sábado, 12 de setembro de 2009

Cristãos e Muçulmanos: Juntos para vencer a pobreza

MENSAGEM PARA O FIM DO RAMADÃO
‘Id al‑Fitr’ 1430 H. / 2009 A.D.


Caros Amigos Muçulmanos
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1. Por ocasião da conclusão do mês do Ramadão, desejo apresentar votos de paz e de alegria e, por meio desta Mensagem, propor uma reflexão comum sobre o tema: Cristãos e Muçulmanos: Juntos para vencer a pobreza.
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2. Devemos claramente alegrar‑nos porque, no decorrer dos anos, esta Mensagem do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter‑religioso se tornou não apenas um costume mas um encontro esperado. Em muitos países, tem sido uma ocasião de encontro amistoso entre numerosos Cristãos e Muçulmanos. Frequentemente até corresponde a uma preocupação comum, propícia a partilhas abertas e confiantes. Não é verdade que todos estes elementos constituem sinais de amizade entre nós, pelos quais devemos dar graças a Deus?
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3. Vindo ao tema deste ano, a pessoa humana que experimenta a situação de indigência encontra‑se no centro de preceitos que nos são caros, por títulos diversos. A atenção, a compaixão e a ajuda que todos, irmãos e irmãs na humanidade, podemos oferecer àquele que é pobre, para o repor no seu lugar na sociedade dos homens, é uma prova viva do Amor do Altíssimo, visto que é o homem enquanto tal que Ele nos chama a amar e a ajudar, sem distinção de pertença.
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Todos sabemos que a pobreza humilha e gera sofrimentos intoleráveis. Muitas vezes, estes estão na origem de isolamento, de ira e mesmo de ódio e desejo de vingança. Isto poderia levar a acções de hostilidade com todos os meios disponíveis, procurando também justificá‑los com considerações de índole religiosa: apoderar‑se, em nome de uma pretensa «justiça divina», da riqueza do outro, incluindo da sua paz e segurança. Por isso, rejeitar os fenómenos de extremismo e de violência exige necessariamente a luta contra a pobreza, através da promoção de um desenvolvimento integral, que o Papa Paulo VI definiu como «o novo nome da paz» (Carta Encíclica
Populorum Progressio, 1975, n. 76).
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Na recente Carta Encíclica
Caritas in Veritate, sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade, Sua Santidade o Papa Bento XVI, tendo em conta o contexto actual do empenho em favor do desenvolvimento, põe em destaque, entre outras coisas, a necessidade de uma «nova síntese humanista» (n. 21) que, salvaguardando a abertura do homem a Deus, o recoloque no centro e no cume de tudo quanto existe sobre a terra (n. 57). Um autêntico desenvolvimento, portanto, terá que estar ordenado ao «homem todo e a todos os homens» (Populorum Progressio, n. 42).
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4. Na sua
homilia de 1 de Janeiro passado, por ocasião do Dia Mundial da Paz de 2009, o Papa Bento XVI fazia a distinção entre dois tipos de pobreza: uma pobreza a combater e uma pobreza a abraçar.
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A pobreza a combater está ao alcance dos olhos de todos: a fome, a falta de água potável, a escassez de cuidados médicos e de habitação adequada, a carência de sistemas educativos e culturais, o analfabetismo, sem esquecer a existência de novas formas de pobreza «como, por exemplo, nas sociedades ricas e progressivas,… fenómenos de marginalização, de pobreza relacional, moral e espiritual» (
Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2009, n. 2).
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A pobreza que se deve abraçar é a que convida a adoptar um estilo de vida simples e essencial, que evita o desperdício, que respeita o ambiente e todos os bens da Criação.
Esta pobreza é também, pelo menos durante certos períodos do ano, a da frugalidade e do jejum. A pobreza escolhida predispõe para sairmos de nós próprios e dilata o coração.
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5. Como crentes, desejar o entendimento para buscar em conjunto soluções justas e duradouras para o flagelo da pobreza significa também reflectir sobre os graves problemas do nosso tempo e, quando é possível, esforçar‑se em conjunto para encontrar uma resposta. É necessário que a referência aos aspectos da pobreza ligados à globalização das nossas sociedades revista um sentido espiritual e moral, dado que partilhamos a vocação de construir uma só família humana, na qual todos – indivíduos, povos e nações – orientam os seus comportamentos segundo os princípios da fraternidade e responsabilidade.
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6. Um olhar atento sobre o complexo fenómeno da pobreza conduz‑nos fundamentalmente a ver a origem na falta de respeito da dignidade inata da pessoa humana e chama‑nos a uma solidariedade global, por exemplo através da adopção de um «código ético comum» (João Paulo II,
Discurso à Pontifícia Academia das Ciências Sociais, 27 de Abril de 2001, n. 4), cujas normas não teriam apenas um carácter convencional, mas estariam radicadas na lei natural inscrita pelo Criador na consciência de todo o ser humano (cf. Rm 2, 14‑15).
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7. Parece que em diversas partes do mundo passámos da tolerância ao encontro, a partir de vivências comuns e de preocupações partilhadas. Esta é uma importante etapa que já se alcançou.
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Pondo à disposição de todos a riqueza que brota da oração, do jejum e da caridade de uns e de outros, não é porventura possível que o diálogo mobilize as forças vivas de quantos se encontram a caminho em direcção a Deus? O pobre interpela‑nos, desafia‑nos, mas sobretudo convida‑nos a colaborar numa causa nobre: vencer a sua pobreza!
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Bom e feliz ‘Id al‑Fitr’!
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Cardeal Jean-Louis Tauran Presidente
D. Pier Luigi Celata Secretário
Conselho Pontifício para o Diálogo Inter religioso

English, español, français et outres
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  • Imagem: Cosmos, Jean-Louis Grig

  • VOZES DE ATENTAR…
«O arco da história é longo, mas dobra-se em direcção à justiça», Barack Obama

Gosto do Barack, mas, por vezes, acho-o um pouco ingénuo; e isso faz-me gostar mais dele.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

  • DEUS NÃO GOSTA DE FUMAR, DEUS GOSTA DE BEETHOVEN

    A música de Beethoven é verdadeiramente divinal. A sonata nº.14 para piano, a 5ª. (1º. movimento) e a 9ª. Sinfonias são boas companheiras para um puro e um momento de reflexão. Como é possível que não se perceba a beleza que é viver, simplesmente viver? Não cobiçar o bem ou mal do próximo, mas ser cobiçoso de viver? Amordacemos Freud com a beleza, pois Deus gosta de Beethoven!

    — Deus, porque o meu puro não é um Montecristo Nº.1, um Sancho Panza, um Churchill da Romeo y Julieta ou um esplendido ou um robusto da Cohiba?
    — Porque não é um puro, mas somente um charuto – respondeu-me.

    Pois claro. E decidi escrever um poema a mim mesmo! Porquê? Porque me apetece! – é razão bastante? Há cada estraga-prazeres...

Chove em Cabo Verde...

  • REGRESSO
Mamãe Velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha
– a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim...

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
– É a tempestade que virou bonança...

