segunda-feira, 10 de novembro de 2008

  • A VERDADE, A MENTIRA E A TRANSVERDADE ©
Não faltarão pessoas que acham que a mentira faz parte da vida e que exercitá-la com ciência é uma forma de mostrar que são mais espertas que as demais. Erro crasso, pois o que demonstram é uma outra coisa: que são pessoas com uma dimensão ética falha de sentido humano.

Mentir é roubar à verdade e ao próximo. Sempre que alguém mente rouba a verdade a quem é devida e, nessa perspectiva, comete uma injustiça. Do ponto de vista do meu Mestre Jesus Cristo mentir é uma forma radical de mal (Evangelho de João, VIII.44) pois, como diz, quem mente tem como pai o Diabo que é mentiroso desde o princípio (que muito confundem com o diálogo de Lúcifer, transmutado em serpente, com Eva no Jardim do Éden – mas isso é assunto para outra altura).

Isto é, mentir representa não somente o mal radical e inestirpável que jaz no homem (que, segundo Kant em «A Religião nos Limites da Simples Razão», constituiu uma propensão inestirpável do homem) e que se revela na acção injusta. Mesmo Jesus Cristo, que afirmou em dado momento ser «A verdade» sentiu esse mal radical quando foi traído, julgado e crucificado.

O paradoxo aparente resulta do facto de que quando Poncius Pilatos pergunta-lhe quid est veritas (o que é a verdade?) se tenha remetido ao silêncio. Por que não disse «Eu Sou a Verdade», como disse antes? Por não serem ontos que se confundam?... A realidade é que as razões de Jesus Cristo estavam para além das razões subjectivas e da curiosidade de Pilatos – e, sabia, a verdade, naquela circunstância, o libertaria. A mentira, aparentemente, vencia, triunfava sobre a verdade, o bem e a justiça.

A particularidade desta situação é que os saduceus e os fariseus tiveram de torcer a verdade e de comprar a vontade popular para a qual, segundo a lógica do Comício romano, Pilatos remeteu a decisão da liberdade de Jesus ao povo transmutado em assembleia de cidadãos na sua mente. Convencido, creio, de que escolheriam o bem objectivo: a bondade de Jesus em oposição à do mal homicida de Barrabás.

Vencido, não quis tomar parte na decisão popular e lavou as mãos – o que hoje chamaríamos de um voto de vencido. A realidade aparente – ou a verdade, na lógica judiciária – não era correspondente com a real; sujeitou-se à ficção de uma decisão jurisdicional e política, à lógica do interesse e que sabia ser injusta.

A sua alma terá desmaiado, certamente, e teve de lavá-la, limpá-la… como se tivesse sido violada pelo mal que compartilhava. Mas a verdade roubada nunca é passível de reposição, como, certamente, saberia a vida toda.

Hoje, muitos acham que mentir é uma espécie de virtude dos «chicos espertos» e algo «natural» nalgumas profissões. Assim, é comum achar-se que os políticos «são todos uns mentirosos» (o que não verdade de todo) e que se não fossem assim não chegariam ao poder. De alguma forma legitimam uma ilegitimável injustiça com este juízo, além de fazerem a apologia da asserção de Joseph Goebbels (chefe da propaganda nazi do nacional socialismo alemão e pai do moderno marketing político) que afirma: «Mente. Mente. Mente. Até que um dia essa mentira se torne verdade».

É uma verdade aparente que, inclusive, pode até assumir essa forma. Mas será sempre uma mentira transvestida de verdade – uma transverdade. A verdade é uma virtude – a mentira o seu contrário. Há quem minta, afirme um dado facto de tal forma que acaba por interiorizar essa mesma mentira – acaba por se confundir com ela – e faça de tudo para a sustentar.

Mas, então que fazer com tais situações? Sendo uma virtude, pode ser apreendida – mas será que, como Platão pergunta e se debruça no diálogo «Protágoras» – poderá ser ensinada? Na perspectiva das patologias pessoais – de foro clínico – não me parece; mas já uma consciencialização para uma ética da verdade é e será possível de ser apreendida.

