segunda-feira, 22 de março de 2010

| CERRÉ MI PUERTA AL MUNDO

Cerré mi puerta al mundo;
se me perdió la carne por el sueño...
Me quedé, interno, mágico, invisible,
desnudo como un ciego.


Lleno hasta el mismo borde de los ojos,
me iluminé por dentro.

Trémulo, transparente,
me quedé sobre el viento,
igual que un vaso limpio
de agua pura,
como un ángel de vidrio
en un espejo.
------- Emilio Prados

Imagem: Evolução (fragmento), Luis Royo

| ¡BASTA YA!

Para que o silêncio de alguns não se torne regra de muitos, nem lei para todos.

Serei de novo, como um dia fui,
choro de mães na Plaza de Mayo,
lado a lado serei, com Luisa Tamayo,
a irada multidão que pelas ruas flui.

Serei de novo, como um dia fui,
Dama de Blanco em La Habana
Gritando ao silêncio onde afinal rui
Olvidados sonhos da nação cubana.

Esquecido e sem amparo, morreu Zapata
No silêncio da palavra livre tornada ingrata
Murió solo, lejos de los suyos en Camagüey.

Diz-me Che, a Luisa, mãe e Pietá, o que direi
Se a ‘Primavera Negra’ de Março ainda mata,
Na Cuba que, como Orlando Zapata, tanto amei.
---- Alex (Zé Cunha), 21-03-2010

Imagem: A noite de Quixote — Mariano Villalba

sábado, 20 de março de 2010

| VOZES DE ATENTAR...

Bonum enim aliarum virtutum consistit in medio — Tomás de Aquino.

sexta-feira, 19 de março de 2010

| MEMÓRIAS FRUTUOSAS, MIGUEL DELIBES E A VIDA ETERNA

Lembro-me. Acabara de sair de um Seminário sobre Direito do Ambiente na União Europeia e, depois de beber um copo de rioja com os colegas na taberna em frente da velha Universidade e nos despedirmos para cada um se mover aos locais mais recônditos da velha Hispânia, fui almoçar. Não conseguia deixar de pensar na referência que uma colega — um encanto de mulher, e de uma inteligência estonteante! que só tinha o defeito de estar apaixonada por um sortudo qualquer — fizera a Miguel Delibes. Mas como era possível não ter atentado nisso? — pensava para comigo mesmo, ao ver a surpresa e ar de triunfo e gozo que ela tinha no rosto ao descobrir que eu não conhecia Delibes (tinha ouvido falar no homem, mas daí a conhecer a sua obra seguia a mesma distância que o "abismal" e o abissal), um ícone da cultura espanhola.

Mas por que raio ou carga de água é que eu tinha de conhecer o homem!? Afinal, não temos de conhecer e saber tudo… não somos nem temos de ser a kind of Deep Blue of culture ou coisa parecida; só temos de ser humanos e ser sapientes o bastante para sobreviver neste Mundo e ao mal que o abraça. Almocei, pensando que tinha de ir até Madrid para ver uma peça de teatro aconselhado por um amigo. Mas ainda tinha tempo para dar cabo da minha curiosidade. E fui à procura de Miguel Delibes. Encontrei-o numa livraria, na primeira que procurei — nem precisei de ir à nenhuma das minhas preferidas. Comprei El Hereje, e fui até a Plaza Maior aproveitar o sol e a estonteante beleza de um dia de Primavera serôdia para ler um pouco.

Na companhia de um puro, um Fonseca, e um café solo que demandou um Bacardi 8 años, comecei a ler El Hereje. O alarme do meu telemóvel avisou-me de que era hora de ir a Madrid. Apanhei o autocarro Salamanca/Madrid e, acompanhado de Miguel Delibes cheguei num segundo ao destino. Entrei no Metro, e fui até às proximidades do Teatro; ainda tinha tempo para terminar o livro — pensei. E sentei-me numa esplanada, de alma afecta ao texto. Entre um chá e uns cigarrillos negros cohiba fiquei a ler. Quando terminei o livro, olhei para as horas e já era tarde. Perdera a peça… mas não fiquei aborrecido, nem por sombras de oiro perdido! Madrid tem outros encantos a noite, ai se tem!

E percebo agora que — e já, num abrir e fechar de olhos, me encontro noutro milénio — nunca perdemos nada, ganhamos. Miguel Delibes era mais do que um escritor, era um homem que tinha uma visão do Mundo e da humanidade que, com arte e engenho inusuais, soube transmitir aos seus semelhantes. Ao escutar as vozes de circunstâncias e não sentidas a verberar brocardos populares como «o Mundo fica mais pobre» and so on porque o homem, por imperativo da natureza, deixou o seu corpo emprestado para a terra… só posso sorrir, e discordar.

