sexta-feira, 21 de agosto de 2009

  • CONSERVACIÓN
¡Eres un bello cielo de otoño, claro y rosado!
Pero la tristeza sube en mí como el mar,
Y deja, al refluir, en mis labios melancólicos
el recuerdo punzante de su amargo limo.
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Tu mano se desliza en vano por mi pecho que desfallece;
lo que ella busca, amiga, es un lugar destrozado
por la garra y el diente feroz de la mujer
No busques más mi corazón; se lo han comido las bestias.
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Mi corazón es un palacio devastado por las turbas;
¡en el que se emborrachan, matan, se agarran de los cabellos!;
¡Flota un perfume en torno a tu pecho desnudo!...
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¡Oh belleza, duro látigo de las almas, tú lo quieres!
Con tus ojos de fuego brillantes como fiestas,
¡calcina estos despojos que han dejado las bestias!
---- Charles Baudelaire
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Imagens: Sent by a friend

É, não está longe da realidade... não está, não.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

  • COMPARTILHAR…

Um bom amigo enviou-me este vídeo por e-mail, e não resisto a compartilhá-lo também. A beleza deve ter asas para voar – dirá o meu poeta. I was blessed by it! Obrigado, AS. Que Deus e as sereias mindelenses possam recompensar-te.

  • A EXCEPÇÃO E A REGRA
Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso
mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.
Bertolt Brecht

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Imagem: Aung San Suu Kyi, Shepard Fairey

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

  • AMERICA IS NOT A DEMOCRACY, Noam Chomsky
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    — Este vídeo é uma bengala... para quem precisar.

  • CI
La criatura de isla paréceme, no sé por qué, una
criatura distinta. Más leve, más sutil,
más sensitiva.
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Si es flor, no la sujeta la raíz; si es pájaro, su cuerpo
deja un hueco en el viento; si es niño, juega
a veces con un petrel, con una nube...
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La criatura de isla trasciende siempre al mar que la
rodea y al que no la rodea.
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Va al mar, viene del mar y mares pequeñitos se
amansan en su pecho, duermen a su calor
como palomas.
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Los ríos de la isla son más ligeros que los otros ríos.
Las piedras de la isla parece que van a salir
volando...
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Ella es toda de aire y de agua fina. Un recuerdo de sal,
de horizontes perdidos, la traspasa en cada ola, y
una espuma de barco naufragado le ciñe la cintura,
le estremece la yema de las alas...
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Tierra firme llamaban los antiguos a todo lo que no
fuera isla. La isla es, pues, lo menos firme,
lo menos tierra de la Tierra.
---- Dulce Maria Loynaz del Castillo
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Imagem: Luis Vaz de Camões

  • O TEMPO E A VIDA
Há tempo para nascer, tempo para morrer… (Eclesiastes, III)

Este poema é dedicado ao João Branco que, segundo a arcana e eterna lei do ser, perdeu o umbigo da vida (Ah!, porque não existe uma pílula do esquecimento da dor, sem termos de esquecer as alegrias dos que nos construíram?):

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas são...
--- Mário Quintana

La Donna e Mobile, Luciano Pavarotti

A ELECTRA, em algumas coisas, começa a fazer escola em terras lusas... That´s life — diria o Sinatra.

  • LIVROS QUE MERECEM MAIS DO QUE SER LIDOS
1. Flavio Josejo, Las Guerras de los Judíos

2. Sylvia Plath, The Collected Poems

Enquanto faço este conselho, oiço L´elisir d´Amore («Una Furtiva Lágrima», de Donizetti, na voz de Luciano Pavarotti), e leio uns poemas de Sylvia Plath, Mário Quintana e Olavo Bilac e penso na efemeridade da existência (ai! pensar nisso em férias...). Deveríamos nascer velhos, e morrer novos – como entramos no mundo... Mas quem foi que disse que a vida é justa? Sim, quem foi?...
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Imagem: Cavalaria de Anibal em Canas

terça-feira, 18 de agosto de 2009

  • À UMA MULHER AMADA

Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo subtil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
e pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro... eu tremo.
--- Safo

Imagem: Bacchante with Grapes, Paul Merwart

  • QUANDO O BEM QUE SE FAZ COMPENSA O MAL CAUSADO

A imagem que os políticos têm de si mesmos é extra ordinária, e por vezes construída pelo mito e pela propaganda política. O povo, em regra, ou segue essa construção ou tem uma outra perspectiva dos mesmos. Assim aconteceu com Tito Vespasiano. Plínio, o Velho, ao escrever a sua História Natural elogia o general Romano de tal ordem que chega a ser impressionante. Diz-nos que (Plínio o Velho, História Natural, II, V, 18). «Um mortal ajudar outro mortal: isso é Deus; e este é o caminho para a glória eterna; nesta via seguiram os nossos eminentes romanos, nela segue agora, em passo celestial, com os seus filhos, o maior governante de todos os tempos, Vespasiano Augusto, vindo em auxílio de um mundo exausto».

Mas será que é assim mesmo? Tito Vespasiano, que viria a ser conhecido pelo cerco cruel que fez a Jerusalém, tendo, em 69 d.C, depois de aclamado imperador romano, deixado o cerco da cidade ao filho, Tito Vespasiano que, em 70 a.C., destrói Jerusalém, não deixando pedra sobre pedra do templo de Salomão – como Jesus Cristo previra: o templo, forrado a ouro, depois de incendiar-se o ouro derreteu e os legionários romanos levantaram pedra sobre pedra para retirar o ouro. É esta destruição de Jerusalém, e o grande exílio forçado dos judeus que se lhe seguiu que é, ainda hoje, a causa mais remota do conflito palestiniano. Flávio Josefo, na Histórias das Guerras Judaicas (de que existe edição espanhola: Las Guerras de los Judios, editora Clie, Barcelona), diz-nos que Tito Vespasiano chorou com a destruição causada com a destruição de Jerusalém.

