- VOZ DA CIÊNCIA, BELA CIÊNCIA
Diz a gerontologista Karen Weatherby e uma equipa de investigação que dirigiu que olhar para para mulheres com mamas tamanho “D” ou maior (com no caso desta bela modelo russa) por dez minutos ou mais, é como ir 30 minutos ao ginásio e faz os homens ganhar cinco (5) anos de vida. Isto é: Mamas grandes, longa viva; pelo que se quiseres viver mais tempo do que é suposto, casa com uma mulher de S. Nicolau.
Mamas, mamas dão vida. Não é preciso silogismo para saber isso.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
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domingo, 15 de novembro de 2009
Lula da Silva, Presidente do Brasil, dizia no outro dia que os polícias devem ganhar bem para não terem de receber propinas, i.e., não serem subornados (e isto tem uma dimensão que vai para além do dinheiro). Mas não é só policial, não… ainda que, ao que se diz, mesmo políticos com ordenados milionários se deixam corromper. O que quer dizer que o problema vai para além da questão monetária — pelo que se tem de considerar, para o caso, a normalidade do problema e não todos aspectos da mesma.
Mas concordo com o Presidente do Brasil. Só não sei porquê é que não fez isso durante o seu consulado presidencial, que, afinal, foram dois mandatos. Descobriu isso agora? Não creio, mas mais vale tarde do que nunca. E, já agora, que não saia da presidência do Palácio presidencial sem fazer o que agora reclama: polícias a receberem o que é devido e dignificante para a profissão. Mas mais e melhor formados, necessariamente.
O que o Presidente Lula diz serve não somente para o Brasil, serve como uma luva à medida para todos os demais países da CPLP, o elefante branco que, até agora, só tem servido os interesses dos políticos e não dos cidadãos. Só assim se combaterá a corrupção e outros comportamentos menos edificantes nas estruturas policiais e se contribuirá para uma melhoria da qualidade de vida dos cidadãos no que concerne à paz social, melhor justiça e segurança.
Pode-se até lutar para a proficiência do sistema judicial, e ter-se boas intenções neste plano e noutros, mas se a Policia não for eficaz e deter tranquilidade pessoal para se dedicar exclusivamente à defesa dos valores da sua função nunca se terá uma justiça adequada e uma sociedade verdadeiramente segura. O que é dizer que nós, os cidadãos, um dia começaremos a ser vigilantes, a nos nomearmos juiz Dredd. O que, de todo, não pode ser o caminho da civilização.
Imagem: Luiz Inácio da Silva, Presidente do Brasil
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- NADEJDA
Escrevia uns poemas, e parei: ouvia Nadejda de Solange Cesarovna. Não percebo russo, mas gosto da música… mas depois, perguntei-me: o que está esta Calíope crioula a cantar? O que anda a dizer? Não pode ter nada a ver com a Nadejda que me recordo sempre que ouço a música: Nadezhda Krupskaya, a mulher de Vladimir Lenin. Lá fui à Enciclopédia da História da Rússia ver, se encontrava uma outra Nadejda… e não encontrei. Se estivesse aí em CV, procuraria essa síntese de Calíope, Flora e Vénus para me explicar o que diz a música, mas como eu estou longe, vou ter de perguntar a um dos meus amigos entendidos em russo.
Odeio não perceber as coisas, e a razão das coisas, também. Mas chegarei lá, e ter esperança é um bom princípio. A mulher de Lenine chamar-se Esperança, é curioso, não é? Agora, é tempo de ouvir o Debate Africano na RDP-África. Logo is another day, lá diria a Scarlett O’Hara.
Imagem: Nadezhda Krupskaya, mulher de Vladimir Lenin sentada à sua secretaria de trabalho (Enciclopédia da História Russa)
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- DECLARAÇÃO DE AMOR
Há dentro de mim
um Cristóvão Colombo metafísico
— e tu, tu és o Mundo que ainda não descobri.
Irei com tudo o que és,
esperas-me com tudo o que sou,
e vamo-nos cruzar de essências
— Deus será testemunha dos nós gerados
e as suas vísceras de plumas serão o nosso leito
no Novo Paraíso.
Estou no porto, pelos reis ainda rejeitado…
E sou uma larva de poemas, tu inteira.
------ Publicação originária: Liberal
Imagem: Triplet galaxy ARP 274, Hubble, NASA
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Linda O’Neill
Chove, chove sinfonicamente em Lisboa…
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sábado, 14 de novembro de 2009
- A DEMOCRACIA DA CULTURA: «MEMÓRIAS DE ADRIANO» DE MARGUERITE YOURCENAR
Recebi uma chamada telefónica, de um amigo escandalizado com o texto que escrevi sobre os clássicos, pois, na sua perspectiva, Youcenar não é uma autora difícil. E lá tive de estar a explicar-lhe o quão difícil é uma obra como Memórias de Adriano. Livro que, reitero, aprecio em particular, por destoar das obras do género: a autora revela um conhecimento de Roma, em particular do Século dos Antoninos, que escapa a estudiosos da história em geral. Memórias de Adriano não é um livro fácil de ser lido, na verdade é um livro muito difícil de ser percebido para quem não é versado nos clássicos e na história romana, nomeadamente do Século II da nossa era. A autora chega a usar o nome de locais hoje desconhecidos para o leitor, v.g., a Bitínia ou a Capadócia, ou de figuras de todo desconhecidas para o público em geral, como Terêncio Escauro, Alcibíades ou coisas que não diz e deixa o leitor descobrir (se perceber isso), como é caso de referir.se aos «lagos de Alba», sem mais, querendo dizer Alba Pompeia.
Mas não é livro isento de erros e/ou imprecisões. A referência ao Templo de Serápis em Alexandria e às controvérsias cristãs de então, como, a que, diz a obra, existir entre Basilides e Valentim (o que é uma imprecisão, pois eram ambos gnósticos) mas que existia, sim, entre estes e outros cristão da Escola de Alexandria. Mas é verdade um facto: essas controversias eram comuns na cidade egipcia, mas não entre estes dois. Mas o livro tem mais coisas deste género. Por exemplo, Adriano de Yourcenar diz, a dado ponto: «A moral é uma convenção privada; a decência, um assunto público; toda permissividade muito visível sempre me pareceu uma exibição de mau gosto. Proibi os banhos mistos, motivo de rixas quase constantes […].» Tal é uma incongruência da obra, pois Adriano se motivou, tão-somente, no plano moral para o fazer e não por causa de dissensões públicas ou privadas. A biografia de Adriano na Historia Augusta – que a autora usa como referência primeira – é clara sobre este aspecto.