O Mundo não fica mais pobre quando morrem pessoas que, pela sua acção, contribuem para inundar a nossa existência de arte, beleza e de bem. O Mundo ficou sim, mais rico com a sua passagem pela existência; Miguel Delibes deixou o Mundo mais rico e belo, deixou-o melhor do que o encontrou. Teremos — tu e eu — a mesma graça ao abandonarmos o corpo que nos transporta? Sim, teremos na alma o bastante para legarmos alguma riqueza que a traça, a ferrugem e o fogo não corrompam ou consumam ao deixarmos este Mundo que tanto nos dá? Ao contrário do que se pensa, a vida eterna não é uma impossibilidade; bem pelo contrário, é a mais bela das possibilidades.

Imagem: Miguel Delibes

| VOZES DE ATENTAR

Necesaria es la experiencia para saber cualquier cosa — Séneca.

Imagem: Pandora — John Williams Waterhouse (1986)

quinta-feira, 18 de março de 2010

| IMPRESSÕES
.
Manifestações contra o status quo, em Cuba! Passa-se algo em Cuba, muito mais do parece… e se pudesse estar ao pé de Luisa Tamayo, mãe de Orlando Zapata, dir-lhe-ia — para ela e todos aqueles que sofrem a injustiça e a opressão — o que dizia Séneca:

El que siempre busca grandezas, alguna vez las encuentra.

Uns semeiam, outros colhem; tudo a seu tempo. Mene mene, tequel u farsim... — pensei.

Imagem: Reina Luisa Tamayo Danger, mãe de Orlando Zapata

| A FALENCIA DA AUTORIDADE DO ESTADO E OS TUGHS

Lia a correspondência entre S. Paulo e Séneca, e fiz uma pausa para escrever um poema. Mas Séneca ficou-me na memória, a dançar no limbo dos meus pensamentos com uma tranquilidade necessária. Mas, de repente, grita! A causa? Faço uma visita aos jornais on line e eis que leio algo que me deixou estupefacto: «Vamos promover um encontro, proximamente, com todos os grupos de thug’s da Praia, para dialogarmos, para conversarmos», José Maria Neves, Primeiro Ministro de Cabo Verde, dixit. Um absurdo político, no mínimo.

O Primeiro Ministro pode estar vestido com toda a boa intenção deste Mundo, mas o que propõe é um absurdo e não vai, de forma alguma, contribuir para debelar a criminalidade no país, pelo contrário — só irá reconhecer, de facto, que estes grupos criminosos têm um poder efectivo sobre a sociedade cabo-verdiana e que são capazes de condicionar o poder político e levá-lo a dialogar com eles. O estado não se verga, não pode vergar quando estão em causa os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos!

O Estado e os órgãos de soberania representativos dos cidadãos não dialogam com criminosos e associações criminosas! O Estado e os órgãos de soberania dialogam com seus pares e/ou com instituições legítimas, legais e com fins bons e justos. A prevenção criminal não se faz com qualquer tipo de negociação com grupos organizados ou não de delinquentes, mas sim com formas legítimas de prevenção e com repressão adequada daqueles que querem sequestrar a sociedade cabo-verdiana. E se é verdade que o Governo sabe quem são os grupos de thugs (que quer dizer «assassinos» — nada menos), só tem de fazer uma coisa: passar essa informação ao Ministério Público de modo a que este, de acordo com as suas competências constitucionais e legais, possa agir em conformidade.

O Governo, seja este presidido por José Maria Neves ou qualquer outro cidadão, não pode, sob pena de subvertermos a lógica democrática e a autoridade do Estado, de forma e modo algum sentar-se à mesa com criminosos — nomeadamente estes nominados ou auto denominados thugs, «assassinos» — para negociar seja o que for. É o Governo a claudicar na política de Segurança e de Justiça, em toda a linha. Eu, como cidadão, não compreendo nem aceito que o Governo do meu país se encontre com organizações criminosas, seja qual for o fim que se tenha em vista. Os fins não justificam os meios, e os males deste meio é a cedência da autoridade do Estado à criminalidade. Impensável!

Espero que o PAICV, o MPD, a UCID e o PTS sejam claros e digam à sociedade cabo-verdiana se caucionam este anunciado conclave entre o Governo e as associações criminosas da cidade da Praia. «Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém» — é um velho conselho. Mas nem me parece que seja lícito, longe disso, que o Governo dialogue com organizações criminosas.

Mas isto não me admira, nada. Meses atrás trocava impressões com o confrade blogueiro cabo-verdiano e dizia-lhe, melhor, previa, o que vemos hoje — o aumento da criminalidade, o aparecimento dos militares nas ruas e uma solução milagrosa para este problema iria aparecer. Dizia-lhe que tal iria acontecer por estas alturas, com a proximidade das eleições. Previsível (basta ler-se O Príncipe de Maquiavel, não é? — pensará), mas existem limites e esses estão aquém de uma qualquer negociação ou diálogo com organizações criminosas.

O povo deu um mandato ao Governo, mas não é, de todo, para dialogar com organizações criminosas. Esta decisão do Primeiro Ministro, se levado a cabo, constitui um certificado de incompetência à política de Segurança e de Justiça do seu próprio Governo e do sistema judicial — a começar pelo Ministério Público. O que o povo reclama é segurança e justiça! O povo não quer, não pode querer, que o Primeiro Ministro se sente com organizações criminosas para dialogar. Que dialogue com o povo, com os representantes do povo, mas nunca com os algozes do povo! Dizia David, governante de Israel: «Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.» É um bom conselho, pois o diálogo social não abrange, certamente, os grupos de criminosos.

