segunda-feira, 20 de outubro de 2008

  • JUÍZO DE ANTENAS E DA ABUNDÂNCIA

Li no jornal Expresso das Ilhas de 16-10-2008 que um grupo de cidadãos, residentes na Rua António Aurélio Gonçalves no Mindelo, resolveu intentar uma Providência Cautelar no Tribunal de S. Vicente por causa da instalação de antenas da T+ e CV WIF que, na sua opinião, são prejudiciais à sua saúde.

Segundo o jornal, a causídica que defende os cidadãos entende que (cito) "vamos tentar fazer ver que os cidadãos não devem ser sujeitos a radiações sem que se prove que estas não são prejudiciais à saúde".

Bem a regra é que quem invoca um facto deve provar isso mesmo (o chamado ónus da prova). Mas é bem vista a posição da causídica; é sim Senhor! A actividade em si, porque emite ondas susceptíveis de afectar a saúde das pessoas, é uma actividade que deve ser considerada perigosa ou potencialmente perigosa.

E, nesta perspectiva, é susceptível de colocar em risco a saúde dos cidadãos. Assim, quem explora uma actividade com essas características deve demonstrar às entidades competentes que tal não representa um perigo para as pessoas; isto é, deve-se considerar que – em sede de providência cautelar desta natureza e com estes contornos – se inverte o ónus da prova.

Em sede de providência cautelar, e considerando os bens jurídicos que se confrontam e não estando em causa nenhum interesse público, resultará uma evidência que essa providência cautelar terá provimento.

Agora, uma coisa é a providência cautelar, outra é a acção competente em si; nesta os argumentos serão de natureza científica e o ónus da prova caberá aos cidadãos autores da acção, não às empresas. Isto é, não serão as empresas que terão, forçadamente – ainda que se verão nessa contingência – de provar que as antenas em si não representam um perigo, mas são os cidadãos que têm de provar em juízo que as antenas representam um perigo efectivo para a sua saúde e dos cidadãos em geral. Um juízo de género, «não se prova que faz mal, mas também não nos provam que não faz mal» beneficiará as empresas que serão demandadas no prazo legal.

É, sem dúvida, um problema jurídico candente no mundo ocidental (ligado à crise da abundância) que chegou às terras da Morabeza. É, sem dúvida, uma situação a seguir com atenção pois não será único nas ilhas.

À causídica que defende os cidadãos, relembro o que diz Joseph Joubert e que certamente sabe: «A justiça é o direito do mais fraco». Golias era grande; David era pequeno; não era? Não irá litigar contra o poder das empresas; vai litigar com a razão e a justiça dos seus constituintes contra a razão e a justiça das empresas em causa. É razão versus razão, com o tribunal como árbitro.

Ah, mas essas antenas, não deveriam ficar fora dos espaços urbanos? É que antes de chegar a juízo, o juízo não deveria aconselhar as pessoas com juízo a ajuizar sobre o bom juízo de colocar esse tipo de antenas nas zonas urbanas?

  • Imagem: Tibete, à noite. Como se vê, ali não há ELECTRA...

domingo, 19 de outubro de 2008

Diz-me o meu poeta:
– Não me masturbem a alma! Amanhã está cansado; eu não.

  • Imagem: Femme qui rêve a Venice, Pablo Picasso, 1900

  • MILHÕES PARA SALVAR MUNDO?
923 milhões de pessoas, segundo estimativas da FAO, a agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura, são vítimas da fome ou de desnutrição grave. Isto é, o dinheiro injectado nos mercados para salvar os bancos da falência no último mês dava para cada uma pessoas ter mais de um milhão de dólares cada. E pensar que basta alguns dólares para alimentar essas pessoas durante um mês...

Por onde andava tanto dinheiro e tanta vontade de agir?

É caso para dizer que o que falta não são meios para acabar com a fome e o subdesenvolvimento dos países pobres, o que falta é vontade de ajudar, de agir, de solidariedade activa.

Liberdade, Igualdade, Fraternidade – o grade símbolo da Europa e do mundo ocidental. Por onde andam, afinal. O mercado (para não falar da cidadania) livre, pelo que se vê, é uma mera quimera; a igualdade, definitivamente, confronta-se com a Lei novada de George Orwell: «todos são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros»; a Fraternidade... ah, a fraternidade, «a civilização do Amor», espera num limbo esquecido entre campos de trigo apodrecido – como isso tudo, como este espectáculo, qual ópera bufa, de um sistema-sepulcro caiado a cair aos bocados.

O que se segue? Não é fácil de adivinhar, basta abrirmos os olhos um pouquinho. Mal não remido, torna-se mal maior. A Europa e o ocidente em geral, não prende, definitivamente. Não me admira, assim, que os ricos temam tanto que os pobres tenham as mesmas armas que eles possuem...

Para salvar o Mundo – dizem. Mas o Mundo precisa de ser salvo de quem, afinal? Há, sempre, um Rubicão a ser transposto; e há, sempre, quem o passe – cedo ou tarde.
.
A necessidade é como a água...

  • LA CELESTINA

Yace en esta tierra fría,
Digna de toda crianza,
La vieja cuya alabanza
Tantas plumas merecía.

No quiso en el cielo entrar
A gozar de las estrellas,
Por no estar entre doncellas
Que no pudiese manchar.
· Francisco de Quevedo

  • Imagem: Qualquer porto que desejar... Só precisa de estar lá na hora certa.

E=mc2
Afinal, e se Deus jogar aos dados?...

  • O MEU POETA
Amanhece. Diz-me o meu poeta:

– Pela forma como vive, o homem revela uma fé extraordinária. Mais do que mover montanhas; move, todos os dias, a vida.

Não digo nada, mas concordo. Ia acrescentar: – «Mas precisa de amar, de dizer que ama, de esquecer o silêncio...» Pensei em explicar-lhe que hoje é, também, amanhã; e que não somos donos do tempo mas meros locatários, na verdade possuidores precários; mas achei por bem deixá-lo em paz; pois o meu poeta, o meu poeta tem mais em que pensar, anda longe do Mundo.

sábado, 18 de outubro de 2008

  • POETA ATÉ DEPOIS DO FIM E PRESCRIÇÃO
O local onde Federico García Lorca terá sido enterrado com os companheiros fuzilados em 1936 vai ser removido e os corpos exumados por decisão do juiz Baltazar Garzón que investiga as mortes e os desaparecimentos ocorridos durante a Guerra Civil de Espanha (muita gente foi morta, executada liminarmente, e lançada em valas comuns, ao estilo nazi em Auchwitz, Dachau... e das ditaduras militares sul-americanas, Chile, Argentina ou dos khmer vermelhos de Pol Pot...).

