domingo, 12 de outubro de 2008

  • ALUPECADORES OLISSIPONENSES
Não sou alupekista nem alupecador, não.
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Gosto de escrever o meu «crioulo» como Mindelense que sou e, confesso, tenho alguma dificuldade em ler de forma escorreita o «cabo-verdiano» de Agnelo Montrond, José Luiz Tavares (que teve a feliz ideia de escrever uma ópera épica em cabo-verdiano e sem a ajuda à criação artistica em "crioulo", diga-se...), Manuel Veiga, Marsianu Nha Ida Padri Ferera, Dr. Azágua, Inés Gonçalves e muitos outros... e penso que o «cabo-verdiano» dos «velhinhos» da claridade e do Zizim Figuêra é mais perceptível.
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Mas isso é coisa de Mindelense mesmo..., dir-me-á. Olhe que não; olhe que não...

Agora, se for necessário implementar as regras do ALUPEC numa base científica e tal representar uma mais valia funcional para a língua cabo-verdiana, não me oponho nem me oporei a isso – bem pelo contrário. Mas isso deve ser objecto de um consenso alargado, não de uma pressão social encapotada para tal fim e, muito menos, de qualquer rasgo iluminado dos agentes políticos ou da política.

Agora, note-se bem, os fundamentos do Decreto Lei 67/98 de 31 de Dezembro (porque o Governo não sujeitou essa sua pretensão ao parlamento? Se não teve autorização legislativa, e não teve como se verifica pela sua leitura, parece-me, que está ferido de inconstitucionalidade – pois é, enquanto direito fundamental, matéria reservada da Assembleia Nacional) ainda não foram sujeitos «à prova» cientifica que o mesmo demanda.

Ademais, o mandado legal (para além da questão da inconstitucionalidade formal, orgânica e material do diploma em causa) caducou há muito. Como ultrapassar isso? É matéria para o Ministro da Cultura e seu ministério debruçarem – mas que, do meu ponto de vista, tem uma solução relativamente fácil e democrática. Mas estará o Governo disponível, melhor, terá coragem bastante, para fazer o que deve ser feito? Veremos.

Dois amigos, alupecadores olisiponenses, elogiavam, na Sexta-feira passada, a grande obra social e antropológica em prol da língua cabo-verdiana que o Zizim Figueira vem fazendo, desde há alguns anos, com as suas «Storias Midlenses d’Soncent Cab Verd» (a merecer, há muito, distinção do Mi[ni]stério da Cultura). Depois dos rasgados elogios – merecidos, diga,se an passant – ao moderno Apóstolo do Crioulo Mindelense, esses amigos alupecadores saíram-me com uma tirada pecaminosa:

– O que o Zizim não sabe é iremos traduzir isso tudo para o ALUPEC.

– Deus! Isso é mesmo coisa de pecador! – pensei, sorrindo, contente e bebendo a minha cerveja. Afinal, estava inspirado (abençoado pelo «deus da bisca») e tinha acabado de ganhar cinco «quatros» seguidos e não sofridos aos alupekadores; facto atribuido por estes à minha relativamente longa ausência dessas lides lúdicas, uma espécie de viagra da ausência –análoga à sorte de principiante.

Agora, penso nisso e acho que foi penitência prévia pelo anunciado pecado alupecquiano. Sem «dá-lhe metáfora, dá-lhe metáfora...», podem pecar à vontade pois a diversidade é a essência do crioulo e do cabo-verdiano. Ou será que não é?...
Imagem: Lisboa

  • Imagem: Mindelo, Nuno Pombo Costa

10 comentários:

Anónimo disse...