Venha comigo, Mamãe Velha, venha
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração!
----- Amílcar Cabral

  • LUGARES
Near the Café Sidi Chebaane, Sidi Bou Saïd, Tunisia

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

  • O ENFORCADO
Sonhei esta noite que morria.
Tive um orgasmo. Acordei para o Mundo
— esse rameiro de flores que dá mel ao mal .
Testemunha, putrefacta, a essência de tudo
enquanto novas de eternidade revisitam-me.

E queria escrever os poemas que não és capaz de ler
com os teus olhos. Despertar-te para a roça,
sobreviver-te e aos teus sonhos
num grão de açúcar no mar d’Kepóna.

Há uma fronteira que não se cruza, saberias
— o sabor do mar é o nome da saudade.

Sonhei esta noite que morria,
que morria enforcado, docemente enforcado
num laço de poemas, nos poemas que não és
capaz, não chegas para ser capaz de ler.
E tive um orgasmo!
Era teu.

Imagem: La magie noire, René Magritte
---- Prima forma: Liberal

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

OPINIO IURIS ET PHILOSOPHICA

«Severo,1 o mais resoluto dos governantes, não acabou somente ontem com as leis do ridículo Papias,2 que compeliam as pessoas a terem filhos antes que as leis de Juliano3 as permitissem contrair matrimónio e isso embora tivessem a autoridade da idade a seu favor? Houve leis, também, antigamente, legislando que as partes contra as quais havia sido dada uma decisão, podiam ser cortadas aos pedaços4 por seus credores», Tertuliano,5 Apologia, IV

--------- Notas:
[1] Septimio Severo Afri, o segundo imperador africano do Império romano, era não somente contemporâneo de Tertuliano mas também conterrâneo, pois eram ambos africanos. Tertuliano converte-se ao cristianismo em 201 d.D. aquando da terceira grande entrada de Severo em Roma (como deixa perceber em Ad Scapulum, foi o conflito emergente entre os cristãos e o Imperador –
que não saudaram o imperador – que acabou por levá-lo a analisar a doutrina cristã e a converter-se a ela).
[2] Lex Julia et Papia Poppea, que limitava o casamento entre as classes sociais.
[3] Dídio Juliano, o primeiro imperador afro-romano de Roma: comprou o Império num leilão feito pela guarda da pretoriana depois desta matar Helvius Pertinax, o Justo.
[4] Tertuliano refere-se à Lei das Doze Tábuas, elaborada pelo decênviro depois da queda da monarquia e a emergência da República. As Doze Tábuas foram, na verdade, a primeira Constituição em sentido material e formal do mundo ocidental – mas era mais uma Constituição de direito civil e não de direito natural (segundo distinção de Celso, Ulpiano e Paulo; estes dois contemporâneos de Tertuliano). Tal prática seria abolida por Severo Alexandre, neto de Septimio Severo.
[5] Jurista e teólogo afro-romano, é o primeiro Advogado e activista dos direitos humanos.

  • EU E O MEU POETA…
O Colorado é a terra da representação da liberdade, do lugar natural. Mas nada, nada como o meu Monte Cara…vanitas vanitatis a toda a hora e cachupa com arrenque — disse ao meu poeta.

Death Valley Sand Dunes, California

  • O MEU POETA…
A Califórnia é a terra das torranjas… — diz-me o meu poeta.

Imagem: Death Valley Sand Dunes, California


  • CAN WE DO EVERYTHING AGAINTS HIV-AIDS?

    In Bed with Hitler. Does the german educational campaign «AIDS is a mass murderer» makes sense? It looks like to have a good intention, but to have a good intention does not mean that it´s good or appropriate. It remembers me the words of the roman iurisconsultus Paulus who said that nom omne quod licet honestum est, i.d., «Not everything that is allowed is fair» (Digesto, Ad Edictum, LXII). The promoters may have forgotten the boomerang effect of the campain… I guess. I hope I may be wrong on this!

    Barbara Hans wrote an article on Der Spiegel that is worth reading. Phantoms must be exorcized, but there are some things that should be keept at the boredom of history. Everything is not allowed, at least it should not… in Portugal, for instance, it would be illegal. But freedom is just that: to do what we want to. But… this is a question of morals, fundamentals of principles as it is said by John Finnis.

Porque o prometido é devido, cá fica o poema.

  • A LIVRE NECESSIDADE
Dá-lhe milongas,
pão na mesa de mármore beduíno
— pois se sigo para a direita é porque a esquerda
já foi virgem suada, colhida,
escorregada do seu paraíso, sonho teu.

Não te mato, porque sou escravo da minha memória,
dos meus desejos de ti. Nada é mais que tudo.
— Oh! tubérculo de sonhos meus te fiz, e ressuscitei
como Deus a experimentar ser Adão e Eva
na esquina nocturna das pétalas de corvo,
as que gemem de frutos silentes nas tuas mãos
pendendo: escuto essoutro eu a arrulhar-te
nas madrugadas incubas.

Existirá do outro lado do coração
coisa mais funda que carne presa, exalo escravo?

A minha enxada de lua, esgravata a mina de alma-tua.
Alma-tua! — escrava de milongas.


Imagem: H.G. Giger

  • A ENTRE(VISTA) DA RTC A CARLOS VEIGA
O entrevistado esteve bem, seguro quanto baste. O Entrevistador esteve desastroso e claramente mal preparado para uma entevista desta natureza. Mas como é que se pergunta a um homem como Carlos Veiga se vai criar um «Estado novo» se ganhar as eleições? Uma coisa é um novo Estado (ou o Mundo Novo, como diz o Primeiro Ministro José Maria Neves) ou um Estado renovado, outra é o Estado Novo — com toda a carga política que a expressão transporta numa sociedade como a cabo-verdiana e um homem da geração do Carlos Veiga. O entrevistado percebeu essa gaffe jornalistica, e passou por cima dela com elegância (mas poderia ter cometido um erro, um lapsus linguae fatal).

Enfim, não é somente da nossa cachupa e da nossa morabeza com os estrangeiros que devemos curar, não; também o devemos fazer com outras coisas. A entrevista não trouxe nada de novo, nada que não se soubesse ou que não fosse previsível como resposta, e a culpa – tenho de o dizer – foi do entrevistador que quis ouvir mais a sua voz do que o entrevistado e perdendo tempo com o acessório, de forma recorrente. Eu — e certamente os demais ouvintes também — queria ouvir muitas coisas, ver esclarecida outras tantas, mas assim, assim é difícil. Não foi uma entrevista, foi uma mera (re)vista de Carlos Veiga e do que se tem dito nos últimos tempos e já se sabia. Uma oportunidade perdida. Home work! Home work! Home work…

terça-feira, 8 de setembro de 2009

  • EM ESCUTA…

Daqui a pouco haverá uma entrevista a Carlos Veiga na RTC. Quem puder, faça como eu: escute o que o virtual novo líder do MPD tem a dizer. Será às 22:00 PM, hora de Cabo Verde. Enquanto espero, escrevo um poema. Se estiver com disposição depois de ouvir o que Carlos Veiga tiver a dizer, partilharei este escrito.