Seria, a seu tempo, assentado entre os deuses – pela apotheose: inter divo relatus est. No Arco de Tito, no Fórum de Roma, encontramos as inscrições que provam a sua grandeza que Plínio o Velho previu e não viu de todo (Tito Vespasiano sucederia o pai no Imperium em 79 d.C., no mesmo ano que Plínio o Velho morre, vitima da erupção do Vesúvio que o surpreendeu na sua residência nas proximidades de Pompeia). A inscrição Senatvs Popvlvs Qve Romanvs Divo Tito Divi Vespasiani f(ili)Verspasiano Avgvsto, é uma expressão da sua grandeza como pater patriae pois representa o verdadeiro espírito de Roma, a bandeira das legiões: SPQR (Senatus Populus Que Romanus=O Senado e o Povo de Roma).

O mal feito ao povo judeu foi apagado pela história, pelo bem que acabou por ser esquecido pelo bem que fez a Res Publica – tomando emprestado uma expressão do Senado romano a propósito de Septimio Severo. A vitória em Jerusalém, ter enfrentado com proficiência algumas desgraças – como caso da erupção do Vesúvio – e ter sido o imperador do cimento e das obras públicas (como a inauguração do Coliseu) granjearam-lhe a eternidade como um bom governante. Mas o mal social, humano e cultural causado com a destruição de Jerusalém – e as suas consequências seculares – são expiáveis com uma boa governação?

Imagem: Pormenor do Arco de Tito no Forum em Roma

  • A TOAST

Nothing, this foam, virgin verse
Depicting the chalice alone:
Far off a band of Sirens drown
Many of them head first.

We sail, O my various
Friends, I already at the stern,
You at the lavish prow that churns
The lightning´s and the winters´ flood:

A sweet intoxication urges me
Despite pitching, tossing, fearlessly
To offer this toast while standing

Solitude, reef, and starry veil
To whatever´s worthy of knowing
The white anxiety of our sail.
---- Stephane Mallarmé

Imagem: A Arte e a Literatura, Bouguereau

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

  • A CELEBRAÇÃO DO PÉNIS – QUANDO AS DEUSAS RETORNAM
Nihil novi sub soli. Os japoneses são, dos povos mais livres no que à vida sexual diz respeito. A cidade de Komaki, nas proximidades de Tóquio, tem uma celebração chamada Honen Matsuri, celebrada a 15 de Março e que chamam de Dia do Pénis – mas que é um festival de fertilidade do mundo rural nipónico que celebra não somente a fertilidade da terra mas dos homens e das mulheres. O que tem uma importância crucial, sempre teve, na sociedade tradicional e patriarcal japonesa.

Wenceslau de Moraes conta que certo cidadão japonês propôs acção de divórcio contra 13 (treze) mulheres com quem se casara com o fundamento de que eram estéreis e de que não lhe davam um filho (então fundamento legal para o divórcio no Japão nos princípios do Século XX). O tribunal japonês, que não tinha aos recursos técnicos da modernidade, nomeadamente as perícias de sangue e/ou do ADN, deu razão ao homem em todos os trezes processos consecutivos, e divorciou-o: as mulheres eram todas estéreis… essa foi a realidade, a verdade do direito.

Mas, ao contrário do que os ocidentais pensam: que este festival é uma extravagância japonesa, ela tem origens nas raízes da Europa rural. Em Roma – uma sociedade baseada no princípio do pater familias – havia um festival análogo, dedicado à Deusa Flora e durante qual o imperador Antonino Eliogábalo, entusiasmado com o seu «marido» – o escravo Hierocles – fez-lhe uma fellatio (um broche, como diz o povo; e vox populi vox Dei est) em público, justificando o seu inusitado acto como uma forma de honrar a deusa Flora. Na cidade de Komaki, o mais próximo que vemos são jovens mulheres a saborear doces e gelados em forma de fálica. A lógica é simples: quando mais for honrada a deusa (Flora, para, v.g., os romanos) ou a natureza (segundo o animismo nipónico) maior é a colheita e mais descendência terão os devotos.

Com a crise agrícola que os países pobres enfrentam, e a depressão demográfica que os ricos (nomeadamente os europeus) enfrentam, não me admiraria nada se o culto de Flora, ainda que na sua forma animista, como no Japão, renascesse. Uma coisa é certa: o Japão não é conhecido por ter crises agrícolas ou qualquer depressão demográfica. Porque será? Como dizia Sancho Pança a D. Quixote, o cavaleiro da triste figura, «yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay».
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Imagem: Flora, Ticiano

  • HUMANA CONDITIO
A alegria de uma boa colheita, a esperança de um filho.
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Imagens: Festival da fertilidade nipónico.

sábado, 15 de agosto de 2009

  • MOMENT(O) ZEN
Receba as tuas visitas com a mesma atitude que tens quando estás só. E, quando estiveres só, mantenha a mesma atitude que tens quando recebes as tuas visitas.

Receive a guest with the same attitude you have when alone. When alone, maintain the same attitude you have in receiving guests.
----in Regras de Soyen Shaku
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Imagem: Céu, algures em África...

  • REALIDADE INSÓLITA
«Je suis athéiste. Mais je suis catholique» — afirma Maurice Barrés.

Parece um paradoxo, mas não é… ao nível do discurso e da praxis social, é uma dolorosa verdade.

Imagem: Abel e Cain, William Blake

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

  • A VISTA DE CLINTON A CABO VERDE E A BOA GOVERNAÇÃO

Chegou a Cabo Verde, como quem chega para um momento de descanso depois de uma longa caminhada e com poucas expectativas políticas pelo pouco tempo que iria estar no país — assim pesavam muitos (em particular os que, em terras lusas, tentaram desvalorizar a visita). Deixando de lado os resultados que daí possam advir, uma coisa resulta clara: José Maria Neves recebeu a maior massagem ao seu ego político que poderia esperar.