Diz arcana lenda nascida no dia da morte do poeta que, perante o pelotão de fuzilamento que o arrebataria do mundo e o levaria à Valhalla dos poetas imortais, abriu a boca, como se o Sol sobre os seus olhos fosse um beijo a desfolhar o luar – o que então podia –, e disse:

– E el Sol, todavia nasce...

E calou-se nesse dia, pois hoje, ao amanhecer, veio nos raios de Sol repetir o prenúncio do teu nome em letras de mar e sílabas definitivas. Poeta, sim; poeta mesmo depois do fim.

– Porque Baltazar Garzón, do seu gabinete da Audiência Nacional em Madrid, quer desenterrar o, hoje, mais vivo de todos os espanhóis do Século XX? Sim, porquê é que os mortos não cuidam de si mesmos e deixam os vivos em paz? Sim, porquê?... – pergunta-me o meu poeta.

– Porquê os crimes contra a humanidade são imprescritíveis – respondo-lhe.

O meu poeta, torcendo o nariz ao que – como Baltarzar Garzón – penso, pediu-me tempo para pensar. O meu poeta adora as coisas impossíveis como Deus – disse-me um dia destes. É..., cada um com a sua dor, não é?

E el Sol, todavia nasce...
.
  • Imagem: Federico García Lorca

  • O POETA PEDE AO SEU AMOR QUE LHE ESCREVA
Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.
· Federico García Lorca

  • Imagem: Millenniums Lighthouse, Luis Royo

  • SONNET XLVII, William Shakeaspeare
Betwixt mine eye and heart a league is took,
And each doth good turns now unto the other.
When that mine eye is famish'd for a look,
Or heart in love with sighs himself doth smother,
.
With my love's picture then my eye doth feast
And to the painted banquet bids my heart.
Another time mine eye is my heart's guest,
And in his thoughts of love doth share a part.
.
So, either by thy picture or my love,
Thyself away [art] present still with me;
For thou [no] farther than my thoughts canst move,
.
And I am still with them, and they with thee.
Or, if they sleep, thy picture in my sight
Awakes my heart to heart's and eye's delight.

SONETO XLVII
.
Entre olho e coração um pacto distinto,
Bem servir um ao outro deve agora.
Quando para ver-te o olho está faminto,
Ou a suspirar de amor o coração se afoga,
.
O olhar desfruta o retrato de meu amor,
E o coração ao banquete figurado
Convida. De outra vez, ao imaginado amor
O olhar a tomar parte é convidado.
.
Assim, por meu amor ou tua imagem,
És sempre presente ainda que distante,
Pois não podes do pensar ir mais além
.
Se estou com ele em ti a todo instante.
Se adormecem, tua imagem na minha visão
Desperta ao deleite vista e coração.
.
  • Imagem: Fallen Angel, Luis Royo

  • O DIA DA CULTURA CABO-VERDIANA

Estou a trabalhar num livro, sou absorvido por ele, pelo prazer de escrever o que quer... até que, de repente, lembro-me: comemorou-se o dia da Cultura em Cabo Verde... Estaciono a alma e pergunto-me: «Mas será que, com o (não) Estado da cultura, a mesma merece ser comemorada?» Ah, o que quer dizer comemorar?...

Houve, dizem-me, cantigas de agora e de antigamente (li, algures, algumas de escárnio e de maldizer); mas acho que deveria ter-se cantado o Djosa, pois a cultura está a caminho, a passos largos, de 1888 (d´zoit dôs ôite). Sim, a cultura está pelas horas da morte – ouvi dizer. Pensando nisso, d
isse ao meu poeta:

– Imitar Yukio Mishima não é, de todo, o caminho; de todas as perspectivas possíveis.

– Um enfarte do miocárdio será uma prenda extemporânea do Orçamento de Estado de 2009 à cultura? – perguntou-me, então, o meu poeta.

– Não..., acho que será mais inverno para o reumatismo crónico – respondi, usando desconhecidos dotes e dons de prognosticador. Sempre é melhor que 1888, não é?

Ah!, e lembro-me, persegue-me nestes dias – de Joubert: «Quem tem imaginação, mas não tem cultura, possui asas, mas não tem pés». E oiço, agora, o grito do anafado no sofá (vidrado no televisor, a ver a novela e rezando à ELECTRA para que não falte luz):

– Mas quem precisa de pés? Só se for para ir para o festival...

  • Imagem: Crane of Diamants, Damien Hirst

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

  • CABO-VERDIANAS VIOLENTADAS E ABANDONADAS NO BRASIL?

Há notícias de que cidadãs cabo-verdiana presas em prisões brasileiras, nomeadamente em S. Paulo sofrem agressões e sevícias (é..., é isso mesmo que está a pensar e mais ainda) da parte de outras reclusas; mais, que a sua vida corre(rá) perigo. Isso, sem que tenham a adequada protecção das autoridades prisionais ou o apoio das entidades diplomáticas cabo-verdianas.

Coisa difícil de crer; mas a verdade é que a notícia chega do Brasil e começa a ter eco em
Cabo Verde. O que quer dizer que as autoridades diplomáticas sabem disso (até por obrigação legal, ao nível do Direito Internacional) há muito. Se é assim, há que agir; e existem muitos mecanismos ao dispor do Estado cabo-verdiano...

Em termos práticos, não há muito que pensar sobre o assunto: se existe acordo entre o Brasil e Cabo Verde sobre a transferência de presos, elas deve(ria)m ser imediatamente transferidas para Cabo Verde para cumprir a penas em causa. Com vida das pessoas não se brinca, nem se espera para ver no que vai dar.

É situação que já merecia uma intervenção do Governo, através do Embaixador de Cabo Verde em Brasília (um Protesto Diplomático, que não afecta(rá) as boas relações dos países, pela violação dos direitos e garantias dessas cidadãs parece-me não só adequado mas uma necessidade) e/ou uma viagem do Ministro dos Negócios estrangeiros ao Palácio do Planalto para resolver esta questão. A acção justa é sempre respeitada pelos homens de boa vontade, como é o caso do Presidente da República Federativa do Brasil.

