quinta-feira, 16 de outubro de 2008

  • MEMÓRIAS DO ESCLAVAGISMO OCIDENTAL

Há coisas que me incomodam, sempre me incomodarão.

Sabia que no Século XV havia 10.000 escravos em Portugal? A maioria esmagadora era proveniente das antigas colónias ultramarinas e que, mesmo mais de um século depois da abolição da escravatura ainda havia escravatura em algumas colónias portuguesas, nomeadamente em Angola e S. Tomé e Príncipe (entre eles muitos cabo-verdianos e seus descendentes) e que só terminou, na verdade, com a independência destes países em 1975?

Em parte a nação cabo-verdiana deve a sua existência à sua situação geográfica e ao tráfico negreiro, em particular o português e espanhol para as Américas. Ah, Cidade Velha! Quantas desgraças contemplaste e quantos sonhos quebrados pelas correntes desembarcaram no teu ventre...

A pobreza estrutural de África deve-se, em larga medida, à acção esclavagista dos colonizadores (emigração conquistadora) e a criação de uma estrutura social potenciadora da desigualdade e a sua sustentação com a manutenção do negro ignaro, inculto e iletrado; a ausência de democracia é, per si, uma desculpa de consciência do ocidente – não se reconstrói em décadas o que levou séculos a ser feito e a ser sedimentado: o subdesenvolvimento de África.

Um facto é certo, incontornável e insusceptível de ser ilidida: a Europa subdesenvolveu África e, nesse processo, enriqueceu e desenvolveu-se. Mas, ao contrário do que pode parecer, isso não acabo, não.

Gostaria de ver, um dia destes, um destes países que sofrearam a colonização e as suas populações a escravidão a processar o Estado português pela hediondez da escravatura. Nesse dia cantaria: Oh happy day... O único país que se encontra em posição de o fazer é Angola (esta é uma guerra que o Brasil, infelizmente, «não compra(ria)»), um dos grandes fornecedores de escravos para o Brasil e a América do norte.

Não morrerei, Deus assim queira, sem ver essa Justiça feita. Então, sim; deixarei de me sentir incomodado com esse passado que flutua na minha pele. Mas não com o presente (acho que mesmo depois de morto me incomodará), não com o novo tráfico negreiro que, aos poucos, vai ganhando foros institucionais; neurónios e pena precisam-se – nunca pobres.

  • Imagem: Castigo infligido a escravos

17 comentários:

Joshua disse...

Desculpa lá a franqueza mas fico sempre indignada com estas teorias compensatórias. O passado passou. Se os descendentes dos escravos têm direito a alguma coisa é ao seu presente em igualdade. E depois todos, mas todos, descendemos de escravos. Para além disso, como sabes, nos dias de hoje já nem é a cor da pele que dita esse fim. As redes esclavagistas democratizaram o espectro. Pela tua ordem de ideias os judeus teriam direito a quê? Apenas à indemnização da Alemanha e seus aliados? Ou também poderiam processar Portugal e Espanha pelas expulsões com 500 anos? E que país processariam pela destruição do Templo? Ou será que não têm direito a nada porque são maioritariamente branquinhos.Give me a brake, Dji.

Ariane Morais-Abreu disse...

Infelizmente na Conferência de Durban comprometeram os nossos (sem memoria) governos toda tentativa de pedido de reparaçao. Alienaram-se mais uma vez!! Mas sera o Direito dos povos alienavel?!

Ariane Morais-Abreu disse...

Somente em 2006 encerrou-se a commissao internacional de indemnizaçao dos judeus espoliados. Foram até o fim possivel porque sabem os judeus concretamente o que perderam além das vidas. Exemplo de perseverança!

Virgílio Brandão disse...

Ajosue,
Não se trata de teorias compensatórias, não! É uma questão de justiça.

Não comparemos os actos de Tito ao destruir Jerusalém (segundo Flávio Josefo arrepender-se-ia da sua acção), nem a grande expulsão dos judeus da península ibérica ou mesmo o genócidio judeus da II Guerra Mundial com o problema do tráfico negreiro e o empobrecimento voluntário de África (que agora acontece, de outra forma, como sabes – basta ver as novas leis de imigração que por aí nascem e a s intenções da UE) e das suas populações.

Até porque, lembro, ouve situações bem mais graves cometidas – inclusive pelos Judeus (bastará ler os livros de Números e de Deuteronómio para se ter uma ideia... – cometidas contra os africanos do que as que te referes.
Acho que não preciso de te lembrar nada disso; ou serão precisos exemplo?

São realidades diferentes, Vita... Não é uma questão de cor, como sabes e nem precisarei deter-me neste aspecto. É uma questão de Justiça. E existem direitos que são inalienáveis e imprescritíveis (por isso, ainda hoje, se caçam nazis que participaram nas atrocidades da II guerra mundial).