«O Presidente Obama e eu dizemos: sim, é possível a boa governação em África. Olhem para Cabo Verde» — disse Hillary Clinton, em Conferência de Imprensa conjunta com o Primeiro Ministro, José Maria Neves, na ilha do Sal. E José Maria Neves deve ter-se sentido no céu dos políticos ao ouvir Clinton assegurar: — «Em todos os países por onde passei havia aspectos positivos e outros negativos. Aqui, a lista dos positivos é maior do que a dos negativos. O que ouvi é música para os meus ouvidos», explicou. Para José Maria neves, foi sinfonia angélica… em particular porque a Secretária de Estado norte-americana criticou muitos países por causa da corrupção – como a Nigéria e o Quénia – ou os direitos humanos, como o Zimbabué. Mas deveria não só ter ouvido, mas visto...

José Maria Neves ganhou uma aliada de peso para o seu discurso da boa governação, e a oposição um problema considerável. Ou será que não, que isto pode ser mote bastante para a Comissão politica Regional do PAICV deixar Isaura Gomes e a CâmaraMunicipal de S. Vicente me paz? Não creio, mas enfim… politics. O que dirá Jorge Santos? José Sócrates, please!, mas please: fale com o José Maria Neves! Afinal, como dizes, os americanos é que sabem.

Imagem: Hillary Clinton na Nigéria


  • REVISÃO CONSTITUCIONAL: ERAM DOIS, MAS SÓ UM COMETEU ADULTÉRIO…
Sobre a discussão que grassa em Cabo Verde sobre a Revisão Constitucional, e pelo mais que esperado e previsível falhanço do processo (daí, como disse a muitos amigos, ter deixado de escrever sobre a matéria no Liberal on line) lembrei-me da arcana expressão latina, de autor desconhecido mas que terá sido usado a propósito da violação da Lucrécia (pelo menos por Santo Agostinho na Cidade de Deus) e da queda de Tarquínio o Soberbo que determinou a emergência da República Romana: «Mirable dictu; duo fuerunt, et adulterium unus admisit» (Ó maravilha: foram dois e só um cometeu adultério). Pois é, mesmo como diz uma música da terra profunda: «Nossa S´nhora d´Riola rogâ por nós». O povo bem que precisa.

E parece que eu não estava enganado quando previa que só depois da Convenção do MPD é que haveria revisão constitucional. E ao ouvir as explicações, erráticas e obscuras, compreendo as razões políticas e partidárias do falhanço desse processo. E por onde andam as actas da Comissão Eventual da Revisão da Constituição? – pergunto. É documento a ser tornado público, com a maior brevidade possível, pois só assim o povo saberá o que os deputados da Nação andaram a fazer todos meses para nada, e porque não se chegou a um consenso (os consensos são sempre soluções frágeis, e vivemos numa terra de consensos forçados).

Note-se que as matérias não são, ao que parece – as que vêm a público… – problemas de maior, como são os casos da Presidência do Conselho Superior da Magistratura Judicial ou da alteração da maioria para a aprovação de leis fiscais. São questões técnicas, de sistema jurídico-constitucional que, do ponto de vista dos técnicos é simples de serem resolvidos: (i) ou Conselho Superior da Magistratura Judicial (CSMJ) continua a ser presidido pelo Presidente do Supremo Tribunal (STJ) de Justiça (que deverá ser eleito pelos seus pares, e não ter nomeação política!), por inerência, ou, em alternativa, (ii) ser o CSMJ constituído por magistrados e cidadãos na mesma proporção (tendo o presidente do STJ lugar no mesmo), sendo o seu Presidente eleito, também e sempre, pelos respectivos Conselheiros e não pelo poder político. Não aceitar nenhuma destas soluções, que serão as que melhor se adequam a matriz política e jurídico-constituional pátrio, é ir contra o interesse nacional e dos direitos do povo cabo-verdiano.

No que concerne às normas fiscais… bem, como digo e escrevo há anos: tal é uma aberração política, pois não faz sentido que a maioria exigida para a sua aprovação de normas fiscais seja a qualificada. Pois tal, na verdade, faz com que o Governo fique constantemente refém da oposição, e consubstancia uma forma sub-reptícia de afrontar a separação de poderes que deve(ria) existir, em tese matriz, entre a Assembleia Nacional e o Governo. São problemas menores, ao nível da solução, pois outros existem mais complexos, mas nem por isso não passíveis de soluções igualmente simples, se se pensar no interesse nacional e não no(s) partido(s) e na(s) agenda(s) politica(s) determinada(s) por este(s). Tenho, eu e o povo cabo-verdiano, de concordar com Carlos Veiga: as pessoas e o Estado estão acima dos partidos; mas parece que, nesta questão da revisão da Constituição não é o que se passa na mente dos deputados da nação que agem, na verdade, como deputados dos partidos.

E como, ao contrário do que dizia Tucídides, não «desfrutámos de um regime político que não imita as leis dos nossos vizinhos; mais que imitadores de outros, nós, de facto, servimos de modelo para os outros» (Tucídides, El Discurso Fúnebre de Pericles, III), temos de ver a nossa matriz de ciência e conformar as nossas decisões fundamentais de acordo com ela e o interesse nacional. E se somos copiadores, devemos agir de acordo com a matriz copiada; inventar, e mal, não vale! É, será, duplamente penalizador não agir de acordo com ciência certa.
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Nota-se, an passant, que Tucídides fazia alusão ao decênviro (dez Tribunos do povo, magistrados encarregues de defender os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos – os primeiros da história, a nível institucional republicana) que, aquando da instauração da República, foram encarregues de fazer leis escritas para Roma num período de conturbação social que o desaparecimento do poder real causou. Alguns destes homens foram até a Grécia estudar o sistema político grego e as leis de Sólon que, a final, deram origem (depois de dois anos de estudo, nota-se) àquela que seria a norma fundamental da República Romana: a Lei das Dozes Tábuas. Esta é, certamente, a primeira Constituição republicana em sentido material (Benjamin Constant que me perdoe, mas esta realidade precede a Magna Charta de João sem Terra) e formal da história ocidental. Segundo Marco Aurélio, Demócrito dizia que «O mundo é apenas mudança; a vida apenas opinião» (Marco Aurélio, Pensamentos Para Mim Mesmo, IV.4). É caso para dizer: Nihil novi sub soli.