Estamos perante um erro calamitoso da governação que, assim, transfere a autoridade do Estado para organizações criminosas e torna o trabalho dos tribunais, nomeadamente no plano da prevenção geral do crime, uma actividade inglória, quase sem sentido neste plano. Haja quem grite, que levante a voz e diga ao Primeiro Ministro e ao Governo que o Estado não negoceia com «assassinos» e organizações criminosas! Mais: não se consegue negociar com três tipos de pessoas: os criminosos, os doentes mentais e os homens maus.

O meu grito vai daqui, de terra longe.

PS: Querendo Deus, partilho o poema amanhã...

| ÚLTIMAS PALAVRAS…

Socretes’ last words: «Crito, I owe a cock to Asclepius; will you remember to pay the debt?»

Imagem: The Death of Seneca – David Jacques-Louis

segunda-feira, 15 de março de 2010


Clique na imagem para o ver melhor.

domingo, 14 de março de 2010

| A LINGUA EM PERIGO E A FOME

       Ontem, na sala Agostinho da Silva da Universidade Lusófona de Lisboa, assisti a uma Conferência de Aristides Lima, Presidente da Assembleia Nacional, que se debruçou sobre alguns aspectos da situação política nacional e sobre a revisão da Constituição. Anotei a omissão sobre a língua cabo-verdiana, quer por parte do conferencista quer por parte dos participantes (anotei outras coisas, mas que não vêm ao caso de momento).

       Ao pensar nisso, lembrei-me de A Língua em Perigo de Knut Hamsun (que escreveu um dos livros mais extraordinários que já li, Fome; e que me lembra, sempre que o revisito, a minha pátria — faço sempre a analogia entre tempos idos da minha terra de poetas e Cristiania… «Era o tempo em que eu vagueava, com o estômago vazio por Cristiania, essa cidade singular que ninguém consegue abandonar sem levar impressa a sua marca...» — assim inicia Knut Hamsun a narrativa de Fome, uma espécie de Lazarilho de Tormes dos tempos modernos e substancialmente melhorada e conseguida. E diz-nos Knut Hamsun em A Língua em Perigo«La lengua debe poseer todas las escalas musicales. El poeta debe siempre, en todos los casos, contar con la palabra temblorosa, la que me cuenta la cosa, la que con su acierto puede vulnerar mi alma hasta hacerle gemir. La palabra puede convertirse en color, en sonido, en olor; es tarea del poeta usarla de manera que funcione, que nunca falle y nunca rebote. [...] Debemos poder gozar y burlarnos con la masa de palabras; se debe saber y conocer la fuerza de la palabra, no sólo la fuerza directa, sino también la secreta. Las palabras tienen otras tonalidades, que se encuentran por encima, por debajo y al lado de ellas.»

       O esquecimento é compreensível neste momento político do candidato presidencial — há que evitar situações que transportam os genes da ruptura em si mesmas e que, se possível, haverá que evitar o pronunciamento e a consequente e desnecessária exposição de flanco antes do tempo — mas estranho na plateia que se mostrou preocupada com outras questões, mas não com a cultura, em particular com a língua cabo-verdiana. Mas as palavras têm tonalidades, como diz Knut Hamsun, e, por vezes, o que não se diz grita na alma das pessoas, por vezes dos povos que não vivem somente de pão… e o povo de Cabo Verde tem fome de ver a sua língua mais e melhor dignificada. Mas, dignificada quer dizer que deve ser tratada como um bem e um valor do povo cabo-verdiano e não como coutada de alguns. Como o pão, que não deve ser somente de e para alguns mas sim de todos — o que demanda uma maior e melhor distribuição da riqueza do país.

       A fome é bem distribuída; pois uns têm fome de pão, outros de cultura, outros da palavra de Deus, outros do poder e outros ainda — e esses são o cancro da humanidade, a quem roem como ratos famintos e imundos — de fazer mal ao outro, ao seu próximo. E estes últimos, sim, são os verdadeiros pobres pois a sua fome nunca é saciada e a sua pobreza insusceptível de ser debelada.

| O MUNDO INTEIRO E NADA

Escutava o meu poeta
de alma estendida até às bandas do norte:
«Quando eu era menino
admirava homens
que são o escabelo dos meus pés.
Cheguei a ser homem
e continuo na mesma e com tudo
— admiro o escabelo dos meus pés.»

Imagem: A Crucifixão Branca — Marc Chagall

| VOZES DE ATENTAR

Pensar es aprehender abstractamente lo más hondo del espíritu — Hegel.

