sexta-feira, 5 de junho de 2009

  • VOZES DE ATENTAR
"Cada um tem o Apolo que busca, e terá a Athena que buscar. Tanto o que temos, porém, como o que teremos, já nos está dado, porque tudo é lógico. Deus geometriza, disse Platão", Fernando Pessoa

Imagem: Halle Berry

  • MOMENT(O) ZEN
"Receive a guest with the same attitude you have when alone. When alone, maintain the same attitude you have in receiving guests", Rules of Soyen Shaku

Imagem: Matisse desenhando no Louvre (1946)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

  • FRAGMENTO DE MIM
Um fragmento de mim estacionou em ti.
Pensas que são dores-memória, mas não,
não são azáfamas do tempo e do desejo
mas a essência da parte maior que me move.

Oh, anima! Quando a madrugada de bruma
desce pelo meio da tarde e guardo os rebanhos
que alimentas de mim sem sonhos
Deus nasce na berma da rosa
e, de boca aberta de espanto, humilde
pede-me para ensinar-lhe a amar como eu.

E mostro-lhe o fragmento de mim,
todos os dias – desde a hora-raíz estirpada.

Imagem: Pablo Picasso, Escultor e modelo (1931)

  • OBAMA, O NOVO TUTANKHAMON
Há povos que não conhecem a história da sua nação. Tutankhamon deve a sua celebridade não a nada que tenha feito em vida, mas a um incidente da história. Se os seus pais, o grandioso Faraó Amenofis IV (Akenaton) e Nefertiti, foram gandes governantes, revolucionários até – da religião à arte, passando por necessárias reformas sociais –, Tutankhamon só é conhecido porque o seu tumulo foi encontrado intacto. Não fosse isso e seria dos mais obscuros faraós da história. Poderiam comparar Barack Obama a Ramsés II ou ao seu pai, o magnífico Seti, ou até mesmo a Neferkare... que seria um exagero pois ainda está por ver-se o que será Obama na história da América e do Mundo actual. Mas isso não venderia...
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É triste, sumamente triste, ver que os cidadãos do Egipto não sabem quem foi Tutankhamon. É por esta e por outras que África, a história de África, é uma imensa nebulosa que os europeus se encarregaram de branquerar. A culpa não é sempre do outro...

Imagem: Imagem de vendedor egpício a promover um produto comercial que anuncia a chegada do Presidente Barack Obama ao Egipto

  • BARACK OBAMA NA ARÁBIA

A viagem de Barack Obama ao médio oriente começa em terra saudita, não fossem os sauditas os maiores investidores externos na América. A América precisa do investimento e do petróleo saudita como os desempregados precisam de trabalho e os meninos em Darfur de pão. E os sauditas, terra de Meca, apoiam, naturalmente, a existência de um Estado palestiniano e islámico.

Não é fácil gerir um país, o mais poderoso do Mundo, e a questão israelo-palestiniano um garrote que de um lado tem o lobby financeiro saudita e do outro o judeu e protestante. O que coloca Obama para além das promessas e dos princípios mas nas mãos do pragmatismo, na esfera da reserva do possível e dos compromissos. Os Estados Unidos da América precisam do protagonismo polítco nesta matéria, mas a verdade é que não são nem serão, de todo, o melhor mediador do conflito, pois é um mediador comprometido e fragilizado pelos seus próprios interesses.

Estou curioso para ouvir o que Barack Obama dirá aos povos do Islão a partir do Egipto. Estou certo que será um discurso centrado no compromisso a partir dos interesses comuns: a segurança e desenvolvimento sócio-económico. O que é um dos caminhos possíveis para resolver o problema israelo-palestiniano e outros mais globais e prementes, como o terrorismo e as actuais disfunções de mercado – que os países produtores de petróleo são em parte responsável como um verdadeiro reservatórios de superavits de activos financeiros emergentes das receitas petrolíferas. Só seria surpreendido se Barack Obama falasse em Democracia e/ou Direitos Dumanos. Mas isso, claro, não é sonho… é delírio. Isso é coisa que, Yes, We Can Not. De repente, esta viagem, por analogia de situação, lembrou-me a de Septimius Severus[1] a Arabia Felix

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[1] Primeiro Imperador africano do Império romano, então casado com Júlia Domna – cidadã síria.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

ARMÉNIO VEIRA – PRÉMIO CAMÕES 2OO9

O poeta, depois de ser bombardeado pela comunicação social, amigos, os abutres e bajuladores do costume, e se sentir natural e externamente recompensado, voltou à sua rotina dos dias ilhéus. Testemunhado pela objectiva de Abraão Vicente.

Imagem: Fotografia de Arménio Vieira, por Abraão Vicente

  • QVO VADIS, MPD?
O anda o MPD a fazer, afinal? Qual é o mal que advirá ao Mundo se se discutir a liderança do Partido nos moldes de um partido democrático? – pergunta-me o meu poeta. A lógica do movimento, da onda, está esgotada há muito; não basta ser-se contra, ser-se oposição, é preciso ser-se melhor; tento esplicar ao meu poeta. E pluralismo monolítico não é solução; do confronto é que saiem as soluções e não do unanimismo frouxo, falso e conjuntural.

O meu poeta, o meu poeta não percebe que qualquer resultado que não seja uma aclamação do Carlos Veiga será, para ele, uma derrota. A Comissão Política do MPD sabe isso, e tem de mitigar os estragos que a candidatura natural do Jorge Santos causará ao projecto de “salvação nacional” que Carlos Veiga quer(erá) encarnar. Mas como pode o Jorge Santos deixar a liderança do Partido, para dar o lugar ao ex-Primeiro-Ministro, sem passar a ideia de que foi um líder de transição, que foi “plantado” na liderança para atravessar o deserto e que não tem nem nunca teve a ambição de liderar o país e muito menos um projecto real para Cabo Verde?
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Mais: como fazer o que a Comissão política quer sem fazer das duas uma: (i) tirar o tapete a Carlos Veiga – o que é bastante improvável, pois este não avançaria se não tivesse as espingardas bem contadas – ou (ii) passar ideia de que o MPD é uma coutada de Carlos Veiga & Co. e que Jorge Santos terá de se remeter a condição de peão em nome dos “interesses” do partido e da nação?
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A solução a estas questões até que são relativamente simples – se descontarmos pormenores da humana conditio –, o timing natural é que não ajuda; e o timing que o próprio MPD constrói não ajunta, espalha. Desperdiça capital, humano e de valor e arrisca-se a hipotecar parte substancial do futuro. O que a Comissão Política quer evitar é o inevitável, e o problema não se reduz a quem será o Presidente do MPD, é mais, muito mais do que isso. A procissão ainda vai o adro; e os prognosticadores de pena alheia, sacerdotes de Delfos da morabeza, hão-de aparecer para tocar os tambores necessários. Qvo Vadis, MPD?
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Imagem: Jackson Pollock trabalhando

