sábado, 22 de agosto de 2009

Video: Entrevista da Al Jazeera Jean Pierre Bemba na sua casa em Faro, Algarve, Portugal, em 2007.

  • A LEI DO ABSURDO

O Tribunal Penal Internacional decidiu colocar Jean Pierre Bemba, ex-Vice-Presidente da Republica Democrática do Congo, em liberdade provisória; mas Portugal & companhia (os mesmos que o foram buscar a Kinshasa para exilar-se em terras lusas), não deixam.
--- Leia o
Despacho judicial de Ekaterina Trendafilova, Juiz da III Câmara de Instrução do Tribunal Penal Internacional.

  • PROMETEO (1774)
¡Cubre tu cielo Zeus
con bruma de nubes
y como un jovenzuelo
que cardos decapita
ejercítate en robles y altas montañas!
Tienes que dejarme
mi tierra sin embargo
y mi choza
que tú no has hecho
y mi hogar
cuyo fuego
me envidias.

No conozco nada más pobre
bajo el sol que vosotros, dioses.
Alimentáis parcamente
de ofrendas
y aliento de oraciones
vuestra majestad
y viviríais en la miseria
si no fueran
niños y mendigos
locos llenos de esperanza.

Cuando era un niño
no sabía nada de nada,
dirigía mi ojo extraviado
al sol, como si allí hubiera
un oído para oír mi queja,
un corazón como el mío
que de mi apuro se compadeciera.

¿Quién me ayudó contra
la arrogancia de los titanes,
quien me salvó de la esclavitud
de la muerte?
No lo has logrado todo tú,
santo corazón ardiente
y ardías joven y bien,
engañado, gracia de salvación
para el durmiente allí arriba.

¿Honrarte? ¿Por qué?
¿Has paliado los dolores
alguna vez del agravado,
has aplacado las lágrimas
alguna vez del angustiado?
¿No me ha forjado hombre
el poderoso tiempo
y el eterno destino,
mis señores y los tuyos?

Te figuras acaso
que debía odiar la vida,
huir al desierto,
porque no todos los sueños floridos
de las mañanas de la infancia
maduraron.

¡Aquí estoy sentado, forma hombres
a mi semejanza,
una estirpe que a mí sea igual
en sufrir, llorar,
gozar y alegrarse
y en no respetarte
como yo!
----- Goethe
in Johann Wolfgang Goethe, La Vida es Buena (Cien poemas), Madrid, Visor, 1999

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Cartas D'Amor de Eça de Queirós
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  • PRIMEIRA CARTA A CLARA
Não, não foi na Exposição dos Aguarelistas, em Março, que eu tive consigo o meu primeiro encontro, por mandado dos Fados. Foi no inverno, minha adorada amiga, no baile dos Tressans. Foi aí que a vi, conversando com Madame de Jouarre, diante de um console, cujas luzes, entre os molhos de orquídeas, punham nos seus cabelos aquele nimbo de ouro que tão justamente lhe pertence como “rainha de graça entre as mulheres”. Lembro ainda, bem religiosamente, o seu sorrir cansado, o vestido preto com relevos cor de botão de ouro, o leque antigo que tinha fechado no regaço; mas logo tudo em redor me pareceu irreparavelmente enfadonho e feio; e voltei a readmirar, a meditar em silêncio a sua beleza, que me prendia pelo esplendor patente e compreensível, e ainda por não sei quê de fino, de espiritual, de dolente e de meigo que brilhava através e vinha da alma. E tão intensamente me embebi nessa contemplação, que levei comigo a sua imagem, decorada e inteira, sem esquecer um fio dos seus cabelos ou uma ondulação da seda que a cobria, e corri a encerrar-me com ela, alvoroçado, como um artista que nalgum escuro armazém, entre poeira e cacos, descobrisse a obra sublime de um mestre perfeito.

E, por que o não confessarei? Essa imagem foi para mim, ao princípio, meramente um quadro, pendurado no fundo da minha alma, que eu a cada doce momento olhava – mas para lhe louvar apenas, com crescente surpresa, os encantos diversos de linha e de cor. Era somente uma rara tela, posta em sacrário, imóvel e muda no seu brilho, sem outra influência mais sobre mim que a de uma forma muito bela que cativa um gosto muito educado. O meu ser continuava livre, atento às curiosidades que até aí o seduziam, aberto aos sentimentos que até aí o solicitavam; - e só quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo de uma ocupação mais pura, regressava à imagem que em mim guardava, como um Fra Angélico, no seu claustro, pousando os pincéis ao fim do dia, e ajoelhando ante a Madona a implorar dela repouso e inspiração superior.

Pouco a pouco, porém, tudo o que não foi esta contemplação, perdeu para mim o valor e encanto. Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da minha alma, perdido na admiração da imagem que lá rebrilhava - até que só essa ocupação me pareceu digna da vida, no mundo todo não reconheci mais que uma aparência inconstante, e fui como um monge na sua cela, alheio às coisas mais reais, de joelhos e hirto no seu sonho, que é para ele a única realidade.

Mas não era, minha adorada amiga, um pálido e passivo êxtase diante da sua imagem. Não! Era antes um ansioso e forte estudo dela, com que eu procurava conhecer através da forma e essência, e (pois a Beleza é o esplendor da Verdade) deduzir das perfeições do seu Corpo as superioridades da sua Alma. E foi assim que lentamente surpreendi o segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabelo descobre, tão clara e lisa, logo me contou a retidão do seu pensar: o seu sorriso, de uma nobreza tão intelectual, facilmente me revelou o seu desdém do mundanal e do efêmero, a sua incansável aspiração para um viver de verdade: cada graça de seus movimentos me traiu uma delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos diferenciei o que neles tão adoravelmente se confunde, luz de razão, calor que melhor alumia... Já a certeza de tantas perfeições bastaria a fazer dobrar, numa adoração perpétua, os joelhos mais rebeldes. Mas sucedeu ainda que, ao passo que a compreendia e que a sua Essência se me manifestava, assim visível e quase tangível, uma influência descia dela sobre mim – uma influência estranha, diferente de todas as influências humanas, e que me dominava com transcendente onipotência.

