domingo, 9 de novembro de 2008

  • OS EQUIVOCOS DA VERDADE

Há alguns anos havia em Portugal um modismo linguístico em que as pessoas, por tudo e por nada, perguntavam – «qual é a tua, ó meu?». Coisas próprias da terra... Acontecem ciclicamente este tipo de fenómenos sociais.

Um jovem crioulo chegou a Lisboa nessa época, cheio de sonhos e espantado pelo novo mundo que se lhe apresentava. A ilha saudosa era o seu lugar extraordinário e a terra nova uma realidade estranha para si, mas depressa se ambientou. Conheceu duas mandronguinhas; belas, encantadoras e atrevidas constituíam novidades absolutas para ele. Ficou perdido de amores por elas – era mesmo um mundo novo... – e não conseguia decidir-se qual era a mais bela ou interessante. Não se decidiu.

Ficou durante uma temporada a namoriscar em segredo com uma e com outra. Um dia, na véspera de viajar para a cidade onde iria residir e que ficava uns bons quilómetros fora de Lisboa, estava a jogar às cartas com as duas amigas e a verdade realizou-se.

Sentados na cama de uma delas, o criolinho estava feliz. De repente uma delas, impetuosa e sentindo as saudades antecipadas, abraçou-o e ele fez o mesmo, sob o olhar furioso mas de acção contida da outra.

Passado um pouco, esta outra não resistiu aos instintos e, também, abraçou-o carinhosamente. A primeira das meninas, com sangue quente e visceral ciúme, deu-lhe um empurrão e disse-lhe:

– Qual é a tua, ó meu!?

O criolinho, desconhecendo essa prática linguística do país, respondeu com toda a sinceridade de alma e encolhendo os ombros, rendido à realidade:

– As duas!...

Desataram-se todos a rir, alegres com o espírito do criolinho e continuaram o jogo; sem mais. Só algum tempo depois é que o criolinho teve consciência do que acontecera e elas – quando, alguns anos depois, confessaram uma à outra as suas façanhas com o pretinho – descobriram que a verdade é uma coisa terrível.

  • Imagem: Olaudah Equiano

6 comentários:

Jonas disse...

In your dreams, dude!!!

Virgílio Brandão disse...

Oh, Jonas!

Mas as «estórias» têm lá sonhos?...

Por onde andava? Ainda no ventre do monstro marinho, com o saco de cinzas na cabeça ou às portas de Ninive?

Dia bom

Jonas disse...

Parabéns. Finalmente alguém percebeu que me chamo Jonas por causa do gajo da baleia. A grande maioria assume que a minha mãe tinha um fraco pelo Savimbi.
Quanto ao resto: você percebeu até bem demais o que eu disse.
Resto de dia bom.

João Branco disse...

Virgilio, o meu paizão, José Mário Branco, figura fundamental da música portuguesa, tem uma música, surgida nessa época, e que foi um dos seus maiores sucessos de toda a carreira. Título: «qual é a tua, ó meu»!!!

Investiga e ouve, pfv!

Abraço

Virgílio Brandão disse...

João, não sabia que era hijo do José Mário Branco.

È claro que conheço a música (não a escuto há anos...) e vor revistá-la. E o teu pai..., concordo contigo: é uma das figuras incotornáveis da música portuguesa.

Abraço fraterno

Virgílio Brandão disse...

Jonas, o profeta teimoso não sou eu; sou mais poeta, mais candidato a poeta...

Olhe, tenho a teoria de que o Jonas - o outro, é claro - era careca. Eh, eh...

Dia bom