Pablo Picasso, Minotauro ferido e cavaleiro (1936)

terça-feira, 2 de junho de 2009

  • ARMÉNIO VIERA LEU OS LUSÍADAS NO VERBO

O tempo é o maior julgador e, assim como não se pode esconder a candeia debaixo da mesa, não se consegue esconder o rugir do tigre na noite escura. E o que tem de ser, será… «quando for tempo disso» – diz o poeta. No outro dia o poeta José Luiz Tavares dizia, numa entrevista ao jornal A Nação, que Arménio Vieira era o maior escritor cabo-verdiano vivo. Bem, acaba de ser-lhe atribuído o Prémio Camões – o maior galardão literário da língua portuguesa, uma espécie de Nobel da lusografia. Merecido! Justo! Antes, já era merecido. Torna-o o maior escritor cabo-verdiano vivo? Os técnicos e os seus pares assim dizem...

A última obra que li dele, Mitografias, é um dos melhores livros publicados em língua portuguesa dos últimos anos. Deus tem destas coisas, um poeta quase esquecido na sua terra acaba por ver o seu mérito publicamente reconhecido no exterior. Este reconhecimento servirá para chamar atenção não para a obra de Arménio Vieria, pois os leitores que lêem conhecem-na bem, mas, essencialmente, para a literatura cabo-verdiana. Mas há quem tenha olhos e não veja.

Este Prémio Camões não é um prémio em sentido próprio, é um reconhecimento e uma merecida forma de dizer obrigado a Arménio Vieira pela sua poética que extravaza a dimensão das ilhas atlânticas e a alma das suas gentes. Amanhã todos aplaudirão o poeta, levantarão vozes altisonantes em seu louvor – mas esquecerão o ontem, quando o seu labor precisava de mais que uma não política de e da cultura. Mas o poeta esperou, o poeta sempre espera… Avé Arménio Vieira!

O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.
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Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.
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Ele busca a fêmea
como quem procura comida.
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Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.
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Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.
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Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.
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Não soa,
porque não respira.
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É menos que embrião
abaixo do ovo,infra-sémen.
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Não tem forma,
é quase nada, parece morto.
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Porém existe,
por isso espera.
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Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
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Ele será
quando for tempo disso.
Arménio Vieira, in Vozes poéticas da lusofonia, Sintra, 1999

Imagem: René Magritte, Discovery

A Luis Cabral
  • O NIVELAMENTO
Dizia Aristóteles, quando ensinava o menino
a vencer o Mundo e a ser verdadeiramente grande
que tudo segue para o seu lugar natural
– eu tenho uma pétala de rosa presa no meu livro
e espreito o cemitério pejado de génios e beleza.


Imagem: La Grande famille, René Magritte

Chuck Close, Fanny (1985)
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  • PROVÉRBIOS DO INFERNO

«Jamais uma águia perdeu tanto tempo como quando se dispôs a aprender com a gralha», William Blake, «Provérbios do Inferno (39)», in O Casamento do Céu e do Inferno

  • A ESPADA DE DÂMOCLES

De repente deu por mim a pensar que enquanto antropos sou uma impossibilidade, um milagre com anima. Sim, um milagre que se reinventa todos os dias, ao acordar e descobrir que respiro, que estou vivo, que tenho uma dádiva redobrada, que venci a batalha maior para chegar ao útero da minha mãe e nascer, que deveria ter morrido algures no Mindelo quando em menino a menigite e a febre tifóide me reclaram como vítima. Eu acredito em mais do que isto que vivemos, e vejo a vida, a existência, como um milagre que se estende para além do visível. Os que não acreditam, por maioria de razão, vê-la-ão como um milagre ainda maior.

E se mais razões não existissem, esta é motivação mais do que suficiente para resgatarmos o sentido de humanidade e preservarmos o Mundo que nos foi emprestado para viver durante uma parcela fugaz do tempo. O paradoxo é que a cada dia que passa nos apossamos de mais saber e de mais coisas, mas nos tornamos também menos humanos, menos capazes de amar, de construir, de sustentar a nossa humanidade e de compreender o outro. «E se um dia não acordarmos, ou se acordarmos e o nosso Mundo tiver desabado?» – pergunta-me o meu poeta. Talvez seja uma experiência necessária para compreendermos a nossa verdadeira condição, nos tornarmos mais humanos. Pode nos acontecer, amanhã.

Miró, sem título (tratado)

René Magritte, Magia Negra

segunda-feira, 1 de junho de 2009

  • AS MULHERES QUE NUNCA TEREI
Amo com as raias da alma e dos silêncios
todas, mas todas as mulheres que nunca tive
nem terei como o pranto da Lua cheia
no corno do Mundo envelhecido de sonhos.

Oh! tivesse eu asas como o condor
e voaria até às portas destas almas-minhas
e faria lá o meu ninho, como a andorinha
– mas como estou órfão de tudo sem ti
sonho-te meu lugar natural
e és todas as mulheres que nunca tive
e nunca terei… por ti, ó atlântica Rosamund.

  • A MORTE DE LUIS CABRAL E A FESTA NÃO ESTRAGADA

Luís Cabral morreu, seguiu para a maior aventura. A última vez que o vi, visilmente debilitado, foi no Sana Hotel em Lisboa, por ocasião das comemorações da Mulher cabo-verdiana a 08 de Março. Trocamos algumas palavras de circunstâncias, e pensei – como pensamos sempre – que o voltaria rever mais tarde nesse dia ou em outra ocasião. Mas não, não aconteceu.

Luís Cabral, quer queiramos quer não, foi um dos heróis da libertação dos povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde do jugo colonial. Não sanciono, nunca sancionei nem sancionarei a maioria das suas políticas como Presidente da Guiné-Bissau até ser deposto por Nino Vieria, pois a história é o que é e o homem é, como dizia José Ortega y Gasset, ele e a sua circustância. E pelo que fez por Cabo Verde e pela Nação cabo-verdiana é digno de honra e respeito eminente. É um pater partriae, sempre o vi assim – na vida e na morte, o que é um juízo objectivo. Mas nem todos vemos as coisas da mesma forma, o que aceito com normalidade – mesmo quando não me revejo nessas perspectivas. A morte de Luis Cabral colocou-me perante uma situação dessas.