Imagem: Relógio da Lei de Ohm

  • LIVROS QUE MERECEM MAIS DO QUE SER LIDOS

Agamemnon, Aeschylus
(Um belíssimo alerta para a «outra» natureza feminina — a tragédia grega no seu melhor)

  • Mural (como se pode fazer coisas boas...)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

  • A ROSA

    A rosa,
    a imarcescível rosa que não canto,
    a que é peso e fragrância,
    a do negro jardim na alta noite,
    a de qualquer jardim e qualquer tarde,
    a rosa que ressurge da ténue
    cinza pela arte da alquimia,
    a rosa dos persas e de Ariosto,
    a que sempre está só,
    a que sempre é a rosa das rosas,
    a jovem flor platónica,
    a ardente e cega rosa que não canto,
    a rosa inalcançável.
    ---- Jorge Luís Borges

  • A JUVENTUDE POLÍTICA DA TERRA DO RISO

    Quem me conhece, ainda que an passant, sabe que não sou puritano e que defendo a o direito à asneira e coisas análogas: a natureza não deve ser renegada. Agora, há coisas que não cabem em determinados lugares.

    E digo isso a propósito do que tenho visto e lido no site da Juventude do MPD: uma rubrica com piadas, e piadas de mau gosto! Depois de uma piada preconceituosa sobre judeus, segue-se uma piada sobre «caipiras» e outro sobre «cornos». Se a ideia é demonstrar o wit cabo-verdiano (que no Mindelo é um monumento vivo na alma das suas gentes) ou fazer o mesmo que a JPAICV tal resulta falha de sentido, um non sense pois não é o local não é indicado para esse tipo de humor que se promove.

    As piadas têm um destaque na página que não tem (nem teve) a Manifestação contra os despautérios contínuos da ELECTRA. Isso quer dizer, M.I. Miguel Monteiro, que se fosse Primeiro Ministro – como dizia no outro dia ao jornal Expresso da Ilhas –
    o país também arranjaria um Ministro para o humor? O Nuias da Silva e a sua equipa parecem seguir um outro tipo de humor. Será benefício do poder?

    O que tem piada mesmo – no plano politico (a JPD não reparou nisso?) – é o Primeiro Ministro de Cabo Verde estar na Convenção do Partido Socialista Português (José Sócrates depois irá ao do PAICV, apoiar José Maria Neves e/ou seu anunciado e previsível Delfim – com faz com José Luiz Zapatero) e isso ser perceptível por ostensivo, mas ter passado despercebido o facto das comemorações da Independência terem sido no Seixal… e não na Amadora, onde um compatriota nosso, Francisco Pereira, se candidata à Presidência do Município. Isso, sim… tem piada. Aliás, a gestão de todo o país é uma piada pegada! O que nos deixa verdes, mas verdes de riso; e cuidado: riso demais mata! E, como as doninhas do «Quem Tramou Roger Rabbit?» lembram (e lembro isso por causa dos monumentos da Jessica – que é coisa que também acaba), pode-se morrer de riso.

    Imagem: Miguel Monteiro, Lider da JMPD durante a desistência de Jorge Santos da liderança do partido (A Semana)

domingo, 6 de setembro de 2009

  • MONOLOGION RETRO
Tenho fome do futuro,
ou será vontade de comer a planura?
Oh, dá-me, dá-me bruma à mesa,
areia cevada de rosas, tinto de oiro…
e salve a puta, salve a puta-alma das sevícias dos anjos!
— e, quando tudo for são e puro como eles
não te esqueças de embrutecer-me.

— Madre! — grita o pobre que não pode ser doutor.
— Ai que doce! — geme o rico brincando de ti.

Esqueci-me de alguma coisa, Deus?
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---- Imagem: H.R. Geiger

sábado, 5 de setembro de 2009

  • O ESCANDALO DA PEQUENEZ
Como o poeta dói-me e cabeça e o universo — e não é por ter chegado às portas do paraíso ou ter lido os Lusíadas madrugada adentro, não. É fome do futuro. Ontem, por infelicidade, não cheguei ao Inferno em Oeiras, não disse mil vezes o que me vai na alma (Ó rosa de Jericó! O UNIVERSO ÉS TU) nem deixei de ver Deus agachar-se quando deveria lutar pela sua responsabilidade no Sudão, nas favelas (as de alma, inclusive) dos rios, das finisterras crioulas, dos consensos e das horas sem riso.

Dói-me a cabeça, e o universo. Como ontem, tenho fome, fome da planura: do futuro. E descubro que Deus é um banqueiro usurário que me pede para pagar o respirar e o sonhar. — «E não queiras ser poeta, pois pedir-te-ei o dízimo – avisa-me Ele. E só consigo ser gráfico, falar em línguas! A dita linguagem dos anjos:
— Look fellow… leave me alone! I do not pay taxes to live.

Mas pagaria, se o Banqueiro aceitasse as dores de cabeça e o universo como garantias hipotecárias. Mas já tem muito crédito mal parado, excesso de património... — diz-me. E tenho de ser gráfico!

E era isso que me assaltou a memória quando ouvia o debate de José Sócrates – Primeiro Ministro de Portugal, e Jerónimo Martins, Secretário-geral do Partido Comunista português: Fellatio de Andy Warol. A linguagem dos anjos, dito para o banqueiro usurário. Lembrei-me do mesmo ao trocar umas linhas com o confrade blogueiro Amílcar Tavares.

Deus não se escandaliza; a nossa pequenez sim... é um escândalo.

Imagem: Fellatio, Andy Warhol (1978)

  • ÁNGELES DE SWEDENBORG
Durante los últimos veinticinco años de su estudiosa vida, el eminente hombre de ciência y filósofo Emmanuel Swedenborg (1688-1772) fijó su residencia en Londres. Como los ingleses son taciturnos, dio en el hábito cotidiano de conversar con demonios y ángeles. El Señor le permitió visitar las regiones ultraterrenas y departir con sus habitantes. Cristo había dicho que las almas, para entrar en el cielo, deben ser justas; Swedenborg añadió que deben ser inteligentes; Blake estipularía después que fueran artísticas.

Los Ángeles de Swedenborg son las almas que han elegido el Cielo. Pueden prescindir de palabras; basta que un Ángel piense en otro para tenerlo junto a él. Dos personas que se han querido en la tierra forman un solo Ángel. Su mundo está regido por el amor; cada Ángel es un Cielo. Su forma es la de un ser humano perfecto; la del Cielo lo es asimismo. Los Ángeles pueden mirar al norte, al sur, al este o al oeste; siempre verán a Dios cara a cara.
Son ante todo teólogos; su deleite mayor es la plegaria y la discusión de problemas espirituales.

Las cosas de la tierra son símbolos de las cosas del Cielo. El sol corresponde a la divinidad. En el Cielo no existe tiempo; las apariencias de las cosas cambian según los estados de ánimo. Los trajes de los Ángeles resplandecen según su inteligencia.

