quarta-feira, 15 de outubro de 2008

  • A MÃO E A FOME

Tinha, mais ou menos, seis (06) anos quando ouvi a seguinte fábula contada pela minha mãe. Ouvia-a, outras vezes – história, história... – à sombra da Lua cheia que parecia-me, na altura, só existir na Rua 10 da Ribeira Bôte no Mindelo.

Ah, memória. Recriando a história...

... Deus ao criar o homem fê-lo com os dedos todos iguais. Enquanto pensava na forma de dá-los um feitio verdadeiramente útil eis que os dedos se sentiram negligenciados e famintos. E começaram a arrazoar entre si.

– Irmãozinho..., murmurou o dedo Mindinho, fraco de fome e desfalecendo, ao Anelar. Este, ouvindo o seu lamento e percebendo o seu desespero e sem dar tempo para Deus ter um pensamento ou agir disse, disse-lhe:

– Tenho fome... – enquanto escondia o seu pão do irmão.

Daí ser o dedo que transporta a riqueza, o opulento que não se importa com a pobreza e a necessidade alheia; e o mindinho o menor de todos por não ter confiado na providência divina.

O Médio, ouvindo-os sem poder fazer nada para saciar a sua fome disse-lhe:

– Deus dará!

E Deus, vendo a sua fé, colocou-o no centro da mão e exaltou-o fazendo o maior dos dedos. O Indicador, ao escutar esta afirmação, foi acometido de falta de fé e perguntou:

– E se não der?...
.
Deus, escutando-o, percebeu que tinha pouca fé e duvidava de tudo, até d´Ele; pelo que deu-lhe o opróbrio de ser o acusador, o aferidor de medida de destinos. Quem sabe – pensava Deus –, por alguma fortuna, não viesse a indicar-lhes algum caminho. Assim, ficou um pouco menor do que o seu irmão, o exaltado Médio.

Ao ouvir o Indicador, o Polegar respondeu com voz de desespero:

– Roubaremos!

Deus, ouvindo-o, resolveu separá-lo dos outros dedos, para que não os contaminasse. Mas, na dúvida, deu-lhe forças. Por isso a mão tem a constituição conhecida. Nunca soube se foi por causa do seu instinto criminoso ou da falta de fé do Polegar... mas, olhando para a forma como a humanidade usa a mão, acho que sei a resposta.

11 comentários:

Anónimo disse...

ESTÓRINHAS DA CAROCHINHA? O SENHOR QUE SABE TUDO EXPLIQUE-SE!NÃO DEIXE SUBENTENDIDO AS COISAS PORQUE NÓS, NÃO SÁBIOS, COMO V.EXA., PRECISAMOS AS COISAS DESCODIFICADAS PARA PODERMOS ENTENDER.

marisa disse...

boa tarde.uma bela història,engraçado porque antes de acabar de o ler eu ja estava a responder o que cada dedo dizia, isso porque ja conhecia essa història. història, història... tiveste uma linda oportunidade,o de a tua mãe estar a contar-lhe història,lembro-me que em cabo verde eu reunia os miùdos ,quando havia falta de electricidade(vejo k ainda essa situaçaõ da electra não està regularizada) reuniamos miùdos e graùdos faziamos fogueira ,sentavamos a volta e começavamos a contar històrias,jogavamos, era muito engraçado pk iam alguns vizinhos juntar-se a nòs.dia bom .Marisa fernandes

Virgílio Brandão disse...

Senhor Anónimo das 14:10:00,
Eu não sei tudo, não – nem queria! Pois, então, onde estaria, onde ficaria o prazer que é a grande aventura de aprender? Ibn Al Arabi e Salomão lá tinham as suas razões – o saber é um fardo e um dever, não tanto um privilégio.

Essa do sábio desse ser para algum vizinho do lado; não o vê? Procure um espelho, olhe-se, pense e verá que pelo menos uma vez na vida foi o mais sábio dos homens.

As fábulas não são para sábios, não. Esta história é uma história para crianças; entende-a como quiser; não vou descodificar nada pois, se ler bem entende(rá) o está lá. Nada mais.

Só a sua razão e a sua alma são capazes de descodificar o que quer entender.

Numa coisa tem razão – as crianças entendem coisas que nós não entendemos; ou será que esquecemos?
Abraço fraterno e dia bom

Marisa,
Sim – esta «estória» é daquelas que se contava em noites de lua e, espero (dando um fim útil às desgraças da ELECTRA, não fosse os tughs...) que ainda se contem por aí na Praia.