Não proceder-se à revisão da Constituição é uma traição à nação! Como Lucrécia que foi violada pelo príncipe de Roma, assim a nação cabo-verdiana e as suas esperanças legítimas são afrontadas pelos seus representantes na Assembleia Nacional. E é bom lembrar aos senhores deputados que foi a violação de Lucrécia que causou a queda do Rei de Roma, e deu lugar à República (para os distraídos e esquecidos da História, fica ao conselho de (re)visitarem, v.g., Tito Lívio e/ou Mommsen); assim como foram os abusos do poder, o autoritarismo e a arrogância política que levarem à queda do PAICV em 1991 a instauração da II República cabo-verdiana e, depois, à derrota do MPD, depois de este ter a história ao seu lado e os instrumentos jurídicos adequados para perpetuar-se no poder se tivesse tido ciência para tanto. A história é memória, e a memória ensina mais do que se pensa. Mas só aprende quem quer, e pode (há quem não tenha estrutura para tanto).

Em Outubro, depois da Convenção do MPD e o PAICV saber com o que contará para os próximos embates políticos, iremos ter, outra vez, a questão da Revisão Constitucional na agenda política. Os interesses do país dobram-se, mais uma vez mais, aos interesses dos partidos. Mas será um vira o disco e toca o mesmo, embaralhar e tornar a dar – muitas vezes mal, como diria o meu mestre Carlos. Mas, por vezes pergunto a mim mesmo: porque rever uma Constituição que não se respeita, nem se introduz normas para obrigar quem a desrespeita a respeitá-la?
------ Publicação originária: Liberal on line
  • Imagem: Esperança, Gustav Klimt

My love for thee shall aye endure
As now, most perfect and most pure;

It brooks no increase, no decline,
Since it's complete, and wholly thine.
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I cannot any cause discover,
Except my will, to be thy lover,
And boldly challenge any man
To name another, if he can.
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For sure, when anything we see
Of its own self sole cause to be,
That being, being of that thing,
Lives ever undiminishing
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But when we find its origin
Is other than the thing it's in,
Our losing that which made it be
Annihilates it instantly.
---- Abu Muhammad Ali Ibn Hazam
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Image: Aitutaki Lagoon at Sunrise, Cook Islands

  • LIVROS QUE MERECEM MAIS DO QUE SER LIDOS…
Las Guerras de los Judios, Flávio Josefo
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Imagem: Hygeia, Gustav Klimt,

  • VOZES DE ATENTAR...
Two Selections by Nelson Mandela

First, Nelson Mandela's statement at his trial where he was sentenced for organizing with the African National Congress (A CIA officer later bragged that the agency had tipped off the South African Intelligence Service). He spent the next 26 years in prison. His release, one demand of the intense international campaign against South African Apartheid, was won in 1990. The second statement here is
his speech given at his release. He later served as President of South Africa from 1994 to 1999.
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Imagem: Nelson Mandela

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

  • DIES IMPERII

Há dias em que acordo a meio da noite: queria abrir a janela, pensar que é tarde e acordo, abro a janela e vejo rebanhos descendo a enseada de uma colina… — diz-me o meu poeta.

Imagem: Tick Tock a Bit Longer, Luiz Royo

  • O PRAZER DO PRAZER DA PARTILHA

Depois de muito procurar, e por um inesperado golpe da Fortuna consegui adquirir uma moeda que ansiava: um denarius de prata do Imperador afro-romano Severo Alexandre, de 223/224 d.C. — o último Imperador da dinastia Severa. IMP SEV ALEX ANT AVG (diz a cara da moeda) e AEQVITAS AVG (na coroa). Um momento de prazer, esse de ter nas mãos uma moeda com 1776 anos e pensar nas pessoas que compraram e pagaram escravos, pão, azeite, vinho, o prazer meretriz e tantas outras coisas.

E compartilho isso contigo, leitor de Terra-Longe. E não é pela moeda ter mais de mil e setecentos anos, não: é por ser de Severo Alexandre Antonino, um imperador extraordinário e por aquilo que representa; para mim em particular, depois de ter dado como terminado o meu livro: Os Imperadores Africanos do Império Romano — A Multiculturalidade no Berço da Europa. Agora pergunto a mim mesmo: onde encontrarei um denarius de Clodius Albinus, Didius Julianus, Ophelius Macrinus e Helvius Pertinax (este, não sendo um africano, um imperador que admiro em particular)?

Mas a minha busca por um denarius de ouro de Septimius Severus Afri (de 193 d.C., 201 d.C. ou de 211 d.C. – esta da Aphoteose, Consecratio de Severo) continua. Se alguém puder me ajudar…

Imagem: Severo Alexandre Antonino, filho de Antonino Bassiano (Caracala) e neto de Septimio Severo Afri

  • O MEU POETA
Não aparento aquilo que sou; sou muito mais do que aquilo que aparento — diz-me o meu poeta.

Imagem: Zamia Cunaria Ovulate Strobilus, New York Botanical Garden, New York, USA

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

  • A GESTA
Essa gente brocarda
— que diz com o beijo o mesmo que com a espada
banhou-te de sonhos pardos.

O deserto colheste do morgadio — sabes.

Amanhã ouvirás o mesmo canto
e farás o que sempre fizeste:
Obrarás, cuninamente.