Como lhe poderei dizer? Monge, fechado na minha cela, comecei a aspirar à santidade, para me harmonizar e merecer a convivência com a Santa a que me votara. Fiz então sobre mim um áspero exame de consciência. Investiguei com inquietação se o meu pensar era condigno da pureza do seu pensar; se no meu gosto não haveria desconcertos que pudessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha idéia da vida era tão alta e séria como aquela que eu pressentira na espiritualidade do seu olhar, do seu sorrir; e se meu coração não se dispersara e enfraquecera de mais para poder palpitar com paralelo vigor junto do seu coração. E tem sido em mim agora um arquejante esforço para subir a uma perfeição idêntica àquela que em si tão submissamente adoro.

De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha educadora. E tão dependente fiquei logo desta direção, que já não posso conceber os movimentos do meu ser senão governados por ela e por ela enobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de algum valor, idéia ou sentimento, é obra dessa educação que a sua alma dá à minha, de longe, só com existir e ser compreendida. Se hoje me abandonasse a sua influência - devia antes dizer, como um asceta, a sua Graça – todo eu rolaria para uma inferioridade sem remição. Veja pois como se me tornou necessária e preciosa... E considere que, para exercer esta supremacia salvadora, as suas mãos não tiveram de se impor sobre as minhas – bastou que eu a avistasse de longe, numa festa, resplandecendo. Assim um arbusto silvestre floresce à borda de um fosso, porque lá em cima nos remotos céus fulge um grande sol, que não o vê, não o conhece, e magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto aroma... Por isso o meu amor tinge esse sentimento indescrito e sem nome que a Planta, se tivesse consciência, sentiria pela luz.

E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo, nenhum bem imploro de quem tanto pode e é para mim dona de todo bem. Só desejo que me deixe viver sob essa influência, que, emanando do simples brilho das suas perfeições, tão fácil e docemente opera o meu aperfeiçoamento. Só peco esta permissão caridosa. Veja pois quanto me conservo distante e vago, na esbatida humildade de uma adoração que até receia que o seu murmúrio, um murmúrio de prece, roce o vestido da imagem divina...

Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a toda a recompensa terrestre, me permitisse desenrolar junto de si, num dia de solidão, a agitada confidência do meu peito, decerto faria um ato de inefável misericórdia – como outrora a Virgem Maria quando animava os seus adoradores, ermitas e santos, descendo numa nuvem e concedendo-lhes um sorriso fugitivo, ou deixando-lhes cair entre as mãos erguidas uma rosa do paraíso. Assim, amanhã, vou passar a tarde com Madame de Jouarre. Não há aí a santidade de uma cela ou de uma ermida, mas quase o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse, em pleno resplendor, e eu recebesse de si, não direi uma rosa, mas um sorriso, ficaria então radiosamente seguro de que este amor, ou este meu sentimento indescrito e sem nome que vai além do amor, encontra ante seus olhos piedade e permissão para esperar. Fradique
in Eça de Queirós, Cartas D'Amor - O Efêmero Feminino, Garamond, Rio de Janeiro, 2001
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Imagem: Auto Retrato, Salvador Dali (1954)

  • O MEU POETA
A vida é rápida, nós somos um relampago diurno — disse o meu poeta.

Imegem: Almada Negreiros

  • EU SOU TREZENTOS...
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
---- Mário de Andrade
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Imagem: Serria Tawan

  • MALCOLM X ON BLACK NACIONALISM

Dá que pensar, se se transpor este discurso para um universo e uma realidade mais alargadas. Em vez de negros e brancos, falar-se de ricos e pobres (os pobres que muitos, ao que parece, não querem doutores) ou de «classe mais baixa», como dizia uma Ministra em terras de morabeza, e a elite "esclarecida" e bem instalada.

Alguém se lembra(rá) das razões da luta pela independência em África, e pela consagração efectiva dos direitos cívicos nos Estados Unidos da América? Do orgulho que era, então – mesmo sob o jugo opressor –, ser-se africano ou afro-descendente? Alguma coisa de muito errado anda por aí, e todos sabemos o que é. Não me perguntem, pois "alguém ainda será crucificado" — como dizia o poeta.

¿Qué loco sembrador anda en la noche, aventando luceros que no han de germinar nunca en la tierra? Dulce Maria Loynaz, CXXII
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AS MASCARAS DA MORABEZA CABO-VERDIANA E SUBTILEZAS: «O AL BINDA QUE MORRA!»

A propósito de um ser que recusa a sê-lo e que se auto-baptizou como Al Binda, pergunto a mim mesmo: como é que pessoas inteligentes conseguem o milagre de confundir a nuvem com Juno? Ausência de colírio de razão, falência de percepção, a seu tempo descortinável – quando a chuva cair. Esse Al Binda incomoda muita gente, lá isso faz – a maioria das vezes sem razão de ciência ou qualquer outra, mas incomoda; como verifiquei ao ler uma notícia sobre Abílio Duarte no A Semana on line.

Li no diário on line, um comentário de «Jorge Alberto» (um renomado e respeitado político da terra que usa este e outros nomes como máscaras para fazer desabafos políticos que não pode [!?] fazer com nome próprio – o que até compreendo; em parte…) a dizer ipsis verbis:

«Mas já não se compreende tanta monstruosidade vinda de gente portadora de uma certa cultura, mas que, a coberto de pseudómino, aproveitam para se armarem em ignorantes para conspurcar a cidadania de todos aqueles que não leram pelas suas cartilhas. É o caso do Al Binda que, uma vez desmascarado, passou a utilizar o pseudónino de Underdoglas, para continuar a passar por ignorante, e poder dizer asneiras por má-fé, quando se trata de alguém que, basta que se saiba quem ele é, para ser desmascarado como um homem culto e conhecido por muita gente da sua geração. Só não divulgo neste fórum quem é esse tal de Al Binda ou Underdoglas, porque não me compete fazer isso, visto seria um desrespeito pela privacidade dos outros. Só que a continuar assim e se a pessoa não respeita aos outros, poderá também um dia desses não merecer o nosso respeito!»

