segunda-feira, 23 de março de 2009

  • O MAIOR DOS POEMAS
O dia Mundial da poesia – morreu, como morrem os dias.

Sabia disso. Assim, ignorei o dia. Mas o dia não me ignorou: teve natureza, primícias; indignei-me demais, sonhei mais. O sonho invadiu a alma, com a uma legião irmã.

Todos os dias escrevo um poema, é certo – há dias em que tenho orgasmos de poesia, multidões de poemas a brotar de mim, do meu ribeiro. O José Luíz Hoppfer Almada diz que não devo escrever poesia, pois não sou poeta; mas não sigo o seu conselho: sigo as minhas entranhas! Mas ontem foi excepção, e não escrevi poesia: pari um com dono e destino. Ontem, “dia Mundial da poesia”, limitei-me a amar a vida toda num momento, a estar tranquilo, a ler «Cartas a um Poeta» de Rainer Maria Rilke: «Nem tudo se pode aprender ou dizer, como nos querem fazer acreditar. Quase tudo o que acontece é inexprimível e se passa numa região que a palavra jamais atingiu». Aprendi – dia luminoso! Gloria Prima! Vi o poema, a alma da poesia: cotovia nocturna na curva de alma, e ela, ela sim, quedou-se muda enquanto construia a fundação do mundo. Não a escrevi – estava viva.

Eva – o ómega deste verbo. As palavras engolem mais suor que uma maratona; saudade nunca vista, sentida. Espanto. Titubeio. Perplexidade! A poesia não coisa-verbo, mais: querer ficar, esquecer o dever, abraçar o momento impossível, e sonhá-lo amanhã como o único possível. Há uma dor, um borbulhar de lágrimas na alma – queima! Eu te conheço. Eu me lembro de ti. Não te lembras de mim. Não sabes quem eu sou. Eu te conheço. Eu… te esperei a vida toda, na esquina da alma, no som do teu nome – no Éden inconstruido. Por onde segue a espera, agora?
.
Ser poeta não é escrever livros. O maior dos poetas, nunca escreveu um livro. O maior dos poemas não acredita na sua beleza, não se escreve – impossível verbo é.

O dia não foi da poesia, o dia foi o maior dos poemas. Sim: A vida tem sempre razão – diz o poeta. Que terá dito Adão quando acordou, e o Mundo estava mais iluminado? Deve ter sido o primeiro poeta, e escrito o maior dos poemas – o que cifrou Deus do Mundo e tornou o homem mais livre.

5 comentários:

Nita disse...

Virgílio,
Cada cabeça, sua sentença.
Escreve, sim. Escreve poemas porque adoro ler-te.
E... a vida é repleta de saudades, de atropelos e dificuldades, de aflições, de contradições, mas...
sobram-nos também muitas coisas boas. Eu sempre luto para vencer, com dignidade, os impossíveis.
Com Amor. Fé e Perseverança.
Ansiosa por mais e mais poemas teus.
Noite de Santa Paz,
Anita

Virgílio Brandão disse...

Anita,
Nem sempre se consegue dar um pontapé no «im». Mas a beleza, a beleza – mais do que a verdade – salva-nos; pois salva-nos dentro de nós.

Beijos :-)

Tina disse...

Virgílio, não passaste este dia sem escrever um poema. Antes pelo contrário, o dia da Poesia ficou mais rico com esta linda prosa poética. Deus certamente te perdoa os teus pecados quando se maravilha com a tua escrita culta e elevada.
Podes ser o que bem entenderes: advogado, poeta, escritor... Basta quereres!
Abraço.
Tina

Tina disse...

Virgílio, não passaste este dia sem escrever um poema. Antes pelo contrário, o dia da Poesia ficou mais rico com esta linda prosa poética. Deus certamente te perdoa os teus pecados quando se maravilha com a tua escrita culta e elevada.
Podes ser o que bem entenderes: advogado, poeta, escritor... Basta quereres!
Abraço.
Tina

João Branco disse...

Tens aparecido pouco pelo Margoso. Fazes falta. Abraço!