RELATIVO Á NOSSA LINGUA CABO-VERDIANA QUE DEFENDO E QUE CONTINUOA A DEFENDER! DIGO : Como poderá haver consenso num país como o nosso onde ainda há gentes a pensarem em agir desta maneira socio-politico-genocido-cutural o dictatorial ?!Essa gente ainda não saiu da sua letargia hibernal de
HOMO SAPIENS para chegarem ao estado de HOMO ERECTUS quanto mais para atingirem o NIRVANA do HOMO UNIVERSALIS!?...Não é nos bares com uns copos que vamos conseguir destruiur anos de trabalho de um individuo.Como me dizia um amigo : nemtodos podem ser autenticos, enquanto uns produzem obra, outros ou roem-se em cópias ou vivem sempre num TOTAL DESTROY! Mas que pensem em fazer o que pretendem fazer .Pois iremos longe ! De toda maneira nada alterará a minha posição.Pois o meu Crioulo ao menos tem ALMA porque não é coisa inventada uma vez que ele existe de há 500 anos.Para bom entendedor meia palavra basta. Zizim Figuera

Virgílio Brandão disse...

Zizim,
ao contrário do que possas pensar são boa gente e muito, mas muito bem intencionadas, além de que os move o amor à lingua cabo-verdiana, assim como a ti e a todos os caboverdianos que se prezam.

Meu, amigo... acho que não entendeste bem a prosa. Pois não é nada disso de «destruir» seja o que for, pois o que os meus amigos disseram foi que o teu trabalho é uma trabalho meritório, fartaente elogiado, reitero, e que quando o ALUPEC for instaurado como forma de normalização da escrita, os teus escritos serão passados para esse modelo, como uma forma de as preservar.

Não vejo nada de mal nisso (além de achar que será um pecado ver «stórias» mindelenses escritas com «k», mas isso é outra coisa), se queres que te diga.

Essa dos «bares», meu amigo, é rasteiro... pois não me digas que não vais às associações de criolos aí em Paris para conversar, falar sobre a terra, ludicar com um «quatro» e beber umas cervejas... Eu, confesso-te com bom Mindelense, acho que uma boa conversa merece uma boa bebida, bem bibide, bô ke te otchâ? Ô môce q´bô vrá francês n´iis cosa...

Como já te disse, e reafirmo, não sou grande entusiasta do ALUPEC, mas isso não é relevante para o país, o que é relevante é que se normalise a escrita, se for com o ALUPEC, que seja. Mas deve ser, de todo, objecto de um largo consenso ciêntifico.

Como estamos é que não. Isso sim, é uma forma de genocídio da nossa língua que perde a oportunidade de afirmar-se como tal.

Esta questão, Zizim, não é de ordem pessoal ou susceptível de personalização, é uma questão nacional e como tal deve ser vista. Os nossos intereses, gostos e egos devem ser deixados de lado, definitivamente.

A língua cabo-verdiana, em toda a sua diversidade, é de todos, não é de ninguém.

Todos estamos de acordo, no essencial: a língua cabo-verdiana merece um outro estatuto funcional. Assim, há que encontrar a melhor forma de concretizar isso, não achas?

Abraço fraterno

Ariane Morais-Abreu disse...

Kriolu ja volta un "Peau de chagrin", unde cada um ta pxa pa sé pedesin i ninguem ka kre oia es lingua na se globalidade i projeson. Pa mim poku ta importa skreve ma K o ma C pamode lingua é un jogo de construson evolutivo. Es guerra de cusp dos "Para i contra" é mas un perda de tempo i energia (o que mas tem txote falta). No spia pa frente i nao pa tras!!

Virgílio Brandão disse...

Ariane, este assunto é nacional questão nacional fundamental, mas por vezes faz-me lembrar as guerras do alecrim e manjerona. À final, uns acabarão por vencer e outros por triunfar?

Afinal o que está em causa é o quê? A nossa língua materna ou outra coisa qualquer? Quem pode, deve decidir de acordo com o bom juízo ciêntifico. Nem mais!

Dia bom

Ariane Morais-Abreu disse...

Nao conheço essas guerras, podes explicar!! Lol...

Sim, com certeza esta algo atras de tanta perturbaçao!!
A+

Virgílio Brandão disse...

Oh!, sorry Ariane.

«Guerras do Alecrim e Manjerona» é uma peça de teatro – um clássico português – de António José da Silva.

Coisa para ser lida! Se pudesses ver a peça, melhor ainda.