Não podem é ser imprescritíveis para uns e não para outros; não é? Basta dares uma vista de olhos nos fundamentos das decisões dos tribunais de guerra de Nuremberga e de Tokyo para perceberes o que digo. Ou então, vê lá só o acordo recente entre a Itália e a Líbia pelo período colonial... é de pensar(mos) que é por causa do petróleo líbio e não por uma questão profundamente moral, de responsabilização histórica, de reparação do dano causado?

É Vita, tens razão em ficar indignada; mas por não haver compensação – os países antigos colonos ainda beneficiam da sua acção colonial (e sim, democratizaram, a nível institucional, a «contratação», como faziam para S. Tomé...) e não são somente os traficantes de seres humanos, para outros fins que não o trabalho, que são novos negreiros, não...

Desculpa lá a franqueza, Joshua... bu i don´t give you a break; no!

O passado nunca vai, faz parte de nós.

Dia bom

Virgílio Brandão disse...

Ariane,
espero (com o escrito anterior)ter respondido à tua questão...
Dia bom

João Branco disse...

Bem, se é para cair nos ridiculos pedidos de desculpa que pareece que estão na moda, mais vale estar quieto..

Virgílio Brandão disse...

João, olhe que no caso da Itália/Líbia não bem isso que aconteceu.

Houve sim, um «mea culpa», mas, também, uma compensação considerável ao povo líbio e a ser aplicado em programas de desenvolvimento.

O problema é que na Europa nunca se reconheceu as atrocidades cometidas; nunca se ouviu um mea culpa...

Abraço fraterno

Joshua disse...

Numa coisa estamos de acordo: não há reparação possível. Por outro lado a solução pela qual tu anseias não me parece justa. Não podemos descontextualizar os "erros" do período histórico em que ocorreram.

Ariane Morais-Abreu disse...

O ridiculo nao é o pedido de justiça mas sim a obstinaçao hoje totalmente descomplexada em banalizar e minimizar o que foi uma das mais violentas atrocidades humanas. E uma mania tentar sempre imputar a culpa as vitimas?! O tempo é que manda, nao a mediocridade dos homens. Incrivel ver que sao sempre os que cometem crimes que se ofusquem e gritam ao ridiculo quando tem de reconhecer os crimes e de assumi-los publicamente. Numa familia, fazer desculpas ou pedir perdao, segundo os padroes judeo-cristao da civilizaçao ocidental, é o minimo quando sabemos que agimos mal. Sera que a justiça serve somente para os que pensam ter todos os direitos ad vitam eternam? Em Cabo Verde, sabemos que o feitiço volta sempre contra o feiticeiro, entao com mea culpa ou sem mea culpa os malfeitos se pagam aqui... e pelos vistos ja apita o fim da mascarada!! Nao somos amnesicos perante os permanentes maltratos. Nao é preciso fazer desenhos!! Nunca o perdao, nem a redempçao dos Europeus poderam desfazer o que esta feito.Que sejam pelo menos coherentes com a propria historia e consciência humana!!! Quieto nao se pode ficar porque o roubo queima sempre as maos e as almas!! Pois é mesmo ridiculo ver a maneira como os Europeus tentam escapar egoistamente as suas responsabilidades historicas perante os negros e outros povos...

Virgílio Brandão disse...

Hum...

Joshua,
Contexto..., talvez o século XIV; sim. Ah, sabes que essa forma de escravatura foi inaugurada pelos portugueses e espanhóis?

Mas e o que dizer da que se manteve até o Século XX? Sabes o que aconteceu com os cabo-verdianos levado para S. Tomé Príncipe e escravizados nas roças?

Mr. Cadbury, denunciou isso e, até, durante muito tempo a empresa não comprou o cacau de S. Tomé.

Há contextos e contextos.

Já agora, porque achas que não é justo uma reparação (que é somente uma forma de repararar parte do mal causado - ao caso o subdesenvolvimento, não o resto, pois há coisas que são insusceptíveis de reparação) pelo mal perpertrado?

Ariane,
a verdade é que o ocidente não se sente culpado por isso. De Las Casas e o Padre António Vieira são excepções. Não é estranho que assim seja, pois a Igreja cristã tem muitas culpas nisso; mas penitência... Quem se castiga a si mesmo?

Dia bom

Ariane Morais-Abreu disse...

Culpa que significa culpa para eles?! Ah, a igreja crista que desgraça para os Negros (e a humanidade)!!! Quando se começa com mentiras, ha de sempre ir torto e rabes!! Ela ganhou muitas culpas e demasiadas riquezas que até hoje cumula em Cabo Verde em detrimento das populaçoes (rurais essencialmente). Nao estranharia que ela esteja também nas escuridoes bem obscuras deste nova crise mundial... Esta sempre do lado do poder e do dinheiro!

