quarta-feira, 29 de outubro de 2008

  • LIXO TÓXICO. ESCANDÂLO PUTATIVO
Parece que, pelo que se pode ver por este fragmento de documento publicado pelo Liberal, estamos perante um non sense, um equívoco de análise. O Biosphere Process System é tido em muito quadrantes, nomeadamente nos Estados Unidos da América, como um sistema de conversão de resíduos sólidos em energia – nomeadamente eléctrica – não prejudicial ao ambiente.

O que o texto diz – indicia no histórico da performance do produto – é «o que o sistema pode fazer» e não «o que irá fazer». São coisas diferentes, de todo. Venha de lá o resto do texto…

É um sistema muito dispendioso, mas – com financiamento externo – pode ajudar a ultrapassar alguns constrangimentos energéticos do país; não sendo, de todo, panaceia para os males que nos afligem no plano energético. O Biosphere Process System promete uma gestão ecológica sustentável, uma energia verde; mas deve ser analisada e discutida, se necessário e possível, publicamente (alguns negócios e o seu timing são incompatíveis com tais procedimentos...).

É um processo que ultrapassa os problemas clássicos da incineração? É de ver não somente os termos do pré-acordo em si e as especificidades técnicas do Biosphere Process System mas, ainda, o sistema em funcionamento nos locais onde já se encontra implementado. É que, além dos custos económicos, está em causa muito mais: a saúde das pessoas e a sustentabilidade ambiental.

Ademais, como se pode ver, o protocolo de intenções previa ou prevê a não violação de normas municipais ou nacionais – isto é, o respeito pelas competências do(s) Município(s) e das leis nacionais aplicáveis, o que quer dizer das regras ambientais em vigor em Cabo Verde.

O que estranho nisto tudo é uma coisa: porque o Governo não torna público o documento e explica – sem rodeios, tintim-por-tintim – o que se passa? Acaba-se com as dúvidas e deixa-se de ter conhecimento «às mijinhas» do protocolo de intenções como se fosse um documento secreto para o povo.

A final, o escândalo é putativo. Outro me parece bem mais relevante e nada putativo; po isso pergunto:

– Afinal, o Governo deve explicações à União Europeia e demais parceiros internacionais ou ao povo que o elegeu para dirigir os destinos da nação?

Colocar seja quem for a frente do povo cabo-verdiano é que é escandaloso. Mas isso sou eu a pensar… e eu sou povo; e não somente no momento de votar.

  • Imagem: Extracto do Protocolo de Intenções in Liberal

8 comentários:

Redy Wilson Lima disse...

Se é tão bom assim porque é que não o fazem nos states?

Virgílio Brandão disse...

E não fazem, Lima?
Abraço fraterno

Redy Wilson Lima disse...

Então que continuam a fazé-lo lá. Simplesmente acho que não estamos preparados para coisas destas e depois há muita contradição no discurso dos governantes sobre o assunto. É só olhar o que aconteceu na Costa do Marfim.

Virgílio Brandão disse...

Lima,
Se não estamos preparados para cuidar do nosso lixo, estamos preparados para quê?

Com o mal dos outros podemos bem; temos é que cuidar do nosso mal, que é dizer – do nosso lixo.

Os governantes estão no poder para resolver os problemas do povo e prestar constas do que fazem às pessoas, a nós cidadãos.

Esta é uma daquelas questões que não admitem meias palavras nem titubeamentos discusivos ou de acções. Não acha?

Dia bom

Redy Wilson Lima disse...

A questão é essa mesmo: então estamos preparados para quê? Devemos antes de mais varrer o nosso lixo (que não é pouco) para depois pensarmos no lixo dos outros. Não sei se o cabo-verdiano saberia dessas coisas caso o PM tivesse encontrado com JS. É isso que mais me preocupa. O enorme défice democrático existente em CV e a falta de respeito dos políticos para com os cidadãos.

Virgílio Brandão disse...

Lima,
parece-me que a questão não será propriamente o lixo dos «outros» mas outra coisa.

Ou me engano ou o cerne da questão estará não no negócio em si, mas sim com quem se negociou - como se fez essa intermediação. É a minha percepção...

O sistema em si, pelo que sei, poderá ser uma boa solução para o problema do tratamento dos resíduos sólidos nacionais - mas deve ser sindicado se é a melhor solução.

Os contornos do negócio é outra coisa (o contratante não é especialista na área - será um intermediário da compra ou um concessionário do sistema a fornecer ao país) e é necessário ter acesso ao contrato para se saber o que realmente se trata.

Não me parece - pelo que veio a público até ao momento - que seja uma questão de importação de lixo dos outros, não...

O silêncio do Governo faz pensar em outras coisas, e isso não me parece muito prudente - para lá da falta de respeito de que fala.

Abraço fraterno

Ariane Morais-Abreu disse...

Ha poucos meses andei a projectar na minha imaginaçao uma cena de Cabo Verde conservando os lixos reciclaveis (plasticos, vidros, etc...)que poderia revender aos paises produtores na escassez de petroloeo e materia derivante. Era science-fiction na minha cabeça!! Mas a luz deste "novo escandalo", a minha fertil imaginaçao nao esta assim tao longe da realidade porque lixo genera também confortaveis lucros e alguns espertalhoes ja tomaram o peso deste "filon" possivel... Mesmo se é insuportavel aceitar a importaçao de lixos (seguramente toxicos) em CV, devemos convencer-nos que tais lixos ja se encontram em CV porque as toneladas de mercadorias de baixa qualidade made in China, por exemplo, sao lixos toxicos amonteados que dificilmente serao reciclados. Pois o problema é de facto enteirar-se da logica e da finalidade dos negocios anunciados. Se a memoria colectiva reage brutalmente contra os governantes sem mesmo ter conhecimento da integralidade do assunto é porque apreende o perigo e nao confia com legitimidade nos politiocs e governantes que ja falharam sobejamente sobre as questoes de soberrania e de protecçao da populaçao cv. "Il n'y a pas de fumée sans feu" e eles acenderam um fogo incontrolavel!! A atitude do PM é reveladora da situaçao de panico e de desespero em que se encontra Cabo Verde. Este episodio revela também o rosto assombrado da dita "Parceria especial" que parece servir interesses especiais que a oposiçao oportunista nem vislumbra de perto quanto menos de longe... por falta de logica, coherência e visao, como sempre!!

Virgílio Brandão disse...

Ah, Ariane...

Restar-nos-á estar atentos?

A Parceria é coisa que precisa de ser esclarecida; e não está.

Dia bom