Imagem: Black Magic, René Magritte

  • VOZES DE ATENTAR
«É um direito de toda a pessoa, um previlégio da natureza, que cada um possa adorar de acordo com as suas convicções: a religião de um não prejudica nem ajuda o outro […]. Não é próprio da religião obrigar à religião», Tertuliano, Ad Scapulam, II.
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Imagem: Two Women - IV, De Kooning (1952)

  • IDOLOS DE PÉS DE BARRO

No outro dia lia sobre uma dama da sociedade que, orgulhosamente, dizia que nunca tinha lido um livro – o que é, ao que parece, uma coisa comum e motivo de orgulho nos tempos que correm. Mas lêem outras coisas, lá isso lêem…

E, a propósito disso, lembrei-me de Antonino Eliogábalo, o Sardanapalo romano (como diriam Dio e Camões), que nunca leu um livro – diz-se. Mas que leu bem os Lusíadas com Aquilia Severa, Júlia Paula, Zótico de Smirna e Hierocles, lá isso fez bem... em noites regadas de vinhos frutados, manjares com toque de rosa e tudo. As referências subliminares das pessoas são, verdadeiramente, extraordinárias.

Os novos ídolos, ao contrário da fama dos antigos (de Catão o Censor, Marcelo, Amílcar Barac, Nelson, Scipião Emiliano, Napoleão, Aníbal, Tertuliano ou Melquiades) ou da grandeza dos modernos (René Cassin, António Vieira, Aung San Suu Kyi, Andrey Shakarov, Damien de Molokai ou Madre Teresa da Calcutá) não têm as almas plenas de valores mas sim alimentadas de barro, caviar e champanhe. Num mundo assim, a mentira, o mal e a inpaciência (que é uma forma de insolência e de mal) parecem triunfar sobre o bem. Mas quero crer que é só aparente.

Bem, vou atentar nas minhas leiteiras de verão. Razones Para Actuar – Una Teoria del Libre Albedrio, John A. Searle (uma releitura que se tornou, neste momento, prioritária).

Imagem: A Morte de Sardanapalo, Delacroix

terça-feira, 11 de agosto de 2009


  • ART AND THE PEOPLE
Art,—'t is a glory, a delight;
I' the tempest it holds fire-flight;
It irradiates the deep blue sky.
Art, splendour infinite,
On the brow of the People doth sit,
As a star in God's heaven most high.

Art,—'t is a broad-flowered plain
Where Peace holds beloved reign;
'T is the passionate unison
Of music the city hath made
With the country, the man with the maid,
All sweet songs made perfect in one!

Art,—'t is Humanity's thought
Which shatters chains century-wrought!
Art,—t'is the conqureror sweet!
Unto Art, each world-river, each sea!
Slave-People, 't is Art makes free;
Free People, 't is Art makes great!

O Chivalrous France! without cease
Chant loudly thy hymn of peace, —
Chant, with eyes fixed on the sky!
Thy joyous voice and profound
Through the slumbering world doth resound.
O noble People, chant high!

True People, chant gladly the dawn!
At even raise song at morn!
After labour sweet singing should be.
Laugh for the century o'erthrown!
Sing love in a tender tone,
And loudlier chant liberty!

Chant Italy sacred and sweet;
Poor Poland, slain sons at her feet;
Naples, whose heart-blood outpours;
Hungary, the Russian's base vaunt!
O tyrants! the People doth chant
Even as the lion roars.
--- Victor Hugo

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

  • E?
E se África renegar, de forma definitiva, o modelo democrático ocidental? – pergunta-me o meu poeta.
— Tenho pensado nisso nos últimos tempos, e anotado o que há que anotar para o futuro, com o Admirável Mundo Novo... que pode ser vermelho ou não – volvo.

Imagem: Au-dessus du Monde, Vladimir Kush


Por Cabo Verde passará o outro Clinton...

domingo, 9 de agosto de 2009

  • EU E O MEU POETA
Ando a tentar comprar uma moeda do verdadeiro Optimus Princeps… um denarius do primeiro quartel do século III d.C.; coisa simples – diz o meu poeta. Alea jacta est! – clamo perante este Rubicão de prazer. Porque o digo? – perguntar-me-á. Síndrome de Thanos, nada mais; creia-me.

Imagem: Luis Royo

  • A MORTE COMO NECESSIDADE: BIÚS, RAÚL SOLNADO E KARL MARX
Pois é, o Biús morreu. No Mindelo. Deus!, que terra mater para se morrer! O Raul Solnado, a pessoa que mais me fez rir desde que cheguei a Portugal – e como adoro rir! –, também seguiu para a maior das aventuras. Para os braços de Hella, seria bom, pois é a melhor de todas as escolhas. Se não a abraçarmos, ela nos abraçará.
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A morte é uma coisa necessária, imposta pela natureza para nos lembrar, a nós, homens, o quão efémeros somos e quão vã é a nossa pretensa glória e a busca incessante de coisas que a traça e a ferrugem consomem. Por vezes pode ser bela, gloriosa, libertadora das nossas dores, dos nossos medos, das ingratidões acumuladas, dos sonhos impossíveis até para Deus. A morte faz uma coisa extraordinária e é uma magna lição que Marx e Engels acabaram por aprender: é a única coisa que nivela os homens, naturalmente desiguais, e demonstra a injustiça de uma sociedade sem classes: coloca uns na eternidade e outros na terra do esquecimento, sem metafísica.

Se da vida só conseguiremos levar o que os outros não podem nos tirar, não é menos verdade – pelo menos para mim – que viemos a este Mundo para o deixarmos um pouco melhor do que o encontramos. Um momento na nossa vida, um único momento, pode realizar essa missão, e por vezes, a maioria das vezes, não nos apercebemos disso. Como dizia Tucídides no discurso fúnebre de Péricles, o salvador e construtor de Atenas: «A sepultura dos grandes homens é a terra inteira: deles nos falam não somente um epitáfio sobre a sua tumba; também no estrangeiro persiste a sua memória, gravado não em monumento, mas sim, sem palavras, no espírito de cada homem» (Tucídides, El Discurso Fúnebre de Pericles, IX). E no espírito de cada homem fica essa consciência de finitude imposta e renovada, de eternidade ansiada, desejada, procurada e só recebida como um inexpiável toque de Midas.

