sexta-feira, 7 de novembro de 2008

  • A BOCA DE MANUELA FERREIRA LEITE, O SILÊNCIO DO ESTADO DE CABO VERDE E OUTRAS VOZES

Manuela Ferreira Leite fez uma afirmação que todos reputam por xenófoba, e se calhar até que, objectivamente, poderá ser considerada como tal – latíssimo sensu e com algum esforço hermenêutico, do meu ponto de vista. Mas queria a líder do PSD com isso agravar os imigrantes residentes em Portugal? Não creio.

Note-se que esta afirmação – levado para a esfera da xenofobia – tem um substrato bem mais profundo e que é a política portuguesa e europeia de imigração que vê nos países d emigração uma «reserva de mão-de-obra» para satisfazer as suas necessidades e pouco mais. E ainda falam em política social de imigração… pois é…, por isso é que a União Europeia passou a questão da imigração do pilar social para o da segurança – PESC (Política Europeia de Segurança Comum) não é?

Cada um vê o que pode, é capaz ou quer ver, sem dúvida. Por isso há quem tenha tornado essa afirmação num facto político de uma esfera estranha às razões que terão movido Manuela Ferreira Leite – aproveitando as associações de imigrantes como pontas de lança do repúdio da afirmação; pois claro. Teria ficado admirado se assim não fosse.

O que me admirou foi outra coisa. O Estado de Cabo Verde não ter feito chegar – através do Ministério dos Negócios estrangeiros ou do Embaixador de Cabo Verde em Lisboa – uma nota de protesto junto do Governo português e do Partido Social Democrata. A comunidade cabo-verdiana em Lisboa agradeceria e a nação também – pois não podemos, nem devemos, como povo, nação e Estado, ser vistos como apêndice económico e social de ninguém.

Estas omissões e silêncios não são admissíveis por parte de um Estado que cura do bem-estar dos seus cidadãos. Há que ver as coisas, definitivamente, outside the box.

Deixei passar a afirmação, pois penso ser mais uma questão de foro político da ordem dos Estados dos que uma questão da competência da cidadania e, sinceramente, esperava um pronunciamento do Governo cabo-verdiano. Mas não, o silêncio habitual imperou.

Não raras vezes sou visto por muita gente como um africanista – as pessoas pensam em «racista», na verdade… – por defender os interesses das comunidades imigradas de um ponto de vista não coincidente com o politicamente correcto e/ou não alinhado com os interesses partidários ou lobbies que giram em torno das associações e as estrangulam do ponto de vista da intervenção cívica.

Tem os seus custos, mas que importa isso? No que diz respeito aos princípios não transijo nem nunca transigirei – nunca e seja em que plano for; e não me importam os custos desta minha forma de ser e de ver a vida. Como diz o Engenheiro

«Queriam-me [...], fútil, quotidiano e tributável?

Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!»

É, Manuela Ferreira Leite ou teve um lapsus linguae ou então estamos – o que me parece mais provável – um acto falhado. E essas coisas devem ser entendidas como e pelo que são. A xenofobia não é uma arma, não. E aqueles que tanto defendem os imigrantes e os estrangeiros em Portugal nunca estão onde devem… pergunto, por exemplo, onde andavam aquando do julgamento dos skin heads que foram julgados por racismo e xenofobia (um desses cidadãos, inclusive, já fora condenado por ter participado na morte do do cabo-verdiano Alcino Monteiro).

Sim, estavam onde? Lembro que foi no consulado de José Leitão, o primeiro Alto Comissário para a Imigração e as Minorias Étnicas (hoje ACIDI) que as às associações foi consagrado o direito processual de se constituírem Assistentes nos processos de discriminação racial e xenofobia. Esse direito nunca foi usado!

E não me digam que foi por falta de meios, pois poderiam pedir a nomeação de um Advogado – além de estarem isentos do pagamento da taxa de justiça; isto é, não é uma questão de meios mas de demissão do exercício desse direito. As razões? Não sei, não sei… o que sei é que fosse política, como neste caso da afirmação da Manuela Ferreira Leite, ouviria daqui d´El Rey.

  • Imagem: Minotauro, Luís Royo

3 comentários:

Redy Wilson Lima disse...

Há uns meses quando os cabo-verdianos sofreram xenofobia em Itália ouviste algum representante estatal a dizer alguma coisa? São estes os nossos políticos. Uns covardes que pensam apenas no próprio umbigo.

Nita disse...

Bravo! Caro Virgílio.

A tua opinião sobre os ditos de Manuela Ferreira Leite é mais que concisa e de direito.
Lamentavelmente, as vozes dos representantes do Povo Caboverdeano não se fizeram ouvir, mais uma vez, como muitas outras e, principalmente no que respeita à Comunidade Caboverdeana Emigrada.
A Xenofobia alarga na Europa e, posso te afirmar que já não é tão subtil e camuflada como há anos atrás se processava. Ultimamente e, dia a dia, a Xenofobia em muitos países na Europa e no Mundo vai tomando uma forma mais cristalizada e descarada.
É preciso unirmos as nossas vozes e vontades para contrariar e rebater ditos e comprtamentos xenófobos.
A UNIÃO é que faz a FORÇA.
Dia bom, Anita Faria

Virgílio Brandão disse...

Redy, não precisas de ser tão duro... Mas que deveriam usar os meios que têm, é verdade.

Dias melhores virão.

Anita,
se os nossos governantes fossem mais assertivos e interessados veriam o que é óbvio... mas não são.

Dia bom