Estava acidentalmente na Associação Cabo-verdiana (ACV) de Lisboa quando, eram 22:18 PM, recebi uma mensagem no telemóvel: Luis Cabral morreu. Os convivas tinham acabado de jantar, uma artista apresentava um novo trabalho discográfico e, muito cabo-verdianamente bebia-se e dançava-se. Dei a notícia ao Rui Machado, a presidir os destinos da ACV, esperando que transmitisse a notícia aos presentes – em particular aos cabo-verdianos e sócios presentes. Mas não, continuou tudo na mesma, como se nada tivesse acontecido.

Depois de muita insistência, um ou outro presente que entretanto foi tendo conhecimento do facto, lá se fez o anúncio da morte de Luis Cabral, eram quase uma hora da manhã. Confesso que fiquei chocado, não somente porque era de se fazer o anúncio no momento em que se teve conhecimento da notícia, até porque se estava na Associação Cabo-Verdiana, mas pela justificação que me deram para não ter sido feito na altura: o anúncio teria estragado a festa. Chocou-me esta forma de ver as coisas, este pragmatismo extremista de se colocar a festa acima da solidariedade, dos sentimentos, dos afectos, da gratidão… é mesmo coisa de terra sab p´cagâ!

Luis Cabral lutou, arriscando a sua vida, viu o irmão, Amilcar Cabral, morrer para que pudéssemos ter um Estado, festejar a independência e viver a liberdade, mas na sua morte não somos capazes de parar um minuto para anunciar a sua morte… pois estragaria a festa, o jantar de uma centena e meia dúzia de pessoas. Se calhar a decisão do Rui Machado foi a mais correcta, e eu é que estou enganado e estou a ser piegas… um nacionalista de meia tijela e que a festa é o mais importante, talvez. Sim, talvez… Mas o que sei é que, como aprendi como meu Mestre há alguns anos, "onde está o teu tesouro aí está o teu coração". E nestes momentos aprende-se muita coisa; e algumas não são assim tão óbvias.

A divida de gratidão que, como cabo-verdiano, tenho para com Amílcar Cabral, Luis Cabral, Nino Vieira, Aristides Pereira, Titina Silá, Pedro Pires, e todos os outros que lutaram pela minha liberdade e pela liberdade do meu povo é imensa, visceral e fraterna. Há coisas que não têm preço. E ver a sua memória não honrada, ainda que de forma simbólica, é, para mim, uma ofensa. Um aviso a Pedro Pires, Aristides Pereira e os demais heróis da luta da libertação vivos e pela democracia: quando morrerem (e que vivem muitos e longos anos!), não morram num dia de festa! Isso de estragar a festa alheia é do caraças! – diria o peixinho.

Imagem: Luis Cabral em 1974, aquando da luta da libertação na Guiné-Bissau

Aung San Suu Kyi

sexta-feira, 29 de maio de 2009

  • AL PSU, Ó ESTEVES
Tenho dito, não raras vezes, que que isso de não ler os Lusíadas faz mal à muita gente – começam a delirar, e até usam o nome de Deus, resgatado de uma terra de cabras, com visões colhidas de uma caverna. Mas não devem saber isso, pois não leram os Lusíadas – e não sabem as dores que sofreu Joaquim às mãos de Nabucodonozor, nem conhecem a forma das lágrimas de Tito diante do fogo ou o sonho de Neemias, Esther, Daniel e Jeremias nas noites cativas dando nome às estrelas.
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Bem digo, quase que grito e sou gráfico!, mas não sou escutado. O melhor será dizer: procurai as bacantes! Bem, para ser bem entendido: bebei vinho meu amigo, vinho. Vou fumar! Mas para ti, o melhor será dizer – ainda: come chocolates, come chocolates

Donald Rumsfeld e Shadam Hussein em Bagadad (1983)
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  • MUDAM-SE OS TEMPOS…
Tão amigos que eles eram… Donald Rumsfeld, O Bush man e Shadam Hussein – o então ditador necessário. Um morreu: enforcado por ordem de tribunal preparado pelo outro, depois de promover a invasão do seu país, e ficar ainda mais rico com o petróleo iraquiano e as obras de reconstrução do país. Agora que a galinha de ovos de ouro está a acabar (irá acabar com a Administração Obama – como foi publicamente anunciado e terá de ser: djana já cabá), tivemos a gripe das aves e, agora, a gripe suína.

E, adivinhe só quem está a ganhar milhões com estas crises gripais? Sim, isso mesmo: Donald Rumsfeld! A Empresa a que preside é dona das patentes das vacinas, para a gripe das aves, da gripe suína… e sabe lá Deus o que por aí virá a seguir. O homem, decididamente, sabe que a desgraça dos outros é a sua Fortuna. Por vezes, como agora, penso em Malthus… de certeza que adoraria conhecer Donald Rumsfeld! Seria, como se dizia no Mindelo quando eu era menino, o encontro da fome com a vontade de comer. Da ilha de Patmos: quem tem ouvidos…

Les femmes, Milo Manara
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  • PROVÉRBIOS DO INFERNO
«Conduz teu carro e teu arado sobre a ossada dos mortos», William Blake, «Provérbios do Inferno (2)», in O Casamento do Céu e do Inferno

Darfur, Sudão…

quarta-feira, 27 de maio de 2009

The Wheel of Fortune, Edward Coley Burne-Jones

  • EU E O MEU POETA
– Há uma diferença substancial entre mentir e dizer uma mentira – lembrei ao meu poeta.

– VB, e quando se diz uma mentira e ela se torna a verdade, a realidade? – volveu o meu poeta.

– Bem, meu poeta – respondi –, aí não se pode fazer nada, pois estamos então perante a
vontade dos deuses criadores da verdade.
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– Ah, sim! Agora entendo, ó VB, porque dizes para se ter cuidado, cuidado com o poder…

segunda-feira, 25 de maio de 2009

  • DESPOJOS DE DOMINGO CANIBAL

É Domingo. O perdão da divida externa dos países pobres, a pena de morte, a Nova Ordem, o corporativismo judicial, o mal como situação não necessária, a pobreza estrutural e a miséria humana – as suas causas são tanto ou mais dolorosas do que elas mesmas – azucrinam-me a alma enquanto escuto Albinoni, Corelli e Bellini no meu momento de reflexão. Melhor é não pensar – diz o poeta. Fumo um ducados (que saudades tenho de um cigarillo negro cohiba ou de um popular sem filtro!), e resolvo ler um pouco: reli um texto, enviado por um amigo, sobre Ugolino e passo os olhos por Emanuel Swedenborg – tem prioridade não técnica nestes dias.