Aparece na obra a referencia à Espanha, o que deverá ser um erro de tradução, pois certamente que teria usado o nome de então Hispânia, pois a referência actual não é Espanha, mas sim Península Ibérica. E alongar-me-ia em exemplos desta natureza, mas isso não retira mérito ao livro, quer pela densidade histórica e narrativa quer pela beleza e desafio cultural que constitui a compreensão das realidades dentro das referências da obra cujos nomes são mais do que nomes, mas referencias da história. É, sim, uma obra extraordinária. Mas não para todos, não para toda gente. É uma obra que demonstra que a cultura não é, afinal e de todo, democrática.
Para percebermos isso, vejamos este excerto do livro (Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, p.22):
«Marulino, meu avô, acreditava nos astros1. Esse velho alto, magro e encardido pelos anos dedicava-me o mesmo grau de afeição sem ternura, sem sinais exteriores, quase sem palavras, que votava aos animais da sua propriedade, à sua terra e à sua coleção de pedras caídas do céu. Descendia de uma longa sucessão de antepassados estabelecidos na Espanha2 desde a época dos Cipiões3. Era, na linha senatorial, o terceiro do nome: a nossa família até então fora da ordem equestre. Tomara parte, aliás modesta, nos negócios públicos sob o reinado de Tito4. Esse provinciano 5 desconhecia o grego e falava o latim com um sotaque espanhol gutural que me transmitiu, e que foi motivo de riso mais tarde. Todavia, seu espírito não era de todo inculto. Após sua morte, foi encontrada em sua casa uma arca cheia de instrumentos de matemática e de livros nos quais ele não tocava havia vinte anos. Possuía conhecimentos em parte científicos, em parte camponeses, naquela mistura de preconceitos rígidos e de velha sabedoria que caracterizaram Catão, o Velho 6. Mas Catão foi durante toda a vida o homem do Senado romano e da guerra de Cartago,7 o perfeito representante da impiedosa Roma da República8.»
____________
[1] Era comum os romanos acreditarem não somente nos deuses, mas também nos astros. Eram, neste plano, também animistas. O que tem, naturalmente, a sua razão de ser na origens rurais do povo romano.
[2] Hispânia, e não Espanha, como referi. Esta é uma realidade histórica e política diferente e fora do cotexto da obra. Isto é, depois dos africanos liderados por Aníbal Barak serem expulsos da Hispânia (hoje Península Ibérica) na sequência da II guerra púnica.
[3] Aquando das guerras púnicas, em que a Hispânia era parte, em parte, uma colónia africana e parte grega; aliás, foi o ataque à colónia de Sagunto que deu origem a II guerra púnica e em que emergem os Cipiões da gens Cornélia.
[4] Tito Vespasiano, que foram dois. O primeiro tornou-se Imperador romano durante o cerco de Jerusalém, deixando para o filho, então general das legiões, a tarefa de tomar a cidade, o que faria em cerca de dois anos depois, em 70 d.C e dando origem a grande diáspora judaica. Para isso, há que rever a genealogia de Aelius Adrianus Antoninus na Historia Augusta, e na Historia Romana de Cássio Dio e assim identificar-se qual dos Titos autora fala.
[5] A língua de cultura dos romanos era, então, o grego e não o latim. Mesmo com todos os esforços iniciados com Octávio Augusto, o grego era ainda visto como a língua de cultura entre os romanos.
[6] Na verdade odiava o grego e as modas gregas, o que o tornou inimigo de Cipião que, por outro lado, amava as novidades gregas. Um, Catão, simbolizava o mundo rural romano e as suas traições e o outro, Cipião, a modernidade e a cultura gregas; diríamos hoje que um era um nacionalista e o outro um moderno defensor da uma cultura global, helenística.
[7] Por causa da sua famosa frase: Delenda est Cartago. Participou na Segunda Guerra púnica (sobreviveu às batalhas de Tesino, Transimeno e Zama, com Cipião Nasica) e foi o seu ódio pelos africanos de Cartago que viria a causar a destruição da potência militar e económica africana de Cartago. Mas Catão, o Velho (ou o Censor), mas não veria Cipião Emiliano, filho adoptivo de Cipião Nasica, o Africano, destruir Cartago em 146.
[8] A Roma da República, para se diferenciar da Roma imperial… essa percepção dessa diferença, do plano político e prático, é deveras interessante de verificar. A expressão «impiedosa», aqui, é de uma assertividade histórica extraordinária. O primeiro Cipião Nasica, o Africano, foi desnecessariamante cruel com Aníbal Barak em Zama, e o seu descendente, Públio Cornélio Cipião Emiliano, o Africanas minor, também o seria no cerco e destruição de Cartago.
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A CONDECORAÇÃO DO MAJOR PIRES E A MINISTRA DA DEFESAA Ministra da Defesa, Cristina Fontes, revogou a condecoração dada ao Major Adriano Pires e que este recusou. Uma condecoração é uma honra que o Estado concede à um cidadão que considera ser merecedor de méritos excepcionais – pelo menos assim deveria ser –, não é um direito de ninguém. É, quanto muito, uma expectativa subjectiva, legítima ou não, mas nunca um direito pois está no âmbito do poder discricionário do órgão de soberania que a concede. Ponto final.
Uma condecoração é um acto formal, um acto de honra e reconhecimento que é concedido a um cidadão, mas que pode ser recusada – e se é recusada, não pode ser mantida. Assim como o cidadão não aceitou ser honrado pelo seu Estado, esse também, da mesma forma, decidiu retirar o reconhecimento do mérito pois a recusa não foi feita à Ministra da Defesa, foi feita ao Estado de Cabo Verde e a todos os cabo-verdianos que o órgão de soberania outorgadora da condecoração representa. Não revogar a condecoração é que seria inaceitável.
As razões do Major Adriano Pires, pelo menos as que eu conheço, não me parecem convincentes, mas as do Ministério da Defesa de Cabo Verde de revogar a condecoração é de aplaudir. Eu aplaudo, assim como tenho criticado a orgia de condecorações feita pelo Presidente da República, Pedro Pires (tem graça ser o seu irmão a recusar uma condecoração) aplaudo a decisão da Ministra da Defesa, Cristina Fontes. E digo mais: se estivesse no lugar dela, tomaria a mesma decisão.
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A branca seduz, mas depois mata… principalmente as «mulas».