Imagem: Miniatura em Biblia francesa do Sec.XIII: Deus cria os ceus, a terra, o sol, a lua e todos os elementos.

sábado, 13 de março de 2010

| DISPARATES ECOLÓGICOS

       Pero, quizá, más terminante que especular con el futuro sea analizar nuestro presente, esto es, los problemas que ya son problemas, es decir, que ya están aquí, cuales son la pesca marina y el papel. En este punto, es justo situar, junto a la irresponsable voracidad del consumo, el contumaz envenenamiento del medio de que luego me ocuparé. La Humanidad se resiste a embridar la técnica por la biología y así asistimos, frecuentemente, a auténticos disparates ecológicos, provocados por desconocimiento e imprevisión. La presa de Assuam, en Egipto, es un ejemplo ya tópico.

       De niños nos enseñaron que el limo que depositaban las avenidas primaverales en el valle del Nilo fertilizaba los campos, pero ignorábamos que, al mismo tiempo, fertilizaba las aguas del mar, en su estuario, hasta el punto de convertirlo en un sector privilegiado para la pesca de la sardina. Durante siglos, las sustancias nutricias que arrastraban las aguas hasta la desembocadura permitieron capturas espectaculares, de hasta quince y veinte mil toneladas anuales de pescado. Hoy, tras la pérdida de nutrientes provocada por la represa del agua, apenas se consiguen quinientas toneladas, o, lo que es lo mismo, el suculento banco de peces ha desaparecido. A estas torpezas, podemos añadir la rapacidad con que venimos actuando en medios que exigen, para pervivir, un tacto y una meticulosa reposición. Observemos lo que está sucediendo hoy, ahora mismo, en el famoso banco pesquero del Sahara. La riqueza y variedad de este retazo de mar, de más de doscientos mil kilómetros cuadrados de extensión, ha atraído cerca de cuatro mil embarcaciones de cien banderas distintas. El problema, salvo las dimensiones y el medio, es el mismo que el de la perdiz roja en Castilla la Vieja. Ni la perdiz castellana ni el besugo del banco sahariano pueden soportar esta presión. Así, las capturas en el mar del Sahara, según datos de Ángel Luis de la Calle, superan, el último año, el millón y cuarto de toneladas, cifra abultada que monta, con mucho, cualquier aspiración de rentabilidad razonable. Es manifiesto, pues, empleando un viejo y gráfico dicho, que estamos comiendo de lo vivo. A estas alturas, algunas especies —brecas, besugos— se han extinguido y otras muchas se encuentran en franca regresión. Para atajar este expolio insensato, únicamente cabe una ordenación internacional de la pesca, pero, ¿con qué autoridad contamos para este fin? Nuestros oceanógrafos consideran que la pesca mundial, no sólo en el banco del Sahara sino en todos los mares, ha desbordado con mucho la línea de recuperación o, como dice Lester Brown, dramáticamente, los «límites soportables».

       Problema semejante es el del papel-prensa, tal vez el símbolo más expresivo de nuestra cultura. No hay papel. El papel se acaba. En estos días, los rotativos más importantes del globo reducen drásticamente el número de páginas. Las fábricas, empero, trabajan a tope, pero la demanda desborda la producción. Mas la escasez no se resuelve en un día, ya que aun dando por buena una rápida adaptación de ciertas industrias similares a la elaboración de papel-prensa, apenas conseguiremos aumentar la producción actual en un 1%, cantidad manifiestamente inferior al déficit que hoy se acusa.

       La cuestión, entonces, no estriba en montar más fábricas, sino en alimentarlas, en plantar más árboles. Emmanuelle de Lesseps nos dice que un periódico de gran tirada se come diariamente seis hectáreas de bosque. Julio Senador, por su parte, advertía a principios de siglo, refiriéndose a Castilla, que cada árbol sacrificado era un nuevo paso hacia la miseria y la tiranía. Tal vez para obviar éstas, los japoneses, gentes de mucho ingenio, han dado en fabricar árboles de plástico para decorar sus campos y carreteras. Pero los árboles de plástico no tienen savia, no prestan cobijo a los pájaros, no facilitan madera, no crecen; en una palabra, no viven. Sin embargo, el árbol de plástico es, al parecer, más elástico que el de madera y reduce, por tanto, la gravedad de los accidentes de automóvil, hecho que indujo al gobierno francés, en 1973, a considerar la oferta nipona para instalarlos en sus autopistas. He aquí un símbolo ostensible del positivismo que, como una niebla pertinaz, nos va envolviendo. El hombre de hoy, antepone a la cultura, en sentido estricto, el goce material y, sobre todo, la seguridad. Pero si aceptamos como bueno el aserto de Senador, convendremos que nuestro mundo camina a marchas forzadas hacia la miseria y la tiranía. Las manchas forestales, el revestimiento vegetal de la Tierra, desaparecen.