Os cabo-verdianos não deixam de o ser por estarem no exterior ou por terem problemas com a justiça, em Cabo Verde, no Brasil ou cochinchina! Cidadãs nacionais abandonadas à sua sorte... é coisa que custa a crer, mas, ao que parece (nem sempre o que parece é) acontece. O Governo da nação representa, também, essas pessoas.

Ah, já agora..., o que aconteceu às cidadãs presas nas Canárias (por suposto tráfico de pessoas e ajuda à imigração ilegal) e que deveriam (de acordo com o Código Penal Espanhol) ser expulsas para Cabo Verde – como pena alternativa – e não a cumprir pena em Espanha?

  • A gentileza é a essência do ser humano. Quem não é suficientemente gentil não é suficientemente humano, Joseph Joubert

Fotos: Jim Bourg / Reuters

  • A IMAGEM NÃO VALE MIL PALAVRAS
Depois do último debate presidencial, John MacCain enganou-se no caminho (porquê é que ele e Bush ou Bush e ele não se enganaram no caminho para o Iraque?) e faz essa careta digna de ganhar um daqueles concursos de caretas feitas pelos meninos traquinas na sala de aulas e nas costas dos professores. Mas quem vê, sem esta explicação do porquê da expressão de John McCain, pensa outra coisa, não pensa?

Esta imagem é daquelas com sabor, do bom. Avé, Jim Bourg!

  • OS SÁBIOS CONSELHOS SÃO PARA A CABEÇA
Perguntava a um amigo por um outro que não via há já algum tempo.

– Morreu – respondeu-me.
– Morreu, mas como morreu? Não se brinca com essas coisas, pá... – disse, meio indignado.
– É verdade, morreu mesmo. Há alguns meses... – asseverou-me, sem laivo de jocosidade, e percebi que falava verdade, que o nosso amigo tinha morrido mesmo. E perguntei-lhe, naturalmente, qual foi a causa da sua morte, pois tinha pouco mais de 30 anos.
– De SIDA.
– SIDA..., dizes?
– Sim, isso mesmo. Sabes como ele era, não é?

Sim, sabia... Era um descuidado, mais mulherengo que o meu pai (deixou «uma carrada» de filhos) e não gostava de camisinhas. Lembro-me de, um dia, percebeu que tirava o filtro aos meus «cigarillos negros» e perguntou-me:

– Virgílio, porque tiras o filtro a esses cigarros horrorosos (fumo tabaco negro que, sendo mais forte que o normal, incomoda mais que o shelltox – dizem as más línguas e os estragadores do prazer)?

Respondi-lhe com outra pergunta (que faço sempre a quem me questiona sobre este aspecto deste meu prazer):

– Sabes qual é a diferença entre fumar com filtro e sem filtro?
– Não, não sei... – volveu.
– Bem, X, a diferença é como fazer amor; com, ou sem camisinha!
Riu-se, bastante; e disse-me:

– Ah..., és dos meus! Eu não gosto de preservativos, não. Gosto é de carne com carne; sabes como é, não sabes?

Saber..., saber, sabia; pois ainda não fui para monge e já não sou virgem no que a mulheres diz respeito. Mas não pude deixar de olhar para ele, meio espantado com a resposta, com a sua inconsciência e, metendo a mão no bolso, agarrei em duas camisinhas e ofereci-lhas, dizendo:

– X, mete isto na cabeça!

Vejo, agora, que não seguiu o meu conselho...

  • HABLEMOS DE COSAS DE HOMBRES
Yo soy un hombre gentil, presupuesto.
Así, lo mejor es escribir algo más que el dolor de las cosas infantiles. Algo de muy más simples, de real y que se puede comprehender bien; ¿verdad? Así, hablemos de los condones, de fumar e la muerte. Así, me parece, estará bien para los que no les gustan las fabulas.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

  • POEMA CI, Dulce María Loynaz del Castillo
La criatura de isla paréceme, no sé por qué, una
criatura distinta. Más leve, más sutil,
más sensitiva.
Si es flor, no la sujeta la raíz; si es pájaro, su cuerpo
deja un hueco en el viento; si es niño, juega
a veces con un petrel, con una nube...
La criatura de isla trasciende siempre al mar que la
rodea y al que no la rodea.
Va al mar, viene del mar y mares pequeñitos se
amansan en su pecho, duermen a su calor
como palomas.
Los ríos de la isla son más ligeros que los otros ríos.
Las piedras de la isla parece que van a salir
volando...
Ella es toda de aire y de agua fina. Un recuerdo de sal,
de horizontes perdidos, la traspasa en cada ola, y
una espuma de barco naufragado le ciñe la cintura,
le estremece la yema de las alas...
Tierra firme llamaban los antiguos a todo lo que no
fuera isla. La isla es, pues, lo menos firme,
lo menos tierra de la Tierra.

  • O passado nunca vai para as sombras do esquecimento; faz parte de nós.

  • VOZES DE ATENTAR
«If you are poor distinguish yourself by your virtue; if rich, by your good deeds», Joseph Joubert
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  • Imagem: Jean-Claude Trichet, Presidente do Banco Central Europeu

  • MEMÓRIAS DO ESCLAVAGISMO OCIDENTAL

Há coisas que me incomodam, sempre me incomodarão.

Sabia que no Século XV havia 10.000 escravos em Portugal? A maioria esmagadora era proveniente das antigas colónias ultramarinas e que, mesmo mais de um século depois da abolição da escravatura ainda havia escravatura em algumas colónias portuguesas, nomeadamente em Angola e S. Tomé e Príncipe (entre eles muitos cabo-verdianos e seus descendentes) e que só terminou, na verdade, com a independência destes países em 1975?

Em parte a nação cabo-verdiana deve a sua existência à sua situação geográfica e ao tráfico negreiro, em particular o português e espanhol para as Américas. Ah, Cidade Velha! Quantas desgraças contemplaste e quantos sonhos quebrados pelas correntes desembarcaram no teu ventre...