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009
- Truth seek we both
Thou in the life without thee and around;
I in the heart within.
By both can Truth alike be found.
The healthy eye can through the world
the great Creator track;
The healthy heart is
but the glass
which gives Creation back.
---- Friedrich Schiller
(Translation by E. Bulwer Lytton.)
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- OS CANDIDATOS A PRESIDENTE DA UNIÃO EUROPEIA
A eleição – que provavelmente será depois das eleições britânicas, já com David Cameron como novo Primeiro-ministro do Reino Unido –, será, certamente, decidido pelas influencias do eixo franco-alemão, isso se a realidade não demonstrar que a Nova Europa desloca o seu centro de decisão para outras e inesperadas paragens. A democracia vencerá a lógica dos interesses? A ver vamos, mas Mary Robinson parece-me ser a candidata que melhor serviria os interesses dos cidadãos europeus.
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009
- DE MANDELA A ÓSCAR ROMERO – O HUMANISMO LIBERTÁRIO
Dá que pensar, por vezes dói-me até, como conseguimos transformar o cumprimento do dever num mérito, numa excepção digna de galardão e não na regra. Quem faz o seu dever não merece nenhuma outra recompensa para além daquela que emerge do dever cumprido. Existe uma diferença entre o ordinário e o extraordinário, e tal tem vindo a desaparecer na percepção social da humanidade. Isso, na verdade, tem desumanizado o homem, tem-no afastado, por adquirido social prático, da lei natural que lhe é imanente. O extraordinário está em ir para além do dever, para além do que nos impele a natureza, fazer o que o outro não faria – mais: o que o outro não faria por nós!
E impressiona em Nelson Mandela este exemplo: agarrar nas mãos do seu inimigo, perdoar-lhe o mal causado. Compreender o outro, e, compreendendo-o, perdoar-lhe. Isso é humano, verdadeiramente humano. Nelson Mandela, que gosto de ver como um verdadeiro cristão animista, é, neste sentido, mais cristão que João Paulo II e Benedictus XVI que não perdoaram a teologia da libertação (na verdade teologia libertária) de Leonardo Boff, Rubem Alves e outros defensores da teologia cidadã. Desmond Tutu, Ximenos Belo, D. Manuel (Bispo de Setúbal) estão próximos desta teologia libertária, mas não vão tão longe como foram Leonardo Boff e, de certa forma e noutro registo, César Romero.
O perdão é a essência do cristianismo, assim como o diálogo mitigado e balizado pelos princípios. Há um problema de natureza, de paradigma na teologia da libertação e que se confronta com o cristianismo cristocêntrico? Sim, há, mas nada que não seja superável. Óscar Romero dizia, de forma clara e precisa (mas que pode levar a interpretações nocivas), que a «Igreja cristã tinha uma preferência 1 pelos pobres» e ouve, há, muita gente que confunde isso com a teologia da libertação, que em verdade, não é de libertação mas sim libertária quando entendida no plano político — como já vem de Tomás de Aquino e o seu direito à revolta contra a injustiça — pois no estrito plano da teologia, o cristianismo é, em si mesmo e todo ele, pois é a sua essência, uma teologia da libertação, e da libertação do homem total: corpo, alma e espírito.
O problema é a politização do Evangelho — uma tentativa, inclusive, de a minar com o ideário marxista. Este é, ainda que não compreendida, a razão maior das resistências da Igreja à teologia da cidadania popular, à teologia da libertação. São, na verdade, várias faces do humanismo contemporâneo, de um humanismo que, por vezes, desespera, procura e se deixa seduzir pelo discurso-caminho que parece fácil, mas cujo fim, cujo é o que diz Coélet. Salva-nos homens humanos, pessoas com sentido de humanidade comprometida com o outro, como Nelson Mandela.
Mandela, sem grandes teorizações, mostra-nos que o que o homem precisa não é grandes construções teóricas e de títulos académicos — que são, também, necessárias e socialmente úteis — mas de acção em favor daqueles que mais precisam, daqueles que não têm voz. O facto da O facto das Nações Unidas ter criado um Dia de Mandela é da mais elementar justiça, e faz-me crer em dia melhores, numa humanidade melhor.
Imagem: Nelson Mandela e Frederik de Klerk
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- A MANHÃ
Quando me encontrares,
diz-me onde estou
— irei contigo pela madrugada
visitar-me, beijar-me
transformar-me num poema...
Imagem: Abraço amoroso, Samarel
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- CONTRA LA SEDUCCIÓN
¡No os dejéis seducir!
No hay más retorno.
El día está a las puertas;
El viento de la noche podéis ya sentir:
No llega otra mañana.
¡No os dejéis engañar!
Poco es la vida.
¡Saboreadla a rápidos sorbos!
¡No os resultará suficiente
Al tenerla que dejar!
¡No os dejéis esperanzar en vano!
¡Harto tiempo no tenéis!
¡Dejad a los redimidos el moho!
La vida es lo más grande:
No está dispuesta otra vez.
¡No os dejéis seducir
A esclavitud y explotación!
¿Qué os puede infundir angustia?
Morís con todos los animales
Y después no hay nada más.
------Horst Krüger
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BURMA’S POLITICAL PRISIONERS
The fundamentals of democracy are people’s freedom and critical minds, says my poet.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009
- MANUEL VEIGA NA RCV – A LINGUA CABO-VERDIANA
Acabei de ouvir Manuel Veiga, O Ministro da Cultura, na RCV (ouço, ainda, a rádio… e Nadejda de Solange Cesarovna… que bela voz! E penso que valeu ouvir a rádio, por isto que escuto agora). Orlando Lima, jornalista da RCV saiu-se com uma tirada infeliz na conversa com Manuel Veiga:
— No ti ta papiá um kriolo fedi kê di Praia…
No comments!
Mas o Ministro da Cultura não disse nada de novo, nem o jornalista perguntou. Mas que oficialização é que se vai fazer se (i) o que se pretende com a revisão do Artº.9º. da CRCV é a clarificação (sic) da norma? Clarificação que o projecto do PAICV, como proposta, não faz – infelizmente, mas pode(rá) ser socializado. Mas (ii) e o Decreto-lei nº. 8/2009 de 16 de Março que oficializa o ALUPEC como alfabeto cabo-verdiano, o que foi que fez? Não foi a oficialização da língua cabo-verdiana com base no sistema ALUPEC? Será que deixou de existir? Porquê, diga-me: qual é a razão de todos ignorarem esta aberração de haver uma lei contra a República e todos fazerem de conta que não existe? É que, como se viu na AN, o PAICV está a espera que o MPD mude (mas de que discurso?) e se resolva a questão da língua no plano constitucional e se repristine o Decreto-lei nº. 8/2009 de 16 de Março.