Ora, quem não respeita os outros não merece ser respeitado (e sei que o Jorge Alberto, nem que seja por razões de formação e ideológica, leu Kant e conhece os imperativos morais deste), pelo que revelar a verdade e desmascarar um sepulcro caiado e mascarado não é violação de nenhum dever. Violação de um dever moral é saber quem é que ofende, ameaça e vilipendia cidadãos que dão a cara, que não se escondem nos vãos de qualquer coisa ou raios que o parte, e muito menos em discursos velados. Mas cada um é como é, e cada um vê o que é capaz e chega para ver; nem sempre «somos a medida de todas coisas», como diria Protágoras. Nossa S´nhora d´riôla rogai por nós! Coisas da natureza – dir-me-á o meu poeta.

Sei que o Jorge Alberto, também, não gostaria que se soubesse quem ele é – naturalmente. E o Al Binda, estou certo, se soubesse quem é o Jorge Alberto há muito que o teria gritado aos quatro ventos, em particular ao zéfiro do Leste antes de uma chuva serôdia. Há cerca de um mês escrevi uma Carta Aberta a um amigo – que, por acaso, é um amigo próximo do Jorge Alberto (esse andou a veicular, acintosamente, que eu era o Al Binda) –, e, como é do meu timbre, disse-lhe o que tinha a dizer e informei-o de que iria publicar a dita carta (pois é justo que as pessoas que convivem connosco saibam por nossa voz o que dizemos e pensamos delas). Pediu-me encarecidamente para não o fazer, e acedi ao seu pedido: as minhas razões eram e são menores que os prejuízos que lhe poderia causar. O que o «Jorge Alberto» não sabe, e agora fica a saber, é que, um dia destes, terá de dizer quem é o Al Binda – num tribunal qualquer. E terá de o fazer não como «Jorge Alberto» mas com o seu nome de baptismo; coisa que, certamente, não quererá nem desejará.

Por isso, ó M.I. «Jorge Alberto», fica aqui, sem subtilezas, um desafio ao cidadão responsável que é: diga quem é o Al Binda! E se achar que sou eu (já, noutra ocasião, perguntou a um amigo comum se eu era um outro mascarado – hoje percebo porquê, pois não entendia, até há pouco tempo, essa cultura de mascrinha e os seus objectivos); diga-o! Eu, da minha parte, prometo que não revelarei a sua identidade real – de forma directa ou indirecta – e apelo a quem o saiba para, do mesmo modo, não o fazer. Agora, esta forma de fazer política no anonimato não me parece coisa muita digna – como me disse em determinada ocasião, Cícero primava pela frontalidade; e quem é político deve, tem o dever de o fazer a todo o momento.

Cícero, ó «Jorge Alberto», se vivesse hoje faria o mesmo a Catilina, não usaria o pseudónimo, não! Afinal, se fosse o Almada Negreiros – o que era merecido mesmo era um «Manifesto Anti Dantas» a esse Al Binda; sendo certo que não me parece ser merecedor de tanto. Ratos, «Jorge Alberto», matam-se com DDT (já agora, use um pouco para si mesmo, suicide essa mascara e ressuscite para a luz do dia – para a arena da política «transparente»).

E essa profilaxia social, ó «Jorge Alberto», é feita, deve ser feita, de forma adequada e com verdade por toda a sociedade, por todos nós – uns com mais responsabilidades do que outros; e no seu caso tem responsabilidades acrescidas. Pois de outro modo, tenho de fazer-lhe a mesma pergunta que o Mário Matos fez, bem, no A Semana on line: «Dondê sociedade civil?» (deve perguntar ao Primeiro Ministro e líder do PAICV, pois não foi ele que disse – a propósito da visita de Hillary Clinton a Cabo Verde – que temos uma sociedade civil forte? Ah!, cogito: será que o Mário Matos começa a discordar do líder antes do tempo programado?). Não queira, ó «Jorge Alberto», ser um desaparecido ou naufrago social, parte de «uma geração representada por um Dantas» – como dizia Almada Negreiros. Assim, o Dantas, id est, o Al Binda «que morra». Pim!

É responsabilidade sua, a de «matar» o Al Binda e ressuscitá-lo para a luz do dia (se não o fizer é, moralmente, responsável pelas ofensas e afrontas que o mesmo venha a perpetrar contra os seus concidadão). Se sou instigador e possível autor moral deste «homicídio de pessoa moral»? Sim, assumo a responsabilidade de o instigar a dizer a verdade, a limpar o porão até de si mesmo: assuma, ó «Jorge Alberto», a sua responsabilidade social nesta matéria; pois outra coisa não é de esperar da pessoa atrás do «Jorge Alberto». Pim!

Também sabemos que os Al Bindas, Underdouglas e quejandos fazem-lhe um favor político pouco descortinável mas vital, não é, ó «Jorge Alberto»? Pim! Por esta razão, não tenho muitas esperanças de que venha a dizer quem é o Al Binda e/ou o Underdouglas; pois este ainda vai fazendo alguns favores políticos (se calhar sem se aperceber de que é instrumentalizado – talvez por inconsistência política e necessidade de «dar nas vistas») a ambos os lados da barricada. Enfim: somos um país de subtilezas e nem sempre somos capazes de as entender; daí existir uma fome larvar a alastrar pela nação inteira e que não é de pão...
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Imagem: Fernado Pessoa, Almada Negreiros

  • CONSERVACIÓN
¡Eres un bello cielo de otoño, claro y rosado!
Pero la tristeza sube en mí como el mar,
Y deja, al refluir, en mis labios melancólicos
el recuerdo punzante de su amargo limo.
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Tu mano se desliza en vano por mi pecho que desfallece;
lo que ella busca, amiga, es un lugar destrozado
por la garra y el diente feroz de la mujer
No busques más mi corazón; se lo han comido las bestias.
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Mi corazón es un palacio devastado por las turbas;
¡en el que se emborrachan, matan, se agarran de los cabellos!;
¡Flota un perfume en torno a tu pecho desnudo!...
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¡Oh belleza, duro látigo de las almas, tú lo quieres!
Con tus ojos de fuego brillantes como fiestas,
¡calcina estos despojos que han dejado las bestias!
---- Charles Baudelaire
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Imagens: Sent by a friend

É, não está longe da realidade... não está, não.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

  • COMPARTILHAR…

Um bom amigo enviou-me este vídeo por e-mail, e não resisto a compartilhá-lo também. A beleza deve ter asas para voar – dirá o meu poeta. I was blessed by it! Obrigado, AS. Que Deus e as sereias mindelenses possam recompensar-te.