Uma coisa é certa: sempre que um povo elege um representante político com base na mentira prévia (directa ou mediata) do mesmo, tal eleição é de ter-se – de uma perspectiva moral e jurídica – como inválida, por vício de erro sobre as qualidades da pessoa que lhe sonegou a verdade.

Poderão dizer-me que os candidatos a cargos políticos não mentem, somente omitem a verdade. Dá, para mim, no mesmo; essa omissão não é pura se for sobre factos relevantes em termos políticos, pois então não se está perante uma simples omissão de ordem particular mas em face de uma acção por omissão que condiciona a decisão do povo. Omissão de toda a verdade é, objectivamente, mentir – pois nega o conhecimento da realidade a quem é devido o seu conhecimento.

Nesta perspectiva os debates sobre o carácter dos candidatos no sistema político norte-americano é um debate sobre a ética na política e de uma ética da verdade necessária dos políticos. A questão em si – que não raras vezes assume foros de caricatura –, parece-me, ter razão de ser.

Existem outras perspectivas desta questão – como sejam as sociais, conjugais ou jurisdicionais. Neste plano, por exemplo, diz-se que «os bons Advogados devem mentir» – mas é exactamente o contrário.

O Advogado é defensor da Verdade – agora, resta(rá) saber é se é a verdade jurisdicional ou se é a verdade da realidade. Ademais, neste plano, nunca vi um Advogado a mentir em juízo – o que diz nunca é em seu nome próprio, é sempre em representação do seu mandante, logo, quem diz uma mentira (se tal for dita) não é o mandatário mas sim o mandante.
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O que quer dizer que o Advogado nunca mente, sendo certo que o seu constituinte tem o direito subjectivo de não dizer a verdade – isto é, o direito de mentir (note-se bem: a não advertência de um arguido deste direito subjectivo inquina de nulidade todo um julgamento).

E se o Advogado mentir, fá-lo em duas circunstâncias de excepção – por dever ou por negação do dever, isto é: (a) ou na situação em que mentir é um imperativo categórico – como nos ensina Kant em «Sobre Um Pressuposto Direito a Mentir Por Amor à Humanidade» – ou então fá-lo (b) com consciência de prejudicar outrem. Mas aí, neste caso, não é o Advogado a mentir, é o transadvogado que nega a virtude que é servida por todos os agentes da Justiça: a verdade objectiva que encarna a ideia de Justiça.

No fundo, mentir no foro é uma acção de negação da natureza da função – o mesmo se diga dos políticos que mentem ao povo; pois renegam a dimensão e a natureza do serviço público que lhes é cometido pelo povo. São, assim, transpolíticos.
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  • Imagem: Kaiser Friedrich I

2 comentários:

Ariane Morais-Abreu disse...

«Mente. Mente. Mente. Até que um dia essa mentira se torne verdade» acho que esta afirmaçao do Goebbels reproduz a perfeiçao a mecanica religiosa, em particular as jovens monoteistas que se baseam sobre mentiras, muitas mentiras repetidas ao longo dos seculos. Nao serve a historia (que contaram os disciplos) de Jesus para tal demonstraçao porque onde esta a prova que tudo isso é verdade, que Deus e a santa trindade existem?! A defesa da verdade ganhara muito quando os espiritos se emanciparam das mentiras, inverdades ou transverdades que pregam a existência dos homens em todas as partes do mundo e no nosso intimo interior. Tera mais legitimidade e força para condenar a mentira se de facto as religioes (quase todas) amavam verdadeiramente a humanidade que fustiga, culpabiliza, oprima, nega. Os ensinos nao valem quando o modelo mente. Kant presentiu e sabia que a mentira é uma necessidade para os homens afugentar e domesticar os medos. Herdamos esta pesada realidade mas podemos hoje escolher a razao.

Virgílio Brandão disse...

A razão esclarecida e objectiva? - sim.

O pior, Ariane, é que a maldade tomou conta do Mundo de tal forma que hoje se torna dificil discernir com a razão e, simultaneamente, com o bem.

A religião até que é um bem, quando não escraviza a vontade. Os males do mundo não passam por aí, não; são mais profundas as razões.

Dia bom