O argumento da variante que se fala mais é preocupante… critério quantitativo?, não! É claro que eu percebo o que o Ministro da Cultura quer dizer, todos os cabo-verdianos percebem. O que não é, de todo e do meu ponto de vista, o problema, ainda seja parte dela; a questão resta nos procedimentos, sempre os procedimentos... O que me admira, pois sempre que oiço o Ministro da Cultura me parece uma pessoa com bom senso, mas depois age de forma diametralmente oposta…
Já tardava ouvir o do poder político, nomeadamente do Ministro da Cultura, o argumento de que o Acordo Ortográfico está próximo do ALUPEC — como previsto... — e da economia da língua. Uma entrevista para o Ministro Manuel Veiga dizer o que tem dito, repetidamente, em todos os fóruns por onde tem passado? Haja paciência! O Ministro da Cultura termina a entrevista dizendo que «os deputados vão dar uma prenda de Natal» aos cabo-verdianos: a oficialização da língua cabo-verdiana. Sim, espero que se chegue a um consenso sobre a revisão da Constituição — e a questão da língua nem é das questões mais prementes. Mas e então, volto a perguntar: o que é o Decreto-Lei nº 8/2009 de 16 de Março? É altura de alguém falar claro! Fica este diálogo (da Antígona de Sófocles):
Creonte: — Só tu, em Tebas, sustentas tais opiniões.
Antigona (apontando para o Coro): — Todos eles pensam como eu, mas mordem os lábios.
Imagem: Pleasure, René Magritte
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terça-feira, 10 de novembro de 2009
- DE DOCTA IGNORANTIA
Ainda soa na minha mente, o meu momento de reflexão. «Existirá, pois, um máximo absoluto sem o qual nada pode existir» – diz Nicolau de Cusa (Nicolau de Cusa, De Docta Ignorantia, I.4). E, tenho de assentar, há parcialidade de conhecer, a não ser em YHWH. E lembro-me das palavras de Hemon a Creonte: «Aqueles que pensam ter recebido a sabedoria em exclusivo, ou possuir uma eloquência, ou um talento sem igual, fazem prova muitas vezes, da inconsistência das suas pretensões. Mesmo para um grande magistrado , não é desonroso aprender constantemente a rever os seus julgamentos…» (Sofocles, Antígona, II).
Mas há quem ache que não, há quem ache que não… o Mundo está cheio de sábios e de donos da razão, da ciência (das ciências, Deus meu, das ciências!) e tutti quanti que é saber. É, de todo, a douta ignorância; a douta e papagueante ignorância. E, como dizem que disse o grego, não sabem que nada sabem; de todo. E o Pai os perdoará, como perdoou a todos aqueles que não sabiam o que faziam.
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- SÓCRATES E O CASAMENTO DE PESSOAS DO MESMO SEXO
O Primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, decidiu que irá apresentar uma proposta de Lei à Assembleia da República para a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mais do que previsível, como escrevi aqui ainda na anterior legislatura. Não terá dificuldade em conseguir aprovar essa lei, pois o Bloco de Esquerda e o PCP farão a maioria necessária no Parlamento. Mas parece-me que procede a duas coisas, graves, a meu ver: (i) desconsidera a natureza do casamento e a sua sacralidade e (ii) e o espírito das leis, a que emana da comunidade.
E sabe isso. E por saber isso, não quer o referendo. Todas as pessoas têm direito a constituir família, mas existem várias formas contratuais e modalidades jurídicas para se resolver esse problema sem ser por essa via. Mas o problema é ideológico, não é jurídico, social ou muito menos de defesa dos direitos das pessoas do mesmo sexo a constituir família, pois uma coisa é constituir família, a liberdade sexual e a esfera da vida privada e suas opções e outra é casar.
Imagem: Enter my mind, Samarel
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- CIRCULACIÓN
La solitaria muela de una puta
una muerta sin nombre
llevaba una corona de oro.
Las demás se habían desprendido
como por un secreto acuerdo.
Ésta la extrajo el sepulturero para sí.
Porque, decía,
sólo la tierra debe volver a la tierra.
---- Gottfried Benn
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009
- OS CLÁSSICOS DA TERTÚLIA DA RCV
Falar-se de clássicos, e destes só ouvir falar de Homero… sabe a pouco e é pouco, muito pouco. E propõe-se uma leitura clássica que não o é. «O Estrangeiro» de Albert Camus (obra fundamental do existencialismo — que é tão menos literatura como é «O Príncipe» de Maquiavel…) e as «Memórias de Adriano» de Marguerite Yourcenar (que é um livro verdadeiramente fabuloso1) não são clássicos. Podem ser considerados obras fundamentais da literatura francesa, ou até «clássicos franceses», ou «clássicos contemporâneos» mas nunca clássicos em sentido próprio. O mesmo se diga de «O Médico e o Monstro» de Stevenson (que vem atrás das obras de Rudyard Kipling e de Jules Verne, no género aventura e ficção fantástica, por exemplo, e atrás de Mary Shelley se for catalogado como terror). «Coração das Trevas», de Conrad… é, será, um clássico contemporâneo na medida em que o é, por exemplo, «A Oeste Nada de Novo» de E.M. Remarque.
Note-se que, no que a Joseph Conrad diz respeito, o leitor mediano terá preferência por «Lord Jim» — que é uma obra de referência do imaginário aventureiro da minha juventude e da minha geração, e que tem um profundo sentido moral, no sentido clássico — em relação ao «Coração das Trevas» não tem (mesmo sendo ambos obras trágicas segundo o cânone grego). Ademais, surpreendeu-me que um ex-colonizado tenha uma leitura tão apaixonada por essa obra de Conrad. Este, com E.R. Burroughs (quem não se lembra de «Tarzan dos Macacos»?) e Rudyard Kipling («O Homem Que Queria ser Rei» e «O Livro da Selva») são dos escritores mais comprometidos com o ideário imperialista e colonialista (pior: com uma ideia de inferioridade do negro e demais povos colonizados em relação ao homem branco).