  • A EXCEPÇÃO E A REGRA
Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso
mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.
Bertolt Brecht

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Imagem: Aung San Suu Kyi, Shepard Fairey

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

  • AMERICA IS NOT A DEMOCRACY, Noam Chomsky
    .
    — Este vídeo é uma bengala... para quem precisar.

  • CI
La criatura de isla paréceme, no sé por qué, una
criatura distinta. Más leve, más sutil,
más sensitiva.
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Si es flor, no la sujeta la raíz; si es pájaro, su cuerpo
deja un hueco en el viento; si es niño, juega
a veces con un petrel, con una nube...
.
La criatura de isla trasciende siempre al mar que la
rodea y al que no la rodea.
.
Va al mar, viene del mar y mares pequeñitos se
amansan en su pecho, duermen a su calor
como palomas.
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Los ríos de la isla son más ligeros que los otros ríos.
Las piedras de la isla parece que van a salir
volando...
.
Ella es toda de aire y de agua fina. Un recuerdo de sal,
de horizontes perdidos, la traspasa en cada ola, y
una espuma de barco naufragado le ciñe la cintura,
le estremece la yema de las alas...
.
Tierra firme llamaban los antiguos a todo lo que no
fuera isla. La isla es, pues, lo menos firme,
lo menos tierra de la Tierra.
---- Dulce Maria Loynaz del Castillo
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Imagem: Luis Vaz de Camões

  • O TEMPO E A VIDA
Há tempo para nascer, tempo para morrer… (Eclesiastes, III)

Este poema é dedicado ao João Branco que, segundo a arcana e eterna lei do ser, perdeu o umbigo da vida (Ah!, porque não existe uma pílula do esquecimento da dor, sem termos de esquecer as alegrias dos que nos construíram?):

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são...
--- Mário Quintana

La Donna e Mobile, Luciano Pavarotti

A ELECTRA, em algumas coisas, começa a fazer escola em terras lusas... That´s life — diria o Sinatra.

  • LIVROS QUE MERECEM MAIS DO QUE SER LIDOS
1. Flavio Josejo, Las Guerras de los Judíos

2. Sylvia Plath, The Collected Poems

Enquanto faço este conselho, oiço L´elisir d´Amore («Una Furtiva Lágrima», de Donizetti, na voz de Luciano Pavarotti), e leio uns poemas de Sylvia Plath, Mário Quintana e Olavo Bilac e penso na efemeridade da existência (ai! pensar nisso em férias...). Deveríamos nascer velhos, e morrer novos – como entramos no mundo... Mas quem foi que disse que a vida é justa? Sim, quem foi?...
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Imagem: Cavalaria de Anibal em Canas

terça-feira, 18 de agosto de 2009

  • À UMA MULHER AMADA

Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo subtil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
e pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro... eu tremo.
--- Safo

Imagem: Bacchante with Grapes, Paul Merwart

  • QUANDO O BEM QUE SE FAZ COMPENSA O MAL CAUSADO

A imagem que os políticos têm de si mesmos é extra ordinária, e por vezes construída pelo mito e pela propaganda política. O povo, em regra, ou segue essa construção ou tem uma outra perspectiva dos mesmos. Assim aconteceu com Tito Vespasiano. Plínio, o Velho, ao escrever a sua História Natural elogia o general Romano de tal ordem que chega a ser impressionante. Diz-nos que (Plínio o Velho, História Natural, II, V, 18). «Um mortal ajudar outro mortal: isso é Deus; e este é o caminho para a glória eterna; nesta via seguiram os nossos eminentes romanos, nela segue agora, em passo celestial, com os seus filhos, o maior governante de todos os tempos, Vespasiano Augusto, vindo em auxílio de um mundo exausto».

Mas será que é assim mesmo? Tito Vespasiano, que viria a ser conhecido pelo cerco cruel que fez a Jerusalém, tendo, em 69 d.C, depois de aclamado imperador romano, deixado o cerco da cidade ao filho, Tito Vespasiano que, em 70 a.C., destrói Jerusalém, não deixando pedra sobre pedra do templo de Salomão – como Jesus Cristo previra: o templo, forrado a ouro, depois de incendiar-se o ouro derreteu e os legionários romanos levantaram pedra sobre pedra para retirar o ouro. É esta destruição de Jerusalém, e o grande exílio forçado dos judeus que se lhe seguiu que é, ainda hoje, a causa mais remota do conflito palestiniano. Flávio Josefo, na Histórias das Guerras Judaicas (de que existe edição espanhola: Las Guerras de los Judios, editora Clie, Barcelona), diz-nos que Tito Vespasiano chorou com a destruição causada com a destruição de Jerusalém.

Seria, a seu tempo, assentado entre os deuses – pela apotheose: inter divo relatus est. No Arco de Tito, no Fórum de Roma, encontramos as inscrições que provam a sua grandeza que Plínio o Velho previu e não viu de todo (Tito Vespasiano sucederia o pai no Imperium em 79 d.C., no mesmo ano que Plínio o Velho morre, vitima da erupção do Vesúvio que o surpreendeu na sua residência nas proximidades de Pompeia). A inscrição Senatvs Popvlvs Qve Romanvs Divo Tito Divi Vespasiani f(ili)Verspasiano Avgvsto, é uma expressão da sua grandeza como pater patriae pois representa o verdadeiro espírito de Roma, a bandeira das legiões: SPQR (Senatus Populus Que Romanus=O Senado e o Povo de Roma).

O mal feito ao povo judeu foi apagado pela história, pelo bem que acabou por ser esquecido pelo bem que fez a Res Publica – tomando emprestado uma expressão do Senado romano a propósito de Septimio Severo. A vitória em Jerusalém, ter enfrentado com proficiência algumas desgraças – como caso da erupção do Vesúvio – e ter sido o imperador do cimento e das obras públicas (como a inauguração do Coliseu) granjearam-lhe a eternidade como um bom governante. Mas o mal social, humano e cultural causado com a destruição de Jerusalém – e as suas consequências seculares – são expiáveis com uma boa governação?

Imagem: Pormenor do Arco de Tito no Forum em Roma

  • A TOAST

Nothing, this foam, virgin verse
Depicting the chalice alone:
Far off a band of Sirens drown
Many of them head first.