En el Cielo los ricos siguen siendo más ricos que los pobres, ya que están habituados a la riqueza. En el Cielo, los objetos, los muebles y las ciudades son mas concretos y complejos que los de nuestra tierra; los colores, más variados y vívidos. Los Ángeles de origen inglês propenden a la política; los judíos, al comercio de alhajas; los alemanes llevan libros que consultan antes de contestar. Como los musulmanes están acostumbrados a la veneración de Mahoma, Dios los ha provisto de un Ángel que simula ser el Profeta.

Los pobres de espíritu y los ascetas están excluidos de los goces del Paraíso porque no los comprenderían. in Jorge Luis Borges, El libro se los seres imaginarios
  • Imagem: H. R.Giger

Há metafísica bastante em não pensar em nada (Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, V).
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  • OBAMA — «O LUMINOSO», O DEFINHAMENTO CULTURAL DA AFRICANIDADE CABO-VERDIANA E A (NÃO) CRITICA DA GOVERNAÇÃO
A propósito de ter chamado o Presidente Barack Obama de o Luminoso no texto que escrevi sob o título «HILLARY CLINTON E 35 RAZÕES DA BOA (NÃO) GOVERNAÇÃO DE JOSÉ MARIA NEVES» e publicado no Liberal on line recebi alguns e-mail inusitadamente pouco simpáticos, pois, na perspectiva dos emissores dos mesmos, estaria a referir-me de forma jocosa ao Presidente Barack Obama (além de ofender os políticos cabo-verdianos). Aqui e agora, publicamente me penitencio: peço desculpas a essas pessoas; e peço desculpas por ter a veleidade de ter pensado que tal era, seria, consabido e que os olhos servem para ver. Mas como não é, explico aos mesmos o seguinte:

O nome Barack, de origem africana (da púnica Cartago), é, antes de mais e como em regra acontece, um adjectivo. O povo judaico que, segundo a Bíblia, tem origens comuns com o povo africano, também usava e usa o mesmo nome e, o que é curioso, com o mesmo significado. Encontramos o nomen «Barack», no livro de Juízes (Juízes, IV.6), mas ficaria na história pelas suas raízes africanas. Foi inicialmente usado para Amílcar que, por suas vitórias, foi cognominado como «Barak» ou «Barack»=o Luminoso e que os ocidentais chamam de «Barca». Assim, Amílcar – general e mais tarde Sufeta de Cartago que revelaria o seu projecto social e revolucionário no início das guerras púnicas (guerras entre África e Roma pelo controlo das rotas comerciais no mediterrâneo e pela posse das colónias africanas da Sicília, Hispânia e da Córsega) — ficou conhecido como Amílcar «Barca», id est: «o Luminoso».

Sendo certo que o seu filho, Aníbal (por Trébia, Tesino, Transimeno e, essencialmente, por Canas), seria mais merecedor do cognome que o pai e, com justiça, é chamado de «Barack». A história, assim o fez: herdou do pai – e pela sua grandeza (é um dos cinco maiores generais da História militar) o cognome «Barack».

E assim Amílcar e Aníbal (assim como o irmão deste, Asdrúbal — que foi menos feliz que Aníbal) ficaram conhecidos na História com o mesmo cognome: «o Luminoso» (é claro que o conquistador acidental, sim: acidental e também ocidental, se encarregaria de transformar o adjectivo em nome; na verdade, sem saber, recuperava a essência do nome em si). Os cognomes eram comuns na história antiga, como, por exemplo, o Cônsul Cipião Emiliano — conhecido como Cipião «o Africano» (por ter vencido Aníbal na trágica batalha de Zama), e o seu filho homónimo (o da queda e destruição de Cartago) como Africanas minor. Assim como Catão era conhecido como «o Censor» ou «o Velho», ou Octávio tomou o cognome de «Augusto», isto é: «divino», e que, com o tempo, de adjectivo qualificativo tornar-se-ia em nome próprio. E se o nome de Augusto foi escolhido por Octávio por razões políticas (essencialmente as mesmas que o levariam a encomendar a magistral Eneida ao poeta Virgílio), a conselho de Agripa e Caio Mecenas, o «Barack» de Amílcar emergiu da alma do povo africano que o achou e considerou um homem extraordinário, isto é: Barack – «luminoso».

Aníbal, o mais luminoso dos «luminosos» africanos (na história de África e do ocidente que o precedeu no século III a.C. encontram-se poucos nomes que o igualam em glória e fama: Seti I, Ramsés II e Amenófis IV – Akenaton em África; Péricles e Alexandre da Macedónia na Europa nascente da Grécia), seria chamado pelos ocidentais, depois retirarem o sentido ao seu nome e passar a ser Barca, de Aníbal «o Cartaginês», o nome do inimigo vencido e não Aníbal o Africano ou Amílcar Barack o Luminoso e grande estratega que a história, injustamente, se encarregaria de vituperar com a odiosa inverdade de ter sucumbido às «delicias de Cápua». Mas o nome sobreviveria na sua forma africana, e nos confins de África até chegar aos nossos dias. E o pai de Barack Obama, pela sua cultura africanista e formal, sabia porque nomeou o filho de «Barack», e em boa hora o fez – pois, por um incidente da história, retoma a memória de três dos maiores africanos da História: Amílcar, Aníbal e Asdrúbal Barack — «os luminosos». O mesmo aconteceu com o povo judaico – mesmo depois do grande exílio imposto por Tito Vespasiano – que conservou o nome; daí termos nomes como, por exemplo, o de Ehud Barak.

É que em África, mesmo na África colonizada, sempre se teve o cuidado de dar aos filhos nomes com sentido. Assim, em Cabo Verde — assim como nas colónias portuguesas em geral – desafricanizou-se os nomes, mas a consciência africana das populações fê-las adaptar-se, num fenómeno de aculturação sobrevivente e em termos onomásticos, com a arma maior do colonizador: o cristianismo. Assim, a título de exemplo, os dezasseis filhos que a minha avó materna gerou e pariu em Santo Antão foram nomeados com nomes de santos, mártires e figuras maiores do cristianismo: Eusébio, Daniel, Moisés, Sara, Efigénia, Helena… sendo ela mesma Estevina (de Estevão, o primeiro mártir do cristianismo). O mesmo se diga da minha família paterna, da ilha do Fogo: o meu avô, Pedro Alexandrino (e as dezenas de filhos que legou ao Mundo), casado com Ana, seguiu o mesmo padrão cultural ao nomear os filhos: Joaquim, Juvenal, Pedro, Virgílio… que, também, seguiriam o mesmo padrão e chamariam os filhos de Virgílio, Ana, Maria, Alexandrino, Pedro, etc… não é acidente, é cultura!, cultura no sentido mais profundo da palavra, e é um dos factores da nossa identidade que vai morrendo: os nomes dos cabo-verdianos são escolhidos à moda do modernismo europeu e brasileiro – em razão da fama de alguns no momento e não em função do sentido antropológico e metafísico do nome enquanto representação externa da pessoa.