Dia bom

jose figueira,junior disse...

Amigo Virgilio o diálogo entre pessoas de bom senso é INTELIGENCIA
Acho que o assunto é muito sério para que alguém seja vaiado ou não no contexto. Não sou Advogado nem Filólogo, mas sim um Geógrafo / Geofìsico apenas curioso. Certo que poderia te falar da teoria quântica ou da deriva dos continentes etc... com mais aprumo e firmeza! Porém, quanto a ecritas e dons de oratória isto já é outra coisa. No entanto, apesar das aparências, li e compreendi muito bem tudo o que foi dito intencionalmente ali no blog ! E acho que não fiz senão dar a mimha opinião.Coisa que acho todos temos direuto?!Quanto á minha identitade de Cabo-Verdiano sei que nunca a perderei.Pois nos tempos da guerra fins de anos 60 / 70, em que estive sempre activo, fui um dos sócios fundadores da célebre Associação Caboverdiana de Rue de Flandres em Pasis 19. Onde se fez um grande e excelente trabalho, reconhecido por todos, dentro de uma linha honesta para com a nossa comunidade.O que seria muito longo a explicar-te. No entanto lá ia quase todos os dias beber o meu"grogue fazida bafa q'tchorésque o moreia; ijgá nha bisca ma nha uril; uvi musqa d'terra; matá sodade d'um exilio obrigode paquel vontade d'óiá nha Cabo Verde Livre" sem contar os bons momentos de trabalho de reflexão e consciencialização de massa que ali fizemos.HOJE JA NEM SOMOS LEMBRADOS COMO TANTOS OUTROS QUE PASSARAM MAL NA EPOCA!!!Embora que para tudo isso concientemente sei que não fiz nem mais nem menos que meu dever. Hoje porém se não frequento certos destes lugares é mais por uma questão de saúde que bem sabes fui operado de um cancer de estomago. Isso não me impede de estar actualizado e procurar seguir em grande parte a evolução do meu Povo e da minha terra Cabo Verde que tanto amo. Pois os meus esritos são também a prova evidente! Não achas ?! Leopolde Sedar Sangor, homem por quem sempre tive grande admiração, dizia conjuntamente com Aimé Cesaire que "NOUS SOMMES TOUS DES MÉTIS ACCULTURÈS"! Eu vivo há mais de 40 anos na Francofonia e tu, nem sei quantos na Lusofonia ? Acho que todos sem querermos adquirimos ou recuperamos certas caracteristicas, do momento que nos sejam profícuas, próprias dos sitios em que vivemos. Mas isso não nos impede de ser o que realmente somos... Daí a evolução de espécie HUMANA!... Quanto a escrita da nossa Lingua nunca tive tenho ou terei a pretensão de impor quem quer que seja a minha maneira de escrever. Uma vez que a Lingua evolui com o Povo e todos somos o Povo. È por isso que há por aí muita gente a querer confundir-me. Mas não vou nesta!
O Cabo-Verdiano é bilinguista há mais de 500 anos. O nosso Crioulo tem a sua base escrita Novi-Latina
quer queiramos quer não. E lá iremos singrando na sua trajectoria evolutiva. O K faz parte do alfabeto que eu saiba mas
não da maneira como vem sendo apresentado. Tenho uma documentação completa sobre a tal
conferencia sobre o Crioulo em Erlungen-Nuremberga Alemamnha em que á maoiria era estrangeira a tratar da problemática da nossa Lingua.E digo, tanto o Manuel Veiga como a Dulce Almada Duarte(sans parti pris) são os únicos culpapados de toda esta diglossia... Fraterno abraço Zizim
Figuera

Virgílio Brandão disse...

Meu amigo,
Vaiado, onde?... Na minha presença ninguém é vaiado; até inimigo, quanto mais amigo. Acho que isso deveria ser uma evidência para ti há muito.

Olha lá, meu caro, mas então que se passa?
Se, como dizes, «crioulo» é de base «Novi-Latina» e que a língua é evolutiva, sabes bem o que aconteceu à língua portuguesa na sua evolução.