A pobreza estrutural de África deve-se, em larga medida, à acção esclavagista dos colonizadores (emigração conquistadora) e a criação de uma estrutura social potenciadora da desigualdade e a sua sustentação com a manutenção do negro ignaro, inculto e iletrado; a ausência de democracia é, per si, uma desculpa de consciência do ocidente – não se reconstrói em décadas o que levou séculos a ser feito e a ser sedimentado: o subdesenvolvimento de África.

Um facto é certo, incontornável e insusceptível de ser ilidida: a Europa subdesenvolveu África e, nesse processo, enriqueceu e desenvolveu-se. Mas, ao contrário do que pode parecer, isso não acabo, não.

Gostaria de ver, um dia destes, um destes países que sofrearam a colonização e as suas populações a escravidão a processar o Estado português pela hediondez da escravatura. Nesse dia cantaria: Oh happy day... O único país que se encontra em posição de o fazer é Angola (esta é uma guerra que o Brasil, infelizmente, «não compra(ria)»), um dos grandes fornecedores de escravos para o Brasil e a América do norte.

Não morrerei, Deus assim queira, sem ver essa Justiça feita. Então, sim; deixarei de me sentir incomodado com esse passado que flutua na minha pele. Mas não com o presente (acho que mesmo depois de morto me incomodará), não com o novo tráfico negreiro que, aos poucos, vai ganhando foros institucionais; neurónios e pena precisam-se – nunca pobres.

  • Imagem: Castigo infligido a escravos

  • SIGNIFICA EL MAL QUE ENTRA A LA ALMA
    POR LOS OJOS, CON LA FÁBULA DE ACTEÓN

Estábase la Efesia cazadora
Dando en aljófar el sudor al baño,
Cuando en rabiosa luz se abrasa el año
Y la vida en incendios se evapora.

De sí, Narciso y Ninfa, se enamora,
Mas viendo conducido de su engaño
Que se acerca Acteón, temiendo el daño,
Fueron las Ninfas velo a su señora.

Con la arena intentaron el cegalle,
Mas luego que de amor miró el trofeo,
Cegó más noblemente con su talle.

Su frente endureció con arco feo,
Sus perros intentaron el matalle,
Y adelantóse a todos su deseo.
Francisco de Quevedo

  • Imagem: Emanuela Folliero

  • «São rosas, Senhor; são rosas...»

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

  • A MÃO E A FOME

Tinha, mais ou menos, seis (06) anos quando ouvi a seguinte fábula contada pela minha mãe. Ouvia-a, outras vezes – história, história... – à sombra da Lua cheia que parecia-me, na altura, só existir na Rua 10 da Ribeira Bôte no Mindelo.

Ah, memória. Recriando a história...

... Deus ao criar o homem fê-lo com os dedos todos iguais. Enquanto pensava na forma de dá-los um feitio verdadeiramente útil eis que os dedos se sentiram negligenciados e famintos. E começaram a arrazoar entre si.

– Irmãozinho..., murmurou o dedo Mindinho, fraco de fome e desfalecendo, ao Anelar. Este, ouvindo o seu lamento e percebendo o seu desespero e sem dar tempo para Deus ter um pensamento ou agir disse, disse-lhe:

– Tenho fome... – enquanto escondia o seu pão do irmão.

Daí ser o dedo que transporta a riqueza, o opulento que não se importa com a pobreza e a necessidade alheia; e o mindinho o menor de todos por não ter confiado na providência divina.

O Médio, ouvindo-os sem poder fazer nada para saciar a sua fome disse-lhe:

– Deus dará!

E Deus, vendo a sua fé, colocou-o no centro da mão e exaltou-o fazendo o maior dos dedos. O Indicador, ao escutar esta afirmação, foi acometido de falta de fé e perguntou:

– E se não der?...
.
Deus, escutando-o, percebeu que tinha pouca fé e duvidava de tudo, até d´Ele; pelo que deu-lhe o opróbrio de ser o acusador, o aferidor de medida de destinos. Quem sabe – pensava Deus –, por alguma fortuna, não viesse a indicar-lhes algum caminho. Assim, ficou um pouco menor do que o seu irmão, o exaltado Médio.

Ao ouvir o Indicador, o Polegar respondeu com voz de desespero:

– Roubaremos!

Deus, ouvindo-o, resolveu separá-lo dos outros dedos, para que não os contaminasse. Mas, na dúvida, deu-lhe forças. Por isso a mão tem a constituição conhecida. Nunca soube se foi por causa do seu instinto criminoso ou da falta de fé do Polegar... mas, olhando para a forma como a humanidade usa a mão, acho que sei a resposta.

Of Man’s first disobedience, and the fruit
Of that forbidden tree whose mortal taste
Brought death into the World, and all our woe,
With loss of Eden, till one greater Man
Restore us, and regain the blissful seat,
Sing, Heavenly Muse, that, on the secret top
Of Oreb, or of Sinai, didst inspire
That shepherd who first taught the chosen seed
In the beginning how the heavens and earth
Rose out of Chaos: or, if Sion hill
Delight thee more, and Siloa’s brook that flowed
Fast by the oracle of God, I thence
Invoke thy aid to my adventurous song,
That with no middle flight intends to soar
Above th’ Aonian mount, while it pursues
Things unattempted yet in prose or rhyme.
And chiefly thou, O Spirit, that dost prefer
Before all temples th’ upright heart and pure,
Instruct me, for thou know’st; thou from the first
Wast present, and, with mighty wings outspread,
Dove-like sat’st brooding on the vast Abyss,
And mad’st it pregnant: what in me is dark
Illumine, what is low raise and support;
That, to the height of this great argument,
I may assert Eternal Providence,
And justify the ways of God to men.
Say first—for Heaven hides nothing from thy view,
Nor the deep tract of Hell—say first what cause
Moved our grand parents, in that happy state,
Favoured of Heaven so highly, to fall off
From their Creator, and transgress his will
For one restraint, lords of the World besides.
Who first seduced them to that foul revolt?
John Milton, Paradise Lost, I

  • «Para as coisas importantes, que dizem respeito a vida e a morte, o homem é tão ignorante, tão impotente como uma criança». Rabindranath Tagore, O Naufrágio, Lisboa, 2003, P.113
  • Salvador Dali, Birth of a New World, 1942

  • A ESPERANÇA EM BARACK OBAMA TEM SUBSTANCIA – YES, WE CAN... ACABAR COM A POBREZA

Depois de ter lido «The Audacy of Hope», de Barack Obama, volto para um outro livro do agora candidato à Presidência dos Estados Unidos – «Dreams from My Father» uma obra prévia a este celebrado «The Audacy of Hope» e de natureza autobiográfica, onde fala de si, da sua vida, da mãe, de como recebeu a notícia da morte do pai num acidente de automóvel (ao que parece, segundo a mãe, o ai era um péssimo condutor) em Nairobi, no Quénia.