O universo cai aos bocados, podre pelo norte, de ausência de pão a sul, de afectos dementes, com a dor esmolando pelas ruas, a lua e a amante da rosa desertas. Estaciono na poesia – leio The Ship of Death and Other Poems de D.H. Lawrence, e paro em «Snake»:

A snake came to my water-trough
On a hot, hot day, and I in pyijamas for the heat,
To drink there.

[…]
The voice of my education said to me
He must be killed,
For in Siciky, the black, black snack are innocent, the gold are venomous.

[…]
And a voice in me said, If you were a man
You would take a stick and break him now, and finish him off.

Terrível… Espreito a alma de T. S. Eliot (Little Gidding):

[…]
Quick now, here, now, always –
A condition of complete simplicity
(Costing not less than everything.)
And all shall be well
When tonges of flame are in-folded
Into the crowned knot of fire
And the fire and the rose are one.


Não, as rosas ardem, queimam demais na primavera. Como diz Camilo (Shakeaspeare, The Winter´s Tale, IV.3):


I should leave geazing, were I of your flock,
And only live by gazing.


Nada disso, não. Talvez seja de seguir o conselho de Hamlet (Shakeaspeare, Hamlet, II.1): “By indirections find directions out” e, como me diz Wordsworth, haja “A virtue which erradicates and exalts / Objects through widest intercurse of sense”. Mas a verdade, assume a voz de José Gomes Ferreira (Poesia I, XXXIII):

Nasceste por engano nestes céus
lua de sangue
– pintada dos corações de todos os mortos.

O que quero, é o Domingo – a alma do sagrado. Não há vozes sobre os céus, hoje. Miguel brigou, e perdeu o meu poema de figos maduros para as potestades do ar. Estaciono a alma em Ezra Pound (Ezra Pound, De Aegyito) consolado:

Eu, até mesmo eu, que conheço as estradas
Através do céu, e o seu vento no meu corpo.


Eu vi a Senhora da Vida,
Eu, até eu, que voarei com a andorinha
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Sim, com as andorinhas felizes. Essas que banharam Rosália de Castro de sonhos (Rosália de Castro, Dos Palomas):

¡Felices esas aves que volando
libres en paz por el espacio corren
de purísima atmósfera gozando
!

E o Domingo foi-se com a noite. Lembro-me de Helvius Pertinax – esta memória é o maior dos conselhos. Ugolino não matou a fome: a natureza suplanta todos os afectos – aqui reside a razão maior do mal. Por isso é inextirpável – como diz-nos Emmanuel Kant em A Religião nos Limites da Simples Razão. Estas coisas também matam um Domingo, e muitos outros dias. Deveria ter trocado isto pelos Lusíadas, dar uma braçadas… como diz um peixinho que sabe teclar mas lê pouco. Ai Voltaire! A tua velha… era feliz. Não acrescentava dores às dores, lá isso não fazia ó Coélet.

Imagem: Veneziana de costas virada para o mar…

Stasys Eidrigevicius, Pray
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  • VOZES DE ATENTAR…
" In fact, I'll bet that within the next hundred years (I'm giving the world time for setbacks and myself time to be out of the betting game, just in case I lose this one), nationhood as we know it will be obsolete; all states will recognize a single, global authority. A phrase briefly fashionable in the mid-20th century -- "citizen of the world" -- will have assumed real meaning by the end of the 21st.. [...] Perhaps National sovereignty wasn't such a great idea after all", Strobe Talbot, President Clinton's Deputy Secretary of State, as quoted in Time, July 20th, 1992

O CONDE UGOLINO E A NATUREZA HUMANA

O connatus essendi, diria Espinosa...
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clique na imagem para poder ler melhor o texto

domingo, 24 de maio de 2009

  • A CRISE SELECTIVA E A ARISTODEMOCRACIA
Quem foi que disse que Cabo Verde passa a vida a imitar Portugal? Pois disse bem – e no pior que o país tem. Se fosse nas coisas boas, mas não. Pois bem, desta vez foi ao contrário. Depois da Assembleia Nacional ter renovado a sua frota automóvel, a Assembleia da República Portuguesa resolveu fazer o mesmo: BMW´s novos para todos os líderes parlamentares e para a Mesa da AR. O povo que aperte o cinto, pois é necessário comprar carros novos para os líderes do Parlamento (esqueceram estes que se o povo sofre, eles também deveriam sofrer, pois são a representação do povo; são somente o boca do povo – mas não para comer em seu nome, mas sim para falar em seu nome). E dar aumentos de 5% ao Governador do Banco de Portugal (cerca de mais mil euros de aumento por mês, a acrecentar aos cerca de 20 mil que recebe mensalmente), mas que este prescindiu – mas porque se tornou um escândalo público.

Assim vai Portugal – uns a viver de forma escandalosamente opulenta e outros a sobreviver nas ruas, debaixo das pontes e em casas onde não há ar condicionado, sedas, marfim, presunto pata negra e de pato, Barca Velha e Albariño, caviar beluga e champanhe a rodos... mas sim ratos, piolhos e, com sorte, uma côdea de pão com manteiga para comer com leite com prazo a expirar do Banco Alimentar. A crise existe, sim. Mas é selectiva, muito selectiva. «Os pobres que paguem a crise» – é o lema da aristodemocarcia política, os nobres da moderdinade, esses que emergiram da Revolução e das independências para livrar os povos oprimidos do jugo opressor. O povo, assim como a instauração da República em 1910, trocou um jugo por outro.
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Mas pode ser que um dia o povo acorde, e faça uma revolução silenciosa nas urnas – pois Abril, nunca mais se verá; os militares estão adormecidos e domesticados pelas delicias de Cápua e pela «ordem democrática». E lembro-me, agora, do poema Os Conjurados de Jorge Luis Borges – sim, oxalá este meu desejo de despertar do povo seja profético.

Imagem: BMW série 7

  • VOZES DE ATENTAR
«Vamos ler Voltaire, todos! Candido, é o conselho» – exortou o meu poeta.
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Imagem: Voltaire

sábado, 23 de maio de 2009

  • PAI UNIVERSALIS

Para os que se interessam por questões políticas, cá fica este comunicado do Sector do PAICV em França (editado como recebido, na forma e conteúdo). Interessante… Ah, um passarinho, aliás vários, me disseram que o Presidente do JPAI, de passagem da viagem à França, iria inaugurar o sistema de emissão de Certidões de Registo Criminal on line da Embaixada de Cabo em Lisboa (o sistema que já tinha sido inaugurado – e que é uma mais valia para a comunidade, diga-se an passant), aproveitando para ter reuniões análogas aos que teve em Paris. Tudo na normalidade – pensar-se-á na terra. O que a oposição tem a dizer disso? Vou ficar à espera, mas a reacção será um tanto ou quanto extemporrânea.