Não se trata de traduzir seja o que for de ninguém; mas de considerares que daqui a alguns anos a nossa língua será diferente do que é agora, assim como já foi diferente do que é agora. A escrita tem efeitos naturais sobre a língua, como sabes.

Como sabes, eu não me preocupo com os culpados das coisas boas ou más, mas sim com a utilidade que possa advir do uso do ALUPEC ou outra coisa qualquer; só isso. Os entendidos nessa matéria devem elucidados. Não conheço essa documentação de que falas; mas se é pertinente nesta matéria, deve(rá) ser divulgada.

Como dizes, meu amigo, a inteligência e o bom senso são fundamentais. O que digo, meu amigo, é que esta questão da língua não pode ser discutida somente com paixão; bom senso e inteligência são fundamentais, sim. Nem o ALUPEC é coisa consumada, nem se deve resistir a ela sem argumentos sustentados.

Se tu e os todos os que se insurgem contra o ALUPEC têm os seus argumentos – força! Mas, também digo: o ALUPEC pode, poderá e será útil mas não é, ao contrário do que alguns dizem por aí, é algo que deve ser discutido. Se existem alternativas à escrita, que venham, já!

Meu amigo, o resto, verdadeiramente, é espuma dos dias.

Ah, um desses dias – quando passar aí por Paris –, poderemos falar sobre física sim; nomeadamente sobre o Kaos, se desejares. Sou aprendiz de principiante nesta matéria, e será bom falar com quem saiba falar com firmeza sobre isso.

Sabes, estas «discussões» valem mais pelo que não dizem do que pelo que dizem. A percepção das coisas e da realidade «ouve» e «vê» mais do que o ouvido e os olhos.

Um abraço fraterno

Ariane Morais-Abreu disse...

Obrigada Virgilio pela "précision", vou procurar na Librairie Lusophone!

Afinal esta "guerra umbilical de kusp" desvia a atençao publica do fundamental : a (verdadeira) presença de Cabo Verde no mundo. E todas as justificaçoes neste blog como noutros, demonstram a demagogia, a falta de coragem (sim!) e de distanciamento, subjectiva e temporal. Inutil falar da construçao da lingua francesa desde da "Défense et illustration de la langue française" dum Du Bellay porque as mecanicas sao similares mas a grande diferença é a energia, a motivaçao e a rigorosa disciplina para levar a cabo a construçao de uma escrita. O caso da lingua alema é interessante porque empresta ao latim as suas déclinaisons, utiliza o K e inventou letras proprias para exprimir a sua diferença... Também possuem a França e a Alemanha grandes escritores fundadores, Cabo Verde ainda esta no meio do caminho, se formos indulgentes. Que existência podera ter a nossa lingua no exterior? Somente nas letras (muitas vezes rudimentares) das musicas! Muitos ensaios provam a necessidade da alfabetizaçao na lingua materna por uma simple questao biologica de concepçao primal. A visibilidade e projecçao de CV passam pela lingua seja nas instituiçoes internacionais, como por exemplo nos concursos administrativos de categoria A onde estao presentes o Swahili, o Wolof, o Amharique, etc... fora o Caboverdiano!! Portanto serao cada vez mais numerosos os candidatos segunda geraçao de origem cv no mundo europeu como internacional. Continuar na basofaria sem fundamento revela hoje a nossa grande limitaçao. Mas nao é uma fatalidade!! Talvez é preciso sair das fronteiras cv para tomar o tino desta lingua, extraordinaria na sua genese e evoluçao (sim, fora do ordinario!!) que um pioneiro Pedro Costa personifica a sua maneira nos seus films e que milhares de expatriados falam. Da sim para refletir e deixar de lado os ressentimentos e os constrangimentos importados! Le Cap-verdien existe déjà envers et contre tous!!

Virgílio Brandão disse...

É, Ariane...

Esta questão é geradora de paixões mas tem muito mais, não?...

»Quem tem ouvidos que ouça...»

Dia bom