looking for it.

    «[…] “Worshipping a dictator is such a pain in the ass,” complains Ikem Osadi, editor of the National Gazette in Chinua Achebe’s novel, Anthills of the Savannah, published in 1987. His outburst was prompted by the fickle conduct of a president who has grown from false messiah to monster» in The State of Africa, Martin Meredith, London/New York, 2006, p.378.

    A dictator thinks he loves his people, but what he really love is the power to look at the mirror and says silently to himself that he loves his people and his people loves him. He never looked at people’s eyes – he doesn’t need it, for he always thinks that there is a bind between him and the people, just as two lovers in an affair in witch one thinks that he is the other’s master.

    To love a master lover or worship a dictator is, must be for sure, a big, huge pain in the ass. And nobody wants pain – people need bread and love. Less than that is not enough, never. – Ask me no more to tell you I love you, says the people.

~ Obelisco egípcio no centro da Praça de S. Pedro em Roma ~

DEPREDAÇÃO DE ÁFRICA. LONGA CONSUENTUDINE INVETERATUS

A depredação de África não é facto novo da modernidade; não – começou há muito.

No centro da Praça de S. Pedro, Roma - Itália, está um dos Obeliscos retirados dos templos do Egipto e trazidos para a Europa como despojos de guerra entre civilizações e representação do poder do conquistador. Terá sido construído no Séc. XIII a.C, provavelmente no bem-aventurado reinado de Ramsés II.

O monumento chegou a Roma no tempo do Imperador Nero e depois, em 1585, instalado em frente da Basílica de S. Pedro pelo Papa Sisto V que, certamente, não desconheceria a sua origem pagã nem o seu significado político, religioso e cultural.

Nunca ninguém pensou em pedir à Roma para devolver o objecto retirado pela força e pela violência do conquistador romano. Será que Joseph Ratzinger, o Vaticano e o Estado italiano equacionariam, essa possibilidade? Pois…

Como em muitas coisas (algumas verdadeiramente surpreendentes), as pessoas estão convencidas de que o Obelisco egípcio é italiano; mas não é. Há que revisitar a memória de África e aprender alguma coisa para o futuro; nomeadamente no que concerne a protecção dos recursos naturais do continente.

terça-feira, 1 de abril de 2008

~ Santo Antão - interior, foto de Nuno Pombo Costa © ~

  • Para quando energia para aqui? – perguntar-me-á. – Pergunte ao Governo, aos autarcas, à ELECTRA; a quem pode e deve responder. É que não é muito difícil levar luz às famílias que vivem em locais belos e remotos como este.

SANTIAGO: BILHÕES PARA O PETRÓLEO OU PARA A AUTONOMIA ENERGÉTICA?

O meu dia começou há pouco mais de duas horas – percorri os jornais do Mundo a ver se encontrava algo de substancialmente bom para alimentar a minha alma. Paro em Cabo Verde e, para meu regozijo, verifico que há dias bons; dias em que se tem boas notícias para compensar as más.

As vítimas da ELECTRA devem estar a respirar fundo e a pensar que pode estar a aparecer luz ao fundo do túnel escuro que a empresa transformou as suas vidas na capital do país.

Mas será que é assim? Será que é mesmo assim? – penso.

É que a notícia de que o Governo, através do Ministro da Economia, Crescimento e Competitividade, José Brito, assinou um acordo de financiamento com o Governo do Japão para financiar, em parceria com o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD – o tal que não serve para nada…), um «mega projecto» de energia para Santiago soa bem.

Soa ainda melhor ouvir falar em bilhões de escudos e saber que estes vão ser investidos na terra e que vão ficar na terra. Mas já não soa tão bem antever que – ao que se percebe entre linhas – esse dinheiro vá ser investido em formas tradicionais de energia: combustíveis fósseis. Isto é, que acabará por sair do país de forma indirecta; pois irá em grande parte para material circulante e, imagino, para reestruturação da ELECTRA…

É que estamos a falar de um investimento susceptível de criar uma autonomia energética sustentada para Santiago (ou pelo menos de parte substancial da ilha) e que pode vir a ser desperdiçada se investida na lógica da resolução dos problemas imediatos.

A médio e longo prazo – não me canso de dizer isso – é imperativo criar-se uma autonomia energética para o país, ilha a ilha (se necessário Concelho a Concelho), para não termos de depender do exterior. Santiago, com este volume de investimento(s), pode(rá) caminhar nesse sentido e ser a primeira ilha substancialmente independente em termos energéticos; o que beneficiaria não somente Santiago mas todo o país.

Não quero ser céptico, mas parece-me que nos arriscamos a ficar presos a sistemas energéticos sem futuro se não pensarmos um pouco mais além; mais além da dependência dos mercados de energia.

Gastar fundos em sistemas de transporte de energia para ao interior quando se pode criar sistemas autónomas de produção de energia da(s) ilha(s) – que poderão servir, inclusive, como forma de financiamento das autarquias – não parece ser uma solução de exequibilidade sustentável.

Pensar em grande não é a mesma coisa que pensar em coisas grandes ou grandes coisas; quer dizer pensar com sentido de estratégia e de futuro. É de pensar em grande que o país precisa; não é, necessariamente, de «mega projectos» que podem colocar o país, ainda mais, dependente do exterior.

Apraz-me, no entanto, verificar que o Governo se movimenta no sentido de considerar as energias renováveis como alternativa energética para o país e que procura soluções para o problema energético e, ao que parece, vai aparecendo fumo branco.

Estará próximo, espero, o dia em que o Governo entenderá que um país como Cabo Verde deve dar prioridade às energias renováveis e não ver nelas uma mera alternativa aos derivados do petróleo. O futuro espera por nós, mas não faz para nos fazer mais felizes ou mais capazes; isso é obra nossa.