We sail, O my various
Friends, I already at the stern,
You at the lavish prow that churns
The lightning´s and the winters´ flood:

A sweet intoxication urges me
Despite pitching, tossing, fearlessly
To offer this toast while standing

Solitude, reef, and starry veil
To whatever´s worthy of knowing
The white anxiety of our sail.
---- Stephane Mallarmé

Imagem: A Arte e a Literatura, Bouguereau

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

  • A CELEBRAÇÃO DO PÉNIS – QUANDO AS DEUSAS RETORNAM
Nihil novi sub soli. Os japoneses são, dos povos mais livres no que à vida sexual diz respeito. A cidade de Komaki, nas proximidades de Tóquio, tem uma celebração chamada Honen Matsuri, celebrada a 15 de Março e que chamam de Dia do Pénis – mas que é um festival de fertilidade do mundo rural nipónico que celebra não somente a fertilidade da terra mas dos homens e das mulheres. O que tem uma importância crucial, sempre teve, na sociedade tradicional e patriarcal japonesa.

Wenceslau de Moraes conta que certo cidadão japonês propôs acção de divórcio contra 13 (treze) mulheres com quem se casara com o fundamento de que eram estéreis e de que não lhe davam um filho (então fundamento legal para o divórcio no Japão nos princípios do Século XX). O tribunal japonês, que não tinha aos recursos técnicos da modernidade, nomeadamente as perícias de sangue e/ou do ADN, deu razão ao homem em todos os trezes processos consecutivos, e divorciou-o: as mulheres eram todas estéreis… essa foi a realidade, a verdade do direito.

Mas, ao contrário do que os ocidentais pensam: que este festival é uma extravagância japonesa, ela tem origens nas raízes da Europa rural. Em Roma – uma sociedade baseada no princípio do pater familias – havia um festival análogo, dedicado à Deusa Flora e durante qual o imperador Antonino Eliogábalo, entusiasmado com o seu «marido» – o escravo Hierocles – fez-lhe uma fellatio (um broche, como diz o povo; e vox populi vox Dei est) em público, justificando o seu inusitado acto como uma forma de honrar a deusa Flora. Na cidade de Komaki, o mais próximo que vemos são jovens mulheres a saborear doces e gelados em forma de fálica. A lógica é simples: quando mais for honrada a deusa (Flora, para, v.g., os romanos) ou a natureza (segundo o animismo nipónico) maior é a colheita e mais descendência terão os devotos.

Com a crise agrícola que os países pobres enfrentam, e a depressão demográfica que os ricos (nomeadamente os europeus) enfrentam, não me admiraria nada se o culto de Flora, ainda que na sua forma animista, como no Japão, renascesse. Uma coisa é certa: o Japão não é conhecido por ter crises agrícolas ou qualquer depressão demográfica. Porque será? Como dizia Sancho Pança a D. Quixote, o cavaleiro da triste figura, «yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay».
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Imagem: Flora, Ticiano

  • HUMANA CONDITIO
A alegria de uma boa colheita, a esperança de um filho.
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Imagens: Festival da fertilidade nipónico.

sábado, 15 de agosto de 2009

  • MOMENT(O) ZEN
Receba as tuas visitas com a mesma atitude que tens quando estás só. E, quando estiveres só, mantenha a mesma atitude que tens quando recebes as tuas visitas.

Receive a guest with the same attitude you have when alone. When alone, maintain the same attitude you have in receiving guests.
----in Regras de Soyen Shaku
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Imagem: Céu, algures em África...

  • REALIDADE INSÓLITA
«Je suis athéiste. Mais je suis catholique» — afirma Maurice Barrés.

Parece um paradoxo, mas não é… ao nível do discurso e da praxis social, é uma dolorosa verdade.

Imagem: Abel e Cain, William Blake

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

  • A VISTA DE CLINTON A CABO VERDE E A BOA GOVERNAÇÃO

Chegou a Cabo Verde, como quem chega para um momento de descanso depois de uma longa caminhada e com poucas expectativas políticas pelo pouco tempo que iria estar no país — assim pesavam muitos (em particular os que, em terras lusas, tentaram desvalorizar a visita). Deixando de lado os resultados que daí possam advir, uma coisa resulta clara: José Maria Neves recebeu a maior massagem ao seu ego político que poderia esperar.

«O Presidente Obama e eu dizemos: sim, é possível a boa governação em África. Olhem para Cabo Verde» — disse Hillary Clinton, em Conferência de Imprensa conjunta com o Primeiro Ministro, José Maria Neves, na ilha do Sal. E José Maria Neves deve ter-se sentido no céu dos políticos ao ouvir Clinton assegurar: — «Em todos os países por onde passei havia aspectos positivos e outros negativos. Aqui, a lista dos positivos é maior do que a dos negativos. O que ouvi é música para os meus ouvidos», explicou. Para José Maria neves, foi sinfonia angélica… em particular porque a Secretária de Estado norte-americana criticou muitos países por causa da corrupção – como a Nigéria e o Quénia – ou os direitos humanos, como o Zimbabué. Mas deveria não só ter ouvido, mas visto...

José Maria Neves ganhou uma aliada de peso para o seu discurso da boa governação, e a oposição um problema considerável. Ou será que não, que isto pode ser mote bastante para a Comissão politica Regional do PAICV deixar Isaura Gomes e a CâmaraMunicipal de S. Vicente me paz? Não creio, mas enfim… politics. O que dirá Jorge Santos? José Sócrates, please!, mas please: fale com o José Maria Neves! Afinal, como dizes, os americanos é que sabem.

Imagem: Hillary Clinton na Nigéria


  • REVISÃO CONSTITUCIONAL: ERAM DOIS, MAS SÓ UM COMETEU ADULTÉRIO…
Sobre a discussão que grassa em Cabo Verde sobre a Revisão Constitucional, e pelo mais que esperado e previsível falhanço do processo (daí, como disse a muitos amigos, ter deixado de escrever sobre a matéria no Liberal on line) lembrei-me da arcana expressão latina, de autor desconhecido mas que terá sido usado a propósito da violação da Lucrécia (pelo menos por Santo Agostinho na Cidade de Deus) e da queda de Tarquínio o Soberbo que determinou a emergência da República Romana: «Mirable dictu; duo fuerunt, et adulterium unus admisit» (Ó maravilha: foram dois e só um cometeu adultério). Pois é, mesmo como diz uma música da terra profunda: «Nossa S´nhora d´Riola rogâ por nós». O povo bem que precisa.