Dele, do pai, só tinha histórias, contadas pelos avós e pela mãe – não o via desde os dois anos. «Mais uma história de um pai que deixa o filho» – pensa-se-á. Mas não. Conta-nos Barack Obama que o pai, o primeiro estudante africano na Universidade do Hawai, foi um estudante de excelência, tendo feito um doutoramento na Universidade de Harvard e voltado para o Quénia para cumprir com a obrigação que as bolsas de estudo que teve do Estado Queniano exigiam e com o sonho de ajudar a reconstruir o país.

Mais, revela um conhecimento real de África e uma cultura invulgar; muito acima daquilo que é a ideia corrente na Europa sobre os políticos americanos e sobre os norte-americanos em geral; mas é uma ideia que, também, existe nos Estados Unidos. Lembro-me de, há alguns anos, fui até Cambrigde, à Universidade de Harvard, na companhia do meu tio Benny Brandão. Depois de tratar as coisas que tinha de tratar por lá e de ter comprado uns livros que precisava na extraordinária Harvarv Book Store, fui com ele beber uns copos. A dada altura, o meu tio, que vivia em Boston mas nunca tinha visitado aquela zona de Cambridge, saiu-se com esta tirada:

– Sobrinho, este local é diferente. Aqui respira-se inteligência...

Sorri, e pensei que, talvez, ele tivesse mesmo razão. Harvard Square é um local com um espírito próprio, um elan particular que empurra(rá) os seus discentes à excelência. Mas também, verdade seja dita, com as condições que proporciona aos estudantes e a dedicação exclusiva destes, só podem almejar a isso; é pena não ser financeiramente democrática... Barack Obama, como reconhece, não é de uma família desfavorecida; mas é de uma família que sonha com um Mundo melhor, como era o caso da mãe (vítima de cancro) que, pelo que conta, fazia mais do que sonhar.

A sua formação – em Direito e com preocupações em civil rigths, académica e familiar, deu-lhe uma dimensão humanista que contrasta com o militarismo exacerbado de John MacCain. Mas Barack Obama é, em oposição a John MacCain, mais do que isso; é um homem com ideias e com projectos, uma pessoa preocupada com o Mundo e com o seu destino e que se atreve a sonhar e a pensar a humanidade não como um campo de batalha mas como um espaço de liberdade; sim, com freedom and liberty for all.

Se votasse, votaria em Barack Obama; pois partilho da sua forma de pensar e de ver o Mundo (às vezes incomoda-me a forma como diz we wil kill Bin Laden, pois a vida, mesmo de um homem monstruoso como esse terrorista, é sagrada para mim – excepto em legítima defesa). Não é por ser preto, mas sim por pensar o que pensa. Se fosse um «preto» com a visão do Mundo de John «General Patreaus» MacCain, não teria o meu voto. Mas, uma coisa é certa: se os dois candidatos estivessem ao mesmo nível – Barack Obama está, claramente, uns furos acima – votaria, ainda, em Barack Obama por uma razão de identificação racial. Sim, isso mesmo. Um negro ou um branco que já sofreu discriminação racial percebe(rá) o que digo. Nota zero para a hipocrisia.

Estou convencido que Barack Obama arrisca-se a ficar na história da construção de uma sociedade mais justa e igualitária – ao nível de Robert Morris Sr. (o segundo Advogado negro dos Estados Unidos que patrocinou o famoso caso «Roberts v. City of Boston» que, mais de um século depois, inspirou o Supremo Tribunal Federal a produzir o celebrado acórdão «Brown v. Board of Education» que determinou o fim da segregação racial nas escolas em 1954, tendo a o «Civil Rights Act» – que acabou com a segregação e a discriminação a nível universal nos EUA – aparecido em 1964), Frederick Douglass e Martin Luther King. Se assim for, teremos, certamente, um Mundo e um amanhã melhor – e este não precisa(rá) de cantar.

Se Barack Obama seguir as pisadas da sua mãe e do seu pai, os pobres do Mundo poderão ver a esperança renascer não somente na América, mas também para o horizonte de ausência de pão que contemplam. É que acabar com a pobreza é uma daquelas coisas possíveis, daquelas que podemos todos dizer: Yes, we can! É que, como é consabido, querer é quase sempre poder, mas o que é extraordinariamente raro é o querer.

  • Imagem: Capa do livro «The Audacy of Hope» de Barack Obama

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Amanhã, 15 de Outubro de 2008, a Rádio Terra-Longe silencia-se durante 24 horas em homenagem aos pobres e vítimas da fome de todo o Mundo.

Se desejar ouvir música, poderá ouvir a Rádio Terra-Longe Clássica, clicando no link indicado à esquerda do seu monitor.
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  • Imagem: Criança vítima da fome

  • OMNIS COLOR

A um canto perdidos
no desejo
três pássaros enamorados encontrei;
confessaram-me vítimas do ouro,
da mirra e do incenso silenciados,
ao que juntei, cruelmente,
a imperfeição do seu desejo.

Volvidos meses
encontrei, embriagados da vida plena,
num mar de mel
três pássaros fecundos
ensinando asas ao mundo.

  • Imagem: Carmen Electra

  • Precisamos, mesmo, de ser predadores uns dos outros?

  • Zhang Jiuling
    THOUGHTS I
A lonely swan from the sea flies,
To alight on puddles it does not deign.
Nesting in the poplar of pearls
It spies and questions green birds twain:
"Don't you fear the threat of slings,
Perched on top of branches so high?
Nice clothes invite pointing fingers,
High climbers god's good will defy.
Bird-hunters will crave me in vain,
For I roam the limitless sky."

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

  • A POBREZA CONSTRUIDA

Atiram a pedra destruidora e depois escondem a mão. Para os pobres a Europa diz um simples e rotundo não. A Europa não receia a imigração, o que receia são os imigrantes pobres e com fraca instrução escolar. Ocorreu-me, agora, a seguinte questão:

– E se os imigrantes «qualificados» deixarem a Europa e os que deseja para suprir as suas necessidades se recusarem a emigrar para o Velho Mundo; se resolverem não partir e ficar para ajudarem a (re)construção os seus países?