Pois é: esses livros tinham e têm muito pouco de infantil, ao contrário do que parecem, pois trazem uma mensagem subliminar e ideológica que escapa ao leitor comum. Mas são clássicos da literatura moderna, no sentido moral e ideológico do seu tempo e da sua disseminação e popularização, mas não têm a dimensão do humanismo que encontramos na «Ilíada» de Homero, na «Antígona» de Sófocles ou no «Prometeu Agrilhoado» de Ésquilo. Ser clássico é muito mais do que ser e ser-se preservado ao longo do tempo. Existem clássicos que a maioria dos cidadãos do Mundo nunca ouviram falar, e é pena que se tenha perdido a oportunidade de os dar a conhecer e terem os conversadores do programa atentado numa ideia refundida de clássico.
Note-se o caso de as «Viagens da Minha Terra», de Almeida Garret (outra das obras referidas no programa). Livro que li pela primeira vez como obrigação escolar mas que gostei de imediato, mas só é um clássico para e no contexto da literatura portuguesa. Já a «Morgadinha dos Canaviais» … foi um dos primeiros livros «a sério» que li (o primeiro foi «Uma Família Inglesa», também de Júlio Diniz) e tem um lugar particular na minha memória literária, mas só é clássico na medida em que considerarmos Júlio Diniz um autor clássico da literatura portuguesa.
Os clássicos são e estão historicamente definidas. «A República» de Platão é um clássico, sim! E não é tão utópico como se pensa…basta lê-lo, basta lê-lo e pensar na sociedade em que vivemos. Assim como «A Política» e a «Ética a Nicómaco» de Aristóteles, a «Antigona» de Sófocles, a «A Cidade de Deus» de Agostinho, as obras de Plutarco, Plínio, o Velho, de Homero, Virgílio, Ovídio, Dio Cássio, Josefo, Tito Lívio, Herodoto, Juvenal, Lamprídio, Spartiano, Ésquilo… são clássicos, no sentido próprio da palavra.
Aconselhar um clássico, é complicado... Para iniciar a leitura em todas as idades, «O Principezinho» de Saint-Exupéry é boa sujestão (não é um livro infantil, não! assim como «Alice no Pais das Maravilhas» ou «Alice através do Espelho» de Lewis Carroll não são livros infantis…), assim com «Cândido» de Voltaire são boas leituras: leves e profundas. Ah!, essa de colocar Sofia de Mello Breyner Anderson entre os clássicos, não lembra ao Diabo! É uma boa poetisa, sim. Mas está longe de ser um clássico, ainda que da literatura portuguesa! Se tivesse ouvido o nome de Florbela Espanca, diria que se estava a fazer um justo paralelo do significado dela para a literatura portuguesa, enquanto poeta, com a que Rosália de Castro tem para a poesia Galega.
Quantos aos clássicos cabo-verdianos… quando começarem a promover a nossa cultura de forma devida, nomeadamente reeditando os autores de antanho, poderemos falar deles com propriedade. Pois isso de ser clássico, não é só dizer que se é, ai não. Ser-se não é bastante. No sentido de clássicos nacionais, de Cabo Verde, é fácil dizer que este ou aquele é um clássico; acho que esse é o mais fácil dos exercícios; mesmo que não tenha sido lido, mas só citado… ou ouvido dizer; como é moda ou modismo em dado sector da cultura.
Imagem: Olympe – Jean Louis Grig
[1] Livro que gosto em particular, por destoar das obras do género. É, com «Ulisses» de James Joyce, provavelmente, o livro mais difícil que se pode aconselhar a qualquer leitor. Uma proposta de leitura da Dra. Ondina Ferreira que está ao alcance de muitos poucos leitores, pois é um livro que só se consegue ler (no sentido de perceber a obra) se se conhecer os clássicos, os verdadeiros clássicos – e Marguerite Yourcenar escreveu «Memórias de Adriano» para poucos, talvez a pensar em si mesma (é a sensação que fico sempre que vasculho a obra) e num bonnus pater familias da cultura clássica que sabe quem foi Adriano. Neste aspecto foi pouco democrática. Mas quem foi que disse que a cultura é democrática?
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domingo, 8 de novembro de 2009
- O PROGNOSTICADOR
O prognosticador putativo
gritava — eu ouvi, lá longe
no Mindelo terra-longe…
«O mundo dói-me,
dói-me mil vezes à velocidade da luz…
e ter tudo é ter nada
pois tudo o que se lega ao mundo
somos nós, em pó
ou cinzas
ou letra,
nós!
Ou será que, diz-me, ser
excremento animal…
isso: (bosta para fogão,
brasa de noites-amantes,
anseio de ser na pele diamante
da rosa fresca que amo e é minha)
em ouro vale o esquecimento?
A morna que fica para sempre ardendo
diz, diz para esses outros novos:
compensa, ó gente nova!, não ser
essa coisa velha que se chama pessoa?»
Imagem: Stonehenge, Salisbury, Inglaterra
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- MANEL D’NOVAS
Os cabo-verdianos na Holanda homenageiam, hoje, o trovador Manel d’Novas. De longe, associo-me de alma plena aos meus patrícios na Casa da Cultura, em Roterdão. Escrevi o poema O Prognosticador, a um trovador que, enquanto formos gratos e respeitarmos a memória da nação, estará sempre ligada à alma e à história da nação cabo-verdiana.
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sábado, 7 de novembro de 2009
Primeiro Ministro José Maria Neves
Ministro da Cultura, Manuel Veiga- O SILOGISMO DA PÁ E DAS MÃOS LIMPAS
Quem não conhece o bê-á-bá do silogismo aristotélico? Aquele: todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal. Ao ver as imagens da nação a ser limpa (ai, Churchill! lembrei-me de ti, agora…), com os políticos a darem o exemplo, também, não deixei de pensar em tanta coisas, mas tanta coisa que o melhor é não partilhar, ter alguma contenção no verbo (não gostei, nada, mas nada do que vi – não da acção, mas da sua dimensão visual).
Assim, numa espécie de catarse visual, remeto a questão para o plano do mundo das ideias, e pergunto-me, perante as imagens do Primeiro-ministro José Maria Neves e do Ministro da Cultura, Manuel veiga: qual é diferença entre estas duas imagens? O que pensar delas, além das suas razões de ser?