Image: Dark Labyrinth (LXXVIII), Luis Royo

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

  • CONTENTMENT
Depois de três anos investigação, leituras e releituras, contraposições de fontes, ars combinatoria e depuração de ideias, e de trabalho nocturno, tinha um projecto a definhar; pelo que decidi consumir o meu tempo disponível nos últimos dois meses a terminá-lo. Missão cumprida – diz o meu poeta. Acho que deveria ir mais além, ser mais arrojado; pormenorizado. Mas aí teria mais um ano a consumir o meu tempo livre, e para isso há outras coisas a fazer. As notas extravagantes ficam para outra altura, para outro momento pois o Mundo pulsa e o deserto, o deserto não pára de crescer.

Os leitores de terra-longe terão notado a minha ausência, mas a causa era necessária. Eremitei em parte, e isso é bom para a alma, para a disciplina interior: não fazer o que se quer e quando se quer mas o que deve ser. Sinto, neste momento particular, aquilo que os anglo-saxónicos (ainda existem?) chamam de Contentment.

Imagem: Salvador Dali, O Nascimento de um Novo Mundo (1942)

quarta-feira, 1 de julho de 2009


O silêncio é a arma dos maus.

  • QUANDO O SOL MENTE
1. Acordei, e o relógio apontava 6:57 AM. Para compensar ontem, meditei um pouco: caí no pensamento de Ario, na sua ideia de que o Logos não deve ser entendido em sentido metafísco mas moral. É, verdadeiramente, espantosa – mas igualmente perigosa e tentadora – esta ideia do Logos como intermediário de Deus e o Universo. Não me admira que alguns vigias se tenham tornado pretorianos do verbo...
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2. Penso, então, em coisas mais terrenas. É verdade, não se pode obrigar um povo, uma instituição ou uma pessoa a ser feliz – tenho de concordar com Luiz XVI e o seu juízo sobre Turgot. O vício, depois de instalado é como a gangrena – ou se estirpa ou deixa-se o paciente morrer nos seus próprios pecados. «Quem dá pérolas a porcos, acaba, necessariamente, entre os indigentes ou entre os porcos a tentar recuperar as pérolas. Não és o Padre Damien, nem Lisboa é Molokai, ó VB…» – diz-me o meu poeta. Pois seja. Cada um que tome a sua cruz, e a carregue!

3. Afinal, a falência do processo de Revisão da Constituição deve-se ao MPD ou ao PAICV? Não pode haver duas verdades (ou podemos relativar, distinguindo a verdade objectiva da verdade subjectiva?) nesta matéria, pois as actas dizem a verdade e só a verdade. O MPD tarda em esclarecer o povo sobre as suas razões, mas isso terá uma dimensão de mero esclarecimento contraditório do discuro político. As actas, Senhores deputados, as actas… pois, como dizia o outro Virgílio, Solem quis dicere falsum audeat? Sim, «quem se atreverá a dizer que o Sol mente?» Quod non est in acta non est in mundo – lá diziam os antigos, não é?

Imagem: Annia Faustina, mulher do Imperador Marcus Aurelius Antoninus

terça-feira, 30 de junho de 2009

  • O CHOQUE TECNOLÓGICO DE JOSÉ SOCRATES: EXEMPLO PROPOSTO A OBAMA

Don Tapscott, professor universitário e especialista em novas tecnologias, escreveu um artigo interessante no Huffington Post e que vale a pena atentar. O artigo, chamado «Note to President Obama: Want to Fix the Schools? Look to Portugal!», eleva Portugal a um case study e, imagine-se só!, exemplo modelar para combater o insucesso escolar através das novas tecnologias. Não vivesse eu em Portugal, e pensaria que Don Tapscott falava de um outro país, mas sei que o que o académico americano viu foi a encenação para «americano ver» e não a realidade, se bem que bom seria que assim fosse.

O problema, e Don Tapscott parece estar atento a isso, é que a tecnologia não resolve todos os problemas de aprendizagem ou de falência dos modelos tradicionais de ensino há muito ultrapassados pela realidade social e novas exigências formativas; o problema é de se encontrar um novo paradigma de ensino/aprendizagem e de responsabilidade partilhada entre o docente – que deve ser cada vez mais um orientador – e o discente no papel de descobridor do conhecimento. Mais do que o choque tecnológico, o aumento da escolaridade mínima obrigatória – que também tem efeitos sociais perniciosos, mas não é disso que se trata agora – é um instrumento poderoso que contribui em muito para a se travar o insucesso escolar.

Outro problema de base, e esse é um factor considerável, é que o exemplo social – determinante prática do quantum do abandono escolar, que não se resolve com a mais tecnologia e meios materiais mas sim com políticas sociais de promoção do mérito, e neste aspecto o sistema escolar de ensino em Portugal está falho há muito tempo – e de perspectivas de um futuro real e sustentável para os alunos que devem, em termos de paradigma formativo, ser cada vez mais formandos e menos alunos e/ou discentes.

PS: Se tivesse sido convidado para ir a Cabo Verde pelo Primeiro Ministro José Maria Neves ou pela Ministra da Educação, Vera Duarte, agora era Cabo Verde a ser elevado a exemplo para os Estados Unidos da América; na verdade é, pois o Governo de José Maria Neves tem programa análogo à administração Lusa. Mas Don Tapscott não sabe, não tem o dever de saber…

Imagem: As amigas, Gustav Klint (1916-1917)

domingo, 28 de junho de 2009

The passions most men boast them of
Are like a desert's noontide haze:
I love thee with a constant love
Unwithering through all my days.
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This fondness I profess for thee
Is pure, and in my heart I bear
True love's inscription plain to see,
And all its tale is written there.
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Had any passion, thine beside,
At any time my soul possessed,
I would have torn my worthless hide
And plucked that alien from my breast.
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There is no other prize I seek:
Thy love is my desire sincere:
Only upon this theme I speak
To capture thy complacent ear.
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This if I win, the earth's expanse,
And all mankind, are but as dust,
Yea, the wide world's inhabitants
Are flies that crawl upon its crust.
---- Ibn Hazan

Poema de Abu Muhammad Ali Ibn Hazam dedicado a 'Ubaid Allah Ibn `Abd al-Rahman Ibn al-Mughira, neto do Califa Al-Nasir.
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Imagem: Alegoria de Escultura, Gustav Klint

  • A BLOGOSFERA CRIOULA E A MORTE DO DEPUTADO JOSÉ MARIA BARROS
Morreu o Deputado da nação José Maria Barros. O meu instinto, aquele que Tomás de Aquino me exorta a confiar, disse-me para silenciar-me, ver e escutar o quanto os deputados da nação são queridos e respeitados pelos escribas da terra. Os jornais nacionais fizeram, naturalmente, eco da funesta notícia, do empobrecimento da República pelo desaparecimento de um dos seus tribunos parlamentares, voz do povo que representava e obreiro do bem-estar nacional.