Neste aspecto temos muito a (re)aprender com a África mais profunda, e com países como o Japão — vide, por exemplo, o cerimonial xintoísta de escolha do nome dos filhos dos membros da casa real nipónica: não são os pais que escolhem o nome mas sim os astros e pela determinação da natureza. Quanto maior foi a resistência ao colonialismo e menor foi a sua influência na vida social dos colonizados, maior foi a manutenção do sentido maior da cultura dos povos que escravizaram, oprimiram e exploraram: a sua língua e a manifestação maior da sua identificação no Mundo – o nome.

A língua e o nome estão intimamente ligados, pois o nome é que nos identifica no Mundo e tem um sentido maior do que aparenta. Por essa, e muitas razões que não cabem neste texto, é que gosto, em particular, de um o poema cabalístico de Jorge Luís Borges — El Golem (transcrevo aqui, de memória, a primeira quadra):

Se, como o grego diz no Crátilo,
O nome é o arquétipo da coisa
Nas letras de rosa está a rosa
E todo o Nilo na palavra Nilo.

E é por causa desta dimensão cabalística que o nome da mulher de Abraão foi mudado de «Sarai» para Sara e o dele de «Abrão» para Abraão. É que quando chamamos alguém pelo seu nome não fazemos algo de inócuo, invocamos a sua própria natureza e sua razão e papel no Mundo (que é, afinal, a «pessoa»).

Nós, cabo-verdianos, com a aculturação maciça que temos sofrido de Portugal e do Brasil, com as telenovelas e os programas pimbas portugueses que assaltam os lares da nossa boa e sã gente, vamos, aos poucos, transformando Cabo Verde numa cidade portuguesa (como Eça de Queirós dizia da Lisboa aculturada do seu tempo: uma cidade francesa em Portugal). Somos independentes? Sim, somos; mas culturalmente dependentes do imperim cultural do ex-colonizador; e no seu pior, pois é uma cultura de alienação, uma cultura circense e com os objectivos deste.

Confesso — e permita-me o leitor esta confissão desbragada: a verdade é que temo que venhamos a ter o mesmo destino dos estruscos. Se não cuidarmos da nossa cultura, da língua em particular (mesmo tendo a plena consciência de que o que alguns querem com o ALUPEC é uma Cátedra e emprego Ad aeternum, além de dourada reforma — mas isso é o mal menor), além de «pequenas» coisas como perpetuar o nome e o seu significado antropológico, metafísico e de memória familiar emergente do mosaico cultural que nos gerou como povo e nação. Mas cedemos ao «belo» e à «moda» de tal forma que um primo meu tem uma afim com o nome de um bolo! Sim, de um bolo. O que vale é que, por ser uma donzela formosa, dá para se brincar com o nome e confessar-se, a Marqui de Sade, faminto de doce sem ofensa. Ao que chegamos!

Assim, chamar Barack Obama de «o Luminoso» é usar o seu nome no seu sentido próprio, onomástico. Já seria um pleonasmo chamá-lo de Barack Obama, «o Luminoso», não seria? O nome é arquetismo; e, não raras vezes, esquecemo-nos disso. E de muitas outras coisas.

Por vezes, por falência de competências gnoseológicas, não se consegue discernir a essência do discurso que nos é apresentado. É fundamental saber as coisas; mas mais do que saber (d)as coisas, é preciso, é necessário saber o porquê das coisas. Aliás, bastaria saber um pouco da História de Portugal e de Espanha — que é também parte da história de Cabo verde — para vermos a variedade de cognomes dos mesmos. Enfim, desculpem lá qualquer coisinha… e, como se cantava na terra quando eu era menino (se a memória não me atraiçoa):

— «Nha Bitinha, kel côzinha…
— Qual´ê côzinha?
— Kel meio t´stomzinha…
— Entom, sê tmâ dostom, sê tra meio-s´tom e kel t´stom e meio bocê fcâ kel.»

O que é que uma forma de dizer que Aquila non capit muscas.

E para não remeter os críticos apressados para Políbio e Tito Lívio – cujas obras poderão não ser de fácil acesso – fica o conselho de consultarem Oliveira Martins (Oliveira Martins, História da República Romana, Guimarães Editores, 7ª. Edição, Lisboa, p.175) e que, certamente, encontrarão uma edição na Biblioteca Nacional. E, para aqueles que vêm nos meus escritos uma dimensão ideológica, putativa ou não, digo-Vos que Cabo Verde ainda não encontrou o seu «Barak» e que se Pedro Pires foi um bom Primeiro Ministro (descontando a dimensão de Estado de Polícia da I República), como a história a seu tempo reconhecerá, tem tido dois mandatos presidenciais que, infelizmente para ele e para a nação, não deixarão saudades. E se Carlos Veiga poderia ter levado o país a um outro patamar de realizações e não o fez, é/será por razões que foram colocadas pela sua própria voz e na primeira pessoa; mas, certamente, foi por mais do que isso.

E se o Governo de José Maria Neves, tendo condições particulares nestes dois mandatos, não tem atentado na dimensão estrutural do país a medida do desejado e ansiado pela nação e lograr uma sociedade mais justa e com menos desigualdade — e isso é inegável e reafirmado pela realidade — tal tem a ver mais com algumas das razões aduzidas por Ulisses Correia e Silva no seu artigo «Viciados na Partidarização», publicado no Expresso das Ilhas, de ontem 27-8-2009, e não por falecer-lhe competências estruturais e funcionais. Todos os governos de Cabo Verde depois da independência fizeram coisas boas, coisas menos boas e coisas más. E — além da «partidarização e do clientelismo» de que Ulisses Correia e Silva fala e de qualquer discurso ideológico — a verdade é que Cabo Verde, depois da I República, não tem vivenciada a praxis de um projecto social sustentado e adequado à nossa realidade mas sim um pragmatismo snob de mera gestão das nossas limitações.

A ambição prática de levar Cabo Verde para o lugar do melhor dos piores (como a euforia e a fobia dos relatórios e elogios magna dixit demonstram sem mais) não chega! Temos de ambicionar chegar onde podemos chegar e transcender a nossa condição; temos de ambicionar chegar onde o povo sonha e ambiciona: a um patamar de desenvolvimento efectivo e não de papel, a um patamar social onde podemos ombrear em qualidade de vida com qualquer país do Mundo. E temos condições para isso; condições para acabar com a pobreza, promover o bem-estar social, económico e cultural à medida da dimensão do país. Menos do que isso é dizer — ainda que de uma forma tácita — que o nosso povo, a nossa terra, os nossos sonhos… valem menos que os de outros quadrantes e locais do Mundo. E isso, não é verdade; não pode ser verdade.

Mas para transcendermos a nossa condição de David geo-demografico e de historicamente de condição, temos de ser ambiciosos, o Estado, os seus órgãos e agentes, e, acima de tudo, os cidadãos que não podem conformar-se com uma vida e um Estado que tem como padrões comparativos o pior dos outros. Mas para alcançar-se os bons, há que assumir-se compromissos políticos de risco, de ambição e grandeza. E para isso não se pode ter medo de perder as eleições que seguem; não se pode governar para as estatísticas, para os números e a comunidade internacional, não: há que governar-se para o povo, mesmo que o povo não percebe que se quer é faze-lo feliz, dar-lhe um nível e qualidade de vida que merece.