E parece que eu não estava enganado quando previa que só depois da Convenção do MPD é que haveria revisão constitucional. E ao ouvir as explicações, erráticas e obscuras, compreendo as razões políticas e partidárias do falhanço desse processo. E por onde andam as actas da Comissão Eventual da Revisão da Constituição? – pergunto. É documento a ser tornado público, com a maior brevidade possível, pois só assim o povo saberá o que os deputados da Nação andaram a fazer todos meses para nada, e porque não se chegou a um consenso (os consensos são sempre soluções frágeis, e vivemos numa terra de consensos forçados).

Note-se que as matérias não são, ao que parece – as que vêm a público… – problemas de maior, como são os casos da Presidência do Conselho Superior da Magistratura Judicial ou da alteração da maioria para a aprovação de leis fiscais. São questões técnicas, de sistema jurídico-constitucional que, do ponto de vista dos técnicos é simples de serem resolvidos: (i) ou Conselho Superior da Magistratura Judicial (CSMJ) continua a ser presidido pelo Presidente do Supremo Tribunal (STJ) de Justiça (que deverá ser eleito pelos seus pares, e não ter nomeação política!), por inerência, ou, em alternativa, (ii) ser o CSMJ constituído por magistrados e cidadãos na mesma proporção (tendo o presidente do STJ lugar no mesmo), sendo o seu Presidente eleito, também e sempre, pelos respectivos Conselheiros e não pelo poder político. Não aceitar nenhuma destas soluções, que serão as que melhor se adequam a matriz política e jurídico-constituional pátrio, é ir contra o interesse nacional e dos direitos do povo cabo-verdiano.

No que concerne às normas fiscais… bem, como digo e escrevo há anos: tal é uma aberração política, pois não faz sentido que a maioria exigida para a sua aprovação de normas fiscais seja a qualificada. Pois tal, na verdade, faz com que o Governo fique constantemente refém da oposição, e consubstancia uma forma sub-reptícia de afrontar a separação de poderes que deve(ria) existir, em tese matriz, entre a Assembleia Nacional e o Governo. São problemas menores, ao nível da solução, pois outros existem mais complexos, mas nem por isso não passíveis de soluções igualmente simples, se se pensar no interesse nacional e não no(s) partido(s) e na(s) agenda(s) politica(s) determinada(s) por este(s). Tenho, eu e o povo cabo-verdiano, de concordar com Carlos Veiga: as pessoas e o Estado estão acima dos partidos; mas parece que, nesta questão da revisão da Constituição não é o que se passa na mente dos deputados da nação que agem, na verdade, como deputados dos partidos.

E como, ao contrário do que dizia Tucídides, não «desfrutámos de um regime político que não imita as leis dos nossos vizinhos; mais que imitadores de outros, nós, de facto, servimos de modelo para os outros» (Tucídides, El Discurso Fúnebre de Pericles, III), temos de ver a nossa matriz de ciência e conformar as nossas decisões fundamentais de acordo com ela e o interesse nacional. E se somos copiadores, devemos agir de acordo com a matriz copiada; inventar, e mal, não vale! É, será, duplamente penalizador não agir de acordo com ciência certa.
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Nota-se, an passant, que Tucídides fazia alusão ao decênviro (dez Tribunos do povo, magistrados encarregues de defender os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos – os primeiros da história, a nível institucional republicana) que, aquando da instauração da República, foram encarregues de fazer leis escritas para Roma num período de conturbação social que o desaparecimento do poder real causou. Alguns destes homens foram até a Grécia estudar o sistema político grego e as leis de Sólon que, a final, deram origem (depois de dois anos de estudo, nota-se) àquela que seria a norma fundamental da República Romana: a Lei das Dozes Tábuas. Esta é, certamente, a primeira Constituição republicana em sentido material (Benjamin Constant que me perdoe, mas esta realidade precede a Magna Charta de João sem Terra) e formal da história ocidental. Segundo Marco Aurélio, Demócrito dizia que «O mundo é apenas mudança; a vida apenas opinião» (Marco Aurélio, Pensamentos Para Mim Mesmo, IV.4). É caso para dizer: Nihil novi sub soli.

Não proceder-se à revisão da Constituição é uma traição à nação! Como Lucrécia que foi violada pelo príncipe de Roma, assim a nação cabo-verdiana e as suas esperanças legítimas são afrontadas pelos seus representantes na Assembleia Nacional. E é bom lembrar aos senhores deputados que foi a violação de Lucrécia que causou a queda do Rei de Roma, e deu lugar à República (para os distraídos e esquecidos da História, fica ao conselho de (re)visitarem, v.g., Tito Lívio e/ou Mommsen); assim como foram os abusos do poder, o autoritarismo e a arrogância política que levarem à queda do PAICV em 1991 a instauração da II República cabo-verdiana e, depois, à derrota do MPD, depois de este ter a história ao seu lado e os instrumentos jurídicos adequados para perpetuar-se no poder se tivesse tido ciência para tanto. A história é memória, e a memória ensina mais do que se pensa. Mas só aprende quem quer, e pode (há quem não tenha estrutura para tanto).

Em Outubro, depois da Convenção do MPD e o PAICV saber com o que contará para os próximos embates políticos, iremos ter, outra vez, a questão da Revisão Constitucional na agenda política. Os interesses do país dobram-se, mais uma vez mais, aos interesses dos partidos. Mas será um vira o disco e toca o mesmo, embaralhar e tornar a dar – muitas vezes mal, como diria o meu mestre Carlos. Mas, por vezes pergunto a mim mesmo: porque rever uma Constituição que não se respeita, nem se introduz normas para obrigar quem a desrespeita a respeitá-la?
------ Publicação originária: Liberal on line
  • Imagem: Esperança, Gustav Klimt

My love for thee shall aye endure
As now, most perfect and most pure;

It brooks no increase, no decline,
Since it's complete, and wholly thine.
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I cannot any cause discover,
Except my will, to be thy lover,
And boldly challenge any man
To name another, if he can.
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For sure, when anything we see
Of its own self sole cause to be,
That being, being of that thing,
Lives ever undiminishing
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But when we find its origin
Is other than the thing it's in,
Our losing that which made it be
Annihilates it instantly.
---- Abu Muhammad Ali Ibn Hazam
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Image: Aitutaki Lagoon at Sunrise, Cook Islands