Se calhar está na altura de deixarmos o «se» e passar à acção. O «brain drain» feito pela Europa aos países pobres é uma forma escandalosa de manter esses países na senda do subdesenvolvimento. O desenvolvimento humano é a maior arma que a pessoa humana tem contra a fome; privar uma nação do que tem de melhor neste aspecto é promover a miséria humana e o desiquilíbrio entre as nações. Actis non verba.

  • Video: A fome...

«Não devemos contentar-nos em falar do amor para com o próximo, mas praticá-lo». Albert Schweitzer
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  • Imagem: Vítima da fome

  • VOZES DE ATENTAR
«Não são os cabo-verdianos que têm um problema com o ALUPEC. É o ALUPEC que parece ter um problema com os cabo-verdianos».
João Branco, in Ser ou não ser Alupekiano, não é a questão, cafemargoso
  • Imagem: Hans Makart, Cleopatra

domingo, 12 de outubro de 2008

  • COISAS INSÓLITAS
Disse-me a minha irmã que o Advogado da família informou a nossa prima que uma folha de um acto registral (com inscrição de propriedades dos meus avós, agora da minha mãe e dos seus irmãos e irmãs) foi arrancada do livro respectivo; pois, ao que parece, alguém se lembrou de vender o que não é/era seu...
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E, imagine-se, ninguém notou a mutilação, ninguém sabe nada. Do Ministério Público, nem sinal; até agora. Fiquei espantado, pois isso não é um crime público, de notificação obrigatória ao Ministério Público, ao caso do Porto Novo? Santo Antão não é assim tão esquecido, até porque há coisas que entram pelos olhos adentro...
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Ai, os Senhores das Ilhas...

  • FORMAÇÃO

Recebi um e-mail do Museu da Presidência da República Portuguesa a anunciar um curso de formação em Conservação e Restauro de Documentos Gráficos e pensei: o Ministério da Cultura de Cabo Verde não deveria ter verbas para enviar técnicos para esse tipo de formação ou patrocionar essa formação complementar a estudantes com interesse formativo relevante nestas áreas? É que, parece-me, um investimento (pouco, ao nível financeiro, mas com ganhos formativos consideráveis) necessário e de qualidade.

Fica aqui a informação, a quem possa interessar.

Entre 29 e 31 de Outubro decorre, no Museu da Presidência da República, a segunda edição do curso Conservação e Restauro de Documentos Gráficos, sob a coordenação da Dra. Katia Bettencourt. O curso tem a duração de 18h.

Horário: 10h-13h; 14h30-17h30
Local: Sala de Formação do Museu
Valor da Inscrição:
Público em geral: 160€
Técnicos de Conservação e Restauro: 120€
Estudantes/Desempregados/Seniores: 90€
Informações e inscrições: Museu da Presidência da República
Tel: 213 614 660

  • ALUPECADORES OLISSIPONENSES
Não sou alupekista nem alupecador, não.
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Gosto de escrever o meu «crioulo» como Mindelense que sou e, confesso, tenho alguma dificuldade em ler de forma escorreita o «cabo-verdiano» de Agnelo Montrond, José Luiz Tavares (que teve a feliz ideia de escrever uma ópera épica em cabo-verdiano e sem a ajuda à criação artistica em "crioulo", diga-se...), Manuel Veiga, Marsianu Nha Ida Padri Ferera, Dr. Azágua, Inés Gonçalves e muitos outros... e penso que o «cabo-verdiano» dos «velhinhos» da claridade e do Zizim Figuêra é mais perceptível.
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Mas isso é coisa de Mindelense mesmo..., dir-me-á. Olhe que não; olhe que não...

Agora, se for necessário implementar as regras do ALUPEC numa base científica e tal representar uma mais valia funcional para a língua cabo-verdiana, não me oponho nem me oporei a isso – bem pelo contrário. Mas isso deve ser objecto de um consenso alargado, não de uma pressão social encapotada para tal fim e, muito menos, de qualquer rasgo iluminado dos agentes políticos ou da política.

Agora, note-se bem, os fundamentos do Decreto Lei 67/98 de 31 de Dezembro (porque o Governo não sujeitou essa sua pretensão ao parlamento? Se não teve autorização legislativa, e não teve como se verifica pela sua leitura, parece-me, que está ferido de inconstitucionalidade – pois é, enquanto direito fundamental, matéria reservada da Assembleia Nacional) ainda não foram sujeitos «à prova» cientifica que o mesmo demanda.

Ademais, o mandado legal (para além da questão da inconstitucionalidade formal, orgânica e material do diploma em causa) caducou há muito. Como ultrapassar isso? É matéria para o Ministro da Cultura e seu ministério debruçarem – mas que, do meu ponto de vista, tem uma solução relativamente fácil e democrática. Mas estará o Governo disponível, melhor, terá coragem bastante, para fazer o que deve ser feito? Veremos.

Dois amigos, alupecadores olisiponenses, elogiavam, na Sexta-feira passada, a grande obra social e antropológica em prol da língua cabo-verdiana que o Zizim Figueira vem fazendo, desde há alguns anos, com as suas «Storias Midlenses d’Soncent Cab Verd» (a merecer, há muito, distinção do Mi[ni]stério da Cultura). Depois dos rasgados elogios – merecidos, diga,se an passant – ao moderno Apóstolo do Crioulo Mindelense, esses amigos alupecadores saíram-me com uma tirada pecaminosa:

– O que o Zizim não sabe é iremos traduzir isso tudo para o ALUPEC.

– Deus! Isso é mesmo coisa de pecador! – pensei, sorrindo, contente e bebendo a minha cerveja. Afinal, estava inspirado (abençoado pelo «deus da bisca») e tinha acabado de ganhar cinco «quatros» seguidos e não sofridos aos alupekadores; facto atribuido por estes à minha relativamente longa ausência dessas lides lúdicas, uma espécie de viagra da ausência –análoga à sorte de principiante.