       La vegetación arbórea es un estorbo. De 1882 a nuestros días más de un tercio de los bosques existentes en el mundo han sido destruidos. Dilatadas extensiones de Indonesia, el Congo y Kazahstan, ayer selvas impenetrables, ofrecen hoy al contemplador su monda desnudez. La Humanidad requiere pistas y cultivos y, ante esta urgencia, elimina aquello —los bosques— que, momentáneamente, no le es necesario para sobrevivir. El Dr. Piquet Carneiro, Presidente de la Fundación para la Conservación de la Naturaleza en el Brasil, ha denunciado a su gobierno que diariamente se derriban allí un millón de árboles con objeto de abrir las autopistas Perimetral Norte y Transamazónica, al norte y sur, respectivamente, del río Amazonas. No es preciso decir que sus voces de alarma contra estos tremendos arboricidios no encuentran eco. El primero vivir y luego filosofar se impone de nuevo. Por otra parte, la afrenta que los países atrasados infligen a la Naturaleza, está justificada. Porque, ¿qué razones morales podrán aducir los países industrializados para vetar el noble afán de los países necesitados para salir de un hambre de siglos?

       Nos encontramos, pues, con que el saqueo de la Naturaleza, basado incluso en argumentos éticos, resulta por el momento irremediable. Occidente ha montado su prosperidad sobre el abastecimiento de materias primas de sus colonias y, una vez que éstas consiguen la autonomía, el viejo equilibrio se descompensa y se rompe. De aquí que, más que el gasto de metales y recursos no recuperables, a mí, personalmente y en líneas generales, me alarma el despilfarro de aquellos que pueden recuperarse y, sin embargo, no se recuperan. Gastar lo que no puede reponerse puede obedecer a una exigencia de un estadio de civilización voraz, que a nosotros mismos, sus autores, nos ha sorprendido, pero terminar con aquello que nos es imprescindible y cuyo final pudo preverse, revela un índice de rapacidad y desidia que dicen muy poco en favor de la escala de valores que rige en el mundo contemporáneo.
-------- Miguel Delibes, «Disparates Ecologicos», in El Mundo en la Agonía

Imagen: Miguel Delibes

VII
.
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
------ O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeiro

  • EL PODER Y NADA
— No moriré tan fácil, soy un Guerrero.
— Si eres Guerrero, pelea con la Nada.
— Lo haría, pero no pude cruzar los límites de Fantasía.
     (Gmork rió estrepitosamente).
— No le veo la gracia.
— Fantasía no tiene límites...
— Eso no es cierto, mientes!!!
— Niño tonto, no sabes nada de la historia de Fantasía. Es el mundo de las Fantasías humanas. Cada parte, cada criatura, pertenecen al mundo de los sueños y esperanzas de la humanidad. Por consiguiente, no existen límites para Fantasía...
— ¿Y por qué está muriendo entonces...?
— Porque los humanos están perdiendo sus esperanzas y olvidando a sus sueños. Así es como la Nada se vuelve más fuerte.
— ¿Qué es la Nada?
— Es el vacío que queda, la desolación que destruye este mundo y mi encomienda es ayudar a la Nada.
— ¿Por qué?
— Porque el humano sin esperanzas es fácil de controlar y aquél que tenga el control, tendrá el Poder.
     [...]
------- in Michael Ende, La historia Interminable (fragmento)


O ORÇAMENTO GERAL DA UNIÃO EUROPEIA

Foi publicado no Jornal Oficial da União Europeia o Orçamento Geral da União Europeia. Para quem se interessa, cá fica para leitura ou consulta.

Imagem: Herman Van Rompuy, Presidente do Conselho da União Europeia

quinta-feira, 11 de março de 2010

| VOZES DE ATENTAR

Através do conhecimento acolho Deus dentro de mim; através do amor me adentro em Deus — Maister Eckhart.

Imagem: Fetus, Leonardo da Vinci

| O FRUTO DO TEMPO E MAIS

Parei o tempo, este que confino por momentos. Decidi escrever um poema, e acabei por escrever cinco. Revisitei os Sermões do Maister Eckhart, e parei. «Um homem pobre é aquele que não quer nada, que não sabe nada e não tem nada» — diz. Meditei um pouco. E dou por mim a pensar que a grandeza, a singularidade e a beleza do saber e de saber está no facto de que ele nos precede, e que nem será preciso pensar no a priori de Kant ou na mens divina de Cícero ou Aquino, basta olhar para o outro que está ao nosso lado, para o fruto do tempo em nós.

A douta ignorantia de Nicolau de Cusa tem, por vezes, um sentido espantosamente simples. E lá me vem à memória o dilema de Voltaire ao ver a Velha… a sua felicidade.

| DEOFAGIA

Sempre que a noite cai
sei que há um homem que chora, aí.

Sempre que o dia raia
e a aurora despertas as necessidades
sei que há uma mulher que geme, geme
e chora; aí.

Sempre que a tarde corre para o mais,
vejo um menino, um menino nazareno e plano
curvado de velhice acabada de nascer.

E na sombra de tudo isso que é tudo
está um Deus recolector de lágrimas,
um indigente que come cordões umbilicais.
------- Virgílio Brandão

Imagem: Chema Madoz

| DEL EGEO

El eros
El archipiélago
Y la proa de sus espumas
Y las gaviotas de sus sueños
En su más alto mástil el marinero ondea
Una canción.