Virgílio Brandão disse...

Ariane,
é como digo: podemos melhorar a natureza humana, mas não mudá-la...

Dia bom

Joshua disse...

O.K. Virgílio,
Falemos então do Portugal do séc. XX e até à entrada para a CEE. Da pobreza da população, do analfabetismo, da tacanhez, da mortalidade infantil, das campanhas de vacinação dos anos 70, da distribuição de leite para a escolas porque só assim as crianças teriam a sua dose diária de proteinas, das casa sem WC, sem água corrente, sem saneamento básico. Parece-te que estou a descrever uma potência colonial? Onde estão os sinais da riqueza usurpada às populações indígenas?
Portugal fez uma colonização igual a si próprio: pobre e subdesenvolvida.
Faz algum sentido o pedido de uma reparação pela falta de visão e desgoverno de um país?
E depois porquê reparar apenas as situações mas recentes?Porquê parar aqui? Não será injusto indemenizar umas situações em detrimento de outras? Ou vamos dar início a uma bola-de-neve e reparar a história até Adão e Eva?
Quanto a Itália e a Líbia não parece um bom exemplo nem comparável ao caso português.

Virgílio Brandão disse...

Joshua,
lembras-te da parabola dos talentos? Pois...

Séc XX? Mas, e o interior do país, ainda hoje?

Já agora, o exemplo da Líbia não é comparável porquê? Just to check oit se estamos a pensar na(s) mesma(s? coisa(s)...

Sabes, até que era uma boa ideia, «reparar» as coisas até Adão e Eva (coitada, deixou-se enganar...). Assim, voltava ao paraíso. Não..., pensando melhor, acho que não! Acho que me arriscava a perder a possibilidade de visitar as portas do paraíso e isso é muito, mas muito má ideia...

Mas isso é outra conversa.

Ah, o Governo é representação de um povo: não fala por si nem age por si - faz tudo em nome do povo e este é que é responsável.

Joshua disse...

Então mas a Itália não invadiu a Líbia no início do século XX por causa de uma situação qq na Turquia? E não estiveram sempre em guerra mm depois de a Líbia ter passado a fazer parte da Itália? A coisa não se resolveu só depois da 2ª GGuerra?
A colonização portuguesa vem no seguimento dos descobrimentos e tem 500 anos...
Ah, o governo em Portugal, que fez tudo em nome do povo era uma ditadura. Basta ler Camilo Castelo Branco, não não te recomendo " O Amor de Perdição", estou a falar de "A Corja" ou de "A Queda de um Anjo" para perceber como eram eleitos os nossos representantes ou seja o Governo de Portugal antes da ditatura.
Such a cute little country!
Abracinhos e Abrações para ti

Virgílio Brandão disse...

Joshua,
Sim, existe essa diferença substancial – ao nível da motivação – entre a colonização italiana da Líbia e, ao caso, a portuguesa e a espanhola de Africa e das Américas. Mas existe uma outra razão mais profunda, e que tem a ver com o facto das relações da Itália com a Líbia serem bem mais complexas ao nível histórico do que parecem...

Por exemplo, a Tripolândia foi colónia romana antes de Cristo; assim como o contrário é verdade: parte da península itálica (assim como do Sicília, Corsega e Sardenha) foram, também sujeita à colonização norte-africana. É, sem dúvida, uma questão diferente.

Ah, Obrigado por me recordares Camilo Castelo Branco e me fazeres lembrar essa figura ímpar que é o morgado, deputado – digo, Calisto Elói. «A Queda de um Anjo» é uma das minhas obras favoritas (bem mais interessante que «Amor de Perdição») da literatura portuguesa e não só, aliás, está na minha lista de «livros que merecem ser lidos» http://terra-longe.blogspot.com/search?q=livros+que+merecem+ser+lidos

«A Corja» nunca li; mas lerei, pois o título em si é uma boa farpa, para hoje, para hoje... As coisas não mudaram assim muito, não. Mas os «representantes» do povo, esses andam aí; mas são, a bem ou a mal, representantes do povo.

The country is cute, yes. But little (I am not talking about Stuart!... who is cute) minds?... Definitely. I agree with you Joshua.

Ah!, for last but not least, e como dizia o outro em «Recordações da Casa Amarela» de João César Monteiro: «Adorei, adorei, adorei...» Ah, Ah.....

:-)
PS: that´s for the sitcom idea.

Joshua disse...

"A Corja" é a continuação do "Eusébio Macário" o português que vai pobre para o Brasil, regressa rico e chega a comendador...
O Camilo é um dos meus escritores preferidos...e sempre actual.
Tenho que dar uma espreitadela na tua lista para ver se há mais coincidências!