Bem, antes disso, tenho de dizer o seguinte: agarrar numa pá não é coisa simples, não! tem ciência (e escreve quem descarregava, sozinho, um caminhão de arreia a pazada em 13 minutos!), e não é pouca. A forma como os M.I. Ministros agarram na pá, digo-vos, não só lhe dá cabo da costas, como os deverá ter cansado rapidamente — a não ser que tenham agarrado nos instrumentos somente para a foto, o que não creio. Uma pá pede gentileza: a mão esquerda do destro, v.g., deve estar solta, leve… deve libertar a pá quando se livra do material, para não forçar o corpo, obrigado a fazer força no sítio indevido. Mas, não quero falar sobre a ciência que os operários têm e que falha, que escapa a muitos doutores & engenheiros, o que quero é sofismar um pouco em torno de um silogismo que emerge das diferenças entre estas duas fotografias.
Todos usavam pá. Quem usa pá é operário. Logo, eram todos operários. Não, está errado! — dir-me-á, aprestamente. — Não são operários, são Ministros.
Talvez, talvez tenha razão. Note bem: talvez. Mas fiquemos por aqui, pois admito este sentido restrito de operário. Eram Ministros, o primeiro e o da cultura. As diferenças? O primeiro é canhoto (ou será que não lhe ensinaram a agarrar na pá?), o da cultura destro. O destro usa luva, o canhoto não. Logo, tenho de concluir que todos os destros usam luva, e todos os canhotos não usam luvas.
Mas o meu poeta, que não gosta de silogismos e muito menos de sofismas, alerta-me para um pormenor: a luva é cor-de-rosa! Cor-de-rosa, deuses! Assim, entendo o Primeiro-ministro: luvas cor-de-rosa e adequadas para lavar loiça ou roupa, não! Até porque as luvas, rosadas e frágeis, duraram pouco mais de uma hora naquele tipo de tarefa ministerial. O quê!? Falar de boné, gorro, ou de chapéus? E de máscaras? Please, give me a break! Saúdo a boa vontade, mas não se salva a imagem e algo mais (procedimentos, e mais não digo!).
Ah!, impressionou-me o carinho com que Manuel Veiga olhava para um velho pé de chinelo, quase que o afagando com a borda da pá, cansada, pesada (deveria estar a pesar o dobro do peso normal) — por não ser limpa há muito —, mas não tanto como a dor de cabeça que é o ALUPEC/Ak. Nessa tentativa de afagar o chinelo, como se tentasse descobrir um tesouro escondido ou o petróleo (também chamado «asas de 2011») sonhado e terá pensado para si mesmo:
— Aqui está um aspecto da cultura que nunca atentei…
Terá sido por isso, para não colocar mão na massa dialéctica, que não apareceu na Assembleia Nacional quando se discutou a questão da língua? Quem se interessa, aparece. Todos os interessados apareceram, menos Manuel Veiga. Logo, Manuel Veiga não estava interessado. Os silogismos são mesmo tramados, não são?
Imagens: A Semana on line
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En días helados de invierno, 1
En tiempo oscuro, sin esperanza,
Te arrojé toda de mi pensamiento,
Oh, quimera de la inmortalidad.
Ahora que el ardiente verano brilla,
Ahora entiendo que hice bien;
El corazón de nuevo he coronado,
Pero reposa en la tumba la ilusión.
Navego por la corriente clara,
Que fluye refrescante por mi mano;
Miro arriba, a la catedral azul,
Y no busco otra patria mejor.
Ahora, por fin, florecido lirio,
Entiendo tu queda salutación;
¡Tan claro como arde la llama,
Sé que he de morir igual que tú!
----- Gottfried Keller
Imagem: Skogskyrko garden, (o 1888 de Estocolmo, Suécia)
_____
[1] Poema que Gottfried Keller dedicou a Feuerbach.
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009
- MAGISTRADOS, POLICIAS E A TOLERÂNCIA AO LIXO
Cá está uma história cheia de cabelo… com contornos no mínimo estranhos.
Ver as pessoas a limpar o que deve ser limpo, é agradável. Aplausos. Mas, para onde é que vai o lixo? É um momento adequado para o Governo aproveitar e decidir instalar no país as estruturas necessárias ao tratamento dos lixos (atenção aos procedimentos…), e dotar o país de uma política de tolerância zero ao lixo e a falta de higiene e segurança pública sanitária e alimentar. Dificilmente terá outra oportunidade, ao nível da tolerância social, como esta. Mas isso, também, passa pela ELECTRA. Mas esta, esta é outra conversa e hoje dia de tolerância, não é?
Imagem: Lady blues, Jean Louis Grig
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- VOZES DE ATENTAR
Imagem: Méthanal – Jean Louis Grig
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- O DESENVOLVIMENTO MÉDIO E O DENGUE, MAS…
O Governo decidiu alargar o âmbito da acção contra a epidemia de Dengue, mas… não digo mais agora, não por não haver lugar para o mas, ou que o mas não está aí para eu poder dizer: mas… está, sim, mas o melhor é esquecer esse mas, por um bem maior; o que não quer dizer que não possa dizer que somos mediamente desenvolvidos, mas somente nisto: quando acontecem coisas dessas como a epidemia da febre de Dengue é que percebemos a nossa real dimensão, o que somos de verdade. Somos o que somos, não o que pensamos que somos, mas...
Sem, mas!
Eu não falei em Estado de Emergência, mas… de facto acontece.
Imagem: Suicide note, Alexey Lobur
Nota: Interessante... Palavras cruzadas da RCV
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009
ARTE
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
------ Fernando Pessoa
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- AS MINHAS TRÊS MORTES, A FEBRE DE DENGUE, O ESTADO DE EMERGÊNCIA SANITÁRIA E A POLÍTICA MEDROSA
Em menino, vivendo em Cabo Verde, fui vítima de meningite… e de todas as doenças más que se pode imaginar! Se aparecia uma epidemia qualquer, lá estava eu com ela, sempre. As doenças amavam-me, como se eu fosse Casanova e não um menino, e elas damas desconsoladas de amor. Cheguei a ser presumido morto certo, por três vezes. Deixa-me contar-te, telegraficamente.
A primeira vez foi com a meningite e outra desgraça de que não me recordo, mas que não quero saber agora para não fazer a minha mãe recordar esse tempo trágico para muitas mães que perderam os filhos. Nessa altura, na segunda metade dos anos sessentas, quando um surto de meningite atacou a terra e chegou a S. Vicente, contrai a doença e cheguei, inclusive, a ser declarado incurável e a ter o caixão e a mortalha prontas: só se esperava que eu morresse para me darem banho, colocar-me no caixão e me levaram para 1888, para fazer companhia a Nha Marquinha & k’iis ôte gent mort. Mas sobrevivi! A custo, mas sobrevivi.