Mas a TV e as telenovela mataram a beleza destas histórias, amordaçaram um aspecto fundamental da nossa cultura.

:-)

Joshua disse...

Por causa das outras postagens mais polémicas acabei por passar por esta sem a ver. Ao contrário da Marisa e de ti esta não é uma história da minha infância. Só a ouvi uma vez e eras tu quem a contava. Sentado na cadeira da secretária do meu escritório com a minha sobrinha Luisa ao colo. Eras tu que a entretinhas já não sei porquê. Lembro-me até que fizeste o desenho da mão com o nome de cada dedo e tudo lol Continua a ser uma boa história no entanto prefiro a versão infantil :)

Virgílio Brandão disse...

Joshua,
Sim, a versão infantil é mais engraçada...

Ah, a Luisa já não se deve lembrar disso, não.

Bem, é bom saber que te lembras desta história; faz parte de um léxico de coisas bonitas que a memória não apaga.

Imagino a Luísa a ouvir-te dizer que andou ao colo de um pretinho grandalhão a ouvir estorinhas da carochinha... eh, eh...

Dia bom

Joshua disse...

Lá estamos nós outra vez a meter a pincelada da cor...Sabes que para uma criança de 4 ou 5 anos que olhe para ti nem repara na tua cor. O que lhe faz confusão é que parece que tu não tens cabelo!!!

Virgílio Brandão disse...

Sim,
lá está tu a levar a sério uma boca inocente (sabes que adoro ser pretinho, não é?)...

Ter tenho, mas assim estou mais cool, acho... e gosto.

marisa disse...

dr.virgilio o teu blog para alèm de ser interessante è tambèm muitas vezes engraçado,agora estava a rir-me ao ler as conversas entre tu e o sr.joshua«o k lhe faz confusão è k parece k tu não tens cabelo»
«pretinho grandalhão»,«ter tenho,mas assim estou mais cool,acho...e gosto»
quem foi k me contou esta història foi o dr.Virgilio. concordo que a tv e as telenovelas mataram a beleza destas històrias isso porque muitas das vezes em que queriamos eu e os meus primos e sobrinhos brincar ou sentar-mos a roda para contar històrias ou «partes»(traquinices k faziamos as escondidas,mas k sempre vinham a descobrir)a nossa avô nos mandava calar pk faziamos barulho e sendo assim ela não conseguia acompanhar a telenovela,è por isso k aproveitavamos sempre k não havia electricidade,e quando isso acontecia gritavamos«luz dja bai», tambèm houve dias em k havia electricidade,iamos para a varanda e falavamos baichinho, sempre a noite...saudade,saudade terra-longe e tempo canequinha ahahah ah ah . :-)marisa

Joshua disse...

Tu gostas de ser pretinho, eu gosto de ser branquinha. É pacífico. Quem tem razão é a Marisa. Isto já não e uma conversa é uma "sitcom"!
E sim estás cool assim. Já sabes, sempre preferi esta tua versão.
O que queria era chamar a tua atenção para o facto de uma criança com a idade que ela tinha na altura ser indiferente à tua cor...é um facto cientificamente provado.

Virgílio Brandão disse...

Marisa, Joshua...
Ok, ok, ok!...

I am a story teller!

Ah, Joshua, é claro que entendi o que disseste... Ainda li umas coisas, muito an passant, de um tal Jean Pia (piava...) qualquer coisa.

Além do mais, acho que as pessoas (independentemente da idade), quando me conhecem não se preocupam com a minha cor - acho que poderia ser amarelo, até rosa ou magenta que não importaria, não achas? Eh, eh...
(não vale dizer: gaba-te cesto!)

Sittcom, ah...
.-)

Virgílio Brandão disse...

Ah,
Anónimo de 16/Out/2008, 14:10:00...

Escapou-me, dizer-lhe o seguinte: Já imaginou a injustiça que é «descodificar» o que as pessoas devem perceber por si mesmas? Isso é colocar grilhetas na alma da pessoas.

Deus me livre de tamanha crueldade.

Ademais, num exercício de «grafologia internaica» (mais dia menos dia será uma ciência, penso...), não me parece que seja do tipo de pessoa que precise que lhe descodifiquem seja o que for.

Tô certo ô tô errado?