domingo, 8 de março de 2009

  • MOMENTO ZEN

Compartilho este texto de Tenzin Gyatso, cujo sentido subscrevo na íntegra. E, note-se, nem sempre compartilho das posições do Dalai Lama - não das que ele toma, não; das que ele não toma. Mas isso fica para depois, outra hora.

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UMA ÉTICA PARA O NOVO MILÉNIO

«Cada uma de nossas acções conscientes e, de certa forma, toda a nossa vida podem ser vistas como resposta à grande pergunta que desafia a todos: "Como posso ser feliz?"

No entanto, estranhamente, minha impressão é que as pessoas que vivem em países de grande desenvolvimento material são de certa forma menos satisfeitas, menos felizes do que as que vivem em países menos desenvolvidos. Esse sofrimento interior está claramente associado a uma confusão cada vez maior sobre o que de fato constitui a moralidade e quais são os seus fundamentos.

A meu ver, criamos uma sociedade em que as pessoas acham cada vez mais difícil demonstrar um mínimo de afecto aos outros. Em vez da noção de comunidade e da sensação de fazer parte de um grupo, encontramos um alto grau de solidão e perda de laços afectivos.

O que gera essa situação é a retórica contemporânea de crescimento, desenvolvimento económico, que reforça intensamente a tendência das pessoas para a competitividade e a inveja. E com isso vem a percepção da necessidade de manter as aparências – por si só uma importante fonte de problemas, tensões e infelicidade.

O descaso pela dimensão interior do homem fez com que todos os grandes movimentos dos últimos cem anos ou mais - democracia, liberalismo, socialismo – tenham deixado de produzir os benefícios que deveriam ter proporcionado ao mundo, apesar de tantas ideias maravilhosas.

Meu apelo por uma revolução espiritual não é um apelo por uma revolução religiosa. Considero que a espiritualidade esteja relacionada com aquelas qualidades do espírito humano – tais como amor e compaixão, paciência, tolerância, capacidade de perdoar, contentamento, noção de responsabilidade, noção de harmonia – que trazem felicidade tanto para a própria pessoa quanto para os outros.

É por isso que às vezes digo que talvez se possa dispensar a religião. O que não se pode dispensar são essas qualidades espirituais básicas. » in Tenzin Gyatso (Dalai Lama), Uma Ética Para o Novo Milénio, Rio de Janeiro, 7ª Edição, 2000

  • Imagem: Caligrafia Zen japonesa, com a representação da «criação» através da progressão da Unidade do círculo, do triângulo até ao quadrado. É uma leitura universal da existência, comum ao budismo e ao cristianismo.

2 comentários:

Ariane Morais-Abreu disse...

Também nao é preciso ir muito longe para compreender isso... Interessante ler que mesmo o Dalaï Lama sabe a religiao dispensavel!

Virgílio Brandão disse...

Ariane, há aí um "talvez"...

:-)