El eros
Su canción
Y los horizontes de su viaje
Y el eco de su nostalgia
En su más mojada roca la prometida espera
Un barco.

El eros
Su barco
Y la despreocupación por sus nortes
Y el foque de su esperanza
En su más ligero oleaje una isla mece
La llegada.
------- Odiseus Elytis

Imagem: Odisseus Elytis

| O ARQUETISMO DAS COISAS

Nas letras de rosa está a rosa
E todo o Nilo na palavra Nilo.
----- in El Golem, Jorge Luis Borges
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Imagem: Jorge Luis Borges

quarta-feira, 10 de março de 2010

| O MEU POETA

«Cheguei ao planalto. Mas de que serve a síntese de todos os sonhos do Mundo se o que vale mesmo é não ver as rugas dos sonhos, o pó dos tempos de uma humanidade esmagada?» — oiço o meu poeta a resmungar.

segunda-feira, 8 de março de 2010

| 1888 UNIVERSAL

Não existe terra mais terra do que aquela que comemos.
Mais ainda, único absoluto: não existe terra,
terra mais terra do aquela que nos comerá.

sábado, 6 de março de 2010

| HOMINI LUPUS HOMINI


Todo Mundo é feito de injustiça! — dizes.
Observa bem o que há em ti, o que te move
e atiça no pote demiurgo de ilusões ratas de negrume...
Percebe — ó irmão de gene esclavagista,
filho de Gilgamesh e de Messalina! —
se não faz jus e sentido estares fora,
fora da felicidade dos lobos de rapina.

| NOTA ÀS PRESIDENCIAIS CABO-VERDIANAS

A propósito de um artigo que escrevi no Liberal, um cidadão, desafiou-me a escrever sobre as presidenciais. A verdade é que esta questão e o timing da eleição presidencial — do meu ponto de vista a razão maior das demoras do processo de revisão da Constituição — tem condicionado a vida política nacional pois, em verdade, condicionará a vida política de muitos «dinosauros» da nação política. Escrevi o seguinte (que não tem nada de novo ao que tenho dito e escrito há muito — as surpresas), em resposta ao cidadão em causa:

«Sr. Nuno Valente, será que não deu para perceber, pelo texto, que esta remodelação (e as decisões do Congresso do PAICV) indicam quem é que será o candidato presidencial do PAICV? Parece-me claro, mas se calhar as entrelinhas foi demasiado subliminares e tal é, de todo, culpa minha. Agora, o PAICV pode, em último caso — e em razão das multiplicidade de candidaturas —, decidir pela decisão democrática e, então, ter de encontrar um candidato de consenso que «não pensa nessa possibilidade».

Aliás, se notou bem, o Ministro Manuel Veiga saiu do Governo com uma crítica expressa ao Primeiro Ministro por este ter extinguido o Ministério da Cultura como ministério autónomo. Algo que era, até há dias era impensável de todo. O Manuel Veiga é fundamental para o PAICV – disse o Primeiro Ministro. Porque teve a necessidade de dizer isso? Porque o Manuel Veiga tem peso efectivo no partido e não é tempo de haver cisões no Partido do Governo. No mesmo sentido está a nomeação do Ministro das Comunidades emigradas que terá a função da apaziguar as hostes no exterior, pois há que evitar as barracadas; como a que aconteceu, por exemplo, nas eleições dos órgãos representativos do PAICV em Portugal.

Ah, sobre o MPD, parece-me que este deverá apoiar o candidato que se disponibilize e que, tendo o perfil de Estadista, experiência na gestão da coisa pública e cultura de Constituição, possa garantir à nação cabo-verdiana um magistério em prol da nação e das liberdades dos cidadãos.

De momento, nada mais digo. Abraço fraterno»

PS: Sigo o debate sobre o Recenseamento na Diáspora na RCV e, pelo que oiço, fico preocupado. E um facto é verdadeiro e insofismável: umas eleições podem ficar inquinadas ab ibnitio. Quem diz o contrário é porque ou não conhece a dinámica eleitoral ou tem razões para dizer o contrário.

| DESPOLITIZAR A EMIGRAÇÃO E O NOVO JORGE SANTOS

       Jorge Santos disse à RCV, na sequência da sua visita ao Luxemburgo, que é preciso «despolitizar» a emigração. Sorri, ao ouvir as suas declarações. Lembrei-me da fábula da rã e do escorpião. Boas intenções, mas o inferno está cheio de boas intenções — assim como o Mundo de injustiça. A despolitização da emigração há muito que deveria ter sido feita, mas basta ver Sidónio Monteiro — o Ministro Adjunto do Primeiro Ministro com a pasta da Comunicação Social — a ser nomeado como Ministro das Comunidades Emigradas a meses das próximas eleições para perceber que este discurso de Jorge Santos é bem visto do ponto de vista do timing mas que poderia e deveria ser mais incisivo e claro, pois o Governo e o PAICV estão longe de desejar e querer despolitizar a Diáspora.