Imagens: A reunião comemorativa do 10 Anos das mulheres PAICV de Paris
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Comemorações do X Aniversário do Sector de França encerradas em grande!

As comemorações do X Aniversário da criação do Sector do PAICV de França foram encerradas com chave de ouro, numa sessão que decorreu do início da tarde de Domingo, 17, até por volta das 21h00 no Centro “Robert Lavargne” de Asnieres. O Salão transbordava de gente provinda dos quatro cantos de Paris e de outras cidades, os assentos não chegaram pela enchente e muitos assistiram de pé. Um clima de muita amizade e de convívio fraternal perdurou até o fim. O programa não poderia ter sido melhor: um mix de comunicações de interesse para a comunidade, asseguradas pelo Ministro de Estado e da Saúde, Basílio Ramos, sobre “Os Desafios de Cabo Verde” e pelo Embaixador,. José Duarte, sobre o Acordo de Mobilidade com França, no quadro da Parceria Especial Cabo Verde/União Europeia, com um breve historial da criação e evolução do Sector do PAICV em França, apresentada pela dinâmica 1ª Secretária do Sector, Etelvina Teque e um programa cultural riquíssimo com intérpretes de qualidade invejável.
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Cantoras e cantores, conjunto musical, que presentearam o público com interpretações abarcando quase todos os géneros musicais cabo-verdianos e com alto nível de desempenho. Na dança, o batuku e uma coreografia dos géneros tradicionais estilizados fizeram o gozo dos espectadores. Claro, com todos esses ingredientes, muitos deram gosto ao pé num baile animado que, em festa de kriolu é impossível faltar.

Mas todo o conteúdo do programa das comemorações primou pela qualidade. A componente política contou com um encontro entre a delegação da Direcção Nacional do PAICV, chefiada pelo seu Secretário-Geral Dr. Basílio Ramos e o Conselho do Sector de França e militantes de base, bem como as delegações dos Sectores de Itália, Holanda e Portugal, chefiadas pelos respectivos primeiros secretários; Um encontro de jovens com o Presidente da JPAI, Nuías Silva; um encontro de mulheres, onde se empossou a Secretária do Sector para as Mulheres, Fernanda Semedo, presidida pela Secretária Nacional das Mulheres do PAICV, Joanilda Alves.
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A componente política contou, ainda, com duas reuniões da delegação cabo-verdiana, desta feita chefiada pelo Coordenador do PAICV na Europa, Mário Matos, realizadas com um delegação do Partido Socialista Francês, presidida pelo Chefe de Departamento de África, Thomas Melonions e com representantes da Direcção da reputada Fundação “Jean Jaurès”, Anne-Chatarine Franc do Secretariado Nacional do PSF e Alexandre Minet do Departamento de África da FJJ, onde foram passados em revista os laços de amizade, solidariedade e cooperação entre o PAICV e o PSF, ambos partidos da Internacional Socialista, e se assentaram medidas para o reforço dessas relações que serão formalizadas aquando da próxima visita de uma delegação do PSF a Cabo Verde a convite do PAICV.

É de se realçar que, como habitualmente e fazendo jus às excelentes relações entre o PAICV e o PSF, o Sector de França contou com apoio do PSF nestas comemorações. Os encontros políticos decorreram, todos, nas sedes do PSF e da Fundação “Jean Jaurès”.

O Deputado da Nação, eleito pelo Círculo Eleitoral da Europa e Resto Mundo, Manuel Monteiro, tomou parte activa nas comemorações, tendo sido lembrado, também, como um dos fundadores do Sector do PAICV em França, juntamente com Orlando Livramento, Sérgio Sanches, Francisco Santos, Annie Lacerda, e muitos outros.
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Para além da sessão pública de encerramento do Programa, realizou-se, ainda, um encontro com a comunidade em Creil, na manhã de 17 de Maio, presidido pelo Ministro de Estado e da Saúde, Dr. Basílio Ramos, onde foram levantadas várias questões respeitantes à actual realidade em Cabo Verde e na diáspora.

Sem dúvida que o Sector de França, a sua Direcção e os militantes e amigos do PAICV, estão de parabéns. Foi esse o sentimento de todos os que participaram nesses eventos.
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  • MY DREAM OF YOU
Hoje, escutava o meu poeta
a dizer-te em penitência de querer-te:

«O meu sonho de ti
é pomba imolada no eros-altar,
é cordeiro em incensário florido,
é canto de louvor feito sacrifício,
é amor gerado de dor branca,
é ramo de palma emoldurando-me a alma,
é navio sem porto-descanso,
é desejo sem paragem,
é sentimento sem forma-destino nem imagem,
é encanto sem forma de desencanto,
é vago temor de te amar,
é vontade de tocar-te profundamente…
é nódoa que não mancha,
é negritude perdida em cristalino,
é opacidade de redenção denunciada,
é emancipação da redenção expiada,
é cópula silenciada de silêncios,
é bem e é mal libertário,
é divino e é profano,
é absoluto e é miragem,
é Alfa plenilúnio de Agosto em Mindelo,
é proto-Ómega que se reduz
às formas tremendas da tua alma
quebrada em corpo-raízes-sim».

Imagem: KD Aubert

  • RAÍZES/ROOTS
Este é Nhô Pedro Nhana (Pedro Alexandrino Brandão), meu bisavô. Pai de Sabino Teixeira Brandão (meu avô) e avô de Virgílio Teixeira Brandão – meu pai. Estranho prazer este: ver a fotografia de uma pessoa que seguiu para a maior aventura ainda antes de eu ser gerado e entregue ao Mundo. A isso se chama genealogia, das margens do Vulcão. Obrigado, Tio Agostinho.

Fica aqui, para a multidão dos meus familiares que, como eu, nunca o conheceram.

Imagem: Nhô Pedro Nhana (Pedro Alexandrino Brandão) – meu bisavô.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

  • NOTA DE UM POETA A BEIRA-MAR
Alteia a bruma das rosas
– os ribeiros-beijos, confessados pelos serafins,
trouxeram a aurora dos argonautas.