E se, como dizia Rabindranath Tagore, «devemos esticar as pernas de acordo com o tamanho do lençol que temos» e José Maria Neves é uma pessoa de boa vontade, tal não chega; tem de atrever-se (ele e qualquer Primeiro Ministro que se venhamos a ter) a ambicionar e a construir um Estado e uma nação que não veja os representantes dos poderosos deste Mundo que aterram nas ilhas da Morabeza como deuses vindo dos céus, como ídolos de um mundo inalcançável, como se fossem Cortez chegando ao Novo Mundo de indígenas inconscientes de que a natureza é naturalmente desigual para nos desafiar a superar o nosso paradigma existencial e não para nos impelir à uma natureza tributária… esperando a aprovação do «mais forte». Darwinismo social encapotado ou subliminar, não! O país está farto disso, o povo está farto: queremos e podemos ser tão bons como os outros; não temos de estar, constantemente, a mostrar ao Mundo — o tal de inglês ver» — que somos uns «africanos especiais», pois pretos somos, seremos e como tal nos verão, sempre! Até mostrarmos que somos o que somos: iguais, capazes, donos do nosso destino. No matter what!

Mas (salvaguardando a dimensão do discurso político, que entendo…) eu até que compreenderia o discurso de «boa governação», se soubesse que o Primeiro Ministro tivesse andado a ler Você Pode ser Quem Deseja de Robert Schuller e/ou, com Kenneth Hagin, a «chamar as coisas que não são como se já fossem» num legítimo exercício Paulino de fé (uma leitura de Hebreus XI.1, na versão do New American Standard version of the Bible, é aconselhável). Afinal – para alguns –, o sonho comanda o Mundo. Um Mundo novo sem pão e segurança, não é mundo e não é nada! Uma cesta de sonhos é menos do que uma côdea de pão e uma gota de água para o faminto e o sedento.

Criticar não é ser-se «bota-abaixo», é mais do que isso! Quem não o vê, é porque não quer ou, pior, não pode. E o lambebotismo nacional — alimentado por uma espécie de lagarta de gabinete —, acrítico, acéfalo e tributário não é, de forma alguma, do interesse do decisor político e da nação: é o cancro silencioso da cultura democrática! O nosso dever, como cidadãos, é, a cada momento, alertar quem exerce o poder para a realidade real — se não o fizermos, quem governa não conseguirá ver além do seu umbigo e dos números. E a vida real das pessoas não são números, não; é mais do que isso: é tudo. A final, há que ter-se presente o seguinte: o governante não precisa que se lhe diga o que está a fazer bem — pois só está a cumprir com o dever emergente do seu mandato e deve verificar se o que manda fazer está ou não a ser cumprido (todos os Primeiros Ministros deveriam ter dois ou três inspectores para verificarem se as decisões do Governo são ou não implementadas a tempo e em tempo útil). Precisa, sim, é de saber o que não faz, o que não bem e o que faz mal; para corrigir, melhorar, inovar e criar soluções que sirvam a Res Publica.

---- Publicação originária no Liberal

  • VOZES DE ATENTAR...
Os pobres de espírito e os ascetas estão excluídos dos gozos do paraíso porque não os compreenderiam. Jorge Luis Borges

iuris

  • IN MEMORIAM: CARLOS ALBERTO MENEZES DIREITO

  • O FIM DOS SANTOS

    Jorge Santos passou o testemunho público a Carlos Veiga – pois há que o tinha feito de facto. Como o serviço público de televisão e rádio à diáspora é deficiente, não deu (e dificilmente dará) para ver e ouvir ouvir a Declaração integral do líder formal do MPD — mas felizmente ainda se consegue ler.

    Alea jacta est! — gritará Carlos Veiga neste momento. O PAICV agora sabe o que fazer, pode(rá) trabalhar a sua agenda política que, em verdade, é mais previsível do se diz por aí. É o fim dos santos: Jorge e Livramento. Dirão que é um novo começo, pois seja. É preciso é dizerem de quê e do quê. Li o texto da Declaração; e é bem melhor que o desastre ético que se anunciava (nomeadamente no Liberal, Expresso das Ilhas e por uns passarinhos verdes anónimos por obrigação). Jorge Santos não tinha outro caminho, já o Livramento… não se livra de alguns epítetos, com a agravante de perder a oportunidade que não voltará a ter: não de ganhar, mas de mostrar que ambiciona ganhar. E a Isaura Gomes? Comeu uma pílula se silêncio? Ou já aprendeu que há coisas que não se resolvem com voluntarismo? O certo é que a sua postura neste contexto tem um preço; e não será a Presidência da República! O que virá aí? Esperemos para ver.

    O texto da Declaração de Jorge Santos é, pela importância que reveste, discursivamente sofrível mas é convincente quanto baste: o interesse e a ambição de um não se sobrepõem aos interesses do todo. Mas o texto diz mais, e só se conseguiria ver isso se conseguisse ouvir a voz do Jorge Santos, ver a sua cara — o discurso político vai para além do logos impresso. A liderança de Jorge Santos, na forma e no conteúdo estava esgotada há muito; e era preciso uma pedrada no charco, inovar-se no discurso, na atitude e na acção. Será Carlos Veiga capaz de o fazer? Capital de confiança tem; mas e o resto? O MPD não pode cair num Fiat Veiga Pereat Mundus. Que venha a renovação, de tudo o que é e for necessário!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

  • O DISCURSO DO ADEUS DE JORGE SANTOS
Caros militantes e amigos do MPD,
Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Antes de mais queria agradecer e saudar, muito sinceramente, a presença neste acto, de dirigentes, deputados, autarcas, militantes e amigos do MpD, bem como de muitos elementos da sociedade civil cabo-verdiana, sinal de inequívoco interesse e profundo envolvimento na vida política e, particularmente, na do partido que todos nós vimos ajudando a construir - o MpD - , cada um dando o que pode para a afirmação crescente de uma alternativa capaz e credível para Cabo Verde, a ser concretizada nas próximas eleições legislativas de 2011.

Na verdade, vimos percorrendo um caminho, procurando valorizar o património histórico e político do MpD, sem deixar de introduzir as correcções que julgámos necessárias para potenciar o partido para as vitórias eleitorais e a assumpção das responsabilidades políticas que o competem, no espectro político cabo-verdiano.

É assim mesmo o percurso dos partidos políticos, na assumpção plena e responsável do seu passado, mas sempre com a lucidez necessária para renovar e introduzir, sem complexos, alterações que possam assegurar uma maior eficácia no combate político e a actualização e ajustamento programático que a evolução social e os desafios da modernidade impõem.

Todos os militantes e amigos do MpD registaram, com enorme satisfação, a clara e significativa vitória nas últimas eleições autárquicas. O MpD é, inquestionavelmente, o maior partido autárquico nacional sob todas as perspectivas e o de maior convergência social.

Fizemos, todos, um grande esforço para que isso acontecesse, mesmo perante o cepticismo de alguns.Procurámos investir mais na organização, tanto no território nacional como na diáspora; procurámos melhorar a gestão financeira e as contas do partido e, hoje, apesar das dificuldades, podemos dizer que, com a contribuição de muitos, os principais estrangulamentos foram ultrapassados.

