quarta-feira, 15 de outubro de 2008

  • A ESPERANÇA EM BARACK OBAMA TEM SUBSTANCIA – YES, WE CAN... ACABAR COM A POBREZA

Depois de ter lido «The Audacy of Hope», de Barack Obama, volto para um outro livro do agora candidato à Presidência dos Estados Unidos – «Dreams from My Father» uma obra prévia a este celebrado «The Audacy of Hope» e de natureza autobiográfica, onde fala de si, da sua vida, da mãe, de como recebeu a notícia da morte do pai num acidente de automóvel (ao que parece, segundo a mãe, o ai era um péssimo condutor) em Nairobi, no Quénia.

Dele, do pai, só tinha histórias, contadas pelos avós e pela mãe – não o via desde os dois anos. «Mais uma história de um pai que deixa o filho» – pensa-se-á. Mas não. Conta-nos Barack Obama que o pai, o primeiro estudante africano na Universidade do Hawai, foi um estudante de excelência, tendo feito um doutoramento na Universidade de Harvard e voltado para o Quénia para cumprir com a obrigação que as bolsas de estudo que teve do Estado Queniano exigiam e com o sonho de ajudar a reconstruir o país.

Mais, revela um conhecimento real de África e uma cultura invulgar; muito acima daquilo que é a ideia corrente na Europa sobre os políticos americanos e sobre os norte-americanos em geral; mas é uma ideia que, também, existe nos Estados Unidos. Lembro-me de, há alguns anos, fui até Cambrigde, à Universidade de Harvard, na companhia do meu tio Benny Brandão. Depois de tratar as coisas que tinha de tratar por lá e de ter comprado uns livros que precisava na extraordinária Harvarv Book Store, fui com ele beber uns copos. A dada altura, o meu tio, que vivia em Boston mas nunca tinha visitado aquela zona de Cambridge, saiu-se com esta tirada:

– Sobrinho, este local é diferente. Aqui respira-se inteligência...

Sorri, e pensei que, talvez, ele tivesse mesmo razão. Harvard Square é um local com um espírito próprio, um elan particular que empurra(rá) os seus discentes à excelência. Mas também, verdade seja dita, com as condições que proporciona aos estudantes e a dedicação exclusiva destes, só podem almejar a isso; é pena não ser financeiramente democrática... Barack Obama, como reconhece, não é de uma família desfavorecida; mas é de uma família que sonha com um Mundo melhor, como era o caso da mãe (vítima de cancro) que, pelo que conta, fazia mais do que sonhar.

A sua formação – em Direito e com preocupações em civil rigths, académica e familiar, deu-lhe uma dimensão humanista que contrasta com o militarismo exacerbado de John MacCain. Mas Barack Obama é, em oposição a John MacCain, mais do que isso; é um homem com ideias e com projectos, uma pessoa preocupada com o Mundo e com o seu destino e que se atreve a sonhar e a pensar a humanidade não como um campo de batalha mas como um espaço de liberdade; sim, com freedom and liberty for all.

Se votasse, votaria em Barack Obama; pois partilho da sua forma de pensar e de ver o Mundo (às vezes incomoda-me a forma como diz we wil kill Bin Laden, pois a vida, mesmo de um homem monstruoso como esse terrorista, é sagrada para mim – excepto em legítima defesa). Não é por ser preto, mas sim por pensar o que pensa. Se fosse um «preto» com a visão do Mundo de John «General Patreaus» MacCain, não teria o meu voto. Mas, uma coisa é certa: se os dois candidatos estivessem ao mesmo nível – Barack Obama está, claramente, uns furos acima – votaria, ainda, em Barack Obama por uma razão de identificação racial. Sim, isso mesmo. Um negro ou um branco que já sofreu discriminação racial percebe(rá) o que digo. Nota zero para a hipocrisia.

Estou convencido que Barack Obama arrisca-se a ficar na história da construção de uma sociedade mais justa e igualitária – ao nível de Robert Morris Sr. (o segundo Advogado negro dos Estados Unidos que patrocinou o famoso caso «Roberts v. City of Boston» que, mais de um século depois, inspirou o Supremo Tribunal Federal a produzir o celebrado acórdão «Brown v. Board of Education» que determinou o fim da segregação racial nas escolas em 1954, tendo a o «Civil Rights Act» – que acabou com a segregação e a discriminação a nível universal nos EUA – aparecido em 1964), Frederick Douglass e Martin Luther King. Se assim for, teremos, certamente, um Mundo e um amanhã melhor – e este não precisa(rá) de cantar.

Se Barack Obama seguir as pisadas da sua mãe e do seu pai, os pobres do Mundo poderão ver a esperança renascer não somente na América, mas também para o horizonte de ausência de pão que contemplam. É que acabar com a pobreza é uma daquelas coisas possíveis, daquelas que podemos todos dizer: Yes, we can! É que, como é consabido, querer é quase sempre poder, mas o que é extraordinariamente raro é o querer.