Muitos universos chegam
à esta praia sedenta de amanhã
mas o oceano atlante em espuma és tu.

Porque te admiras, norma mortal,
proto-sombra de tudo?

Estou sedento, vou beber o mar; todo.

Imagem: Binette, Nana Sousa Dias

  • MOMENT(O) ZEN
O Papa João Paulo II foi até a prisão visitar o homem que o tentou matar. Estando lá, cumprimentou-o, e disse-lhe que o perdoava. Um lição a não esquecer! O homem, hoje diz-se arrependido, que é um novo homem e que, imagine-se, quer adquirir a nacionalidade portuguesa. O Ministro da Justiça, antes do homem fazer o pedido já respondeu: não! Uns perdoem, outros não. É, entre outras coisas, o que diferencia os homens.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

  • O COMUNICADO DO PROCURADOR GERAL DA REPÚBLICA E A PRESCRIÇÃO DO CRIME ELEITORAL
Acabo de ler o Comunicado do Procurador Geral da República (PGR) em Nota de Imprensa sobre o caso das declaraçãos do Primeiro Ministo no dia das eleições em 22.01.2006 (últimas eleições legislativas) e, ainda na sequência da decisão do Supremo Tribunal de Justiça/Tribunal Constitucional, fica claro o que já sabia: vivemos num Estado em que impera o corporativismo. Mas isso, será objecto de escrito posterior.

Alguém não fez o seu trabalho – e, como ficou claro, esse alguém não foi a PGR mas sim a Assembleia Nacional. Lembro que aquando de uma quaestio com o M.I. Casimiro de Pina e o destemido Nuno Ferro Marques, a propósito da Petição/Acção Popular subscrita pelo ex-Primeiro Ministro Carlos Veiga e agora candidato a liderança do MPD, ficou claro que tinham apresentado uma Petição no Parlamento no sentido de haver acção penal contra o Primeiro Ministro José Maria Neves (o que, na altura, estava já prescrito – como defendi então).
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Como vem esclarecer o PGR – o que deveria ter sido feito já nessa altura, diga-se em abono da verdade –, a Acção Penal não foi iniciada pela Assembleia Nacional, como manda a Constituição. Na altura alertei para os manifestos intentos políticos da Acção Popular/Petição… mas nunca pensei que pudesse haver entraves políticos em matérias desta natureza, até porque existe uma Oposição. Aliás, quem tem acompanhado os meus escritos no Liberal sabe que reclamo há muito a revisão desta norma da Constituição, uma vez que cria uma desigualdade material injustificável entre os cidadãos (vai além de qualquer ideia de imunidade, cria situações de inpunidade).

Mas porquê não se iniciou o procedimento penal para, de seguida, o mesmo seguir para a PGR? – perguntar-me-ão. Isso é para se perguntar aos parlamentares, aos deputados da nação. O PGR, assim, não é responsável pela prescrição, pois – como fica claro na Nota de Imprensa – «o Procurador-Geral da República não recebeu da Assembleia Nacional nenhum requerimento solicitando procedimento criminalmente contra qualquer pessoa que seja membro do Governo, razão por que não existe, contra o actual Primeiro Ministro de Cabo Verde, Dr. José Maria Pereira Neves, qualquer processo-crime cujo procedimento pudesse prescrever nas instâncias do Ministério Público».
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Isto é, se a Assembleia Nacional tem cumprido com o seu dever, poder-se-ia sacar responsabilidades ao PGR, pela omissão que refiro no texto «O CRIME ELEITORAL, O PRIMEIRO MINISTRO E A PROCURADORIA GERAL DA REPÚBLICA». O que a Assembleia Nacional tem a dizer sobre isso? Os cidadãos merecem uma explicação. A do PGR (deste em exercício de funções) é, nos termos da lei, bastante clara e oportuna.

Imagem: The Theotokos, Dionisios

  • O CRIME ELEITORAL, O PRIMEIRO MINISTRO E A PROCURADORIA GERAL DA REPÚBLICA[1]
As declarações do Primeiro Ministro José Maria Neves no dia 22.01.2006 (dia das eleições) terá sido (foi) objecto de um Inquérito crime sobre as mesmas. Como se sabe, sou da opinião de que os factos em causa poderiam consubstanciar um ilícito criminal, mas que prescreveu há muito. É um facto do foro judicial, mas é, também e em razão da pessoa, um facto político.

A Procuradoria Geral da República teve tempo mais do que suficiente, passados mais de dois anos, para propalar uma decisão sobre esses factos. A verdade é que, em opinião clara e liminar, o Primeiro Ministro José Maria Neves violou objectivamente – com consciência ou não da ilicitude da sua acção – a norma penal em causa. Agora, que houve lugar à prescrição do crime, lá isso não resta, também, nenhuma dúvida.

O problema é que se no plano judicial a questão parece e é simples, no plano político resulta(rá) penoso para o Primeiro Ministro a manutenção deste espectro judicial, e que poderá vir a prejudicá-lo nas próximas eleições (sejam elas no quadro do fim da legislatura ou antecipada – esta situação é sempre possível… em particular no quadro da Revisão da Constituição; que a negociação do calendário eleitoral poderá fazer abortar), além de que a oposição e os cidadãos cabo-verdianos merecem ser esclarecidos pelas entidades competentes se ouve ou não lugar a um ilícito criminal praticado pelo Primeiro Ministro e se este prescreveu ou não.

E é um dever da Procuradoria Geral da República fazer isso – até porque o actual Procurador Geral não tem responsabilidades na prescrição do crime, mas começa a ter responsabilidades se não for emanado o competente Despacho a decidir esta questão. Todos os cidadãos são iguais perante a lei – e houve, parece-me, uma protecção desmedida do Primeiro Ministro neste processo, pois a PGR deveria ter avançado como o processo em tempo útil, e isso, que se saiba, não foi feito. Agora, o que acontece neste momento – a cada dia que passa – prejudica politicamente o Primeiro Ministro, e mina o capital de confiança que o Procurador Geral da República (digo o PRG porque é ele quem, em última análise, responde pelas acções e omissões do Ministério Público) merece como guardião e defensor da legalidade.