       Agora, e à margem deste facto, confirmei uma coisa: o Jorge Santos tem tido um discurso mais consentâneo, mais sustentado e sereno, mais de acordo com o de um líder do que aquele que teve durante o período em que liderou o MPD. Não é que isso seja, para mim, estranho de verificar; o que acontece é que uma postura análoga — e outros pozinhos de chá, estratégia e uma Comissão Política mais solidária — poderia ter salvado a sua liderança e evitado a quase inevitabilidade do retorno de Carlos Veiga à liderança do MPD. Agora, certo é que, em politica como na natureza, raramente a mesma água passa pelo mesmo rio, a não que se transforme e espere o ciclo do Tempo.

Imagem: Jorge Santos, Tony Blair e António Capucho

| PROVÉRBIOS DO INFERNO

O que agora se prova outrora foi imaginário, William Blake, in O Casamento do Céu e do Inferno (33)

Imagem: A Morte de Sócrates — Jacques-Louis David

sexta-feira, 5 de março de 2010

| A POLICIA MILITAR E A DESNECESSIDADE DAS FORÇAS ARMADAS

       O Governo de José Maria Neves decidiu enviar os militares para a rua. Não cai o Carmo e a Trindade porque não temos nem uma coisa nem outra; a não ser a memória que se sente aviltada e o dever de oposição. O envio da Polícia Militar (PM) para a rua era previsível, por esta altura pré eleitoral. Nada de novo ou surpreendente no plano da estratégia política. Agora, se a violência é uma invenção ou um exagero da Comunicação Social, porquê é que se tem a necessidade de reforçar o policiamento do país com a PM? Como já disse antes e em outras ocasiões, e reitero agora, não me choca nada a presença da polícia militar nas ruas para combater a criminalidade e a violência urbanas. Pena é o Governo ter deixado a situação chegar a este ponto, de termos esta necessidade que grassa a de Estado de Emergência.
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       Sou da opinião de que não precisamos de um exército, que o Estado de Cabo Verde deveria ser desmilitarizado e fosse criado uma força policial de intervenção rápida e especializada em combate à criminalidade organizada, terrorismo e violência urbana. As Forças Armadas, como instituição, é, neste momento, uma desnecessidade e tem de ser útil ao país. Uma polícia melhor equipada e musculada para o combate à criminalidade, nomeadamente a que vilipendia os cidadãos no dia-a-dia e a transnacional é, de longe, mais consentânea com as necessidades do país. Perigos externos? Os acordos com os países do Tratado Atlântico Norte e com a União Europeia é, será bastante, para salvaguardar, ao nível preventivo, qualquer perigo. Bem dizia o poeta que devemos estender os pés de acordo com o tamanho do nosso lençol… na verdade devemos ser realistas com lençóis de sonhos.
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------- Imagem: Capricho de um pintor, Teresa Carneiro

| EDIAFRODITUS

Olhe para mim! — sei que não me vês…
Sou um elefante, um elefante gigantesco.
E sou de oiro, de oiro que ferve a amor.
Um dia, beber-me-ás.
Sei que não me vês
— e sou o teu sonho do reino do Adonai
recôndito! a formiga da estrada melada,
a mão que lava a outra.
-------- Virgílio Brandão

Imagem: HR Geiger

quinta-feira, 4 de março de 2010

| DEL DAR Y EL RECIBIR

       Había una vez un hombre que poseía todo un valle lleno de agujas. Y un día, la madre de Jesús acudió a aquel hombre y le dijo:
       — Amigo mío, la túnica de mi hijo se rasgó, y tengo que remendársela antes de que salga para el templo. ¿Quieres darme una de tus agujas?
       Pero, en vez de darle la aguja, aquel hombre pronunció un erudito discurso acerca Del dar y del recibir, para que María se lo repitiera a su Hijo antes de que éste saliera para el templo.
------ Khalil Gibrain

Imagem: Aishwarya Rai (a mulher mais bela dos universos conhecidos)

| O ÂNGULO

       Aconteceu que uma vez o Rabi Eliezer, filho do Rabi Shimon, encontrou por acaso um homem que era extremamente feio... e disse:
       — Como é feio este homem!...
       O homem então replicou:
       — Vá e diga ao artesão que me criou: «Como é feio este veículo que você fez!» (Talmud, XX).
----- Imagem: Milo Manara