Procurámos fazer uma oposição responsável e determinada, mormente em matérias atinentes à luta contra a corrupção, transparência na gestão da coisa pública, e moralização da função política, sempre com o objectivo de colocar o Cabo-verdiano como o fim único da nossa actividade política.

De igual modo, desenvolvemos acções políticas em matérias estruturantes do regime, nomeadamente na participação no processo de revisão do Código Eleitoral, na revisão da Constituição da República e na Proposta do Salário Mínimo Nacional - factor de correcção das desigualdades sociais e de competitividade da nossa economia; procurámos relançar uma política de relações internacionais e de relacionamento privilegiado com as representações diplomáticas, acreditadas no país.

É evidente que ainda temos fragilidades. Elas são, porém, ultrapassáveis com o esforço dos dirigentes, dos deputados, autarcas, militantes e amigos do MpD. Já demos provas de que podemos vencer quando queremos; quando, com desprendimento, colocámos os interesses do MpD acima das nossas legítimas aspirações pessoais.

Caros Militantes do MpD,
Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Apresentei a minha candidatura ao cargo de Presidente do MpD, por acreditar que podia contribuir, com o meu esforço político pessoal, para a construção de uma equipa e de um projecto que pudessem conduzir o MpD para uma vitória, nas eleições legislativas e presidenciais, que se avizinham. Um militante histórico do partido, fundador e dirigente durante cerca de dez anos, o Dr. Carlos Veiga, também viria a apresentar a sua candidatura ao cargo de Presidente do MpD. Duas candidaturas legítimas, motivadas, seguramente, pelo natural desejo de fazer mais e melhor para o MpD e para Cabo Verde.

É claro que, em democracia, é normal a competição intra-partidária, factor que até contribui para clarificação das estratégias políticas e para a formação da vontade política dos militantes. Por isso, a ocorrência de duas ou mais candidaturas deve ser tomada como decorrência lógica de democracia interna.

Vários militantes perfilham esse entendimento e, na verdade, não raras vezes incentivaram-me a prosseguir com a candidatura ao cargo de Presidente do MpD. Agradeço de fundo do coração todo o apoio e a confiança em mim, assim, manifestados.

Porém, há certos momentos na vida em que somos obrigados a fazer escolhas difíceis, mas nem por isso devemos deixar de nos guiarmos por critérios de objectividade e de racionalidade. Há momentos em que se impõe submeter as nossas aspirações pessoais legítimas a um interesse geral superior.

E devo dizer que sempre defendi que as nossas aspirações políticas pessoais devem ser permanentemente confrontadas com a vontade e o interesse superior do MpD e do país. Na verdade, entendo que as nossas aspirações devem servir o partido e ajudá-lo a crescer e nunca o contrário - usar o partido para servir os nossos interesses, ainda que legítimos.

É este o entendimento que perfilho dos cargos públicos, especialmente dos cargos partidários. Procurei, assim, manter sempre a lucidez necessária para perceber o sentimento geral dos militantes e os desafios que o MpD enfrenta, não obstante todos os incentivos recebidos, para a minha recandidatura à presidência do partido.

E cedo apercebi-me de que os militantes do MpD, na sua grande maioria, preferiam um entendimento sobre projectos e equipas, à disputa interna num período relativamente próximo das eleições legislativas e presidenciais.

Por isso, repensar a minha candidatura ao cargo de Presidente do MpD passou a ser um imperativo e não representou, propriamente, um sacrifício e, muito menos, um recuo.

Penso, aliás, que ninguém de boa fé pode ignorar o impacto de uma disputa interna, neste momento, sobre as eleições legislativas e presidenciais de 2011. Ignorar este facto seria ignorar a realidade, com consequências, eventualmente negativas na estratégia e nos resultados eleitorais. Na verdade, temos um grande combate pela frente; um combate que vai exigir o máximo de nós. O máximo empenho, a máxima força.

A máxima força exige uma unidade sólida do MpD, cimentada em propostas políticas assumidas por todos e uma equipa forte, credível, e determinada.

Caros Militantes do MpD,
Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Por entender que a disputa interna - embora salutar em termos de princípios - poderia enfraquecer a disponibilidade combativa de todos e pôr em causa os propósitos e métodos, para um combate contra um adversário sempre poderoso, porque especialmente dotado de ilimitados recursos financeiros e da máquina de Estado, que não tem coibido de instrumentalizar, em seu proveito;

Porque o MpD precisa apresentar-se na sua máxima força;

Porque devemos fazer um esforço para afastar todos os factores que possam perturbar a nossa capacidade máxima de resposta no grande combate político de 2011;

Porque o que está em jogo é, afinal, o futuro do país;

Informo aos militantes do MPD e aos cabo-verdianos que não sou candidato a minha própria sucessão como Presidente do Partido.

Penso, assim, contribuir para o fortalecimento do MpD como o maior partido de Cabo Verde, apto a enfrentar os grandes desafios do futuro:

- Mais e melhor emprego, especialmente para os jovens, sem descurar o princípio constitucional do salário mínimo;

- Mais segurança e uma justiça independente, justa e pronta;
- A moralidade na administração pública, com combate firme contra a corrupção, nas suas mais variadas formas;

- Uma profunda reforma fiscal, que liberte a economia e as empresas e assegure o financiamento de despesas indispensáveis, no quadro de um Estado à medida das necessidades do país;

- O debate político responsável e construtivo sobre a necessidade de regionalização;- A questão energética e a dos transportes inter-ilhas;

- Uma maior integração das Comunidades Emigradas no processo de desenvolvimento nacional;

- A revisão constitucional e a revisão do Código Eleitoral, de forma a aprofundar e aperfeiçoar o Estado de Direito democrático; são, dentre outras, as causas pelas quais continuarei a combater e as linhas orientadoras que irei sugerir para a moção de estratégia conjunta, a ser apresentada na próxima Convenção do MpD, a 30 de Outubro, próximo.

A minha decisão não põe, pois, em causa, o meu empenhamento político, a minha entrega e a minha combatividade pelos valores e princípios, norteadores do MpD.

Posso também assegurar aos militantes do MpD que existe um quadro político de diálogo na promoção duma alternativa interna forte e mobilizadora para a liderança do MpD, face ao combate político e os grandes desafios de 2011.

Caros Militantes do MpD,
Minhas Senhoras e Meus Senhores:

É momento de nos juntarmos.
Todos são necessários, pois, é momento de mobilizar todas as capacidades para garantir a vitória nas próximas eleições legislativas e presidenciais, em nome do interesse nacional.
Juntos, saberemos construir um futuro de liberdade, democracia e prosperidade para todos os cabo-verdianos.

VIVA O MPD! VIVA CABO VERDE!
MUITO OBRIGADO!

Imagem: Echinacea Sundown

  • MOMENT(O) ZEN
Conferência de Yalta: Churchill, Roosevelt (então muito doente) e Stalin.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

iuris

Carta de Harry Truman ao Lord Justice Lawrence — sobre Nuremberga.