Agora, penso nisso e acho que foi penitência prévia pelo anunciado pecado alupecquiano. Sem «dá-lhe metáfora, dá-lhe metáfora...», podem pecar à vontade pois a diversidade é a essência do crioulo e do cabo-verdiano. Ou será que não é?...
Imagem: Lisboa

  • Imagem: Mindelo, Nuno Pombo Costa

  • VOZES DE ATENTAR
«Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seus semelhantes», Albert Schweitzer

  • Imagem: Juicio del alma (de un papiro de la xix dinastía)

Dizia o meu poeta:
…
O raro azul da pérola
é cinza
e o riso do canto é ébano
e sombra de medo
enquanto o ouro não falar
de silêncio
e os deuses não visitarem o psiquiatra.

  • Imagem: Mel Lisboa

CONFERÊNCIA

Título: «ENTRADA DE FILIPE II EM LISBOA 1619».
Apresentação pelo Prof. Dr. Vítor Serrão
Conferencista: Dr. Andreas Gehlert (Arquivo de Frankfurt)
Local: GEO/ Palácio do Beau Séjour, Estrada de Benfica, 368, Lisboa
Data: 22 de Outubro às 18:00

Filipe II, filho do Imperador Carlos V e de Isabel de Portugal, foi (como se dizia na Escola quando eu era menino) primeiro de Portugal e segundo de Espanha. Foi um dos Reis espanhóis que reinaram, também, sobre Cabo Verde. Nessa altura éramos espanhóis...

Para quem se interessa por História, é uma Conferência para se marcar presença e, quem sabe, ficar a saber que Filipe II foi muito mais do que o filho do Imperador Carlos V e perdedor da Armada Invencível. Mais, que se afastou substancialmente de muitas politicas do pai (que promoveu, na sua corte em Valhadolide, uma disputatio entre Bartolomé de Las Casas e Ginés de Sepúlveda sobre a questão de saber se os indígenas das Américas e de África tinham ou não tinha alma), ao proibir, nomeadamente, o tratamento escravos dos indígenas.
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Mas, como o decreto de um governante dura enquanto este vive... Filipe II é, no contexto de uma monarquia e do seu tempo, um Rei de boa memória para os indígenas das Américas e de África. A sociedade esclavagista que imperava em Portugal teve um abalo considerável com Filipe II - depois deste ter visto as Cortede de Tomar confirmar a sua pretensão ao trono lusitano.
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  • Imagem: D. Filipe II, Rei dos reinos de Espanha, Portugal e possessões afro-asiáticas, Países Baixos, Brasil e as Américas do Sul, Sardenha, Sicília, Filipinas, etc.

sábado, 11 de outubro de 2008

A seguir ao sexo amado, a escrita é o que mais nos aproxima de Deus.

  • Imagem: Sunrire upon an american oak tree in New England, USA

  • PREMIAR A RESILÊNCIA
A atribuição do Prémio Nobel a Martti Ahtisaari é, de certo modo, uma forma da Academia sueca demonstrar que está verdadeiramente atenta ao que se passa no Mundo e que esta distinção não é uma forma de fazer política mas de distinguir pessoas (físicas e morais) que se destacam no seu labor para a existência de uma humanidade melhor, de uma civilização de Amor, sem guerras e conflitos armados.

É, também, uma forma de penitência por, no passado, ter laureado o líder da OLP – Yasser Arafat, pois, como nos diz Albert Schweitzer, «dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única». Assim acontece com Martti Ahtisaari.
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Seguem os seus passos de negociador resiliente e oportuno, outras figuras do panorama internacional, nomeadamente africanas, como são os casos de Thabo Mbeki, Joaquim Chichano e a própria Unidade Africana.
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

  • «COMPLEXO DE ELECTRA». Ó POVO, RECLAME JUSTIÇA!

Há uma coisa que não entendo, «faz-me espécie» – como diz o bom povo: porquê é que as pessoas lesadas pela ELECTRA, pelo reiterado incumprimento do contrato de fornecimento de energia e com danos emergentes (e lucros cessantes, no que concerne às empresas) consideráveis, não processam a empresa em sede de responsabilidade civil contratual e extracontratual? Sim, porquê?...

Isso de irem até às portas da ELECTRA e não serem recebidas por ninguém (ainda que fossem, os danos já se verificaram...) é chover no molhado. Existem os tribunais e o povo deve confiar neles, pedir-lhes amparo para as suas desgraças e a sua reparação. Por isso é que o Estado é de Direito e não «da Joana», sabiam?...

Se não têm possibilidades de custear o pleito, que se dirijam às Casas de Direito e/ou à Ordem dos Advogados de Cabo Verde e peçam um Advogado – o Estado tem o dever de custear um, não é favor nenhum que faz – e avancem, com coragem, sem medos; a razão e o Direito estão, manifestamente, do Vosso lado. Medo é coisa do passado e, não se esqueçam: o direito é como a fé – sem obras é morta.

Apetece-me perguntar: por onde anda a ADECO? Tem aqui, certamente, matéria para mostrar a sua natureza aos cidadãos cabo-verdianos. Já não chega de acrescentar basta!... à mais basta? O cidadão deve dar um murro na mesa, já que o Governo não o faz.

O povo é sereno, mas não é parvo! E nem deve tolerar que façam passar por isso. Ó povo, deixai de pregar no deserto! Ide à Casa da Justiça e tê-la-ás. «Buscai e achareis» – diz o meu Mestre.
Viver o continuum da consumação do «Complexo de Electra» é, deve ser, fodido.

  • Imagem: Carmen Electra

  • HUMANA CONDITIO

Contaram-me, ontem, que morreu um amigo.

Deixou mulher. Deixou filhos. Deixou saudades. Não deixou aviso.

Oh, Deus! Porque não somos eternos, como o pensamento das gaivotas e dos corvos do Tejo?...

  • VOZES DE ATENTAR
«A nossa civilização está condenada porque se desenvolveu com mais vigor materialmente do que espiritualmente. O seu equilíbrio foi destruído», Albert Schweitzer

  • O MUNDO NUNCA FOI IGUAL PARA TODOS
Eu. Mundo. Assim, na Escola, se começa a construir a vida, o Mundo, sem Magalhães – mas está lá tudo o que é preciso.