O que eu pensava aconteceu: os bloguistas cabo-verdianos passaram ao lado deste facto: morre um dos seus representantes, e o seu silêncio é global, ferenda, lapidar, ingrata… direi mesmo. E depois, depois quer-se ter voz política (os que o querem). Bem, se calhar eu é que estou errado e na política só contam os que estão vivos, os que estão do «nosso lado da barricada» e a dor do «adversário» não é a nossa. Mas não! A dor da família de um Deputado da nação é, também, a minha dor. As suas lágrimas são, também, as minhas – aqueles de razão de sangue e afinidade, eu de gratidão por representar o povo e fazer o que este não pode fazer.

Pelo trabalho desempenhado em prol dos interesses da nação, certamente com sacrifícios pessoais e familiares consideráveis, o Deputado José Maria Barros merecia maior atenção por quem anda atenta e/ou se diz atenta, por quem quer chamar à colação os desatentos pelas coisas da República. Até percebo que isso passe ao lado de blog´s lúdicos e análogos, mas não daqueles que são de natureza política, para-política, análogas ou de políticos ou candidatos a políticos. Isso, não! Não percebo, de todo. É impressão minha ou, na verdade, a função de Deputado da nação e a sua dimensão e importância deve ser promovida no seio da comunidade nacional – a começar por aqueles que querem ser uma voz lateral do povo? Dá que pensar!

José Maria Barros, Deputado da nação cabo-verdiana, este cidadão saúda o teu labor em prol da República! Tivesses tu nascido numa nação grata… Avé, José Maria Barros! Cumpriste o teu papel de homem bom numa sociedade republicana: deste o melhor que podias e eras capaz para o bem da República. Obrigado!

Imagem: The Ignorant Fairy, René Magritte

  • O MUNDO ENLOUQUECEU, OU ENLOUQUECEMOS O MUNDO?
O Real Madrid, o meu clube preferido em Espanha (com o sofrido e estoico Salamanca), depois de pagar 65 milhões euros ao Milão pelo brasileiro Kaká, decidiu contratrar o português Cristiano Ronaldo, por 94 milhões de euros ao Manchester United, (que passou a ser o meu clube preferido depois do Liverpool, com o endiabrado Ian Rush, ter dado 5-1 ao Benfica no antigo Estádio da Luz) e uma cláusula de rescisão de 1000 (mil) milhões de euros. Negócios assim são uma vergonha, uma ostensiva falta de pudor perante a miséria e a fome que grassa no Mundo.

E se gastássemos o dinheiro em pão, se víssemos que existem outras prioridades? É uma violência, uma violência incompreensível – mesmo para mim que sou um apaixonado pelo futebol. E, como dizia Barack Obama no seu discurso ao mundo islâmico no Egipto, violence is a dead end. Para lá caminhamos, sem remissão – mas com pecados. Poderíamos, de vez em quanto, ser polícias de nós mesmos, ascetas ou franciscanos em busca do melhor caminho para a alma.

O meu poeta, contou-me-me o seguinte:
«Lembro-me de, há alguns anos, zangado comigo mesmo (e para fazer uma pessoa momentaneamente feliz), ter cortado o cabelo para me lembrar que há coisas que não são verdadeiramente importantes – sermos tolerantes e capazes de prescindir do que nos é precioso é, também, um caminho. Por vezes, eu que sou benfiquista de primeira água, deixo de ver os jogos do meu clube para estar tranquilamente a meditar; o que me ajuda na luta diária de manter a minha alma paciente e tranquila. É uma questão de prioridades. E foi por uma questão de prioridades que não vi a final Campeonato do Mundo entre a França e o Brasil em 1998.

Estava em Paris, com um bilhete de futebol na carteira, da alma ansiosa para ir ver a final no Stade de France em Saint-Dennis, quando um amor de então me pediu para ficar com ela em casa – era Domingo, o seu dia de descanso e queria estar esse dia em casa, na minha companhia. Pareceu-me justo o seu pedido, e assim fiz. Não vi a final do Campeonato do Mundo… mas vi uma mulher feliz; e não há nada de mais precioso nesta vida que ver uma pessoa amada feliz. Nunca ficou a saber que eu tinha um bilhete para a final, pois se soubesse teria insistido para eu ir ver o jogo. As mulheres são assim, especialmente quando amam alguém. E se alguém é capaz de fazer um sacrifício por nós, porque não fazer o mesmo? Porque não pensar que a felicidade do outro é tão importante como (senão mais que) a nossa, que as pessoas – em particular as que nos amam – estão primeiro?

Sei, sei que não é fácil. Sei que é mais fácil dizer do que fazer, mas é possível. Pode começar por prescindir de uma coisa que gosta imenso, oferencendo-a a quem dela necessite, ou simplesmente agarrando um Omega, um Rolex ou um isqueiro Dupont de ouro e lança-o ao mar ou ao rio; pode convidar um mendingo para almoçar no melhor restaurante que puder pagar – dando-lhe o dinheiro para pagar a conta – e verá que se sentirá menos vaidoso e esse homem recuperará parte da sua auto-estima; entre num restaurante com um amigo, veja-o comer e beber o que quiser, acompanhe-o na bebida, mas não coma (fará bem à sua auto-disciplina) e pague a conta. Agarre a sua melhor camisa, a quela que gostar mais, lava-o, mande engomá-la e oferece-o a alguém que precise dela, de preferência alguém que possa ver a usá-la. Pode começar assim, e, um dia, se for suficientemente louco para ver os outros felizes, agarre em todo o seu dinheiro e dê-o a um desconhecido em necessidade.»