  • ACHADA DE SONHOS

Enquanto espero o paroxismo da febre de ti,
a tarde percorre os brincos e os aromas pétreos
legados — «Se tu viesses ver-me hoje à tardinha»,
diz ela com a voz de poeta, ataviada de jasmins.

Não há hora que não seja assim,
sonho que não crave de mel as memórias
— Oh! Porque as dores ressuscitam
e o amor e as pessoas envelhecem e morrem?

Espera, espera que a tarde não tarda; não.
Traz nas mãos o que não é ferido pelo tempo e vida.
Os espinhos ferem a sua côdea, o seu beijo-abraço
que cedo quer beijar-te, prender-te à eternidade
— acorda!, pois chega com o poema onde estiveres.

E o cansaço de felicidade fenderá o Mundo de sonhos.
E os sonhos serão achadas d'Santo António plurais.
E plurais a essência da ordem prima, a raiz plana
e plena de asas — um gemido te abarca, ó Mundo.

Imagem: Les femmes, Milo Manara

  • LIVROS QUE MERECEM MAIS DO QUE SER LIDOS
La invención de Morel, Adolfo Bioy Casares
.
Imagem: Ludwig Van Betthoven, Andy Warhol

  • DICTA CATONIS1
    Ditos de Catão, o Velho (o Censor)

Esquadrinha a vida e o carácter de quem a todos vitupera; ninguém vive sem culpa (Marco Pórcio Catão, Dicta Catonis, I.5).

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1 Passarei a publicar aqui alguns dos ditos de Marco Pórcio Catão, o Velho, também conhecido como o Censor. Este homem, sabia o que dizia... e é um dos maiores paradoxos da História clássica, tendo logrado elogios até de Santo Agostinho na De Civitate Dei. Coisa espantosa, para mim...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

  • RICH POLITICIANS AND WE, THE POOR PEOPLE

Europe wants to be an example for the World — everyone says. But to want and to be are different things, as the nature of things and reality shows every day, as now. EU commissioners 'take home more than €1m on leaving office' – says the Parliament Magazine on line. Read it! It's about you and you taxes, your vote, your life, the people you trust the public affairs, our fair Europe.

After this, read State and Utopia of Robert Nozick. We must understand those guys, the politicians, after all, we are The People, aren't we? But, will the Europeans, do what Sarah Gaskell thinks? That: "Taxpayers around Europe, whose pensions have been swallowed up in the recession, will rightly question why they are footing such an enormous bill for a handful of remote officials who they never voted for in the first place." I do not think so, for europeans like democracy, because it is safe, and allows them to live without the responsibility of thinking and the engagement on the decision making process: to vote is enough, and the politicians – the parties, I mean! – knows it. They know it and use it.

So, my brother european, when you asked me about the cleptocracy in Africa... I will show you a mirror – like Dorian Gray’s. It's politics public service or just a way of getting rich faster on people’s money? The answer, on the ground of ethics, é clear as fountain water. And comparing what can be compared, Sarah Gaskell says that "It is a topsy-turvy world when an unelected EU official is earning the same wage as the democratically elected president of the United States". And this is democracy! And I remember Adolfo Bioy Casares’ words: «No creo indispensable tomar un sueño por realidad, ni la realidad por locura.» Yes! The crisis… are just for the people, the poor people!

  • PALAVRAS FINAIS
Herbert Spencer, no leito de morte:
«El socialismo tiene que venir, y vendrá; pero ha de significar la mayor desdicha que la humanidad haya visto hasta el presente; no habrá ningún hombre que pueda hacer lo que quiera, sino que cada cual hará lo que se le diga», in Max Scheller, El Saber y la Cultura, p.8

  • VOZES DE ATENTAR...
A caridade é admirável, mas não quando toma a forma de um donativo ao Ku-Klux-Klan, John Hospers
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Imagem: Les femmes, Milo Manara

OS CONJURADOS

No centro da Europa conspira-se.
O facto data de 1291.
São homens de distintas estirpes,
que professam distintas religiões e falam distintos idiomas.
Tomaram a estranha resolução de ser razoáveis.
Decidiram esquecer as diferenças e acentuar as afinidades.
Foram soldados da Confederação e depois mercenários,
porque eram pobres e tinham o hábito da guerra
e não ignoravam
que todas as empresas do homem são igualmente vãs.
Foram Winkelried, que crava no peito as lanças inimigas
para que os seus companheiros avancem.
São um cirurgião, um pastor ou um procurador,
mas são também Paracelso e Amiel e Jung e Paul Klee.
No centro da Europa, nas terras altas da Europa,
cresce uma torre de razão e de firme fé.
Os cantões são agora vinte e dois. O de Genebra, o último,
é uma das minhas pátrias.
Amanhã será todo o planeta.
Talvez o que digo não seja verdadeiro, oxalá
seja profético.
---- Jorge Luís Borges

Salvador Dali, Mercury and Argos (1981)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

  • MEMÓRIAS DA INQUIDADE — MAIS DO QUE SILÊNCIO
Há coisas que Deus – e esta é das poucas certezas que tenho – nunca aprovou nem aprovaria. Bispos nazis, saudando o infame Adolfo Hitler! Facto da História. Há coisas que não se devem esquecer, pois são inexplicavelmente infames e contra a natureza das coisas e de situação. — «De que serve ao homem ganhar o Mundo inteiro se perder a sua alma?» – dizia o Nazareno aos seus discípulos. Caramba! Que tirassem a sotaina e adorassem Nossa Senhora d´boca vrôd pa tchom!, que fossem a Igreja do Silêncio mas não silenciada, mártires, escravos, pedaços de barro, cinzas em Awschvitz, Treblinka, Buchenbald, Birkenau… que renegassem o Cristo em voz; mas não assim! Não sabiam eles que (re)crucificavam Cristo a cada levantar de braço, a cada momento de silêncio e de cumplicidade com a guerra e o extermínio de inocentes?

Será que estes bispos leram Ad Scapulum e o Apologitcum de Tertuliano, a Suplica a Favor dos Cristãos de Atenágoras de Atenas, os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, as epístolas paulinas? Sepulcros de sotaina! Homicidas por omissão! Se estes pastores eram cristãos, eu sou Longino cravando a lança assassina no coração de Jesus Cristo; sou Satanãs! Summa injuria! O connatus essendi não explica tudo; não!
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Imagem: Bispos nazis, saudando Adolfo Hitler

  • A QUINTA-ESSÊNCIA
Não se fumava, nem havia crioulas no tempo de Aristóteles… infelizmente. Pois se se fumasse, certamente que a sua teoria do lugar natural teria outra formulação e a quinta-essência seria algo mais: palpar-se-ia nos extractos do mel vulcánico. Na Galileia não havia – que se saiba – crioulas; felizmente. É que, segundo a natureza das coisas, o filho de José e de Maria nunca teria sido o Messias se por lá andassem — afirma o meu poeta.
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Imagem: Lily Spencer

  • LIDO…

O meu ideal é uma certa indiferença: um templo que trave o devir das paixões sem ser afectado por elas, Ludwig Wittgenstein

Imagem: Gravura chinesa