A segunda vez… Um dia, o médico (no d’txá sê nome p’ra lá…) disse à minha mãe que eu tinha diabo em cima de diabo — a erisipela óssea e outra doença que nunca quis saber o nome — e que o melhor era levar-me para casa, para eu morrer em casa «porque precisava do espaço no Hospital para salvar quem podia». Coisa horrenda de se dizer à uma mãe, mas disse, o ilustríssimo Doutor, jurado segundo Hipócrates. Que podia ela fazer? Levou-me para casa, e as minhas tias e pessoas amigas prepararam, mais uma vez, a minha mortalha azul e branco de menino e o meu caixão. Mas a minha mãe não desistiu, e foi melhor médico que o doutor. Sobrevivi, dá para notar, não? As mães são assim: por vezes fazem milagres, e não há altar que chegue para elas, não…
Muitas epidemias, além das famigeradas fomes, sofremos, nós, os cabo-verdianos, no tempo colonial… A a memória, a memória é pouca e pequena, demasiado pequena. Por alguma razão Almada Negreiros dizia que Portugal era «o país mais atrasado da Europa», o país mais selvagem de todas as Áfricas», de uma África que chamava «reclusa dos europeus, o entulho das desvantagens e dos sobejos». A fome e as epidemias eram coisas correntes e recorrentes, a normalidade, antes da independência.
Agora, voltam as epidemias. Em poucos dias, 4 (quatro) mortos. Não se pode pensar somente em prevenção (que é fundamental, mas é uma prevenção paliativa, depois de consumada a epidemia), ou fazer como o médico que me mandou para casa para morrer… para resolver o meu problema, não. Há que atacar o problema na sua origem, neste momento: nos focos da doença e não passar a responsabilidade para a população, os funcionários públicos e os trabalhadores, com se se dissesse: vai trabalhar, ó povo! cura-te, ó doente! Evita a doença, ó cidadão! Vamos ver se, na Sexta-feira, verei os membros do Governo nas ruas a limpar o que deve ser limpo… é que não basta dizer para se fazer, é preciso fazer-se o que se diz. Membro do Governo, não é mau Padre, é pessoa de bem. Não diz para fazer, faz! Por isso governa e não é governado.
Venha (i) a protecção civil e (ii) o exército para as ruas, (iii) mobiliza-se os cidadãos e faça-se a limpeza geral das ilhas, no perímetro urbano e no interior, onde poderão estar focos de gestação dos mosquitos. Mais: que sejam tomadas medidas claras e precisas: que se puna quem lança lixo nas ruas — como se faz nos países limpos e onde não acontecem essas doenças (Singapura e Suíça são bons exemplos) —, com penas de multa e de trabalho comunitário e público de limpar as ruas. Esta parte é da competência da Assembleia Nacional (há coisa mais importantes a tratar, ó Senhores deputados! Como a vida, como a vida!) que tem de fazer a sua parte, também.
O Governo faz o que pode, certamente que pensa que sim, e creio na boa vontade. Mas há alturas em que isso não chega! O paliativo da prevenção e a mera medida de tolerância de ponto para se poder agir contra tal epidemia não me parece, neste momento, adequado. É altura de se tomar medidas de emergência, de se mobilizar todos os meios possíveis e passíveis de serem mobilizados para se combater esta epidemia. Não se pode esperar por mais mortos, por mais dor entre as famílias cabo-verdianas, para se agir!
Os meios internos não chegam? Que o Governo proponha ao Presidente da República a declaração do Estado de Emergência sanitária, a fim de se permitir, por exemplo, que sejam aterrados zonas de águas estagnadas pelas chuvas, obras ou outras razões em terrenos privados com proprietários descuidados com a higiene e a segurança públicas ou que estejam ausentes, se proceda a injunções necessárias contra aqueles que colocam em perigo a saúde publica e dos cidadãos individualmente considerados e, ainda, se possa recorrer à ajudas externa de países com competência na matéria. A cooperação internacional não é, não pode ser uma mera palavra — tem de ser efectiva. Recorra-se a ela, se necessário, e parece-me que se tornou mais do que necessário fazer isso.
Os eventuais órfãos, viúvas e viúvos, pais, irmãos e irmãs de eventuais vítimas mortais que possam vir a acorrer (Deus queira que não!), nunca perceberão que o Governo não percebeu que se está perante uma situação que se torna, a cada dia que passa, mais grave e mortal… e se estende a todas as ilhas. É preferível pecar-se por excesso do que por defeito, em particular em situações excepcionais como esta.
Esta questão não é política? É política, sim!, pois gerir a polis é a própria natureza da acção política — e uma sociedade que esteja perante uma epidemia é aquela que mais precisa de acção política dos seus governantes A verve destes vê-se nestas alturas de crise, pois para «deixar andar, e logo se vê no que dá» qualquer um serve; para isso não são precisos eleitos da nação. Deixemos de ter medo de falar, e de medo de ser penalizado por falar de um facto político que é a gestão da saúde e da segurança públicas, que é por causa delas, em particular da segurança pública, da polis, da cidade, da sociedade, que a política existe. Sim, o problema emergente desta epidemia da febre de Dengue é um problema político — como todas as questões públicas.
E é político porque, entre outras coisas, o Governo dá prioridade à uma governação electrónica num país sem luz, em vez de ser uma governação de formação ética e cívica num país onde os animais mortos e o lixo doméstico são lançados na rua (é, o tratamento do lixo é necessário, urgente, imperativo). Podemos ter um mundo novo, sim; mas sem doenças velhas e mortais. O orgulho, o orgulho é o braço direito da morte; e só pede ajuda a que tem e pode mais quem precisa; e nós precisamos de ajuda, pois o nosso Estado é de Emergência de facto.
Do que está à espera, para cumprir com a Constituição, com o Vosso dever de políticos, ó Governo da minha terra? Políticos medrosos e pusilânimes, não! O que assusta o povo, é não se fazer nada, não ver um plano claro para todos saberem de forma clara e que chegue a todos. Sexta-feira contra o negro indesejado, i.e., contra a febre de Dengue, o pico solitário do mosquito? Soa estranho, até porque somos ilhéus, em ilhas estamos, mas Robinson Crusoé (esse que, depois da primeira viagem, ao que parece, parou em terras nossas a caminho do Brasil) não nos chamamos, não.
Ah!, a terceira vez em que o caixão cruzou-se no meu caminho? Isso, isso é outra história. Talvez vos conte, um dia. A nossa terra tem tudo, mas tudo para ser feliz.