Ouvi o meu poeta, e disse-lhe o que te digo agora: o trágico disto tudo é que, fazendo de Advogado do Diabo, penso que o que o Real Madrid fez foi isso mesmo: agarrou numa fortuna e deu ao Milan e ao Manchester (paradoxalmente clubes com donos milionários), para fazer feliz os seus adeptos. É, ou o Mundo ficou louco, ou o enlouquecemos – diz o meu poeta. Ou então perdemos a noção do que é sermos humanos; como costumo dizer: temos homem mas não temos humanidade. O meu Mestre diz tanto sobre isso, mas não é escutado.

PS: Deverás estar a pensar (sei, Joshua, que o farás) porque coloquei uma foto do Rasputin aí, não é? Pois é… a história e o cérebro servem para alguma coisa.

Imagem: Grigory Rasputin, nas vésperas da Revolução (1916)

sábado, 27 de junho de 2009

  • LA LUZ DEL CINE
Ayer, con la luna y el silencio colgaba
una gran cesta de paja repleta de amor y rosas
en frívola serenidad, calles oscuras.

Todo lo que yo quería era mirarte, amarte
por la tarde campesina y de eternidad construir
herramientas de hombres, nosotros, mañanas
y días sin hambre de ti.

Hoy, sólo… soy el deseo y la imposibilidad animal
como las rosas, letargo invernal sin amor,
una película antes de haber luz y sueños como tú.
--- Virgílio Brandão

Imagem: The Wedding of Saint George and the Princess Sabra, Dante Gabriel Rossetti

  • IN DIVUS RELATUS EST, MICHAEL JACKSON
Ontem de manhã falava com uma amiga a viver em Los Angeles e, sabendo que está a terminar um trabalho discográfico produzido por Quincy Jones, naturalmente acabamos por falar de Quincy Jones (que produziu, v.g., Off The Wall e Thriller) e Michael Jackson e da revolução que fizeram na música moderna e do quanto incompreendido e injustiçado era o homem-menino. Mal sabíamos nós que horas depois teríamos a funesta notícia de que Michael Jackson encentaria a maior aventura, que o seu génio já não nos tocaria de novo com coisas novas e inovadoras, que não mais nos colocaria nas costas do espanto; como eu esperava. Humana conditio, injustiça da natureza, pois o génio deveria ser preservado, alimentado pelo tempo e pela vida.

Há anos que tenho para mim que fomos plantados neste Mundo para o deixarmos um pouco melhor do que o encontramos, mas nem sempre conseguimos. Michael Jackson conseguiu, com o seu génio e generosidade, tornar a vida e o Mundo um lugar melhor, mais belo do que o encontrou. A história se encarregará de desmascar as mentiras que ao longo dos anos foi alvo, até porque os seus inimigos morreram com ele. O seu funnus será, antevejo, uma espécie de assentamento nos lugares celestiais, e com os povos do Mundo a gritarem nos seus corações pulsantes de saudade próxima: in Divus relatus est, Michael Jackson!

  • MOMENTOS DA HISTÓRIA
O Presidente Richard Nixon e o Secretário Geral do Partido Comunista da URSS, Leonid Brezhnev, assinam o Tratado SALT I em Moscovo (1972). O mundo ficava, então, mais seguro.

  • CIDADE VELHA – ANTES DO SER JÁ ERA E É MAIS
No outro dia, realizou-se em Portugal um concurso – análogo ao que chegou à conclusão que Oliveira Salazar é o português mais impostante da história – sobre as Sete Maravilhas do Portugal colonial e que a Cidade Velha foi eleita uma das ditas maravilhas. Fiquei, confesso, estupefacto. Não somente pelo facto de descortinar um incofessando saudosismo colonialista no dito concurso, mas porque não se pode chamar de “maravilha” a um sítio usado para o crime contra a humanidade que foi e continua a ser o tráfico de seres humanos. Mesmo no plano estético, verdade seja dita: havia lugares bem mais belos e interessantes que a Cidade Velha para serem, com razão, consideradas maravilhas pois de razão estética e não de memória se deveria tratar.

Agora, a questão do reconhecimento pela UNESCO da Cidade Velha como Património Mundial é algo de substancialmente diferente: é um reconhecimento tardio, mas de saudar por todos os cabo-verdianos que nela têm o berço da sua nacionalidade, mas também pelos afro-brasileiros e povos africanos da origem dos negros raptados e hediodamente escravizads e que têm a sua história umbilicalmente ligada à Cidade Velha da Ribeira Grande de Santiago de Cabo Verde.

O que a UNESCO fez foi nada mais do que reconhecer o que já tinha feito com Goré: reconhecer o valor imaterial da memória, mais do que o património edificado pelo colonialista – pois os lugares de esclavagismo, além da sua dureza e aspereza estétiticas, são lugares hediondos, anátemas e provas iure et de iure do maior genocídio e memoricído da história da humanidade: o colonialismo e a escravidão forçada e criminosa a ela associada. Neste aspecto a Cidade Velha é mais, muito mais do que aquilo que a UNESCO veio reconhecer: Património Mundial. Este é pouco, pois a Cidade Velha é mais, muito mais do um espaço patrimonial a ser preservado, é um espaço de geomemória a ser preserva e promovida, tendo sempre presente um discurso de resiliência: nunca mais! Neste aspecto, a memória da Cidade Velha e Goré é património-exemplo da humanidade, em particular das vítimas da maldade humana que souberam vencer o mal e contruir uma nação. Resta-nos libertar-nos do colonialismo mental e falta de ambição de sermos cada vez melhor do que somos, como pessoas e como nação; e isso é coisa que nada nem ninguém pode fazer nada por nós.

Imagens: Cidade Velha