  • LIVROS QUE MERECEM MAIS DO QUE SER LIDOS…
Las Guerras de los Judios, Flávio Josefo
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Imagem: Hygeia, Gustav Klimt,

  • VOZES DE ATENTAR...
Two Selections by Nelson Mandela

First, Nelson Mandela's statement at his trial where he was sentenced for organizing with the African National Congress (A CIA officer later bragged that the agency had tipped off the South African Intelligence Service). He spent the next 26 years in prison. His release, one demand of the intense international campaign against South African Apartheid, was won in 1990. The second statement here is
his speech given at his release. He later served as President of South Africa from 1994 to 1999.
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Imagem: Nelson Mandela

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

  • DIES IMPERII

Há dias em que acordo a meio da noite: queria abrir a janela, pensar que é tarde e acordo, abro a janela e vejo rebanhos descendo a enseada de uma colina… — diz-me o meu poeta.

Imagem: Tick Tock a Bit Longer, Luiz Royo

  • O PRAZER DO PRAZER DA PARTILHA

Depois de muito procurar, e por um inesperado golpe da Fortuna consegui adquirir uma moeda que ansiava: um denarius de prata do Imperador afro-romano Severo Alexandre, de 223/224 d.C. — o último Imperador da dinastia Severa. IMP SEV ALEX ANT AVG (diz a cara da moeda) e AEQVITAS AVG (na coroa). Um momento de prazer, esse de ter nas mãos uma moeda com 1776 anos e pensar nas pessoas que compraram e pagaram escravos, pão, azeite, vinho, o prazer meretriz e tantas outras coisas.

E compartilho isso contigo, leitor de Terra-Longe. E não é pela moeda ter mais de mil e setecentos anos, não: é por ser de Severo Alexandre Antonino, um imperador extraordinário e por aquilo que representa; para mim em particular, depois de ter dado como terminado o meu livro: Os Imperadores Africanos do Império Romano — A Multiculturalidade no Berço da Europa. Agora pergunto a mim mesmo: onde encontrarei um denarius de Clodius Albinus, Didius Julianus, Ophelius Macrinus e Helvius Pertinax (este, não sendo um africano, um imperador que admiro em particular)?

Mas a minha busca por um denarius de ouro de Septimius Severus Afri (de 193 d.C., 201 d.C. ou de 211 d.C. – esta da Aphoteose, Consecratio de Severo) continua. Se alguém puder me ajudar…

Imagem: Severo Alexandre Antonino, filho de Antonino Bassiano (Caracala) e neto de Septimio Severo Afri

  • O MEU POETA
Não aparento aquilo que sou; sou muito mais do que aquilo que aparento — diz-me o meu poeta.

Imagem: Zamia Cunaria Ovulate Strobilus, New York Botanical Garden, New York, USA

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

  • A GESTA
Essa gente brocarda
— que diz com o beijo o mesmo que com a espada
banhou-te de sonhos pardos.

O deserto colheste do morgadio — sabes.

Amanhã ouvirás o mesmo canto
e farás o que sempre fizeste:
Obrarás, cuninamente.

Imagem: Black Magic, René Magritte

  • VOZES DE ATENTAR
«É um direito de toda a pessoa, um previlégio da natureza, que cada um possa adorar de acordo com as suas convicções: a religião de um não prejudica nem ajuda o outro […]. Não é próprio da religião obrigar à religião», Tertuliano, Ad Scapulam, II.
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Imagem: Two Women - IV, De Kooning (1952)

  • IDOLOS DE PÉS DE BARRO

No outro dia lia sobre uma dama da sociedade que, orgulhosamente, dizia que nunca tinha lido um livro – o que é, ao que parece, uma coisa comum e motivo de orgulho nos tempos que correm. Mas lêem outras coisas, lá isso lêem…

E, a propósito disso, lembrei-me de Antonino Eliogábalo, o Sardanapalo romano (como diriam Dio e Camões), que nunca leu um livro – diz-se. Mas que leu bem os Lusíadas com Aquilia Severa, Júlia Paula, Zótico de Smirna e Hierocles, lá isso fez bem... em noites regadas de vinhos frutados, manjares com toque de rosa e tudo. As referências subliminares das pessoas são, verdadeiramente, extraordinárias.

Os novos ídolos, ao contrário da fama dos antigos (de Catão o Censor, Marcelo, Amílcar Barac, Nelson, Scipião Emiliano, Napoleão, Aníbal, Tertuliano ou Melquiades) ou da grandeza dos modernos (René Cassin, António Vieira, Aung San Suu Kyi, Andrey Shakarov, Damien de Molokai ou Madre Teresa da Calcutá) não têm as almas plenas de valores mas sim alimentadas de barro, caviar e champanhe. Num mundo assim, a mentira, o mal e a inpaciência (que é uma forma de insolência e de mal) parecem triunfar sobre o bem. Mas quero crer que é só aparente.

Bem, vou atentar nas minhas leiteiras de verão. Razones Para Actuar – Una Teoria del Libre Albedrio, John A. Searle (uma releitura que se tornou, neste momento, prioritária).

Imagem: A Morte de Sardanapalo, Delacroix

terça-feira, 11 de agosto de 2009


  • ART AND THE PEOPLE
Art,—'t is a glory, a delight;
I' the tempest it holds fire-flight;
It irradiates the deep blue sky.
Art, splendour infinite,
On the brow of the People doth sit,
As a star in God's heaven most high.

Art,—'t is a broad-flowered plain
Where Peace holds beloved reign;
'T is the passionate unison
Of music the city hath made
With the country, the man with the maid,
All sweet songs made perfect in one!

Art,—'t is Humanity's thought
Which shatters chains century-wrought!
Art,—t'is the conqureror sweet!
Unto Art, each world-river, each sea!
Slave-People, 't is Art makes free;
Free People, 't is Art makes great!

O Chivalrous France! without cease
Chant loudly thy hymn of peace, —
Chant, with eyes fixed on the sky!
Thy joyous voice and profound
Through the slumbering world doth resound.
O noble People, chant high!