O timing político desta questão, da perspectiva do PAICV, esgotou-se há muito (direi que se esgotou com as Eleições Autárquicas…) e sua manutenção é que é inusitada. Até perceberei – de um eventual ponto de vista do actual Procurador Geral da República – a questão da inoportunidade de propalar-se uma decisão próximo de umas eleições Autárquicas para não projudicar um partido ou beneficiar outro; mas não agora. Começam a faltar-me argumentos de bondade para perceber esta omissão. Dura lex sed lex – a nação agradece que assim seja.
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[1] Pela utilidade da mesma, repristino este texto publicado no Liberal
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Imagem: Fyodor Dostoevsky, por Vasily Petrov (1872)



COMUNICADO


Tendo tomado conhecimento de notícias, escritas em jeito de artigos de opinião por dois eminentes cidadãos e Ilustres Juristas cabo-verdianos residentes no estrangeiro, veiculadas por um dos jornais electrónicos do país, acusando o Ministério Público e a Procuradoria-Geral da República de, por omissão, ter deixado prescrever o procedimento criminal relativo a factos susceptíveis de integrar crimes praticados no dia 22 de Janeiro de 2006 pelo actual Primeiro Ministro de Cabo Verde, Dr. José Maria Pereira Neves, a Procuradoria-Geral da República vem esclarecer o seguinte:

1. No ordenamento jurídico cabo-verdiano, como no de quase todos os Estados de Direito Democrático, o exercício da acção penal está constitucionalmente atribuído, quase em exclusivo, ao Ministério Público, o qual, no exercício das suas funções, se sujeita, entre outros, aos princípios da competência, da legalidade, oficiosidade e estrita objectividade.

2. Em virtude do regime de responsabilidade criminal dos membros do Governo estabelecido na Constituição da República de Cabo Verde, nos seus artigos 180º, nº 2, alínea d) e 198º, cabe à Assembleia Nacional promover acção penal contra membros do Governo, incluindo o Primeiro Ministro.

3. A supremacia do Estado de Direito constitucional comporta, inexoravelmente, a estrita observância das imunidades estabelecidas e do regime de responsabilidade criminal dos membros do Governo definido na Constituição da República de Cabo Verde de 1992.

4. Desde de que tal regime de responsabilidade criminal dos membros do Governo entrou em vigor, o Procurador-Geral da República não recebeu da Assembleia Nacional nenhum requerimento solicitando procedimento criminalmente contra qualquer pessoa que seja membro do Governo, razão por que não existe, contra o actual Primeiro Ministro de Cabo Verde, Dr. José Maria Pereira Neves, qualquer processo-crime cujo procedimento pudesse prescrever nas instâncias do Ministério Público.

Procuradoria-Geral da República, Cidade da Praia, aos 18 de Maio de 2009.


Júlio César Martins Tavares
Procurador-Geral da República e Presidente do Conselho Superior do Ministério Público

  • LIVROS QUE MERECEM MAIS DO QUE SER LIDOS
Enciclopedia of Ancient Egipt, de Margareth Bunson – vou na letra "N", e fiquei desiludido com a informação sobre Neferekare; mas tem outras mais valias.

Imagem: (Selva, de noite), Tarzan, Burne Hogart

quarta-feira, 20 de maio de 2009

  • O LIXO DOS CABO-VERDIANOS
Falou-se muito em Cabo Verde sobre o tratamento dos residuos sólidos, o seu tratamento e a possibilidade (irreal) de se importar lixo tóxico. Deu lugar a escândalo nacional, com suspeições de corrupção, de favorecimento e ilegalidades várias. Mas depois, como já é hábito, a questão ficou esquecida – até parece que o problema do lixo deixou de existir, que foi resolvida. Foi para as calendas gregas do "Estudo", é o mais certo. Entretanto, quem não esqueceu o seu problema real foi Marrocos que, no âmbito de um Programa Nacional de Gestão de Resíduos Sólidos, fez um empréstimo de 132,7 milhões de dólares ao Banco Mundial para tratamento dos seus resíduos, e resolver o problema que afecta a vida dos cidadãos.

Será que temos consciência que a capacidade de Cabo Verde armazenar lixo é muito limitada? Parece que não. Mas é bom sabermos que a única coisa que temos de ilimitada na terra é a garganta, e os super homens, os que fazem e sabem tudo. Mas até isso, até isso irá para o caixote do lixo da história depois de chegarmos ao 1888 ou, para alguns, no julgamento eleitoral.

  • VOZES DE ATENTAR
Concordo…
É a ideologia transvestida, mas faz sentido. A vergonha, não!

Imagem: Trabalhadores belgas em greve pela crise que ameça os seus postos de trabalho

  • BENEDICTUS XVI, BARACK OBAMA E A PALESTINA
Benedictus XVI, ao visitar a terra Santa e a cidade de Jerusalém, deixou uma mensagem subliminar de que Israel deveria permitia a existência de um Estado palestiano. Barack Obama, ao se encontrar com Benjamin Netanyanu, defende expressamente esta ideia: a coabitação do Estado de Israel com o Estado da Palestina. Imaginemos que Israel aceite esta ideia, que plasma a boa vontade e a ideia de que todos povos merecem ter a mater da sua pátria; sim, imaginemos que tal seja aceite pelo poder político (que é quase um suícidio político, note-se).

Uma questão emerge: será que os palestinianos estarão na disponibilidade de, verdadeiramente, viver em paz com os israelitas? Será que a ideia de «lançar Israel ao Mar» – como Nasser anunciou, e se pensou fazer com a Guerra dos Seis Dias – é coisa do passado, que a ideia não pode, a todo o momento, ser repristinada? Não creio, de tudo. É uma possibilidade latente, à espera de revelação.

Ademais, há que considerar que Israel dificilmente admitirá um Estado Palestiniano nas fronteira de Jerusalém, pois tal seria hipotecar o sonho profundo de de Moshe Dayan e dos israelitas de ver o Templo de Salomão erigido no seu local natural – na Mesquita de Omar, a Cupula do Rochedo. Para o cidadão comum, e até mesmo para um estratega político, o problema maior talvez seja a água (sim, isso mesmo!), mas não para Israel como povo – nem para políticos como, v.g., George W. Bush e Donal Rumsfeld. Não creio que Barack Obama e Benedictus XVI ignorem o problema maior da questão palestiana, mas mexer nela, na sua verdadeira essência (o plano religioso), é abrir uma guerra com efeitos imprevisíveis. E ninguém quer isso, mas também ninguém quer ficar calado e ver o conflito eternizar-se. São boas vontades, mas de circunstância, e para o Mundo ver – mas que, de forma alguma, irá resolver o problema palestinano.
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Este é um problema de natureza das coisas, não uma mera questão política. Tenho para mim que somente quando Jerusalém se tornar, de facto, Património Comum da Humanidade – cidade inapropriável – é que o problema da Palestin terá solução. Permaneria o espetro da questão escatológica para o Mundo cristão, mas isso é de outra ordem, e sem as consequências dos conflitos armados permanentes.
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Imagem: Benedictus XVI beijando o chão do Santo Sepulcro em Jerusalém

terça-feira, 19 de maio de 2009

A Mario Benedetti
  • LA MUERTE DEL CUERPO
Debería escucharte ayer, Benedetti.
Así, ojo picado de soledad desnuda,
Estoy en la tierra: no hay sueños y eternidad.