Agora, de repente – sabe lá Deus porquê –, lembro-me que Portugal, quando saiu de Timor Leste em 1975, deixou lá uma (01) Escola. Foi o possível em 500 anos..., mas cada um coloca o seu coração de acção onde quer. Deve ter sido útil a alguém, disso não tenho dúvidas. E, creia-me, faz toda diferença para esse Mundo que caminha algures por aí, ainda com as letras de menino na alma.

Eu. Mundo. Quando eu era menino, tinha uma muda de roupa; como a maioria esmagadora dos meninos da minha mítica zona. A minha mãe lavava-a praticamente todos os dias (ao contrário de hoje, era um traquinas) e, no dia seguinte, ia para a Escola, primeiro n´Fonte Cônego e depois no Liceu Bedjo do Mindelo – um dos locais mais belos e felizes por onde viajei – limpinho. A roupa da ilha de São Vicente, na altura não havia pronto-a-vestir (nem fardas escolares), era feita de fazenda comprada na Casa Leão e era tudo muito parecido, igual; horrorosamente igual. Deus! Aprendi aí, ainda antes de aprender a ver, o que é a diferença estética. Consola.

Cresci. Hoje, não me atrevo a comprar uma camisa com padrões normalizados ou de marca conhecida, pois se vejo alguém com uma igual, deito-a fora ou ofereço-a a alguém que goste ou precise dela. Não consola, esta igualdade. Ah!, sei que há uma explicação psicológica para isso; but, who cares? Really, who?... Mas há coisas que importam, coisas eternas – e lembro-me delas. Sim, lembro-me de aprender a ver as horas num relógio a caminho da Escola e de, nela, pela primeira vez, ver: aprendera a ler. O Mundo ficou, então, menos desigual para mim. A minha alma ganhou asas, na Escola. Eu. Mundo.
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Hoje, vi uma entrevista da Ministra da Educação, Vera Duarte, no Programa do Abraão Vicente... Eu. Mundo.

  • O mal de Wall Street e dos mercados financeiros internacionais foi não estarem prevenidos contra a sua própria ganância.

  • «Las aventuras y desventuras nunca comienzan por poco», Miguel de Cervantes, Don Quijote, I, 20

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

  • OS POMBOS E O PMI DE LISBOA
Em Lisboa, há já algum tempo, foi proibido dar de comer aos pombos. Isso porque, na óptica do Município, os ditos andavam a «estragar» os monumentos, a causar prejuízos à autarquia com a manutenção dos edifícios, e, imagine-se, a procriarem demais!

Solução: só a autarquia pode alimentar os pombos, com alimentos contendo contraceptivo. Grande ideia de controlo de natalidade! Deveria ser registada na WIPO e vendida à China, à Índia, às Filipinas... (a Europa não precisa, pois anda é preocupada com a normalização do «tamanho» do preservativo – e depois admiram-se, segundo se diz, que os desgraçados saltem ou rebentem). Imagine só: arroz e milho com contraceptivo! Ah, se o Papa sabe! Ouvi dizer que o Cardeal Patriarca de Lisboa não vê pombos nem pombinhas, por isso não sabe de nada; logo, o Papa não pode saber.

Agora, é cada vez mais difícil dar milho aos pombos e estes, famintos, vão diminuindo aos pouco a sua prole e, pairando junto ao Tejo (as gaivotas migraram para a Costa da Caparica), pensam em emigrar; mas as asas são pequenas e «o continente mais próximo é África», disseram-lhes.

Pensaram melhor, os pombos, e decidiram ficar por cá; pois sempre é melhor que acabar na panela de alguém ou servir de churrasco às gentes de Plateau, Achada de Santo António ou Bela Vista. Falei com eles e suplicaram-me para pedir ao Felisberto Vieira para não emigrar para Lisboa, mesmo que goste de pombinhas coradas – acompanhadas de umas frescas – e pudesse dar uma ajudinha à Câmara Municipal de Lisboa. Disse que, iria mandar um recado; mas não sei como fazer. Ficaram preocupados, os pombos e as pombas de Lisboa.

E miram o horizonte (não será melhor o oriente?, com a crise que anda por aí...), tentados pela fantasia de uma terra-longe. Se decidirem por ir e não ficar, que levem a beleza toda. Toda!, digo. Pois terra que gosta mais de coisa que de vida, é finisterra.
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  • Imagem: Três pombinhos junto do Rio Tejo

  • A CHUVA É CULPADA?
A chuva em Cabo Verde é quase um milagre. Mas, não sei bem porquê, ainda não aprendemos a aproveitar esse milagre, nem – ao que parece – a criar infraestruturais para lidar com essa realidade.

Há coisas que, manifestamente, não podem ser atribuídas à falta de meios. Com tanta pedra para fazer estradas capazes de suportar as águas, como é possível tamanha situação? Ah, e por onde andará o engenheiro que produziu (e o responsável da Câmara Municipal que o aprovou) essa obra de arte à beira-mar?
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  • Imagem das chuvas em Santo Antão, enviadas por Zizim Figueira (Thanks, Zizim)

ESTÁGIOS E FORMAÇÃO PARA CABO-VERDIANOS
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Tive conhecimento (thanks, Gladstone!) desta oportunidade de formação para cabo-verdianos e deixo-a aqui, para quem possa interessar. Copy da infomação:
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Administração de Base de Dados

Somos a PT PRO – Serviços de Gestão - empresa do Grupo PT, e neste momento estamos à procura de Jovens – Finalistas ou Recém-Licenciados / Mestrados nas áreas da Engenharia, Informática, Matemáticas, Telecomunicações e Gestão com nacionalidade Cabo Verdiana e interesse por Administração de Base de Dados para a realização de Estágio(s) Académico(s) ou Profissionais.

O local de trabalho será a PT Sistemas de Informação no Tagusparque (Lisboa), mas poderá existir a possibilidade de o estagiário vir a trabalhar em Cabo Verde.

Agradecemos a V. colaboração na identificação de potenciais candidatos, enviando-nos os Curricula Vitae, se possível até ao próximo dia 3 de Novembro, por resposta a este e-mail.

Os curriculum podem ser dirigidos directamente à Instituição, conforme endereços abaixo.

Gabriela Lipscomb Santos
Direcção Serviços Recursos Humanos
Tlf.: +351 215003127

Recrutamento e Contratação
Fax: +351 215003066
E-mail: Gabriela.l.santos@telecom.pt
Endereço: Rua de Entrecampos, 28
1749-076 Lisboa