quarta-feira, 3 de março de 2010

  • A NOITE ESCURA E FRIA DO PTS E ONÉSIMO SILVEIRA
       Acabei de ouvir o PTS desperdiçar tempo de antena e eleitores na RCV. Um deserto de ideias, falta de convicção para transmitir uma mensagem que não se sabe bem o que é. É Janus Bifrons sem sentido; tripas nunca foram coração. Excepto no Porto, é claro. Onésimo Silveira poderia ser homem para pensar Cabo Verde como um Estado Ecológico — e, como digo, o país tem todas as potencialidades de para poder ser isso e mais, se o desejar —, mas fica muito aquém disso a sua mensagem ecológica.
      Transformar o PTS numa espécie de Os Verdes de Cabo Verde não chega — há que pensar para além disso, muito para além… e ter-se ideias para todos as esferas da vida da sociedade cabo-verdiana. Se o PTS tivesse um projecto de transformação do país numa sociedade ecológica, daqui adviria, como consequência, toda a fundamentação lógica da vida social, quer no planos político, económico, social e espiritual. Mas o PTS está, em termos de projecto, a anos-luz de tal concepção; o PTS está na noite escura. E os representantes do PTS que acabei de ouvir… não trazem nada de novo ao Partido e colocam o homem sombra para a solidão da noite escura e funda.
       Ouvir a Dra. Nominanda a falar — como se estivesse a ler um texto a um grupo de alunos com dificuldades de aprendizagem… — sobre ecologia e florestas (!?), assim como ver o PTS a repisar a ideia do Senado resultou estranho para mim, uma espécie de dejà vu de qualquer coisa. Não que a ideia em seja estranha, pois não é coisa estranha ao sistema semipresidencialista, pelo contrário: a sua matriz, a Constituição Francesa de 1958, demanda uma segunda câmara. O que é estranho é ouvir-se dizer que Onésimo Silveira não tem influência no Partido, e tudo o que se diz são ideias do não influente Presidente sombra… eu até que apostaria que a representante do PTS tinha a sua frente um roteiro discursivo, preparado por Onésimo Silveira!
       Eu mesmo já cheguei a pensar que a matriz política cabo-verdiana admitiria uma câmara de controlo parlamentar, mas está provado — basta seguir os trabalhos parlamentares — que a qualificação da Assembleia Nacional não está preparado para isso. A realidade determina a regra, o chamado espírito das leis.
       Como dizia Rabindranath Tagore, devemos estender os pés de acordo com o tamanho do nosso lençol. E há lençóis que são curtos, demasiado curtos para noites escuras e frias. Confesso que esperava uma tentativa de ressurreição política mais sustentada e transparente por parte de Onésimo Silveira.

| DAME TU OSCURA HOSTIA
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No te apiades de mí, luz cenicienta.
Dame tu oscura hostia, tu último pan...
Un sueño sin retorno y sin recuerdo.
Déjame hundirme en ese pozo negro,
más abajo del limo y de la larva...
Donde la vida es un fantasma verde
que nadie vio jamás.
---- León Felipe

Imagem: Maria Callas

terça-feira, 2 de março de 2010

| MARCO AURÉLIO: QUANDO A RAZÃO E A EXCELÊNCIA SE ENCONTRAM

Revia as últimas decisões do STF (Supremo Tribunal Federal do Brasil) e atentei na decisão proferida pelo Ministro (Juiz Conselheiro para os demais lusófonos — ou deverei dizer brasilófonos?) Marco Aurélio no Habeas Corpus impetrado pelo Governador do Distrito Federal em prisão preventiva. Na conclusão, reconheci o pensamento de Ihering, Bülow e a concepção de «educador social» do Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos da América. Compartilho-a com os leitores de Terra-Longe, pois é digna de ser lida.

«Eis os tempos novos vivenciados nesta sofrida República. As instituições funcionam atuando a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário. Se, de um lado, o período revela abandono a princípios, perda de parâmetros, inversão de valores, o dito pelo não dito, o certo pelo errado e vice-versa, de outro, nota-se que certas práticas — repudiadas, a mais não poder, pelos contribuintes, pela sociedade — não são mais escamoteadas, elas vêm à balha para ensejar a correção de rumos, expungida a impunidade. Então, o momento é alvissareiro.» E, na decisão, diz ainda o egrégio Ministro Marco Aurélio: «Indefiro a liminar. Outrora houve dias natalinos. Hoje avizinha-se a festa pagã do carnaval. Que não se repita a autofagia.»

Para se entender. E não é caso exclusivo do Brasil...

O Presidente Lula da Silva está a terminar o seu mandato, e antes terá de nomear o substituto do Ministro Eros Grau que chega ao limite de idade de 70 anos para estar no STF. Que tenha a felicidade de escolher um jurista com as qualidades do Ministro Marco Aurélio, pois assim estará a dar mais uma arma ao povo brasileiro. Se lograr terminar com os mandatos vitalícios no STF e esclarecer a questão das súmulas vinculantes — que são verdadeiras entorses à lógica democrática —, deixará, ainda que não fosse por mais, um legado considerável ao sistema judicial brasileiro. Fica, aqui, a decisão do Habeas Corpus na íntegra.

PS: O impetrante voltou a apresentar outro Habeas Corpus, e que será julgado na Quinta-feira…

Imagem: Marco Aurélio, Ministro do poder judiciário no STF

segunda-feira, 1 de março de 2010

| JUSTIÇA POÉTICA

O meu poeta contou-me ontem
que melhor é ser justo connosco mesmo
e ser polícia da nossa consciência
do que lavrar num só dia toda a filosofia do Mundo.
----- Virgílio Brandão 
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Imagem: S. Francisco e o Anjo, Orazio Gentileschi