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MANIFESTO CONTRA SARAMAGO – EPÍSTOLA PÚBLICA A JOSÉ SARAMAGO
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- EU E O MEU POETA
Hoje, no balanço do meu dia, disse ao meu poeta:
— A única coisa que a democracia não pode dispensar, além das pessoas, é a crítica.
E sorriu, o meu poeta. O meu poeta sorriu…
Imagem: Gregoriana, Antonio Capel
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terça-feira, 3 de novembro de 2009
- PENSAMENTO «PRIMITIVO» E MENTE «CIVILIZADA»1
A maneira de pensar dos povos a que normalmente, e erradamente, chamamos «primitivos» — chamemos-lhes antes «povos sem escrita», por que, segundo penso, este é que é o fator discriminatório entre eles e nós — tem sido interpretada de dois modos diferentes, ambos errados na minha opinião. O primeiro considera que tal pensamento é de qualidade mais grosseira do que o nosso, e na Antropologia contemporânea o exemplo que nos vem imediatamente à idéia é Malinowski. Afirmo, desde já, que tenho a maior admiração por ele, que o considero um dos maiores antropólogos e que não pretendo com esta observação diminuir-lhe a sua contribuição para o campo da ciência. Contudo, Malinowski tinha a sensação de que o pensamento do povo que estava a estudar — e, de uma maneira geral, o pensamento de todas as populações sem escrita que eram o objeto de estudo da Antropologia — era ou é determinado inteiramente pelas necessidades básicas da vida.
Se se souber que um povo, seja ele qual for, é determinado pelas necessidades mais simples da vida — encontrar subsistências, satisfazer as pulsões sexuais e assim por diante —, então está-se apto a explicar as suas instituições sociais, as suas crenças, a sua mitologia e todo o resto. Esta concepção, que se encontra muito difundida, tem geralmente, na Antropologia, a designação de funcionalismo.O outro modo de encarar o pensamento «primitivo» – em lugar de sublinhar que e um tipo de pensamento inferior, como o faz a primeira interpretação – afirma que é um tipo de pensamento fundamentalmente diferente do nosso. Esta abordagem à questão concretiza-se na obra de Lévy-Bruhl, que considerou que a diferença básica entre o pensamento «primitivo» – ponho sempre a palavra «primitivo» entre aspas – e o pensamento moderno reside em que o primeiro é completamente determinado pelas representações místicas e emocionais. Enquanto a concepção de Malinowski é utilitária, a de Lévy-Bruhl é uma concepção emocional ou afetiva.
Ora, o que eu tenho tentado mostrar é que de fato o pensamento dos povos sem escrita é (ou pode ser, em muitas circunstâncias), por um lado, um pensamento desinteressado – e isto representa uma diferença relativamente a Malinowski — e, por outro, um pensamento intelectual — o que é uma diferença em relação a Lévy-Bruhl.
in Claude Lévi-Strauss, Pensamento «Primitivo» e Mente «Civilizada», das Conferências Massey de 1977 publicadas pelas Edições 70, Lisboa, sob o título Mito e Significado (p.12-13).
Imagem: Claude Lévi-Strauss
________
1 Anunciou-se a morte de Claude Lévi-Strauss, a poucos dias de completar 101 anos. Um homem de Cultura, no sentido mais nobre da palavra, e que ficará na memória da humanidade, sem o procurar.
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- CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORRÂNEOS
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimentos de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E, mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Assis, 11.06.1961
----- Jorge de Sena
Imagem: Auto-retrato, Jackson Pollock
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- O MEU POETA
VB, quando é que Aquiles alcançará a tartaruga? — pergunta-me o meu poeta.
Imagem: Frei Bartolomeu de las Casas
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009
- A DISCUSSÃO DA REVISÃO DA CONSTITUIÇÃO (2)
O Primeiro Ministro, José Maria Neves, ao contrário de outras ocasiões, mostrou-se nervoso e com um discurso pouco escorreito – pudera, falava da língua cabo-verdiana e do ALUPEC na Assembleia Nacional. Logo que terminou o seu discurso, os trabalhos foram suspensos . Esta suspensão dos trabalhos, pelo Presidente da Assembleia Nacional, Aristides Lima, soou a gongo salvador… mas há amanhã. O discurso de Rui Figueiredo e António Pascoal deixa a antever uma manhã interessante (e clarificador, parece-me), em torno da língua cabo-verdiana.
Agora, pelo que deu para entender hoje, tudo parece indicar que esta revisão da Constituição irá falhar; se não falhar será uma revisão sobre matérias menores, sem lavrar nas questões fundamentais. Poderá, eventualmente, haver surpresas, mas começo a ficar céptico, demasiado céptico nesta matéria da Revisão da Constituição pois não creio que o PAICV venha a viabilizar nenhuma das propostas do MPD, e vice-versa. O projecto do deputado Humberto Cardoso será tido, para os dosi grupos parlamentares, como um corpo estranho; para prejuízo da qualidade da democracia.
A margem disso, parece-me que o grupo parlamentar do MPD ganha substância discursiva com Rui Figueiredo, António Pascoal e Mário Silva. Assim como os deputados poderiam ter defendido melhor as suas propostas! É que, ó M.I. deputado da nação José Manuel Andrade, a questão que defende, e bem!, de se mudar «homem» para «humano» não tem a ver com modernidade em relação à Constituição de 1992, nem com «nova nomenclatura», como diz o deputado Rui Semedo, mas sim com uma dimensão doutrinária e filosófica. São dois conceitos distintos, sim – e atinaram bem na questão do género, pois ela foi sobejamente discutida aquando da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, a tal que enforma a Constituição de Cabo Verde. Aliás, a Comissão dos Direitos Humanos da ONU afastou, até por intervenção da sua Presidente, Eleanor Roosevelt, a representante da Índia e de outros países subdesenvolvidos (se Cabo Verde já fosse Estado independente teria defendido a mesma posição).
Se a defesa da proposta não foi a mais feliz e adequada, a verdade é que é uma boa proposta, e deveria ser aprovada. Não entendi, confesso que não consigo, em razão, entender, a posição de abstenção do MPD em matéria de direitos fundamentais – como foram as três primeiras propostas do PAICV. Nem quero crer no que me ocorre, só de pensar nisso sinto-me pecador! Se for esse o caso, o MPD deveria ter, então, proposto um outro procedimento de discussão das propostas? A ver vamos!
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