  • Imagem: Capa do livro «The Audacy of Hope» de Barack Obama

8 comentários:

Joshua disse...

É bom deixar a hipocrisia mas o que dizer da demagogia? Obama não é preto. É tão branco quanto preto. Obama é mulato ( ups! politicamnete incorrecto). É um Mulato educado/criado pela sua família branca que mais tarde se reconciliou com a sua metade africana. Votarias nele por uma questão de identificação racial. Boa! E se ele fosse apenas 1/4 preto ou menos. E se o outro candidato apresentasse um bisavô afro? Para muitos Obama é preto " à rasca" ou seja não é suficientemente preto. De outra forma partilho o teu entusiasmo.

Virgílio Brandão disse...

Joshua,
As pessoas que nunca foram discriminadas ou que não conhecem história dos EUA neste aspecto dificilmente entenderão a esperança que Barack Obama representa para o fim efectivo da discriminação.

O facto de ser mãe branca e pai negro, só ajuda à reconciliação social de uma sociedade ainda fragmentada pelo espectro racial.

A demagogia é terreno em que Barack não deve entrar, de todo. Bem que é empurrado para aí...

Sei que mesmo entre os afro-americanos há muito que acham que ele não é negro o suficiente – mas esses são o Bloco de Esquerda e o PCP do sítio: não desejam que certas questões sociais sejam sanadas para não perderem objecto de discurso e acção politicas...

A natureza humana, Joshua, não tem cor; tem maldade.
VB

Joshua disse...

Acho que não percebeste bem o meu comentário ou então eu não me expliquei devidamente. Manifestar a intenção de voto num candidato pelo cor da sua pele só mostra como estamos ainda a anos luz do que deveria ser. E depois ao fazeres tal afirmação até parecia que estavas a negar a sua ascendência branca.
Estamos todos, os que acreditamos na reconciliação como tu dizes, muito entusiamados com estas eleições.
A propósito, sabes que minha irmã, "the successful one" vive agora nos states?

Virgílio Brandão disse...

Joshua,
percebi, sim... O que acontece é que estamos onde estamos; e as coisas são como são.

Nunca votaria em ninguém incompetente por causa da sua cor; sabes que não! O que digo é que este é o momento para a sociedade americana se reconciliar de vez com o seu passado; o facto de Barack estar na fronteira dos dois grandes focos de tensão racial ajuda(rá) isso.

Sabes, quer queiramos quer não, existe o fenómeno de «identificação» racial, étnica, de situação, de género, da «nacionalidade», etc... Não se gosta de dizer as coisas com a clareza devida, mas... Do you got the picture? I think so.

E quem está em minoria sente isso de outra forma, mais sofrida, gerando resiliência e resistências...

Agora, como também sabes, eu estou sempre do lado socialmente mais «frágil»; a não ser que não tenha razão, naturalmente.

Mas, e não é que o Barack está numa esfera política que me desperta particular simpatia?

A tua mana,
Não me admira, esta terra é demasiado pequena para a ambição de quem é capaz e quer dar oportunidade à sua ambição. Acho que ela está no seu «lugar natural».

Agora, se é a «sucessful one»... é coisas que tenho as minhas dúvidas. São (lembro-me da rua do canal...) medidas diferentes que usam, não é? É relativo, muito relativo. Eu diria que a sucessful one és tu; mas´só tu sabes.

Dia bom

Joshua disse...

A Rua do Canal. A memória tem coisas curiosas...de repente sem dar por isso conservamos uma série de detalhes. What else do you remember? No answer required :), please.
Bom início de semana para ti.

Virgílio Brandão disse...

Ok.

Ah, a Filomena foi para a Guiné-Bissau?

:-),
Que seja uma boa semana, para ti também

Joshua disse...

Não. Afinal havia outra. Ele ainda disse que era uma prima. Todos sabemos que "quanto mais prima mais se lhe arrima"...ou não?

Virgílio Brandão disse...

Ah, ah... ninguém merece, ela muito menos.

Mas olha, Joshua, que na Guiné Bissau é tudo primos – como diz um amigo. O povo é sábio, nalgumas coisas, como nesta.

Na minha família, há algumas gerações atrás (numa época em que estava entre as abastadas deste mundo), todos se casavam entre si.

Um dia, perguntaram a um dos meus familiares, penso que o meu bisavó, porque é que se casavam assim, primos com primas, e ele respondeu:

– O bem faz-se é na família...

Etimologicamente, elas estão primeiro; não é? É uma boa razão para a primo-confraternização.

Um dia deste vou escrever uma «história de primas» que, há alguns anos, um amigo me contou. Não é de rir, mas é engraçada. É..., de primas!

Ah, natureza...

:-)