Pero no, no es verdad – lo ser poeta y la certeza.
---- Virgílio Brandão

Imagem: Mario Benedetti

  • O PÓ DAS ESTRELAS
Lembra-te, ó homem! Tu que és amante.
Quando escutares d´Ela: “Tenho saudades tuas…”
não temas, não te espantes na hora-fenda.
O que te penetra os tímpanos e alma
é o rugir do útero-sonho,
o ressoar da tua genealogia, o adubo da eternidade.

Lembra-te, ó homem. Quando chegar a hora…
Abre a boca, e sorve a seiva do pó das estrelas.

Imagem: Amor, Gustav Klimt (1895)

  • A RIQUEZA DE PEDRO PIRES E OS LADRÕES DA REPÚBLICA
Há coisas que, por vezes, nos fazem orgulhosos de pertenceter à uma nação. Coisas pequenas, aparentemente sem importância – mas que fazem todas a diferença. No outro dia lia no Le Figaro que um Magistrado francês resolveu fazer uma investigação às contas bancárias e aos bens de três Presidentes africanos – magestosamente ricos. Disse para mim mesmo: «bom seria que se fizesse isso em todo o Mundo!». E foi então que me senti orgulhoso de ser cabo-verdiano.

Toda a gente sabe, e não o escondo: nas últimas eleições votei em Carlos Veiga para Presidente da República, e em José Maria Neves para Primeiro Ministro. Por uma questão de sistema político e a bem da nação me pareceram as escolhas óbvias e adequadas – até porque o Presidente Pedro Pires fizera um mandato que não deixava saudades: inócuo como Presidente da República. E não raras vezes o tenho criticado – e, perdoem-me a imodéstia, sempre com razão de situação (fosse a decisão criticada viciada ou não) –, mas nunca coloquei em causa a sua honorabilidade e honestidade.

Pedro Pires, quando se fizer a história de Cabo Verde sem paixões exacerbadas, será considerado muito melhor Primeiro Ministro do que Presidente da República – tenho para mim, e tenho-o dito repetidas vezes, que tem desperdiçado este mandato para deixar uma marca profunda sobre o sentido do exercício do poder presidencial. Mas são circunstância da história, e não só – é claro. Poderia ter enriquecido com o dinheiro do povo, com o erário público; mas não o fez, como fizeram a maioria dos lideres africanos dos sistemas autoritários e pró-socialistas e socialiantes emergentes das lutas de libertação e da Revolução de Abril. Os casos de José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola, de alguns ex-governantes da terra da morabeza, e até de Portugal, são paradigmáticos.

Pedro Pires, não! Depois de 15 anos como Primeiro Ministro, nem uma casa própria tinha quando deixou o Governo na sequência da emergência da democracia pluripartidária e da II República. Somente neste segundo mandato (depois de mais de vinte anos como Chefe de Governo e de Estado) é que fez a sua casa, tendo recorrido, como qualquer outro cidadão, a um empréstimo bancário para o efeito (estas coisas deveriam ser levados ao conhecimento do povo, pois há coisas boas a serem noticiadas). Que eu saiba, não tem contas bancárias de muitos dígitos, mansões e casas sumptuosas em Cabo Verde ou no exterior – extorquidos ilegitimamente ao povo. Também não andou a comprar fatos de 300 contos no Rosa & Teixeira, em Lisboa, mas num modesto – e nem por isso menos digno – Pronto-a-vestir do Largo do Rato (e, se calhar deveria fazer compras no Rosa & Teixeira, por uma questão estética e de dignificação da imagem presidencial; o que eu acharia mais do que normal, necessário até). Mas há quem o tenha feito (e mais, muito mais), com o erário público – isto é, como dinheiro de cidadãos que chegam a ganhar míseros 10 contos por mês.

Ter um Presidente da República – ou qualquer governante – que não enriqueceu à custa do povo é uma coisa extraordinária! E não somente em África, não. Em Portugal, os ex-Ministros passam de Ministros a Banqueiros (sim, não é bancários, mas banqueiros) ou a gestores das maiores empresas da nação – ser Ministro é "tese de doutoramento" e tirocínio que habilita quem por lá passa a ser gestor pago a peso de ouro. Pedro Pires não seguiu essa senda, manteve as suas mãos limpas, e isso dignifica não somente a sua pessoa mas também o seu povo. Posso até ter razões para criticá-lo por desmandos e inomináveis abusos feitos durante o sistema político autoritário da I República (critícas que se estenderiam a outros políticos de ambas as barricadas partidárias), mas não posso acusá-lo de ter-se locupletado com os bens do povo, da República. Isso, não.

Merece ser louvado? Na verdade, não merecia – pois quem cunpre com o seu dever não merece nenhum louvor. Acontece que, no contexto em que vivemos, o que fez, neste plano, é extraordinário – e tudo o que é extraordinário (no sentido que se dá hoje à palavra) merece ser salientado. «Mas mesmo assim, não votou nele nas últimas eleições. Porquê?» – perguntar-me-á. Em causa não estava a honestidade das pessoas, mas sim o bem da nação e o seu equilíbrio político – o meu voto seguiu aquilo que achei que era o melhor para o país. Aliás, haverá hoje em Cabo Verde quem – tendo consciência política (e não estando politicamente engajado em nenhum partido político) – que não defenda que o melhor para o país é ter um Presidente da República da esfera de influência diferente da maioria parlamentar que sustenta o Governo? Sim, haverá quem não defenda este tipo de equilíbrio para as próximas eleições?

Mas falava da riqueza, e de Pedro Pires. A riqueza de Pedro Pires, é o exemplo que deixa como um líder que não enriqueceu à custa do erário público cabo-verdiano. Um bom exemplo, que merecia ser recompensado – ser ressaltado como exemplo. Quem sabe se, assim, alguns clepocratas deste Mundo não venham a se sentir envergonhados. Mas os Senhores dos Relatórios, dos Observatórios, esses… andam a dormir. Tenho de dizer: obrigado! Obrigado, Presidente Pedro Pires, porque em 23 anos de execício do poder não roubaste o teu povo.