True People, chant gladly the dawn!
At even raise song at morn!
After labour sweet singing should be.
Laugh for the century o'erthrown!
Sing love in a tender tone,
And loudlier chant liberty!

Chant Italy sacred and sweet;
Poor Poland, slain sons at her feet;
Naples, whose heart-blood outpours;
Hungary, the Russian's base vaunt!
O tyrants! the People doth chant
Even as the lion roars.
--- Victor Hugo

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

  • E?
E se África renegar, de forma definitiva, o modelo democrático ocidental? – pergunta-me o meu poeta.
— Tenho pensado nisso nos últimos tempos, e anotado o que há que anotar para o futuro, com o Admirável Mundo Novo... que pode ser vermelho ou não – volvo.

Imagem: Au-dessus du Monde, Vladimir Kush


Por Cabo Verde passará o outro Clinton...

domingo, 9 de agosto de 2009

  • EU E O MEU POETA
Ando a tentar comprar uma moeda do verdadeiro Optimus Princeps… um denarius do primeiro quartel do século III d.C.; coisa simples – diz o meu poeta. Alea jacta est! – clamo perante este Rubicão de prazer. Porque o digo? – perguntar-me-á. Síndrome de Thanos, nada mais; creia-me.

Imagem: Luis Royo

  • A MORTE COMO NECESSIDADE: BIÚS, RAÚL SOLNADO E KARL MARX
Pois é, o Biús morreu. No Mindelo. Deus!, que terra mater para se morrer! O Raul Solnado, a pessoa que mais me fez rir desde que cheguei a Portugal – e como adoro rir! –, também seguiu para a maior das aventuras. Para os braços de Hella, seria bom, pois é a melhor de todas as escolhas. Se não a abraçarmos, ela nos abraçará.
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A morte é uma coisa necessária, imposta pela natureza para nos lembrar, a nós, homens, o quão efémeros somos e quão vã é a nossa pretensa glória e a busca incessante de coisas que a traça e a ferrugem consomem. Por vezes pode ser bela, gloriosa, libertadora das nossas dores, dos nossos medos, das ingratidões acumuladas, dos sonhos impossíveis até para Deus. A morte faz uma coisa extraordinária e é uma magna lição que Marx e Engels acabaram por aprender: é a única coisa que nivela os homens, naturalmente desiguais, e demonstra a injustiça de uma sociedade sem classes: coloca uns na eternidade e outros na terra do esquecimento, sem metafísica.

Se da vida só conseguiremos levar o que os outros não podem nos tirar, não é menos verdade – pelo menos para mim – que viemos a este Mundo para o deixarmos um pouco melhor do que o encontramos. Um momento na nossa vida, um único momento, pode realizar essa missão, e por vezes, a maioria das vezes, não nos apercebemos disso. Como dizia Tucídides no discurso fúnebre de Péricles, o salvador e construtor de Atenas: «A sepultura dos grandes homens é a terra inteira: deles nos falam não somente um epitáfio sobre a sua tumba; também no estrangeiro persiste a sua memória, gravado não em monumento, mas sim, sem palavras, no espírito de cada homem» (Tucídides, El Discurso Fúnebre de Pericles, IX). E no espírito de cada homem fica essa consciência de finitude imposta e renovada, de eternidade ansiada, desejada, procurada e só recebida como um inexpiável toque de Midas.

Image: Dark Labyrinth (LXXVIII), Luis Royo

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

  • CONTENTMENT
Depois de três anos investigação, leituras e releituras, contraposições de fontes, ars combinatoria e depuração de ideias, e de trabalho nocturno, tinha um projecto a definhar; pelo que decidi consumir o meu tempo disponível nos últimos dois meses a terminá-lo. Missão cumprida – diz o meu poeta. Acho que deveria ir mais além, ser mais arrojado; pormenorizado. Mas aí teria mais um ano a consumir o meu tempo livre, e para isso há outras coisas a fazer. As notas extravagantes ficam para outra altura, para outro momento pois o Mundo pulsa e o deserto, o deserto não pára de crescer.

Os leitores de terra-longe terão notado a minha ausência, mas a causa era necessária. Eremitei em parte, e isso é bom para a alma, para a disciplina interior: não fazer o que se quer e quando se quer mas o que deve ser. Sinto, neste momento particular, aquilo que os anglo-saxónicos (ainda existem?) chamam de Contentment.

Imagem: Salvador Dali, O Nascimento de um Novo Mundo (1942)

quarta-feira, 1 de julho de 2009


O silêncio é a arma dos maus.

  • QUANDO O SOL MENTE
1. Acordei, e o relógio apontava 6:57 AM. Para compensar ontem, meditei um pouco: caí no pensamento de Ario, na sua ideia de que o Logos não deve ser entendido em sentido metafísco mas moral. É, verdadeiramente, espantosa – mas igualmente perigosa e tentadora – esta ideia do Logos como intermediário de Deus e o Universo. Não me admira que alguns vigias se tenham tornado pretorianos do verbo...
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2. Penso, então, em coisas mais terrenas. É verdade, não se pode obrigar um povo, uma instituição ou uma pessoa a ser feliz – tenho de concordar com Luiz XVI e o seu juízo sobre Turgot. O vício, depois de instalado é como a gangrena – ou se estirpa ou deixa-se o paciente morrer nos seus próprios pecados. «Quem dá pérolas a porcos, acaba, necessariamente, entre os indigentes ou entre os porcos a tentar recuperar as pérolas. Não és o Padre Damien, nem Lisboa é Molokai, ó VB…» – diz-me o meu poeta. Pois seja. Cada um que tome a sua cruz, e a carregue!

3. Afinal, a falência do processo de Revisão da Constituição deve-se ao MPD ou ao PAICV? Não pode haver duas verdades (ou podemos relativar, distinguindo a verdade objectiva da verdade subjectiva?) nesta matéria, pois as actas dizem a verdade e só a verdade. O MPD tarda em esclarecer o povo sobre as suas razões, mas isso terá uma dimensão de mero esclarecimento contraditório do discuro político. As actas, Senhores deputados, as actas… pois, como dizia o outro Virgílio, Solem quis dicere falsum audeat? Sim, «quem se atreverá a dizer que o Sol mente?» Quod non est in acta non est in mundo – lá diziam os antigos, não é?

Imagem: Annia Faustina, mulher do Imperador Marcus Aurelius Antoninus